VIAGENS - GIBRALTAR

" - O Marrocos tem boas ligações com a Europa "
de Theodoro da Silva Junior <theojr@terra.com.br>
o
data 23/02/2008 22:13
assunto BTL.SUEZ - LEMBRANÇAS - Estreito de Gibraltar

- EIS AÍ DUAS FOTOS:

ESTREITO DE GIBRALTAR:

CAROS AMIGOS
Encontrei esta bonita reportagem, do ponto Histórico/Geográfico, tão importante, também, para os "Faraós" do BTL.SUEZ que foram cumprir a Missão de Paz (UNEF)
no Oriente Médio e que viajaram de Navio. Certamente ninguém dos "Faraos" que, um certo dia, passaram por ali esquecerá daquele momento, e curtindo a reportagem hão de relembrar-se e sentirem aquela nostalgia. Tomara que vocês gostem dessa
reportagem.
A rocha vigilante O Rochedo de Gibraltar vigia, solene, a única saída do Mar Mediterrâneo para o Atlântico. No passado, esta era uma das Colunas de Hércules.
AS PORTAS DO MEDITERRÂNEO
O estreito que delimitava o fim do mundo antigo hoje é a entrada para dois continentes unidos pelo mar.
Certo dia, o Mediterrâneo secou. Foi há 6,5 milhões de anos. Na dança tectônica dos continentes, a África encostou na Europa e selou o que hoje é o Estreito de Gibraltar. Sem o Atlântico nutrindo o Mediterrâneo, a água evaporou. África e Europa, por 1 milhão de anos, estiveram unidas por um extenso vale. A retirada de tanta água causou grandes movimentos na crosta terrestre. Surgiram terremotos, fendas, vulcões. Num desses abalos, a estreita faixa de terra que conectava o extremo oeste dos dois continentes ruiu. E o Atlântico pôde, mais uma vez, jorrar sobre o Mar Mediterrâneo. As águas caíram sobre o vale a uma altura de 3 mil metros numa força tal que, em 100 anos, o Mediterrâneo estava cheio. Era de volta um mar.
Se não fosse pelo Estreito de Gibraltar, o Mediterrâneo não existiria. É por uma passagem de apenas 13 quilômetros de largura no seu ponto mais estreito que o Atlântico vaza todos os dias sobre o mar, colonizando-o com suas águas e espécies marinhas. Por causa do clima ensolarado, o Mediterrâneo evapora com muita facilidade. Cerca de 4 trilhões de metros cúbicos de água por ano tornam-se vapor. Caso o Estreito de Gibraltar fosse represado, o Mediterrâneo secaria em 200 anos, mesmo com o Nilo e outros rios fluindo em sua direção.
Estranhos no ninho Ceuta (acima) é espanhola, mas fica no
Marrocos e tem muçulmanos em suas ruas. Gibraltar (abaixo) é inglesa, mas fica encravada
na Espanha.
As portas do medo. O fato de ter uma única saída natural para o oceano (a outra é o Canal de Suez, no Egito, construído em
1869) fez do Mediterrâneo um mar especial, voltado para si mesmo durante milênios. Uma vez fecundado pelo Atlântico, o útero mediterrânico levaria 5 mil anos para gestar sua cultura e as mais poderosas civilizações da Antigüidade sem que alguém sequer ousasse debruçar-se sobre o estreito. Gibraltar - cuja entrada era vigiada pelas Colunas de Hércules - era o portão proibido cercado de medos que levava ao fatal desconhecido. Há cerca de 3 mil anos, as colunas foram atravessadas pela primeira vez. A cultura mediterrânica começava a ser parida.
Foram os fenícios, exímios navegadores, os primeiros a vencer o estreito. Ávidos por abrir novas rotas marítimas, ganharam o Atlântico, fundaram colônias no estreito e algumas até na costa oceânica, como Gades (hoje Cádiz, na Espanha). Na mão dos fenícios, as Colunas de Hércules mergulharam na mitologia. Hércules, para eles, era o deus Melqart. Nomear os dois montes que marcavam o fim do Mediterrâneo em seu nome era fincar o desejo de proteção para vencer o mundo do outro lado. Ao mesmo tempo, cercar as colunas de medo era também uma forma de obter o controle do comércio de minérios com as terras além do estreito - e deixar a concorrência do lado de dentro.
Dos árabes e do mundo A teia de ruelas de Tânger não deixa dúvidas: esta é
uma cidade árabe. Mas Tânger já foi uma das metrópoles mais cosmopolitas do Mediterrâneo. Muitos
europeus ainda vivem aqui.
Os gregos perpetuaram o medo dos fenícios e carregaram sua mitologia de referências ao Estreito de Gibraltar. Atravessando as Colunas chegava-se a Atlântida, ao Jardim das Hespérides, a Oceanos - o grande rio que circundava o mundo. O próprio Hércules teria realizado vários de seus 12 trabalhos nas imediações do estreito. E, no meio do caminho, teria aberto a terra com as mãos e fixado as colunas para marcar a última fronteira do mundo conhecido. As Colunas de Hércules, que marcam a entrada do estreito, estão separadas por 23 quilômetros de água. São dois montes com algumas centenas de metros de altura, facilmente identificáveis na complicada geografia da região. O que para os gregos era a coluna sul hoje é o Monte Hacho, que fica em Ceuta, enclave espanhol no Marrocos. A coluna norte é o Rochedo de Gibraltar, que abriga a seus pés a colônia britânica de mesmo nome.
Lembranças de Roma Baelo Claudia foi um dos portos romanos mais ativos
do estreito. Suas ruínas ficam perto de Tarifa, no extremo sul da Espanha.
A glória de césar. Lendas à parte, o Estreito de Gibraltar cresceu como um dos pontos-chave para a economia do mundo antigo. O Fretus Herculeum dos romanos era uma escala essencial no comércio com a África. Várias cidades atingiram seu esplendor sob o domínio dos césares. Algumas, como Algeciras e Tânger, continuam tão importantes quanto há 2 mil anos. Baelo Claudia, porém, caiu no esquecimento. Ainda bem, porque suas ruínas ainda estão de pé. Ficam a 25 quilômetros da cidade de Tarifa, na Espanha, à beira da praia. Baelo Claudia foi o principal porto de união com Tingis (hoje Tânger, no Marrocos) e um atarefado centro pesqueiro. Vítima de um terremoto e da decadência econômica, foi abandonada no século 7.
O talento do estreito, porém, não se restringia apenas a rotas comerciais. Era, sobretudo, um cobiçadíssimo posto estratégico, perfeito para grandes manobras bélicas. O que são 13 quilômetros separando dois continentes? Para o líder islâmico Tariq ibn Ziyad, nada. Foi em 711 que o Estreito de Gibraltar testemunhou um dos acontecimentos mais traumáticos da Península Ibérica. Milhares de mouros, a mando de Tariq, cruzaram o estreito rumo à conquista da península. Seria o início de 800 anos de domínio muçulmano na terra que hoje é Espanha e Portugal. A célebre travessia está eternizada no próprio nome do estreito: Gibraltar vem de Jabal Tariq, "monte de Tariq", em referência ao rochedo. O passo fundamental para a reconquista cristã do território só foi dado em 1344, quando o porto de Algeciras foi tirado dos mouros num esforço hercúleo, que reuniu exércitos cruzados de toda a Europa Ocidental.
O mundo acaba aqui Gibraltar (acima) e Ceuta (abaixo) delimitavam o início do estreito e o fim do
mundo conhecido. Para os antigos, as duas colônias abrigavam as míticas Colunas de Hércules.
Tudo fora do lugar. Dali em diante, o estreito seria o cenário de um tedioso toma-lá-dá-cá entre vários países que só terminaria na segunda metade do século 20. Cada nação procurava garantir seu quinhão numa região essencial para a geopolítica do Mediterrâneo. O resultado desse troca-troca é hoje um curioso quebra-cabeças onde as peças, embora perfeitamente encaixadas, parecem fora do lugar. Ceuta é um enclave espanhol em solo marroquino onde há mais mesquitas que igrejas católicas. Gibraltar é uma colônia britânica no sul da Espanha onde os habitantes falam espanhol, andam de ônibus vermelhos de dois andares e freqüentam pubs. Tânger é um agitado porto do Marrocos, mas tem igrejas cristãs dentro de sua medina.
A Espanha tem diversos enclaves no litoral norte do Marrocos. Ceuta e Melilla ficam no continente. O resto são ilhotas espalhadas pela costa. Uma delas foi palco de um perigoso incidente em julho de 2002. Perejil não passa de um rochedo desabitado perto de Ceuta do tamanho de um campo de futebol. Num belo dia, foi ocupado por tropas marroquinas, ao que a Espanha respondeu enviando submarinos e helicópteros. Os Estados Unidos intervieram, e marroquinos e espanhóis concordaram em deixar a ilha, mas a sutil tensão na região permaneceu. Desde sua independência, há quase 50 anos, o Marrocos vem reivindicando a anexação dos enclaves espanhóis. A Espanha, por sua vez, mantém Ceuta militarizada e controla a entrada de imigrantes africanos loucos para ter acesso a um pedaço da União Européia em plena África.
A fé na contramão A mesquita, muçulmana, fica em Gibraltar, colônia
britânica. A igreja é inglesa, mas fica em Tânger, no Marrocos. E tem trechos do
Corão no altar.
Localizada numa estreita península que termina no Monte Hacho, Ceuta é uma cidade tranqüila e aprazível, um misto de balneário e paraíso das compras sem impostos. Tudo, inclusive a arquitetura, leva a crer que ela é uma cidade da Espanha, mas eis que surgem na calçada diversas mulheres de véu. Um terço da população de Ceuta é muçulmana, descendente de marroquinos. Há também 3 mil judeus. E todos gozam da cidadania espanhola. É uma vaga idéia de como seria a Espanha caso os mouros e os judeus não tivessem sido expulsos no século 15.
Tânger também fica em solo marroquino, a 50 quilômetros de Ceuta. Aparentemente, uma cidade árabe: há uma medina, um labirinto de ruas, rezas nos alto-falantes e diversas mesquitas. Ao mesmo tempo, é a menos marroquina das cidades do Marrocos. Tânger já foi fenícia, romana, visigoda, espanhola, portuguesa, inglesa e francesa. De 1923 a 1956, foi de todos: a cidade era "Zona Internacional", administrada por um pouco confiável conselho de representantes de nove países que pregava a total liberdade econômica. Pelas ruas circulavam contrabandistas, espiões, cafetões, pedófilos, especuladores e prostitutas. O clima de liberdade (e libertinagem) atraiu também uma centena de artistas, entre eles Henri Matisse, Tennessee Williams, Orson Welles, Jack Kerouac e Jean Genet. Muitos europeus ainda vivem na cidade, especialmente dentro da casbah (a fortaleza medieval), mas é o trânsito permanente com a Europa que colore Tânger com uma diversidade rara a uma metrópole árabe. Quantas cidades muçulmanas têm igrejas cristãs dentro de sua medina?
Pedra no sapato. O maior elo de Tânger com a margem européia do estreito é o porto espanhol de Algeciras, grande pólo industrial. Seu desenvolvimento é fruto de uma iniciativa do general Franco nos anos 60 de fechar as fronteiras com Gibraltar e evitar que a colônia britânica absorvesse a mão-de-obra
espanhola. Gibraltar sempre foi a pedra no sapato da Espanha. E que pedra: o rochedo - The Rock para os ingleses - tem 426 metros de altura e emerge como uma fortaleza natural sobre o Mediterrâneo. Ocupa quase toda a península da colônia, e é o único pedaço do território espanhol que não pertence à Espanha.
Gibraltar é dos ingleses desde 1704, mas só nos últimos dois anos é que se começou a falar numa
soberania conjunta de Espanha e Grã-Bretanha. Os gibraltarinos, porém, repudiam qualquer negócio. A cada referendo que fazem, reafirmam seu desejo de permanecer súditos da rainha. Se bem que, em tempos de União Européia, qualquer disputa é inócua. As fronteiras já quase não existem. Basta mostrar o passaporte, cruzar o aeroporto (sim, há uma faixa de pedestres sobre a pista de pouso), entrar num túnel e, there you are: ônibus de dois andares, guardas britânicos, preços em libras, pubs, casas vitorianas. Nunca foi tão rápido ir da Espanha à Inglaterra. Ou ao Marrocos, que está logo à frente, quase ao alcance das mãos.
O Estreito de Gibraltar, em vez de separar, enlaça. África e Europa estão, de novo, unidas.
texto: Xavier Bartaburu, de Gilbraltar