Palestrante : Dacilio de Abreu Magalhães
A
GUERRA DE SUEZ
A
idéia de alargar o Istmo de Suez e retificar seu traçado, já existia
desde a Antigüidade, no entanto, nenhuma das tentativas feitas, teve
resultado positivo, até que no século XIX a idéia foi retomada e o
Engenheiro Ferdinand Lessep da Companhia Universal do Canal Marítimo de
Suez, executou a obra que durou dez anos, enfrentando inúmeras
dificuldades. Finalmente em 1869, foi inaugurado o Canal com 162,5 Km de
extensão por 35 metros de largura que atravessava o Egito, ligando o
Mar Mediterrâneo em sua parte oriental, ao Golfo de Suez, formado pelo
Mar Vermelho.
Bem
antes da 1a. Guerra Mundial (1914-1918), essa via de comunicação, já
era considerada altamente estratégica, o que se confirmou, com a
ofensiva alemã a Líbia, em 1942.
A
crise no Egito com a queda do impopular Rei Faruk, (Comentar) a posse do
incompetente General Mohamed Neguib e assunção do Coronel Gamal Abdel
Nascer `a presidência, agravou-se com as idéias fixas desse militar de
expulsar os ingleses que permaneciam em território egípcio, desde os
anos oitenta do século retrazado, do projeto de criar um bloco árabe
neutro sob a liderança egípcia, da campanha feita através da rádio
do Cairo contra o Pacto de Bagdá, do apoio aos rebeldes Mau Mau do Quênia
e aos nacionalistas da Argélia, tornando-o profundamente mau visto pela
Grã-Bretanha e pela França.
O
Ocidente, influenciado por essas duas potências, negou-se a fornecer
apoio militar e ajuda para construir a barragem de Assuan, o que já
estava aprovado. Em 26 de julho de 1956, Nasser resolve nacionalizar a
Companhia Anglo-Francesa do Canal de Suez, com a finalidade de explorar
essa via e com os recursos, construir a barragem, além disso, um de
seus primeiros Decretos, foi à proibição da passagem de navios
Israelenses pelo canal, sobre a alegação de tratar-se de um país
invasor; ignorando os tratados internacionais, firmados em 1888, na
Convenção de Constantinopla, segundo o qual, a liberdade de navegação
era garantida pelos signatários, a todas as nações, independente da
bandeira, em tempo de guerra ou de paz.
O
poderio militar organizado pelos anglo-franceses estava assim constituído:
-
Grã-Bretanha
contribuiu com 45.000 homens, 12.000 veículos, 300 aviões e 100 navios
de guerra.
A
França participou com 34.000 homens, 900 veículos, 200 aviões e 30
navios de guerra, mais as brigadas de pára-quedistas dos dois países.
O final da campanha do Sinai, em 56, coincidiu com os saltos de pára-quedistas
britânicos e franceses sobre Por Said e Por Fuad, respectivamente.
A
invasão custou a Israel 181 homens, 25 carros de combate, dois jatos
Mystère IV e 9 aviões com motor a pistão.
Cerca
de 2.000 egípcios foram mortos e 6.000 aprisionados. Os equipamentos
capturados incluíam 100 carros de combate (entre pesados e leves),
grande quantidade de peças de artilharia e de veículos de transporte.
No
curto período anterior à retirada da Força Aérea Egípcia, a FAI
declarou que destruíra 5 Migs e 4 Vampires; no mar, um destróier egípcio
bombardeou Haifa em 31 de outubro, mas rendeu-se após confronto com
navios israelenses e diante de ataques aéreos a que fora submetido.
A
disposição das tropas egípcia no Sinai era falha e para agravar a
situação, não contavam com reservas adequadas.
As
forças israelenses, por outro lado, atacaram de surpresa e mantiveram
durante todo o tempo à iniciativa bélica, contudo, os conflitos entre
árabes e israelenses, estavam fadados a repetir-se na década seguinte.
A
MISSÃO
A
Organização das Nações Unidas (ONU), criada no fim da 2a Guerra
Mundial para manter a paz e a segurança internacionais, enfrentou um
grande desafio em 1956 quando Israel atacou o Egito no dia 29 de
outubro.
O
Presidente da República Árabe Unida (RAU), Gamal Abdel Nasser
nacionalizou o Canal de Suez, impedindo a passagem de navios
israelenses. Esse fato levou a Grã-Bretanha (sócia majoritária e
principal usuária do canal) a uma intervenção militar na região, no
que foi apoiada pela França e por Israel. Forçada a encontrar uma solução
para o conflito, a ONU resolveu criar uma força de paz; foi ai que em
30 de outubro de 1956, o Conselho de Segurança, reuniu-se para decidir
sobre uma solução, censurando Israel e exigindo a retirada imediata
das forças israelenses do território egípcio. Essa solução foi
vetada pela França e Grã-Bretanha, dois dos cinco membros permanentes
do Conselho; os outros eram Estados Unidos, a então União Soviética e
China Nacionalista. Como no dia seguinte à reunião, britânicos e
franceses iniciaram o bombardeio da área, a Iugoslávia, propôs uma
reunião especial de emergência da Assembléia Geral da ONU, amparada
na resolução de 1950 que tornava o Conselho, responsável pela segurança
internacional, dando-lhe para isso, o poder de tomar quaisquer medidas
que julgasse necessária, inclusive ação militar contra o Estado que
ameaçasse a paz mundial, portanto não poderia ser vetada; assim, foi
aprovada mesmo com os votos contrários da França e Grã-Bretanha. Como
o Delegado iugoslavo fez ver que o Conselho de Segurança estava sendo
impedido de exercer suas funções devido ao veto dos Membros
Permanentes, propôs que o assunto fosse submetido à Assembléia Geral.
Convocada às pressas, a reunião começou no dia 1º de novembro de
1956 e no dia seguinte, foi aprovada a resolução proposta pelos
Estados Unidos, pedindo o cessar-fogo imediato e a retirada de todas as
forças estrangeira do Egito.
Logo
depois, em 04 de novembro, aceitou-se uma proposta canadense, sugerindo
a criação da UNEF-1-1st United Nations Emergency Force (1a. Força de
Emergência das Nações Unidas), composta de dez países, dentre eles o
Brasil, Canadá, Colômbia, Dinamarca, Finlândia, Índia, Indonésia,
Noruega, Suécia e Iugoslávia, que operariam numa faixa de terra, em
solo egípcio, denominada Faixa de Gaza, cabendo a cada país uma área
de aproximadamente 100 Km de extensão por 30 Km de largura. Com a
intervenção da ONU e das Forças de Paz enviada a área de operação,
a França e Grã-Bretanha abandonaram o Egito e Israel recuou para os
limites de sua fronteira.
Comentar
e desenhar as posições dos quartéis e postos de observações
brasileiros
O
recuo de Israel imposto pela ONU, se deu no momento da chegada das Forças
de Paz e à proporção que iam recuando, enterravam minas dos diversos
tipos, visando claramente matar ou mutilar os Capacetes Azuis, como
forma de represália à ação da Organização das Nações Unidas.
As minas anticarro, verdadeiros engenhos diabólicos, construídas
em plástico para não serem facilmente localizadas, continham em seus
interiores, 15 Kg de TNT (Tri-Nitro-Tolueno), capazes de destruir um
tanque-de-guerra e todos os veículos pesados que passassem sobre elas.
As minas do tipo antipessoal eram confeccionadas em ferro e apresentavam
normalmente um formato cilíndrico medindo 10 cm de diâmetro por uns 15
cm de comprimento. Esses engenhos, tão diabólicos como as outras,
embora facilmente localizada pelo detector eletrônico, normalmente não
eram colocadas no chão, onde certamente seriam procuradas.
Estrategicamente colocavam-nas em edificações destruídas que eram
inspecionadas pelo pessoal das Forças de Paz, e que também eram
visitadas pelos habitantes locais, na tentativa de conseguir algum
objeto de valor. Sabendo que essa prática era comum, os israelenses
ligavam essas minas a objetos valiosos, inclusive a belíssimas armas
israelenses e o resultado é o que apresentamos na foto da página
seguinte.
Eu
não consigo entender como um povo, que não se cansa de mostrar ao
mundo o seu sofrimento na 2a Guerra Mundial, que tem hoje a terra
prometida, graças ao voto de um Embaixador brasileiro, Ministro Oswaldo
Aranha, e que tem no seu país, nesses cinqüenta anos pós Guerra,
centenas de milhares de pessoas, descendentes dos integrantes da Lista
de Schindler, possa colocar minas para destruir homens e mulheres, que não
têm inimigos e que receberam das Nações Unidas, a sagrada missão de
promover a paz; a mesma paz sonhada por eles de 1939 a 1945.
Por
Decreto do Legislativo N° 26 de novembro de 1956, a pedido da Organização
das Nações Unidas, foi criado o III/2ºRI (3º Batalhão do 2º
Regimento de infantaria), denominado posteriormente como Batalhão Suez;
tropa que iria incorporar-se às Forças de Paz das Nações Unidas, em
solo egípcio. Em 20 de janeiro de 1957, a bordo do navio transporte de
tropa Custódio de Melo, partiu do Rio de Janeiro, o primeiro
contingente com 520 homens, comandados pelo então Tenente Coronel
Iracilio Ivo de Figueiredo Pessoa, já falecido que, após receber a
bandeira da ONU e as devidas instruções, partiu para a instalação do
batalhão brasileiro em meio ao deserto do Sinai, recém saído de uma
guerra e completamente minado.
Cada
contingente brasileiro permanecia em solo egípcio um ano e dois meses,
mais os dois meses de viagem, sendo um para ir e outro para retornar,
perfazendo um total de um ano e quatro meses de missão. Até 1965, os
brasileiros que participavam do Batalhão Suez, foram transportados
pelos navios Transporte de Tropa Ary Parreiras, Barroso Pereira, Custódio
de Melo e Soares Dutra, dai por diante, passaram a ser transportados
pelos aviões Hércules C-130 da Força Aérea Brasileira os quais
terminavam suas viagens num aeroporto improvisado de Gaza. De 1965 até
o final da missão, em 1967, não houve mais a mesma regularidade de
permanência em solo egípcio, tendo em vista o reduzido número de
militares que aqueles aviões transportavam, o que não poderia ser
comparado com a lotação dos navios. A missão confiada ao Brasil,
nessa Operação de Paz envolveu 6.300 homens, durou 10 anos e contou
com efetivos dos estados de Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Rio
Grande do Sul, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo; todos
oriundos do antigo 2º. Regimento de Infantaria (Rio de Janeiro), hoje 2º
BIM – 2º Batalhão de Infantaria Motorizada (Escola).
Mostrar
a superposição de contingentes de modo a manter em operação
aproximadamente 700 homens
Para
ser criada uma força de paz, em primeiro lugar, a proposta deve ter o
consentimento das partes em conflito (no caso do Egito que foi à parte
prejudicada, solicitou o apoio e cedeu seu território para a instalação
das forças de paz); a operação não deve significar ingerência nos
assuntos internos dos países nem deve favorecer uma das partes em
detrimento da outra. Em segundo lugar, a proposta deve contar com o
apoio amplo da comunidade internacional, aprovada pelo Conselho de
Segurança da ONU e finalmente, os Estados membros devem estar dispostos
a contribuir com pessoal que ficará sobre o comando do Secretário
Geral. Para que a operação de manutenção da paz tenha sucesso, é
preciso que seu mandato seja claro e viável e que as partes cooperem
com o Comando da Operação, eleito pelo Secretário Geral da ONU, tanto
na Sede como na área de operação e que a Organização das Nações
Unidas possam contar com o apoio logístico e financeiros, adequados.
Primeira
Força de Emergência das Nações Unidas
Duração:
Posição
geográfica:
Primeiro
no setor do Canal de Suez e península do Sinai; mais tarde, ao longo da
Linha de Demarcação do Armistício, na zona de Gaza e na fronteira
internacional da península do Sinai (do lado egípcio).
Sede:
Gaza
Finalidade:
Conseguir
e supervisionar o fim das hostilidades, incluindo a retirada das forças
armadas da França, Israel e Reino Unido do território Egípcio e
depois da retirada, servir de elemento moderador entre as forças egípcias
e israelenses.
Máximo
efetivo (fevereiro de 1957):
6.073
militares de todos os postos e patentes.
Efetivo
no momento da retirada:
3.378
militares de todos os postos e patentes.
Baixas:
90
Custo:
214,3
milhões de Dólares.
Modo
de financiamento:
Rateio
de cotas em função de uma conta especial.
Contribuintes
com pessoal militar:
Brasil,
Canadá, Colômbia, Dinamarca, Finlândia, Índia, Indonésia, Noruega,
Suécia e Iugoslávia.
A
PARTICIPAÇÃO BRASILEIRA
Esse
foi o depoimento do então Tem. Cel. Iracilio Ivo de Figueiredo Pessoa,
primeiro Comandante do Batalhão Suez:
-"O
desconhecimento da missão e da área em que iríamos atuar, foram
cruciais e influíram muito em toda a vida inicial da nova unidade, que
só a 14 de dezembro de 1956 passou a ter autonomia administrativa,
permanecendo sediada no 2º RI - Rio de Janeiro, para fins de arraçoamento.
A tropa da ONU a que iríamos nos integrar, foi chamada entre nós,
inicialmente, de Polícia Internacional e todos os dias, os jornais que
apelidaram de Batalhão de Suez a nossa unidade, noticiavam a partir de
fontes que desconheço, as tarefas que nos caberia desempenhar, em condições
sempre de muita dificuldade e de grande risco.
Como
conseqüência natural, o recomendado voluntariado (pela ONU) para formação
da unidade, só em parte se cumpriu, sendo muitos praças escalados por
seus comandantes, imediatos ou não, alguns desses comandantes
escolhendo o melhor de sua tropa.; por outro lado, o quadro de efetivo
para o Batalhão, quer o de pessoal, quer o de material, eram ricos em
graduados e paupérrimo em soldados; foi para nós muito difícil
substituir tropas de outros países com efetivos normais e semelhantes
aos da Infantaria brasileira. Aos nossos Soldados coube, por muito
tempo, vigiar e guarnecer frentes muito maiores do que seria razoável
atribuir-lhes.
Como
que para compensar tudo isso, tivemos quadros de material
particularmente de saúde, de comunicações e de transporte de dar
inveja aos comandantes de outras nacionalidades.
Quando
o Batalhão de Suez recebeu autonomia administrativa, estava
praticamente organizado e ao seu efetivo já fora transmitido o orgulho
de a ele pertencer e de se estar preparando para a missão árdua e
arriscada, desconhecida em seus pormenores, mas rica em ideal e valor
histórico. A instrução diária era cuidadosa e muito dura; o S-3
conhecia bem o navio Transporte de Tropa Custódio de Melo da Marinha de
Guerra, e preparava, ouvindo o Capitão de Mar e Guerra Arnoudo Toscano,
que o comandava, exemplar plano de embarque; grande parte do qual, já
era do conhecimento dos oficiais e sargentos do Batalhão Suez. Os
diferentes materiais estavam embalados. Todo o efetivo estava vacinado,
como recomendara a ONU, e o tempo passava sem que recebêssemos a ordem
para embarcar.
Fim
do ano; terminou 1956 e a vida se tornou rotineira; a tropa era
dispensada diariamente e se apresentava ao quartel às 07:00 hs do dia
seguinte. Já em casa, por volta das 20:00 hs de 08 de janeiro de 1957,
recebi um telefonema do Oficial-de-Dia do 2º RI, transmitindo-me por
ordem do Comandante do Regimento, a esperada ordem de embarque para o
dia seguinte. Às 07:00 hs do dia 09, o Batalhão Suez estava pronto
para o embarque e os primeiros caminhões iniciavam o transporte da
carga para a Praça Mauá (Cais do Porto do Rio de Janeiro), onde estava
ancorado o navio Custodio de Melo. Às 09:00 hs o Batalhão de Suez, com
música tocada pela Banda do 2º RI, desfilava em continência as
autoridades presentes e recebeu das mãos do Coronel Janari Nunes,
Presidente da Petrobrás, a Bandeira nacional, ofertada por aquela
Organização, acompanhada de um belíssimo discurso, respondido pelo
Comandante do Batalhão. Seguiu-se o embarque em viaturas das unidades
da Vila Militar, seguindo para o então Ministério da Guerra, onde
apresentei a unidade ao Chefe do Estado Maior do 1º Exército, que
ordenou desfile pela cidade e deslocamento para o Palácio do Catete
(Sede do Governo Federal, no Rio de Janeiro). O Presidente Juscelino
Kubitschek de Oliveira, com todo o Ministério queria despedir-se da
tropa que deixaria a pátria para integrar-se às Forças de Paz das Nações
Unidas, em Port Said; o que tudo foi feito, inclusive o desfile em
frente ao Palácio do Governo, que o próprio Presidente autorizou.
Enquanto não era decidida a partida do navio Custódio de Melo, com
aquiescência do Comandante Toscano, foi permitida a visita dos meus
homens aos familiares, o que foi considerado arriscado por alguns
chefes, receosos de possíveis deserções.
Com
visita de todos os Generais em serviço no Rio, inclusive a do Ministro
da Guerra, Marechal Henrique Dulfle Teixeira Lott e a do Presidente
Juscelino. Cinco minutos antes da partida, o navio transporte de tropa
Custódio de Melo levantou âncoras e às 23:50 hs do dia 11 de janeiro
de 1957, partiu com destino a Las Palmas, arquipélago das Gran Canárias,
onde chegou com 11 dias de mar; partindo às 06:30 hs do dia 25 com
destino a Port Said, Egito. No trecho final da viagem, duas ocorrências
gravíssimas aconteceram. No mar Mediterrâneo o Custódio de Melo
enfrentou terrível furacão, que o obrigou a apagar seus fogos e ficar
à deriva por cerca de 70 horas, pois a carga de gasolina e óleo diesel
que fora amarrada no convés superior, junto à proa, desprendeu-se e
inundou o barco de combustível. Quem puder, imagine o quadro dessa tragédia.
Ao mesmo tempo, na enfermaria de bordo, o soldado João Antonio (João),
com terrível infecção de garganta, sofria e morria, atendido por oito
médicos e dispondo da mais moderna medicação; o organismo desse pobre
jovem, não resistiu ao mau. Imediatamente procurei o Comandante Toscano
e ele deixou a mim a decisão de sepultá-lo no mar ou levá-lo a terra
e enviar seu corpo ao Brasil; ponderei sobre o assunto com o Major
Bodstein, então Sub-Comandante do Batalhão e decidi sepultá-lo no Mar
Mediterrâneo, já que era impossível mantê-lo a bordo, até o
regresso do barco ao Rio, agravado com o fato de desembarcar a tropa com
um cadáver a bordo, o que certamente nos obrigariam a uma quarentena ou
coisa parecida, antes do desembarque. A cerimônia militar de
sepultamento do nosso soldado no mar mediterrâneo, assistida por toda a
tropa do Exército e da Marinha; foi das mais emocionantes que me foi
dado assistir. Com o navio parado, foi-lhe oferecida às honras
militares e em seguida a cerimônia religiosa".
O
General Iracilio continuou o seu relato:
-"No dia 03 de fevereiro de 1957, depois de 20 dias de mar e
6.136 milhas marítimas navegadas, aportamos em Port Said, Egito e
recebemos a bordo a visita do Tenente General Edson Louis Burns,
norte-americano, Comandante Geral da UNEF-1 - United Nations Emergency
Force (1a. Força de Emergência das Nações Unidas), a qual iríamos
nos integrar. O Batalhão Suez desembarcou e foi surpreendido com a
oferta da Bandeira da ONU que o Comandante Toscano mandou que o alfaiate
do navio confeccionasse e me entregou em nome da Marinha de Guerra
Brasileira. A despedida em terra dos bravos marinheiros do Custódio de
Melo, deixou a todos comovidos.
Depois
de apresentada a tropa ao Comandante da UNEF, que a passou em revista e
a considerou integrada a Força Internacional, viaturas brasileiras e
canadenses transportaram o Batalhão Suez para El Ballah, onde chegamos
às 11:00 hs e daí seguimos para El Cantara, acantonamento muito
castigado pela guerra e que procuramos arrumar um pouco; até que nos
foi determinado que via El Arish, deveríamos seguir para Rafah Camp,
antigo aquartelamento inglês, dispondo de vastos depósitos e servido
por linha férrea. A tropa marchou junto aos israelenses que se
retiravam do território egípcio, por determinação da ONU, sendo os
brasileiros, os primeiros a entrar em Gaza e chegar à fronteira de
Israel”.
A
DURA EXPERIÊNCIA
Derrepente
eu teria que viver num lugar, completamente diferente de tudo que eu
havia visto nos meus dezenove anos de vida, a
começar pelo deserto, pela casas destruídas, pelo acampamento
com algumas instalações precárias, com os funis cravados na areia
para se urinar publicamente e as privadas que podiam ser utilizadas por
cinco pessoas ao mesmo tempo, construídas dentro de um recinto de mais
ou menos 4,00m X 2,00m, coberto com zinco, sobre uma fossa negra de
aproximadamente 3,00m de altura, onde enorme ratos me assustava e até
faziam com que eu evitasse a utilização daquele recinto nojento. Em
função do calor, teria que beber água salobra com gosto de iodo, que
era colocada em sacos lister(*), apoiados num tripé e expostos ao sol.
Teria que me acostumar com o calor superior a 50 graus, com a comida
temperada com banha rançosa,
ressecada e servida ao ar livre durante as tempestades de areia que eram
constantes naquela região e com as moscas que pareciam brotar do chão.
A miséria local e as crianças famintas que por fora da cerca de arame
farpado, totalmente minada, assistiam a nossa refeição e pediam
comida, chocava-me e acabava por tirar o meu apetite. Teria ainda que me
adaptar ao alojamento em
barracas de lona de 40 praças que no frio, nos obrigava a usar
perigosamente aquecedores à gasolina e no calor espantava-nos, ficando
todo o pessoal que estava de folga, do lado de fora, conversando até
alta madrugada.
Eu
não poderia ser um fraco, se não, a saudade dos entes queridos, a terrível
solidão do deserto e os problemas que apareciam a cada minuto e que
teria que enfrentar, acabariam por me desequilibrar e levar-me a
loucura; o que infelizmente aconteceu com alguns dos nossos colegas,
durante os dez anos de missão. Decididamente, não era isso que eu
esperava encontrar; não foi isso que passaram para mim, aqui no Brasil,
durante o período de treinamento.
Era
hora do almoço, a primeira refeição que iríamos fazer em solo egípcio.
Recebemos uma caixa de papelão com a inscrição "US ARMY",
contendo diversas latas, chamadas "Ração Fria", dentro das
quais, um produto diferente como feijão branco, almôndegas, cigarros,
iodo para colocar na água, papel higiênico, frutas em conserva e
outros produtos; tudo com mais de cinco anos de fabricação.
Dificilmente, alguém acostumado
a comida
temperada, conseguiria comer o conteúdo daquelas latas verdes.
Como estávamos localizados bem perto da cerca, jogávamos a comida
enlatada para o outro lado, na tentativa de matar a fome daquelas
infelizes crianças; foi quando uma delas ao tentar pegar uma das latas
que caiu no meio da cerca, projetou-se para o seu
interior, tocando em uma das minas que explodiu. O corpinho
daquela infeliz criança, ficou com a parte superior totalmente destruído
e eu que assisti aquela cena dantesca, além de chorar assustado e de
ficar com os nervos a flor da pele, não me conformei com esse tipo de
violência, principalmente contra crianças.
Eu
não conseguia entender o porque daquelas minas na cerca; eu não sabia
da gravidade da missão, eu apenas tinha consciência de que para ali
fora para fazer a paz e na minha concepção, com os valores que me
foram passados, matar criança não é fazer paz. Eu estava me sentindo
igual aos soldados de Israel que colocam minas em locais determinados às
Forças de Paz, aos Fedains e aos terroristas que colocam minas nos pátios
escolares. Tudo o que eu havia visto até então, tudo o que me
escandalizara naquele quartel e que me dava vontade de sumir pelo
deserto a fora, não poderiam ser comparados a cena que acabara de
presenciar. A terra que subiu foi tanta que por alguns segundos, nada se
via e o estampido foi tão forte que rompeu meu tímpano direito, tendo
perdido, naquele ouvido 70% da audição.
Fiquei apavorado e muito nervoso, mas a injeção que me foi dada e o
tempo, fizeram com que eu me acalmasse e voltasse a normalidade. Esse
mesmo medo, esse mesmo pavor tomaram conta dos colegas que estavam junto
comigo, fazendo suas refeições e que presenciaram o fato.
É
aí que entra a liderança do Sargento e do Tenente; ambos numa conversa
fora do local do incidente, conversou, mostrou as nossa
responsabilidade, o que a ONU esperava de nós e não era o momenro de
esmorecer, aliás nos eramos soldados, o orgulho dos nossos familiares,
do Exército brasileiro e de todos os brasileiros
Hoje
eu calculo que os Sargentos e Tenentes que nunca tiveram experiência de
guerra e que, como nós nada souberam da Missão que nos esperava,
ficaram pasmos com aquela cena, mas não deixaram se abater e não
demonstraram e nenhum momento que sentíssemos fraquejar.
Passada
a fase do primeiro contato com o desconhecido e do incidente que me
provocou um estado de angústia, até certo ponto compreensível, passei
a tomar conhecimento de tudo o que estava a meu redor e fui dar umas
volta e fazer um reconhecimento daquele pedaço de terra brasileira
em solo egípcio. Comecei pelo Corpo-da-Guarda; um portão tipo
cancela com um vão de aproximadamente cinco mastros, onde estavam
permanentemente hasteadas em cada uma das colunas, as bandeiras do
Brasil e da ONU. Continuei e vi a casa do Coronel Comandante, a oficina
de manutenção de veículos, o chuveiro, o campo de basquete, o
comando, a tesouraria, a seqüência
de barracas de lona de 40 praças, as barracas dos oficiais e uma área
grande, cimentada que servia de
cinema ao ar livre, cujos filmes eram projetados pelo Sargento Nelson
Veiga que os conseguia no Quartel-General da Unef, em Gaza. Na seqüência,
conheci a cozinha, o gerador de luz, a torre de madeira que era
utilizada como posto de observação, a estação de rádio PTA-2, a
privada coletiva, uma cisterna de concreto
muito grande e a cerca de arame farpado totalmente minada e que
serviu de palco para àquela cena horrível que recordo como se fosse
hoje.
As
madrinhas de campanha eu consegui através de uma solicitação que fiz
ao Jornal Feminino do Rio de Janeiro. Eu tinha carta para escrever todo
o dia e não era somente respondendo as cartas das madrinhas, mas também
dos meus familiares que me escreviam regularmente e ficavam ansiosos a
espera da resposta para escrever novas cartas. Graças a eficiência do
Correio Aéreo Nacional que levava e trazia nossas cartas e encomendas,
a minha passagem pelo Oriente Médio, nessa árdua missão, se tornou
mais amena. Além das minhas cartas, eu escrevia para alguns colegas que
não estavam acostumados a essa prática; o Mário Fraga Ribeiro, por
exemplo, foi um dos meus protegidos, a ponto de sugerir
a minha irmã Daise que mantivesse com ele, correspondência
regular e o curioso é que o Fraga só conheceu a Daise na reunião que
fizemos no pátio do Comando Militar do Sudeste, quando da entrega simbólica
do prêmio Nobel da Paz, em 1988. Dentre as madrinhas, destacou-se a
Srta Lais Bassi, moradora de São João Del Rei, Minas Gerais,
pessoa que pela sua cultura, escrevia lindas cartas e preenchia,
sobremaneira, o vazio que
existia em mim; posso garantir que foram mais de 20 cartas, esperadas
ansiosamente e que eram lidas em minutos, sempre na expectativa de
receber uma foto dela e detalhes de sua vida. Eram muitas páginas por
carta, parecendo destacadas de um romance, onde a figura central era eu
e ao terminar, reservava pelo menos uma página, para alguns conselhos
que normalmente terminavam assim:
-
“Te cuida Magalhães, não se arrisque sem necessidade, olha por onde
pisa, não se deixe levar por provocações desse povo e muito cuidado
com o manuseio de armas. Reze,
reze muito e lembre-se que o Deus dos islamitas, embora com outro nome,
é o mesmo Deus que reina no nosso Brasil. Peça para ele te livrar dos
males e te proteger. Eu, sua mãe, seu pai e todos os seus familiares
estaremos rezando; pedindo
ao todo poderoso que te proteja e o traga são e salvo para o nosso convívio”.
Nunca recebi uma fotografia dela e nunca nos conhecemos.
Além
da árvore, tinha um local que era o meu preferido, a estação de rádio;
ali, nas horas de folga eu ficava por longo tempo assistindo a perícia
de um Sargento que, com um fone ao ouvido, uma máquina de escrever a
sua frente e um manipulador de CW (telegrafia), à direita,
fazia verdadeira acrobacia. Ouvia os sinais eletrônicos do código
Morse vindos do Brasil, respondia manipulando
o aparelho de telegrafia e registrava a mensagem recebida,
datilografando com dois dedos, numa velha máquina de escrever. Que
espetáculo ! Eu nunca tinha visto nada igual.
A
estação PTA-2, era composta de um arcaico transmissor receptor de
ondas curtas, RAD 200-400, ligado a uma antena direcional de três
elementos que transmitia e recebia fonia e telegrafia, de ponto-a-ponto
com a estação PTA-1 no Rio de Janeiro, sem satélites e sem as
tecnologias de hoje e as vezes para conseguir sintonizar o Rio, levavam
mais de uma hora e dependendo da propagação, não conseguiam manter
contato por muito tempo. Era um aparelho muito parecido com os usados
pelos radioamadores, que operavam nas faixas de 20, 40, 60 e 80 metros.
Não
demorou um mês e fui avisado que falaria com
meus familiares no Brasil, em um determinado dia, através
daquele equipamento e quando chegou a hora, senti uma emoção muito
forte, indescritível; eu não sabia se falava, se chorava, se gaguejava
e do outro lado, minha mãe, meu pai, meu irmão, minha irmã, minha
prima Lucy, minha tia Maria, emocionados, se revezavam nos cinco minutos
que me eram
permitido falar. Derrepente, para minha tristeza, aquele Sargento
que eu admirava tanto, colocou a minha frente o desenho
do "Amigo da Onça" (*), com os seguintes dizeres:
-
"Seu tempo acabou"!!!
Eu
já estava me acostumando ao calor, a água quente para beber, ao tipo
de comida, a saudade e a solidão e após falar na fonia com meus
familiares no Brasil, tudo aflorou novamente e eu voltei a ficar triste,
curtindo a saudade que tomava conta de mim.. Eu não calculava que em
meio a tanta confusão, aquele setor do Exército poderia estar tão
organizado, a ponto selecionar o pessoal que ia falar, avisar os
familiares no Rio de Janeiro através de telegrama, com
dia e hora para o contato e ter no antigo Ministério da Guerra,
uma sala equipada com um telefone que ligado ao transmissor-receptor,
possibilitava o familiar a falar com seu parente no Egito.
Fica
muito difícil nos dias de hoje, passar aos nossos jovens, acostumados a
transmissões de televisão via satélite, as comunicações telefônicas
com Astronautas no espaço a milhares
de quilômetros de distância e aos computadores que via Internet,
vasculham o mundo e comandam veículos robôs no solo de Marte, as
dificuldades de uma transmissão sem satélites
com um rádio transmissor-receptor, cuja a capacidade estava,
pelo menos, 10 vezes menor que a mais simples das emissora de rádio
brasileira, agravado com utilização de uma antena construída de tubos
de alumínio, de três elementos, elevada a uma altura aproximada de 5
metros do solo.
Realmente
o Cel. Iracilio tinha razão quando afirmou que o pessoal de comunicação,
causava inveja aos Comandantes das outras forças. No meu tempo, em
1958, não tínhamos a felicidade de ouvir o Brasil, através de
emissoras de rádio; o Português que ouvíamos era dos próprios
colegas que já falavam uma mistura de Português, Árabe e Inglês (Portuarles),
mas graças a PTA-2, tomávamos conhecimento do cotidiano e
principalmente do desenrolar da Copa de 58, onde os finalistas eram o
Brasil e Suécia, dois países que mantinham tropa na Faixa de Gaza e
que gozavam de um bom relacionamento.
A PTA-2 recebeu através da telegrafia, a informação da vitória
da seleção Canarinho e o conseqüente título de CAMPEÃO MUNDIAL DE
1958; o Sargento responsável
pelo serviço de rádio, fez questão de mandar avisar a todo o Batalhão,
as Companhias de fronteira pelo sistema de rádio (Rede (A) Afir (B)
Bala que entrava no ar a cada hora cheia e aos Pelotões de fronteira
pelo sistema de telefone magneto, cuja a linha corria de ponto-a-ponto,
pelas areias do deserto. Foi uma alegria sem par
durante aquele resto de dia, parte da noite e até por alguns
dias, principalmente após a chegada das cartas que enriqueciam ainda
mais as precárias informações; os pracinhas ficaram eufóricos e
houve até quem colocasse
os posters da Seleção e os retratos de seus ídolos,
ao lado de suas camas. Para nossa surpresa, poucas horas após a
vitória do Brasil, apontou na estrada, vindo em direção ao batalhão
brasileiro, um jeep com alguns suecos que acenando uma bandeira
brasileira, gritavam eufóricos, como se fossem eles, os Campeões
Mundiais:
-
"Brazil! Brazil! Brazil"!
Vieram comemorar o
título mundial levantado pelo Brasil,
junto com os brasileiros e trouxeram uma carretinha, engatada no
jeep, cheia de cerveja. Que elegância!, que povo civilizado!
David
Rosas, Sargento de Comunicações do 7o
Contingente, contou-me em Fortaleza, durante uma visita que fiz
àquela cidade que, quando
esteve no Batalhão Suez, foi o responsável
pela operação, manutenção e substituição da arcaica estação de rádio
PTA-2, pelos equipamentos de última geração, da época
e com eles, conseguiu
a proeza de ligar a PRH-8 Radio Nacional do Rio de Janeiro com a estação
PTA-2 Egito, para transmitir pela primeira vez, em ondas curtas, de
ponto-a-ponto, ainda sem satélites, uma partida de futebol entre as
equipes do Flamengo e Fluminense, que foi ouvida através de alguns
alto-falantes colocados em pontos estratégicos do Batalhão. Esse
feito, teve repercussão nas demais forças, sendo o David Rosas e
equipe, convidados a fazer milagre igual no Batalhão sueco. Como
podemos notar, as equipes de comunicação que por lá passaram e a própria
estação de rádio PTA-2, tiveram papeis importantíssimos
na missão Suez.
Estava
muito frio e eu teria que enfrentar o banheiro
que, como tantas outras coisas naquele quartel improvisado,
parecia uma piada; o recinto pouco maior que um boxe normal, tinha na
parte superior um latão com água, ligado a um sistema de aquecimento a
diesel. Dentro do recinto, um chuveiro medindo aproximadamente 30 centímetros
de diâmetros, cuja vazão era suficiente para esvaziar rapidamente o
latão de aproximadamente 100 litros e o banho tinha que ser rápido, se
não o banhista teria que sair do banheiro para encher novamente o latão,
o que era terminantemente proibido. Nem sempre o sistema de aquecimento
funcionava e nesse caso, tínhamos que encarar aquela água fria,
armazenada ao ar livre, em contato com os ventos que eram constantes
naquela região; mas, com uma ou duas voltas correndo em torno do batalhão,
o corpo ficava preparado para receber aquele choque térmico.. Depois do
banho, o jantar e em seguida a melancolia da
noite, transformando o deserto numa escuridão tenebrosa, ficando
apenas iluminados, as áreas externas de circulação, os interiores dos
alojamentos e as dependências utilizadas. É
ai que a saudade aperta; é nessa hora que se formam os grupinhos
para conversar e matar um pouco das saudades. O pessoal antigo, do 2o.
contingente, que já vinham recebendo cartas a algum tempo, ficavam em
seus cantos lendo e relendo; vendo fotografias, recortes de jornais, de
revistas e tudo aquilo que lhes era enviado. O sono chega,
vamos dormir e apenas
o ronco do gerador
permanecia, como num trabalho programado de auto hipnose, tornando o
sono daqueles jovens, reparador para que não sentissem em toda a
plenitude, o mau que essa experiência iria lhes causar. No dia
seguinte, "Alvorada" às 7:00 hs da manhã, café ou chá com
pão de forma dormido por diversas noites e em seguida o embarque no
caminhão FNM, de fabricação brasileira, que ia distribuindo pessoal
nos diversos postos, inclusive nos de observação, em torres de madeira
com faróis de longo alcance e nos de escuta, na Linha de Demarcação
do Armistício (*), que eram compostos de sacos de areia a toda volta e
de um mastro fino, entortado pelo vento, com a bandeira azul da ONU.
Permanecer seis horas durante o dia num posto desses, com frio ou com o
sol de 50 graus sobre a cabeça, dava até para suportar, mas a noite
era terrível, principalmente por sabermos que o colega mais próximo,
estava a mais de seis quilômetros e que nesse período, os árabes
habitantes do deserto, vinham rastejando
para não serem vistos e atacavam o pessoal dos postos avançados, com a
finalidade de roubar-lhes as armas.
Nós soldados, morríamos de medo; Não ficávamos
no interior dos sacos de areias, rodávamos a noite
toda em volta do posto, na tentativa de localizar quem estivesse
se aproximando. No inverno era pior, pois caia no deserto, uma neblina tão
densa que os ladrões daquela
região, não precisavam nem de rastejar.
Os
postos de escuta (no chão) e os de observação (nas torres), as
patrulhas noturnas ao longo da fronteira, o Pier (armazém onde eram
estocado suprimentos, munição e material bélico de toda a operação)
e os depósitos cilíndricos onde eram armazenado milhares de litros de
combustível utilizados por toda a UNEF, eram postos de serviços atribuídos
ao batalhão brasileiro. Nossos soldados, que não foram devidamente
treinados e que so tomaram conhecimento de algumas dificuldades durante
a missão,
Nossos
soldados estavam nos postos sem saberem
realmente a estratégia da missão; o que um exército ameaçado poderia
fazer para conseguir aniquilar seu inimigo; aliás, em 1967 com a Guerra
dos Seis Dias, nós passamos a saber. Essa desinformação e a conseqüente
participação dos nossos pessoal numa missão, para a qual não foram
treinados, fazia nossos soldados viverem sob forte tensão, agindo em
alguns casos, até precipitadamente, em face do medo que tomava conta de
seus seres.
Fazer
um organograma do Comando, das companhias de fronteira, dos pelotões e
dos postos avançados ao longo da linha de demarcação do armistício.
A
Companhia de Comando, tinha um efetivo de mais de 300 homens, sendo os
demais, distribuídos na 7a e 9a Companhias e nos diversos pelotões de
fronteira. Se viver na 8a Cia. já era um tormento, uma terrível solidão,
calcule o que seria estar acampado com um Tenente, um Sargento, um Cabo
e dezessete colegas, distante uns 15 Km. da Companhia mais próxima,
tendo apenas o rádio da rede Afir / Bala que entrava no ar, apenas nas
horas cheias e o telefone magneto, cujo o fio,
corria pelas areias do deserto.
Uma
grande falha
Os
árabes sabiam de tudo que acontecia na operação do Batalhão
brasileiro, inclusive desse sistema de comunicação e numa madrugada
fria, com neblina forte, cortaram a linha telefônica e atacaram o Pelotão
no intervalo entre uma hora cheia e outra; roubando todo o armamento do
pessoal e felizmente nada de mal nos aconteceu. Utilizar
mão-de-obra do povo local, num verdadeiro teatro de guerra, onde
os dois países se odiavam e não viam a hora de se digladiarem e onde as forças
de paz das Nações Unidas não eram bem aceitas por dificultar a ação
dos mais fanáticos e radicais, não poderia ser uma estratégia própria
de oficiais capacitados, de comandantes experientes, numa importante
missão internacional; a prova disso eram os constantes incidentes que
aconteciam com esse pessoal, em todas as dependências da força
brasileira.
O
Israel sempre manteve laços diplomáticos muito estreitos com o Brasil,
primeiro por Oswaldo Aranha que na ONU, votou a favor da criação do
Estado de Israel; segundo por
Oscar Niemaier que teve sua participação na arquitetura daquele país
e finalmente pelo Presidente Juscelino Kubscheck de Oliveira, um grande
estadista de origem judaica que estava na época, a frente do governo
brasileiro. Em função
desse relacionamento, os brasileiros estavam sempre em contato com as
israelenses, nos Kibbutzins, ao longo da fronteira, embora sabendo que
essa prática era proibida pela ONU e que tinha como conseqüência, o
repatriamento, como já havia acontecido com 11 soldados do 6º
Contingente e com outros, ao longo de toda a missão. Na noite de Natal,
os israelenses lotados nos kibbutzins ofereceram ao pessoal
da 7a companhia de fronteira, uma mesa farta, em pleno deserto,
totalmente iluminada, com produtos natalinos que estávamos acostumados
a comer no Brasil. Naquele dia, não sabemos por quem, os integrantes da
7a Cia, foram autorizados a comparecer a ceia em Israel. Não precisaria
ser militar para sentir que aquela recepção tinha um objetivo maior, o
de conseguir algumas informações preciosas para o Exército de Israel,
o que certamente aconteceria depois de alguns copos de vinho, servidos
por lindas soldadas com seus uniformes de verão e
considerando que os brasileiros ocupavam território egípcio e
estavam estrategicamente próximo
bases militares egípcias.
Era
uma situação de guerra e não se justificava atitudes como essas que
se chegassem ao conhecimento dos egípcios, certamente o Brasil iria
enfrentar sérios problemas diplomáticos com o governo local, com o
comando da Operação, e conseqüentemente com
repercussão negativa na
ONU.
Para
os brasileiros acostumados com topografia de terreno para efeito de
localização, o deserto era um serio problema, dado ao deslocamento das
areais finas que ao encontrarem um obstáculo, por menor que fosse,
faziam crescer da noite para o dia, enormes dunas, mudando por completo
o cenário local. Do mesmo modo que as areias se acumulavam ao longo de
duas, três ou quatro horas, formando dunas em um determinado local elas
iam sendo transportadas pelos ventos para outro ponto, deixando aquela
área completamente plana. Era o que eu costumava chamar de "o
balet das areias", cujo fundo musical era o vento e o palco, o
Sinai. A iluminação era feita pela luz prateada da lua cheia que
tocava as partes planas, deixando um tom escuro nas partes côncavas.
Essa curiosa e magnífica movimentação das areias, nos dava a sensação
de estarmos em diversos locais, num curto espaço de tempo; de ter
dormido num lugar e acordado em outro.
Eu não me lembro de ter lido nada que descrevesse essa obra magnífica
do Grande Arquiteto do Universo.
Dentre
os materiais pesquisados, encontrei um relato que sem dúvidas é o
auto-retrato do Nelson Veiga, 3º.Sargento do 2o Contingente, o militar
responsável pelas seções de cinema que tínhamos na 8ª.Companhia.
Estava assim escrito naquelas velhas folhas, destacadas de um caderno
espiral:
-
“Uma noite, a 38 anos atrás, num longínquo país, em um deserto
lugar, encontrava-se um jovem que para lá havia ido, em cumprimento a
uma missão, para qual sua pátria o conclamara. Naquela noite em
particular, os poucos homens que compunham o Pelotão, mantinham-se
calados e melancólicos, fitando o infinito, com mil pensamentos
ocupando seus cérebros. Lembranças saudosas de casa, dos parentes, dos
amigos; naquela noite, mais do que nunca presentes, pois aquela era a
"Noite de Natal" - E o soldado cisma:
-O que estariam fazendo em casa ? Provavelmente estariam ao redor da mesa; a ceia posta, os risos, os cumprimentos, os brindes. Será que estariam pensando em mim ? Vai para fora da barraca, para que seus colegas não vissem seus olhos marejados, procura um local afastado, deita-se de costas na areia, ainda quente pelo sol do dia e fica ali fitando o firmamento. Pela primeira vez, depois de muitos meses, percebe o maravilhoso azul do céu; a lua em seu quarto crescente, banha todo o deserto com uma luz prateada que dá às dunas, um misterioso contraste de luz e sombra. E as estrelas, milhares e milhares delas, piscando no universo numa profusão de tamanhos e agrupamentos, formando os mais intrincados e sugestivos desenhos. Derrepente uma pergunta lhe ocorre à mente: - É esse o mesmo céu, são essas as mesmas estrelas que Cristo fitara quando percorreu essa terra santa ? Sob esse céu nasceu, cresceu, pregou e sofreu; sob esse mesmo céu, depois de ajudar, amparar e curar multidões que o buscavam, sofreu o martírio da cruz; tão só como talvez se sintam, nossos soldados, nessa missão. Mesmo assim Cristo se conformara, na certeza de que, aquele era o caminho para reencontrar o Pai. Com esse pensamento, o jovem aquieta seu coração, pois descobrira que a distância, ao invés de separar, aproxima aqueles que amamos. Era ele o jovem que sentiu o peso da saudade e da solidão. Leve e alegre, levanta-se e cantarolando uma canção natalina, entra na barraca com os braços estendidos para abraçar os companheiros, na confraternização do Natal”.
A
cada três meses de calor sufocante, de frio nos postos avançados, de
fome, de sede, de tensão, de solidão e de saudades, nós tínhamos
sete dias a gozar nos locais predeterminados pela ONU que normalmente
eram o Líbano, Jerusalém e o Cairo; com hotéis, refeições, passeios
e translados pagos. Tínhamos na realidade, 28 dias de férias para 14
meses de trabalho, um pouco menos que o trabalhador normal tem para
gozar, aqui no Brasil.
O
Líbano, país ocidentalizado, atraia os brasileiros pela beleza de suas
cidades, principalmente Beirute que era o ponto de chegada dos
pracinhas. Os Cedros do Líbano, normalmente congelados, era o primeiro
ponto turístico a ser visitado, seguido dos Night Clubs que
apresentavam lindas mulheres, boa bebida e música de todos os gostos. O
comercio era a nossa diversão diurna que após acordarmos de uma noite
bem curtida, visitávamos encantados as lojas e íamos deixando nossos Dólares
nas compra de objetos que levaríamos como lembranças para os nossos
familiares no Brasil. Os tapetes com motivos orientais, os brocados
bordados à prata e a ouro e outros objetos das mais variadas origens,
faziam-nos permanecer nas ruas até pouco antes das funções noturnas
das elegantes boites de Beirute.
A
vida no deserto, longe da civilização e no desempenho de uma função
militar, petrificava nossos corações e ia fazendo-nos cada vez mais,
carentes de atenção, de carinho, de tudo aquilo que uma mulher sabe e
tem para dar; é ai que quando deparamos com mulher charmosa, atenciosa,
delicada, meiga e carinhosa, nos apaixonamos a primeira vista e foi isso
que aconteceu comigo e que certamente deveria ter acontecido com inúmeros
colegas, quando soltos nesse mundo oriental maravilhoso. Margareth era o
seu nome; portuguesa de nascimento vivia em Beirute por não ter
dinheiro para retornar a Portugal, de onde veio com um Balet e que ao
desfazer-se por culpa de seu empresário que desapareceu com o dinheiro
das apresentações, não teve outra forma de sobrevivência se não a
de prostituta ou cantora de casa noturna, atividades que não obrigava o
uso do idioma local. Passeando pela noite, entrei com um colega em um
Night Club e ali permaneci por horas vendo shows, alguns cantores e
bebendo alguma coisa, sem contar os cigarros que queimavam, um atrás do
outro, tornando o ambiente nublado e mau cheiroso. Derrepente fui
surpreendido por uma voz feminina cantando em português, o Fado
"Lisboa Antiga". Foi uma sensação indescritível e a
primeira coisa que me veio à cabeça foi a de tentar me aproximar dela
e eu não queria perder essa oportunidade; eu não sabia como, mas
esperei o término de sua apresentação então não me lembro como, mas
sei que cheguei até o seu camarim e daí em diante ficamos juntos
durante os sete dias que me foram dados para passar naquela magnífica
cidade.
Jerusalém,
pela sua característica de "Cidade Santa", nos atraía de
maneira diferente; nós explorávamos cada centímetro, olhando
detalhadamente e fotografando todos os locais por onde tenha passado ou
permanecido Jesus Cristo. Santo Sepulcro, Túmulo de Lázaro, Mesquita
de Omar, Montes das Oliveira, Rio Jordão e Mar Morto, eram os
principais pontos onde ficávamos atentos aos detalhes e até rezando,
porque não, pedindo proteção para um perfeito desempenho da missão,
sem nenhum tipo de acidente; houve até quem arriscasse um mergulho no
Mar Morto, o que não durava mais de quinze minutos, pois o elevado teor
de sal, fazia com que os curiosos, saíssem das águas com as partes íntimas
do corpo, ardendo. O comercio que era voltado para objetos religiosos e
artesanatos grosseiros, não nos atraiam muito, o que contribuiu para
que a nossa permanência naquela cidade fosse o suficiente para conhecer
os pontos turísticos e percorrer os locais por onde Cristo passou, o
que nos deu direito a receber da empresa de turismo, medalha de prata,
acompanhada de um diploma alusivo a "Terra Santa", assinado
pela autoridade eclesiástica local.
O
Cairo embora apresentasse um contraste fascinante dentro do perímetro
urbano da cidade, nos atraia, mas para a parte antiga, principalmente a
Gisé, onde se encontravam as Pirâmides de Keops, Kefrem e Miquerinos,
monumentos, cuja grandiosidade, nos deixava estáticos e até certo
ponto emocionados. Penetrar na Pirâmide de Keops, subir uma rampa de
madeira por um túnel estreito de mais de 30 metros de comprimento,
chegar à sala dos sarcófagos e ver as inscrições em baixo relevo
naquelas enormes paredes de pedra, totalmente polidas, era uma aventura indescritível
que jamais pensei realizar, em toda a minha vida. Andei
algumas centenas de metros naquela planasse e deparei com mais um
monumento gigantesco, dessa vez era a Esfinge que viu nascer todos os
sois, viu cair dinastias e que recebeu de Heródoto, o pai da história,
esse nome que permanece até hoje. Depois de me refazer do impacto
sofrido diante de tanto esplendor, de tanta sabedoria, comecei a
registrar fotograficamente, tudo o que via a minha frente. Dali fomos
para o Museu do Cairo e que decepção! Que pobreza! Aquele Museu teria
que ser o mais completo do mundo em virtude de tantas maravilhas que as
civilizações que por ali passaram, deixaram para a humanidade e que
por irresponsabilidade, corrupção e falta de patriotismo do Rei Faruk,
foram enriquecer os museus da Inglaterra. Continuei visitando e
fotografando os pontos considerados turisticamente importantes, como o
Rio Nilo, Cidade e outros monumentos que me foram mostrados na escola,
no ginásio, mas que jamais poderia calcular a grandiosidade. É
simplesmente maravilhoso.
O
Cairo com seus night clubs flutuantes, estacionados à margem do Rio
Nilo, fazia com que a noite daquela cidade fosse fascinante, com músicas
ouvidas em todos os lados. A Dança do Ventre e a Dos Sete Véus eram
atrações que não faltavam naquelas casas noturnas. O Cairo, já em
1958, era uma cidade bem urbanizada com bonitos edifícios como o do
Capsis Palace Hotel, onde eram hospedados os brasileiros do Batalhão
Suez.
Nas
idas e voltas e nos passeios por aquela mística cidade, conheci Suzana,
Comissária da Suíça Air Line, filha de Mauris Salama, residentes na
Daher Street 42, centro, e após fazer amizade com toda a família,
passei a freqüentar a casa, pois na cidade, não havia nada mais que
pudesse matar a minha curiosidade de turista.
O
café brasileiro era o produto mais divulgado no exterior e quando
sabiam que éramos brasileiros, falavam inicialmente em Pelé e em
seguida no nosso café, e não foi diferente na casa do Salama; ele
perguntou-me se meus pais mandavam para mim, café do Brasil. Informei
que sim e prometi que na próxima ida ao Cairo, eu levaria o café para
que eles pudessem provar. Como minha mãe mandava-me regularmente, café
em lata, tipo exportação, via Correio Aéreo Nacional, aguardei apenas
a próxima ida ao Cairo, o que aconteceu três meses depois; todo
orgulhoso levei para a família Mauris Salama, um café tipo 7, (exportação)
que foi recebido com muita alegria.
Naquela região, o povo estava acostumado com o café turco que é um pó grosso, mal moído, colocado na xícara juntamente com a água fervendo; eles mexem bem e esperam o pó decantar, para em seguida tomar apenas o líquido. Era horrível ! sempre vinha aquele pó grosso na boca, por mais cuidado que se tivesse. Eu precisava de um coador para fazer o café e como são consegui nada que o substituísse, sugeri que a esposa do Sr. Mauris me emprestasse uma meia limpa e ela trouxe e foi ai que consegui coar aquela delicia que espalhava pela casa um aroma jamais sentido pelos presentes. O curioso é que à proporção que o café ia sendo coado, Sr Mauris, esposa, filha e o Emmanuel Bonfim Viana, um colega de luta, davam altas e gostosas gargalhadas. Anunciei que o café brasileiro está pronto e todos acharam muito interessante, mas ninguém tomou e lá se foram três colheres cheias do melhor café do mundo.
A
GUERRA DOS SEIS DIAS
N
os anos seguintes à implantação da força, a tensão aumentou,
agravada pela formação de movimentos terroristas na Palestina. Em 17
de maio de 1967, Nasser exigiu a retirada das tropas da ONU, colocou
seus soldados em posição de combate, fechou o Golfo de Ácaba,
bloqueou o porto israelense de Eilat e assinou um acordo militar com a
Jordânia. Isso provocou o ataque israelense (05 de junho de 1967) ao
Egito, à Jordânia, a Síria e a rápida conquista de toda a Península
do Sinai, até o Canal de Suez, a Cisjordânia e as Colinas de Golã. O
cessar fogo decretado pela ONU foi acatado pela Jordânia (07 / jun),
Egito (08 / jun) e Síria (10 / jun), mais a retirada das tropas dos
territórios ocupados, não foi obedecida pelo governo de Israel.
Embora
muitos autores considerem que Israel tenha provocado a Guerra em função
do ataque surpresa e do rápido domínio da situação, nós sentíamos,
com o aumento do efetivo militar na Faixa de Gaza, área permitida
somente para as tropas da ONU, que o Egito estava preparando algum tipo
de ataque a Israel, só não sabíamos que se tratava de uma guerra. Não
foram poucos os blindados que passavam por perto de nossos acampamentos
e das viaturas militares rebocando pesados canhões e porta mísseis,
sem contarmos os aviões caça que circulavam por toda aquela região.
Como Tel Aviv, capital de Israel estava 20 minutos de avião, da Faixa
de Gaza, seus radares detectavam facilmente toda essa movimentação que
acontecia do lado egípcio e foi ai que Israel, detentor de uma
tecnologia mais avançada e de pessoal mais bem treinados, aproveitou a
inexperiência do Comando aéreo e do despreparo dos pilotos árabes,
enviou caças Mirage IIIC, bem armados em vôo rasante para fugir dos
radares árabes e estrategicamente subiam quando já estavam próximos
aos aeródromos egípcios, de modo a serem propositalmente detectados
pelos radares egípcios. Nessa altura soa o alarme e os pilotos dos caça
MIGs entravam em seus aviões, colocando os motores em funcionamento e
era nesse momento que os israelenses lançavam os Míssil Nord AS-30
ar-superfície, com dispositivo infravermelho de busca ao alvo, atraídos
pelos motores aquecidos dos MIGs ainda em terra. A precisão dos pilotos
israelenses era cronométrica e só dava tempo aos egípcios de
aquecerem seus motores, produzindo um alvo perfeito para os mísseis.
Não
satisfeitos, os israelenses lançaram sobre os aeródromos egípcios,
Bombas Dibber para concreto, desconhecida dos árabes até aquele
momento, que tinham a finalidade de destruir as pistas de pouso e
decolagem.
Atuação
dos brasileiros
Até
a decisão de Nasser, os brasileiros sediados nos acampamentos de Campo
Brasil e Campo Rafah, enfrentaram os maiores problemas, uma vez que,
juntamente com indianos, iugoslavos e noruegueses, cuidavam dos
interesses da ONU; após o pedido de retirada dessas tropas, as coisas não
foram nada fáceis.
Enquanto
preparávamos para o abandono da área, tropas egípcias aquartelavam-se
junto as nossas instalações, dificultando a nossa retirada. Ao mesmo
tempo, pelos noticiários radiofônicos, tomávamos conhecimento da
mobilização geral das tropas israelenses; estávamos sob o fogo
cruzado, mas a ONU garantia a retirada tranqüila, apoiada nas promessas
do governo da República Árabe Unida.
Seis
no buraco – Cabo Fernando Vargas, um verdadeiro líder.
Em
18 de junho de 1967, os brasileiros partiram de Rafah e a 20 de junho de
Port Asdoid. Em 05 de junho, por volta das 09:00 hs, ocorreu o primeiro
sinal de que a Guerra estava começando; em vôo rasante, por sobre o
Campo Brasil, um avião israelense seguiu rumo a El Arish e pouco depois
chegava à notícia de que os israelenses haviam bombardeado o Cairo, a
capital egípcia. Por volta das 10:00 hs, duas baterias egípcias,
localizadas nos flancos do acampamento abriram fogo, sendo destruídas
por tiros de contra-bateria, seguidos de bombardeio aéreo. A essa
altura, as tropas brasileiras já haviam recebido ordens para organizar
o comboio de viaturas e deixar o local.
Sob
o fogo cruzado
O
último Boletim do Comando do Batalhão Suez – 20º Contingente, faz
alusões aos acontecimentos ocorridos no período de 05 a 29 de junho;
publicado no dia 30 de junho de 1967 descrevia quase todos os
acontecimentos ocorridos nos arredores do Campo Brasil, mas esqueceram
de fazer constar nesse documento oficial que quando uma das colunas
blindadas de Israel cruzou o Campo Brasil, atirando em todas as direções,
o Batalhão Suez ficou sem comando, isto é, o Comandante não foi
encontrado para as providências devidas. O que sabemos é que o Capitão
Paulo Isaias, vendo aquela situação de descontrole, assumiu o comando
da tropa, estabilizou as tensões e para evitar que o Campo fosse
atingido também por bombardeio aéreo, pegou lençóis das camas e
escreveu a palavra ONU no campo de basquete, num tamanho relativamente
grande, de modo a ser vista de uma considerável altura.
Em
torno de 11:15 hs passaram a leste e oeste do acampamento, duas colunas
de blindados israelenses, que abriram fogo contra carros de combate e
tropas de infantaria árabes. Ocorreu um tiroteio intenso, exatamente
por sobre as tropas brasileiras que se abrigaram para não serem
confundidas com os combatentes locais. Por volta do meio dia e durante
toda à tarde, ocorreram incessantes combates entre árabes e
israelenses, atingindo o Campo Brasil, de forma intensiva. Às 13:15 hs,
conforme o Boletim do Batalhão, o Cabo Enfermeiro Carlos Adalberto Ilha
de Macedo, foi ferido mortalmente, sendo enterrado no próprio campo de
batalha. Era a "Guerra dos Seis Dias". Nos dias subsequentes,
aos poucos as tropas de Israel iam assumindo o comando da região
enquanto isso, as tropas brasileiras, por determinação da ONU,
iniciavam a retirada percorrendo zonas de violentos e sangrentos
combates. Muitos integrantes do Batalhão Suez foram feridos nesse
percurso.
Comentar
sobre a retirada nos caminhões e o colega bêbado que era jogado para
fora do caminhão
Acampamento
saqueado
Da
mesma forma, não contaram que no dia 08 de junho de 1967, as tropas
israelenses entraram nos acampamentos e os brasileiros foram levados
para instalações localizadas às margens da estrada de El Arish e
obrigados a permanecerem seminus sob um frio intenso, com metralhadoras
apontadas para suas cabeças. Esqueceram os israelenses que Oswaldo
Aranha, Ministro brasileiro, deu o voto de minerva a favor da criação
do Estado de Israel; esqueceram também que Oscar Niemeyer, arquiteto
brasileiro, contribui sobremaneira para a urbanização da capital de
Tel Aviv. Ao retornarem no dia seguinte ao acampamento, após serem
liberados, os integrantes do Batalhão Suez constataram que todas as
suas bagagens foram saqueadas por tropas israelenses, havendo subtração
de armas e uniformes. No momento da retirada,
Esqueceram
os israelenses, mais ainda que essa ação bárbara, embora não fosse
aceita, mas poderia até ser feita se as tropas brasileiras fossem
consideradas inimigas, mas, pelo contrário; éramos acima de tudo uma
tropa de paz.
O
Monsenhor João Pheeney de Camargo e Silva convenceu o Comandante a
desenterrar o Cabo Ilha para conduzi-lo ao Brasil, sem pensarem nas
conseqüências que essa atitude poderia causar, principalmente porque não
sabiam quais seria a reação das autoridades israelenses em Port Ashdod.
Na
Itália, o navio Transporte de tropa G-22 Soares Dutra que estaria
pronto para desembarcar um carregamento de café, recebeu ordens de
rumar para Port Said, no Egito, onde recolheriam tropas brasileiras que
estavam deixando a missão Suez em função da guerra que acabara de
eclodir naquela região.
Ao
chegarem, foram recebidos com metralhadoras antiaérea e a ordem de
blakc-out total, não podendo ser aceso nem um cigarro, se quer.
Os
homens de bordo, com exceção da tripulação de comando eram civis da
Marinha Mercante que ocupavam a embarcação, apenas para carregar e
descarregar o café; nunca tinham penetrado em zona de guerra e nem
passado por tais situações. Foi muito difícil para o Comandante do
Navio, manter a calma da tripulação e ao mesmo tempo tomar todas as
precauções em virtude de estar penetrando numa zona de guerra, onde
tudo poderia acontecer.
Em
Port Said receberam outra ordem, dessa vez para rumar para um porto de
Israel que não existia nos mapas, mas que seguindo as coordenada
fornecida, acabaram chegando no moderno Port Asdoid, (comentar
sobre o episódio de Porto Asdoid)
onde parte da tropa esperava ansiosa a chegada do navio como se espera
um milagre que os levaria são e salvos para sua pátria. Aquele
importante porto israelense, desconhecido dos egípcios e de todo o
mundo, poderia ser descoberto e a qualquer momento bombardeado e foi por
isso que logo que o navio aportou, todos queriam entrar de uma só vez,
por uma ponte suspensa que só cabia uma fila única. Houve quem
beijasse o chão daquela embarcação, como se estivesse beijando uma
parte de sua pátria, esquecendo que tanto o porto como o navio eram
alvos de ataque, tanto por parte dos egípcios como dos israelenses. Com
eles viajaram os restos mortais do herói brasileiro que graças às
autoridades israelenses, puderam ser colocados em caixão de alumínio,
sendo parcialmente embalsamados, mas mesmo assim o cheiro era insuportável.
Vejam
bem caros, no 1º Contingente morre um soldado com infecção na
garganta e o Comandante da tropa, Cel Iracilio Ivo de Figueiredo Pessoa,
após consultar o Comandante do Navio, Capitão de Mar-e-Guerra Arnoudo
Toscano e receber dele a autorização para optar pelo sepultamento no
oceano ou o translado para o Brasil, resolve joga-lo ao mar com todas as
honras militares. No último Contingente, o Comandante Ten. Cel. Wilson
Figueiroa Nepomuceno da Silva resolve desenterrar o Cabo que falecera vítima
de um tiro mortal, durante a Guerra dos Seis Dias, transporta-lo de
caminhão até Port Asdoid e de lá até o Brasil (16.000 km ou 30 dias
de viagem). São dois pesos e duas medidas; são atitudes partidas de
pessoas completamente diferentes, acontecidas em dois períodos
distintos em situações completamente adversas. Será que o Cel
Iracilio ao jogar no mar o Soldado João pensou que seus familiares
fossem ficar orgulhosos de ter um filho sepultado no Mar Mediterrâneo;
mar que banha países de primeiro mundo, enrolado na bandeira
brasileira, com honras militares e com cerimônia religiosa ? Será que
o Ten. Cel. Nepomuceno estava certo quando autorizou a exumação do
corpo do Cabo Ilha e o seu translado para o Brasil, evitando que o seu
comandado ficasse sepultado numa terra de fanáticos, onde não se
respeitam acordos internacionais e mata-se um "Capacete Azul"
que ali estava a serviço da Paz Talvez na época eu pensasse diferente,
mas hoje como pai eu tenho um conceito formado a respeito que não foi
influenciado, nem pela admiração que tenho pelo Comandante Iracilio e
nem pelas informações negativas que me chegaram sobre o comando do então
Ten. Cel. Nepomuceno. Gostaria de deixar para vocês, esse julgamento.
Eu
fiquei prestando atenção na conversa de dois integrantes do 20º
Contingente que participaram da Guerra dos Seis Dias, mais
especificamente do comboio que transportou todo o pessoal para Port
Asdoido, abandonando o Campo Brasil, por ordem de Gamal Abdel Nascer,
Presidente do Egito. Embora tivessem participado do mesmo comboio, um
viajou em um caminhão e o outro, em outro; o fato é que riam bastante
e ria mais o que não participou do episódio. Foi mais ou menos assim a
história contada:
-
Você participou daquela retirada, naquele comboio guiado por carro
semi-blindado israelense ?
-
Claro que participei !
-
Você se lembra do Soldado fulano de tal ?
-
Lembro sim;
-
Você lembra que ele apavorado, em meio à guerra e sabendo que teria
que atravessar o deserto, local mais perigoso, se embriagou para nada
ver, a ponto de ficar como um morto, lembra ?
-
Não, não lembro.
-
Você lembra que durante a viagem, tivemos que parar inúmeras vezes,
porque encontrávamos com grupos de artilharia que atiravam contra o
comboio, pensando se tratar de soldados israelenses, lembra?
-
Claro que lembro.
-
Pois bem, o Soldado embriagado viajou no mesmo caminhão que eu e quando
vinham tiros de determinados pontos, o carro guia, tocava uma sirene e nós
tínhamos que pular do caminhão e deitar na areia; só que não seria
justo deixar o fulano de tal, no caminhão e como um minuto de atraso
poderia ser fatal, um soldado pegava nas pernas e outro nos braços e o
jogavam na areia, de uma altura aproximada de um metro e meio. Após o
ataque do carro guias, contra os atiradores do deserto, a viagem
prosseguia e ai nós colocávamos o Soldado de volta no caminhão, dessa
vez de maneira mais delicada.
Outro
foco de atiradores, novamente a sirene e lá se vai o infeliz ser jogado
do caminhão. Essa cena se repetiu, pelo menos umas dez vezes, só que
ninguém explicou em que estado ficaram às costas e a coluna do
Soldado. Se ele soubesse o que iria passar, certamente não teria bebido
tanto.
A
cada regresso de um navio ou de um avião, trazendo o contingente que
terminou seu período, aconteciam pelo menos, umas 200 desilusões; eram
os soldados que após realizarem com sucesso, uma importante missão
internacional, cheios de conhecimentos adquiridos ao longo de 14 meses
vividos, numa condição sub humana, rodeados de perigos e sobressaltos,
foram dispensados do Exército como se fossem "Capacetes Azuis
descartáveis". Os mandatários da nação, não tiveram a visão
do Presidente Juscelino que, logo após a partida do primeiro
contingente e sem ter conhecimento das dificuldades e dos perigos da
missão, criou uma Lei considerando o trabalho desses jovens
brasileiros, como de "Serviço Relevante".
Dispensar
homens, cuja experiência era superior a de qualquer soldado que tenha
servido no Brasil e recrutar outros e até promovê-los a Cabo e a
Sargento, é uma incoerência, isto porque, os soldados participantes do
Batalhão Suez, já eram Reservista no momento da sua seleção; já
tinham cumprido o tempo que a Lei exige, portanto, tem mais esse fator a
seu favor para serem colocados em condições superiores e não serem
jogados na rua, sem que se tenha feito, inclusive, um exame para saberem
em que estado retornaram de tão dura missão. Esses jovens que, durante
dez anos mantiveram a fronteira egípcia, sem conflitos, convivendo
diuturnamente num teatro de guerra, estariam aptos, sem sombras de dúvidas
a participarem de operações especiais, como o policiamento das nossas
fronteiras, evitando a evasão de divisas, de riquezas e dificultando o
tráfego de drogas, responsáveis pelas mortes dos nossos filhos e pelo
enraizamento, de maneira incontrolada, da violência urbana.
Prestem
atenção a esse fato de nem se quer ter feito um exame para saberem
como estavam nossos heróis após o retorno. Vou mostrar-lhes algo no
final
Por
volta de 1985, li um artigo em um dos números da revista "Seleções",
que mostrava o valor de um coreano que sobreviveu a um naufrágio,
permanecendo 116 dias perdido no oceano, dentro de um barco salva-vidas.
O navio em que viajava e onde trabalhava como cozinheiro, sofreu
bombardeio aéreo, não havendo nenhum sobrevivente que resistisse a
esse longo período de sofrimento, embora a maioria tivesse lançado mão
do mesmo tipo de equipamento. Após
os tratamentos a que fora submetido e a sua total recuperação, foi
aproveitado pelas autoridades navais para instruir o pessoal de marinha
sobre sobrevivência no mar.
A
Sra. Rut Diamint, Coordenadora de Assuntos de Missões de Paz do Ministério
da Defesa da Argentina, durante sua palestra no 1o Encontro da Paz,
contou-nos que naquele país existe uma escola de Forças de Paz, onde
os ex integrantes transmitem para os novos candidatos, toda a experiência
adquirida, na missão para a qual tenham sido designados.
Quando terminou a missão do Batalhão Suez, eram aproximadamente 5.000 soldados e cabos; hoje com mais de dez Operações de Paz com participação brasileira, devem estar perambulando pelas ruas desse nosso querido Brasil, mais de 8.000 homens que expuseram suas vidas na sagrada missão de promover a paz.
Houve
muito interesse para que não fôssemos equiparados aos Febianos e houve
até quem dissesse no Congresso Nacional que a Missão Suez, foi uma página
negra na história do Brasil.
Quando
Presidente da Associação, fiz no Instituto de física da USP o 1º
Encontro da Paz quando contei com autoridades civis e militares, do
Brasil e do exterior e no final das palestras, Roberto Conde, ex
integrante do 19º Contingente do Batalhão Suez, presente ao plenário,
perguntou sobre o reconhecimento da Missão Suez, sobre uma possível
equiparação com o pessoal da FEB ou mesmo um aparo no tocante a saúde
e por algum momento houve um silêncio e em seguida o General de Brigada
Newton Bonumá dos Santos, ex Comandante da Operação de Observadores
da ONU na Bósnia, informou que todos os soldados que participaram de
Operações de paz da ONU, são voluntários e voluntário não tem
direito a nada e nem mesmo de reclamar.
Voluntários
meus caros Tenente, meus caros Sargentos somos todos nós, desde o mais
simples operário ao Presidente da República e mesmo como voluntários,
os trabalhadores, militares, empresários e dirigentes políticos são
amparados por Lei, até mesmo aqueles que foram destruir cidades,
dizimar famílias, matar e mutilar seus semelhantes.
O
Dr. Roberto Goidonich, Diplomata representante do Departamento de
Organismos Internacionais do Itamaraty, durante a sua palestra nesse
mesmo evento, informou que, embora a ONU tenha exigido que seus
integrantes fossem voluntários, interpôs recurso junto a Corte
Internacional de Justiça, pedindo indenização para um militar que foi
ferido e posteriormente morto em missão no Oriente Médio; o que demonstra
que ser voluntário não significa estar à margem de qualquer
benefício já concedido a outros irmãos de bandeira.
PREMIO
NOBEL DA PAZ 1988
Os
brasileiros desconhecem esse prêmio trazido para o Brasil pelos
Soldados da Paz, porque não houve interesse em divulga-lo, mas nós
trouxemos aqui o Sr. Edmundo Manzini, Ex Sargento do Exercito e
integrante do Batalhão Suez para que ele pudesse mostrar a vocês a
medalha e o diploma do Premio Nobel da Paz que em 28 de setembro de
1988, o Comitê Nobel do Parlamento Norueguês, outorgou às Forças de
Paz das nações Unidas de 1948, até aquela data. Sentimos o descaso
para com esses heróis e lamentamos que esse marco importante da história
do Brasil, não conste das nossas enciclopédias e dos livros escolares.
O
importante é que o Exército Brasileiro com a Missão Suez que durou de
janeiro de 1957 a junho de 1967 e a Força Aérea Brasileira com o
Batalhão Congo que durou de 1960 a 1964, trouxeram orgulhosamente para
o Brasil o mais cobiçado prêmio internacional de todos os tempos – O
Premio Nobel da Paz 1988.
Ao
receber a notícia, Javier Perez de Cuellar, 5º Secretário Geral da
ONU, declarou que:
-"Para
manter a calma diante da provocação, para manter a serenidade ante o
ataque, as tropas das Nações Unidas, desde o soldado raso até o seu
comandante, devem possuir uma coragem muito especial; uma coragem que não
se acha comumente, na maioria das pessoas. As tropas da nossa Nações
Unidas tem sido posta à prova, emergindo triunfante".
Na
solenidade de entrega do prêmio em Oslo, Noruega, Javier Perez,
proferiu o seguinte discurso:
"Sua
Majestade, Suas Altezas Reais. Sr. Presidente, autoridades presente,
minhas senhoras e meus senhores. Eu gostaria de agradecer ao Sr. Diretor
e aos outros membros do Comitê do Nobel, pelo prêmio que hoje recebi
em nome das Forças de Paz das Nações Unidas. Gostaria também de
homenagear a memória do nosso amigo Nobel, o visionário escandinavo.
Sua dedicação ao desenvolvimento da paz, continua no prêmio que ele tão
generosamente criou. É um prazer especial, receber esse prêmio na
Noruega que tem dado tanto apoio às Nações Unidas e que forneceu a
Organização, seu primeiro Secretário Geral. A escolha das Forças de
Paz das Nações Unidas para o Prêmio Nobel da Paz, é o reconhecimento
de uma idéia muito original e poderosa, e ha uma homenagem brilhante àqueles
que a tornaram realidade. A técnica conhecida como preservação da
paz, utiliza soldados como instrumentos de paz, ao invés de
instrumentos de guerra. Ela introduz na esfera militar o princípio da não
violência; ela nos dá uma alternativa honrosa ao conflito e um meio de
reduzir a tensão e a luta, de forma que uma solução possa ser
procurada através de negociação. Nunca antes na história, as forças
militares tinham sido empregadas internacionalmente, sem os objetivos de
ganhar a guerra, dominar, servir aos interesses do poder ou de um grupo
de poderes e sim para impedir conflitos entre povos. As Forças de Paz
simbolizam isso, elas atendem ao desejo de paz da comunidade e
representam a expressão imparcial e prática desse desejo. A escolha
das Forças de Paz das Nações Unidas para o prêmio Nobel da Paz 1988,
ilumina a esperança e reforça a promessa contida nesse conceito
extraordinário. Muito Obrigado".
Eu deixei para o fim uma crônica escrita pelo colega jornalista Adhemar Vargas de Freitas do 13º Contingente porque sei que vai me tocar muito e certamente a emoção vai tomar conta de mim como já aconteceu inclusive aqui no dia 09 de outubro do último. Se acontecer, me desculpem; eu sei que um homem não chora, mas...
UMA CRÔNICA UM TANTO SAUDOSA, DE
TEMPOS DE PAZ E DE GUERRA.
De
repente, a areia, o sol terrível, a terra estranha. Porto Alegre era tão
diferente, os campos do Rio Grande eram tão verdes... E agora essa
areia amarela, esse sol escaldante, esses costumes diferentes.
"Habib","
Sabah-el-her", "sabah-nur","quif-hálac", sons
tão estranhos naquela língua displicente e rascante; e apesar disso, tão
comunicativa, tão suave nos seus agás aspirados, tão calorosa... Tudo
tão feio e tão maravilhoso ao mesmo tempo. Caminhões brancos correm
por estradas asfaltadas que cortam o semideserto onde, com métodos
rudimentares, os árabes cultivam o trigo com que farão o seu "aeish"
de cada dia.
Três
meses é tempo suficiente para um brasileiro criar amor por uma terra árida
e pobre; mesmo quando Allah"esquece de mandar a chuva anual que faz
a esperança do beduíno, improvisado em agricultor.
*Três
meses é o suficiente para um brasileiro fazer amizade com um árabe de
pele queimada do sol e de fala chorosa; mesmo quando desconfia do preço
que ele pede por uma lanterna "made in China" ou por uma
corrida de taxi até Gaza. No fim tudo se ajeita, o brasileiro compra a
lanterna e vai a Gaza de Mercedes Benz último tipo. Baratinho, trinta
Piastras. (L$ 0,30)
Mas
três meses é mais do que suficiente para se sentir saudade de casa ,
da gente brasileira, da rua da praia; ainda mais quando se está de
patrulha e as pernas começam a doer, depois dos primeiros cinco quilômetros
de caminhada sobre as areias finas. Em noite de lua, até que é bonita
a fronteira árabe-israelense com as areias brilhando sob o luar.
Coturnos pesados sobre a areia fofa... e a saudade chegando de fininho,
aumentando cada vez mais com o cansaço. De vez em quando a dor espreme
uma lágrima indesejada. Homem não chora - a gente se lembra que é
mesmo, homem não chora; sempre se ouvia dizer isso. Não tem importância,
ninguém vai notar. Um Sargento, um Cabo e dos Soldados caminhando
lentamente sobre a areia, dentro da noite; ninguém vai notar... A lágrima
fica por um instante no canto do olho... depois desce rapidamente pela
face e vai se consumir na areia seca; portanto, ninguém notou.
Era
fácil ir a Gaza, quarenta e cinco minutos, estrada boa, gente simpática
que falava uma mistura de árabe português e inglês, mas depois a
passividade dos "habibs" foi substituída por armas de fogo e
ninhos de metralhadoras.
Confusão:
árabes! judeus! Guerra... Guerra não se descreve, se sofre ou se faz,
mas não se consegue contar.
Evacuar
para Gaza. Era
a última viagem para Gaza, sem as despedidas que tiveram os outros
contingentes; sem companheiros acenando, sem saudades... É muito triste
uma despedida sem saudades.
Agora
finalmente estamos no mar, longe da Guerra, longe das cenas que não se
quer descrever nem se quer relembrar. É melhor imaginar que nada
aconteceu, que tudo correu normalmente. Os três meses valeram por um
ano e pronto. O Soares
Dutra balançando no azul do Mediterrâneo, o assobio dos alto-falantes
dando ordens; depois a característica tão familiar:
-"Golfo
22 chamando fulano de tal ao portaló" e o navio vai deslizando no
mar azul, de porto a porto rumo ao Brasil. Ainda faltam 20 dias...só
faltam nove dias. Lagoa dos patos. Farol de Itapuã.
Uma
enorme dor de alegria no coração da mãe que espera e responde à
ansiedade doce e terrível do coração do Soldado.
Uma
dor maior, triste e sem consolo tomou conta do coração de outra mãe.
Seu filho não vinha nem rindo, nem chorando a bordo do Soares Dutra; de
fato ele já tinha chegado um pouco antes. No navio vinha apenas o seu
corpo.
A
banda saudou a chegada dos pracinhas tocando uma marcha que diz:
"Por mais terras que eu percorra, não permita Deus que eu morra,
sem que volte para lá"...Logo depois a mesma banda cadenciou a
tristeza com uma marcha fúnebre. Enquanto a rua da Praia aplaudia o
desfile com palmas, lágrimas e sorrisos, um caixão castanho coberto
pela Bandeira do Brasil, seguia para o salão nobre do Quartel General.
Honra
a um guerreiro que repousa; paz afinal para quem morreu a serviço da
paz.
"Salan
iá húi"