Breve Relato da Guerra dos seis Dias no QG. da UNEF em Gaza - Junho/1967
Prezados amigos:
Temos lido sobejamente os acontecimentos com o 20º Contingente durante a Guerra dos Seis Dias sob o ponto de vista de quem estava no Campo Brasil e no Rafah
Camp.
Temos agora a narrativa do nosso companheiro Edison Iabel que fez um resumo do que ele passou e presenciou durante os seis dias de guerra em GAZA onde estava servindo no QG da
UNEF.
Fernando Vargas.
GUERRA DOS 6 DIAS.1967- UM BREVE RESUMO

1º
Dia de Guerra
2ª
Feira 05.06 as 07:45 hrs. Q.G. da UNEF bombardeado durante 4 horas:A artilharia de
Israel bombardeou a cidade de Gaza por mais de 4 horas ininterruptas, atingindo
diretamente o prédio Q.G. da UNEF ; escapamos por um verdadeiro milagre; a mesma sorte
faltou aos 14 militares indianos e,
uns 30 feridos entre militares e civis, de varias nacionalidades.
Por
volta do meio-dia, quando o bombardeio amainou, conseguimos levantar no meio dos
escombros, da sala onde nos abrigamos e, a partir daí, entramos todos em ação,
uns auxiliando a equipe medica com os mortos e feridos e, outros a brigada de
incêndio a debelar as chamas na ala leste, onde a torre de comunicações foi
seriamente atingida, sem se importar com balas silvando sobre nossas cabeças. O
barulho provocado pelo terrível bombardeio deixou-nos temporariamente surdos e,
a alta dose de adrenalina, perigosamente alheia ao perigo. Assim foi o dia e a
noite todo do 1º dia de guerra.
2º
Dia de Guerra
Logo
ao amanhecer, recebi a dura tarefa de auxiliar a equipe medica a colocar
etiquetas metálicas no dedo grande do
pé direito, dos corpos coberto com lençóis dos militares mortos durante o
bombardeio e, no fogo cruzado.
Nas
ruas próximas do Q.G., os tanques e carros de combate israelenses, abriam a tiros
o caminho para o centro da cidade, enquanto isso a população civil buscava se
esconder em abrigos cavados às pressas.
3º
Dia de Guerra
A
luz e, as comunicações foram finalmente restabelecidas.
Ainda
aturdido com os acontecimentos mal pude acreditar em meus olhos, com a imagem de
2 rostos familiares: os soldados Jandir Regianini e Jorge Karam, cobertos de
poeira dos pés a cabeça ! Eles tentaram chegar em Rafah, Sede do Batalhão
Brasileiro, mas tiveram que voltar, no meio do caminho.
Diversos
vôos rasantes de bombardeios da Força Aérea Israelense, despejando bombas
sobre posições inimigas.
No
final do dia, abandonamos o Q.G. e, nos deslocamos em comboio até o Campo Sueco,
junto à praia de Gaza, onde reencontramos alguns Oficiais brasileiros.
Aproveitamos para saborear nossa primeira refeição em 3 dias; ração
de guerra, gentilmente compartilhada pelos soldados Suecos. Passamos o restante
do dia, dentro de trincheiras, ao abrigo do fogo cruzado.
4º
Dia de Guerra
Continuam os pesados bombardeios da Força Aérea e, da Artilharia Israelense, sobre o Campo Sueco, martelando a resistência do Exercito Egípcio/Palestino. As condições de sobrevivência, em nossos abrigos, são cada vez mais precárias.
5º
Dia de Guerra
A
situação no Campo Sueco tornou-se insustentável.
Corremos
para a praia, levando conosco alguns funcionários civis da ONU, de ambos os
sexos. Nos jogamos debaixo dos barcos de pesca e cavamos a terra molhada, com os
próprios dedos pra nos abrigarmos do fogo cruzado entre os Fedayyns palestinos
e a infantaria israelense.
6º
Dia de Guerra
Com
a situação sobre controle, a infantaria de Israel começou o trabalho de
rescaldo, embora encontrando alguns bolsões de tenaz resistência, em diversos
setores de Gaza.
Sábado,
10 de junho finalmente voltamos para o Batalhão Brasileiro, em Rafah, na
companhia do Cel. Sucupira e, dos Majores Índios e Porto Alegre, com o rosto
coberto por lenço para evitar possível contaminação de cadáveres em
adiantado estado de decomposição, ao longo da estrada Gaza-Rafah. Ao chegarmos
ao Batalhão fomos recebidos com alivio, pois éramos dados como mortos!
Edison
Iabel, com a colaboração de Jandir Regianini.
Fri, 10 Oct 2003 07:24:50 -0300
De: Fernando Vargas <fvargas@infolink.com.br>