"UMA VIAGEM A PALESTINA NOS FAZ LEMBRAR DE SUEZ" - TEXTO 

DE VOLTA AO ORIENTE MÉDIO

LEMBRE-SE DE SUEZ:-

UMA RECORDAÇÃO DO PASSADO NUMA VIAGEM RECENTE À FAIXA DE GAZA



Certa vez eu iniciei uma narrativa inspirado numa frase escrita pela poetisa Cora Coralina, e agora volto a repetir a mesma frase para dar ênfase ao que pretendo contar das coisas que, prazerosamente ouvi do nosso especial amigo“Habibe” YUSIF AWNI EL-SHAWA, que esteve recentemente - Agosto/Setembro de 2005, visitando seus parentes e amigos na Faixa de Gaza.

Diz a frase da Cora Coralina:

“Alguém deve rever os autos do passado antes que o tempo passe tudo a raso”.

Vou tentar comentar algo de uma viagem do presente, com os olhos e lembranças voltados para aquela nossa grande viagem do nosso passado, que é a História e fatos ligados aos Boinas Azuis do Btl.Suez

O que pretendo enfatizar é uma conotação das boas lembranças dos nossos tempos de Boinas Azuis na Faixa de Gaza com a narrativa de uma viagem, que nos foi dita pelo nosso amigo YUSIF AWNI EL-SHAWA. 

Esse fato novo passa a ser a fonte de referência e assim, mais uma vez, esporadicamente voltando ao passado vamos adentrar no ATEMPORAL, das magias de Suez. 

Algumas fotografias em anexo para ilustrar e servir de comparação entre o que era a Faixa de Gaza, em nosso passado, e o atual momento. Assim, quem sabe, poderemos verificar o grande salto de crescimento demográfico, evolução comercial e imobiliária na Faixa de Gaza, em relação aos tempos de UNEF, mesmo com as tremendas dificuldades de sobrevivência daquela população obreira, em função dos atritos e divergências com o Estado de Israel, já de conhecimento geral.

Muito embora os primeiros momentos de uma comparação cheguem a causar em nossos sentimentos saudosistas um grande impacto na comparação dos tempos. Por outro lado, no aspecto humanitário na Faixa de Gaza poderemos sentir que ainda existem os chamados “bolsões de pobreza” que teimam existir desde aqueles tempos.

Portanto a população da Palestina já faz por merecer, desde há muito, uma melhor sorte e uma maior ajuda mundial, sem imposições e/ou interferências.

O clima místico que o Egito, a Faixa de Gaza e todo Oriente Médio exerce em todos nós, complementa uma ligação espiritual entre os Soldados da UNEF com os Palestinos, ou ao menos evocando esse elo ao passado, da história da Antigüidade, com a nossa histórica passagem como soldados da UNEF, em Missão de Paz naquela região. 

Toda vez que ouvimos relatos, ou temos notícias da Faixa de Gaza, um sentimento místico de Saudades se misturam com as memórias de caserna ,por se referir aos duros tempos de deserto da nossa época como soldados, e de imediato, comparamos tacitamente aquele nosso passado ao estilo e modo de vida do progresso atual.

Mas o que importa daquele passado, é que o “barato” da vida transformou nossa história de soldados da paz em uma gostosa corrente de boas recordações, as quais continuam sendo as delícias de nossos devaneios. Essa nostalgia sempre nos acompanhou e vem proporcionando uma grande paz de espírito. 

Com as eternas lembranças do Btl.Suez, viajamos no Atemporal através das imagens que vão surgindo em nossas mentes. Agora poderemos, tanto recordar daqueles locais da forma como era, bem como sentir na essência o progresso de agora, na realidade de hoje. 

Mas, acima de tudo, o que mais desejamos é o bem estar daquele povo, então sempre teremos vontade de saber notícias atualizadas da região bem como das muitas pessoas “Habibes” que conviveram e trabalharam conosco, ou que de qualquer forma tiveram passagem marcante em nossas vidas, e desejar a eles toda sorte e toda paz que merecem.

Entre outros acontecimentos, o YUSIF nos contou que conseguiu encontrar duas pessoas muito conhecidas dos soldados brasileiros, tirou fotos com elas e juntos relembraram de quase tudo que acontecia no Batalhão Suez. Quem não se lembra do Habibe PEDRO, que trabalhava na nossa Cantina no Campo Brasil, ou da querida e irreverente VOVÓ, que “bagulhava” com muitos soldados na Cerca de arame do Campo Brasil?

Caro leitor, você, ainda nesta narrativa, vai rever, através de fotos, esses rostos conhecidos. Vai saber como esses dois inesquecíveis e estimados personagens estão de aparência. Eles estão vivos e gozando boa saúde e ainda lembram dos Brasileiros com a mesma irreverência.

Então vamos aos fatos:-

Nosso prezado amigo YUSIF AWNI EL-SHAWA, no período entre agosto e setembro de 2005, viajou com sua família ao Oriente Médio, visitou as cidades do Cairo, Jerusalém e esteve na Palestina – Faixa de Gaza, para, entre outros motivos rever sua querida mãezinha, e demais familiares. Afinal ele é nascido em Gaza, onde morou até aos dezenove anos, trabalhou no Btl Suez dos 14 anos aos 19 anos, quando migrou para o Brasil. A história de vida do YUSIF já é sobejamente conhecida e está divulgada para conhecimento público, inserida em nosso Site Btl.Suez, na página do 18º Contingente.

Nos dias 17; 18 e 19 de março 2006, o Yusif e toda família esteve honrando nossa capital paranaense com uma agradável visita, aonde chegou para participar dos eventos e acontecimentos sociais, já publicados em nosso site.

No domingo, após a solenidade de Outorga de Medalha e almoço de confraternização, fui honrado com a maior das atenções do Yusif, quando tive o enorme prazer de tomar conhecimento das notícias e rever fotos do Estado atual da Faixa de Gaza. Inclui-se neste contexto o feliz encontro do Yusif com o Pedro e com a Vovó. Dentre os assuntos que ouvi, desejo repassar algumas das notícias que acredito é do mais puro interesse de todos os brasileiros que serviram na Missão UNEF.

Pedro, (Pedrinho para muitos) que trabalhava na Cantina do Campo Brasil, cujo verdadeiro nome é FAID EL-BANA, nos dias de hoje é um próspero comerciante nas cidades de Rafah e Kan Yunis. Ele possui várias lojas (filiais) de comércio, mas que INFELIZMENTE teve, recentemente, aviltado o seu rico patrimônio conseguiu com muita luta e dedicação por 40 anos. Soldados de Israel, por nada e sem motivos justificáveis, detonaram, na acepção da palavra, um dos seus prédios que tinha 4 andares construídos e onde funcionava uma das suas lojas de comércio e escritório.

Soldados Israelenses simplesmente, numa verdadeira ação de abuso de poder, adentraram ao estabelecimento e expulsaram todos aqueles que trabalhavam no prédio do Pedro, inclusive o proprietário. Em seguida implodiram com dinamites o Prédio do Pedro. Foi um duro golpe sofrido pelo nosso amigo.

O Pedro, nome como é conhecido pelos brasileiros (FAID EL-BANA para os palestinos), relembrou que trabalhou no Batalhão Brasileiro, na Missão UNEF, por 10 anos consecutivos, isto é, do início ao fim do Btl.Suez.

Ele tem documentos que comprovam que trabalhou para o Batalhão Brasileiro no período de 23 de maio 1957 até 31 de maio de 1967, poucos dias antes da Guerra dos Seis dias. Desse período de 10 anos de serviços prestados aos brasileiros e, por extensão a ONU, ele lembra que trabalhou seis meses na cozinha dos Oficiais, um longo período em nossa cantina, e depois trabalhou como Tradutor e Intérprete para os Oficiais brasileiros.

Ele lembra com muita propriedade das seguintes pessoas: Tenente AZAMBUJA (1966); Major Torres. Lembra do MACEDO, amigo do Cabo FRANCISCO SALES (o Ferrugem) de Niterói. Roga aos que tiverem notícias do Cabo Francisco dar informações, pois deseja muito conversar com nosso Cabo Francis (Ferrugem). 

O Pedro (Faid El-Bana) está à disposição dos brasileiros na Faixa de Gaza, e se você amigo leitor, desejar falar com ele, Ligue para o Pedro em RAFAH no seguinte:

Telefone – 00972-599771-898, o Pedro manda dizer que conversará com você com o maior prazer e alegria, e disse que você escolherá se quer que ele fale com Sotaque Gaúcho, ou Carioca ou Arataca. Você escolherá. 

E isso é verdade, o YUSIF ligou do Hotel de Curitiba para Rafah, e falou com ele, o Fernando Vargas e o Cel. Da Veiga também conversaram com ele de Curitiba na mesma ocasião. O fato foi uma das grandes emoções e magias de Suez do dia. 

A Vovó é...

Quem não se lembra da Vovó, ela nasceu em 1947, portanto em 1962 ela completava apenas 15 anos. Quando estourou a Guerra dos Seis Dias ela tinha apenas 20 anos.

Quem a apelidou de Vovó cometeu a mais injusta brincadeira, porque quando ela surgiu na Cerca de arame farpado, lá no Campo Brasil, ela era uma menina ainda, acredito que a pura “sacanagem” que na verdade não passou de uma brincadeira. A Vovó deveria sim ser apelidada de NENEM, ou Bebê, devido sua altura e pouca idade.

Porém ela já era uma “guerreira” e enfrentava as “bagulhadas” com os soldados brasileiros com altivez e desenvoltura de gente grande, e de uma verdadeira inteligência.

Agora estamos tentando perpetua-la em nossos registros e assim, sempre poderemos reverenciar aquela importante personagem da História do Btl.Suez. 

Vovó! Você será lembrada para sempre em nossa História como exemplo de personalidade muito forte. De toda população palestina, que habitava a Faixa de Gaza, você é o único nome de mulher que lembramos, você, com aqueles seus "trejeitos" também nos ensinava um pouco da cultura árabe, e a lutar pela sobrevivência. Por tudo que ela representa será uma eterna e boa recordação do Campo Brasil. Algumas das suas passagens foram citadas no Livro escrito pelo STANS ZOUAIN FILHO. Há muitos brasileiros do Btl.Suez que a respeitam e a admiram.

O Yusif descobriu que a Família da Vovó está residindo no “Bairro Brasil” em Rafah. O povo e autoridades da Cidade escolheu o nome Bairro Brasil em homenagem ao Batalhão Brasileiro, uma vez que o Bairro está localizado nas redondezas do local onde era o Campo Brasil. 

Naquela área, onde era o Campo Brasil a NORUEGA construiu um bem aparelhado CENTRO SOCIAL COMUNITÁRIO, para dar atendimento aos desvalidos de Rafah. Nesse Centro Social de assistência humanitária, funciona uma boa estrutura com apoio dos Governos da Noruega e Canadá. 

O Brasil que se utiliza de propaganda gratuita dado ao nome do Bairro, nunca contribui com nada, nossos governantes necessitam olhar com mais carinho aquele povo e contribuir de alguma forma com algum projeto humanitário, para fazer jus à lembrança da homenagem ao nosso país. Algum projeto ou ação, por menor que seja deveria ser implantado, honrando assim nosso Brasil. 

No Centro Social do Bairro Brasil, existe um Posto de Saúde completo e bem aparelhado, com um Jardim de Infância para dar atendimento a 450 alunos carentes.

No mesmo local também funciona um centro de atendimento para as pessoas portadoras de necessidades especiais (os antigamente chamados Deficientes físicos), com um belo Jardim, Bicicletas para uso terapêutico. Fazendo parte das instalações físicas da entidade, o Centro Social Comunitário do Bairro Brasil possui um amplo Salão para Reuniões e Festas, com capacidade para 150 pessoas sentadas.

A comunidade do Bairro Brasil conta com o apoio dos governos do Canadá e da Noruega, os quais vêm garantindo a Manutenção da entidade, Contribuindo com Uniformes que trazem a inscrição timbrada dos governos Canadense, e Norueguês; Bolsas de Estudos, e mais um Posto de Artesanato. Alô autoridades intelectuais do Brasil ! Falta a nossa ajuda e colaboração.

Os moradores do Bairro Brasil somam 480 Famílias, com uma população residente naquele Bairro estimada em de 4.880. A maior autoridade do Bairro Brasil se chama EL HIG ABIDO MOHAMED ZANOR (Abo O Sama), o endereço é Bairro Brasil, nº 27 / 48 – Rafah Palestina. Na casa Dele moram 56 pessoas.

Os atuais moradores da cidade de Rafah e em especial do Bairro Brasil vivem apreensivos queixando-se dos constantes ataques do Exército de Israel, que realiza atos de terrorismo com destruição de casa e prédios residenciais, e não têm a quem recorrer. Sofrem na carne os atos militares de Israel, que ainda faz ocupações na Região, desde a Guerra dos Seis Dias de 1967.

Dentre os tantos ataques às casas de palestinos de Rafah e do Bairro Brasil, eles destacaram, relembrando com muita tristeza de um grande absurdo e abuso de poder do Exército de Israel, praticado contra aquela pobre população, no dia 4 de agosto de 2004. Dois ou três dias antes, passou cerca de 30 carros com Alto-Falantes, parecido com nossos “trios elétricos” anunciando, alertando e avisando que ISRAEL iria exterminar o Bairro, e suas principais instalações.

Um dia antes da operação militar, Israel fez, durante o dia todo e noite adentro, ataques com lançamento de foguetes e mísseis, foram ao todo mais de trinta foguetes durante a véspera do ataque final.

Aqueles moradores, em sua maioria humildes pessoas trabalhadoras, ficaram apavoradas e horrorizadas, quando para desgraça maior de todos, naquele dia 4 de agosto 2004, surgiram os Israelenses no Bairro Brasil, Armados e dando início a operação Militar contra os pobres indefesos. 

Eles começaram atacando primeiramente o Bairro Brasil, utilizando-se de Seis tanques de Guerra; Sete Pás-Carregadeira; e três Retro-Escavadeiras – alguns tratores com Retro, e muitos militares equipados e armados. Estima-se que mais de três mil soldados foram usados na operação, que causou uma enorme destruição das instalações moradias. Muita dor e revolta ficaram gravadas em cada coração do Bairro Brasil.

A justificativa para essa destruição era a pífia idéia de que estava havendo contrabando de drogas e armas do Egito para Rafah, e ali no Bairro Brasil cuja maioria das pessoas são gente simples e humildes. Ninguém tinha conhecimento de nada daquilo que os israelenses alegaram.

Para finalizar esta narrativa, vamos deixar um grande apelo a todos os brasileiros de bom coração, para que saibam que a Associação de Moradores do Bairro Brasil em RAFAH, está necessitando de todo tipo de ajuda e colaboração.

As pessoas de boa índole E CARIDOSAS que desejarem colaborar de alguma forma, por favor, tomem alguma providência imediata. Para informações e contatos, liguem para os seguintes telefones, e falem com o Presidente daquela Associação de Bairro;

00 972 8671 3439 – ou 00 972 8213 6070 – Ou ainda entrando em contato com o BANCO PALESTINO EM GAZA. Através e.Mail>> hshawa@bankofpalestine.com << Pela paz mundial ajudem quem precisa do seu carinho.



Texto escrito por: THEODORO DA SILVA JUNIOR
Integrante do 10º contingente  do BTL. SUEZ - 1962


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