UNEF - OBITUÁRIO
GENERAL INDAR JIT RIKHYE - Falecido em 21 de maio de 2007, aos 86 anos.

Um encontro daqueles não seria facilmente esquecido. O homenzinho careca, de
aparência frágil, usando um dhoti-túnica de algodão cru e apoiado num cajado,
olhou, através de suas grossas lentes e sorriu, para o jovem estudante de 17
anos, mudo de vergonha. "Este paspalhão quer entrar para o exercito", dizia seu
pai. Mahatma Ghandi não perdeu a deixa: "Mas isso é ótimo!", disse ele.
"Precisamos de jovens oficiais, de boa
educação, no exercito da Índia Livre!"

Indar Jit Rikhye não recebeu o esperado sermão pacifista. Tal sermão não faria
nenhuma diferença para aquele jovem cuja mente era povoada por desfiles
militares, historias de guerras, e dos laços de sua própria família com o Marajá
Ranjit Singh, "O Leão de Punjab".
Porém como
todo o sábio, é provável que Ghandi tenha previsto
que a carreira militar do jovem Indar Jit tivesse tudo a ver com a Paz.
Seu mais
famoso teste aconteceu em Gaza,em 1967, pouco antes de
estourar a Guerra dos Seis Dias, entre o Egito e Israel. General Rikhye,
então comandante da Força de Emergência das Nações Unidas, Foi instado pelos
egípcios a retirar suas tropas da ADL, (Linha de Demarcação do Armistício
entre Israel e o Egito) zona de conflito onde os 'guardiões da paz'
mantinham a tranqüilidade por mais de dez anos. Imperturbável, ele tentou
ganhar tempo; e quando Israel lançou seu ataque mortal sobre o Egito, os
soldados da paz foram atingidos pelo fogo cruzado. Muitos morreram; o QG da
UNEF foi destruído pelo bombardeio incessante; mesmo com os pneus dos jipes
militares metralhados, e raspando o aro das rodas contra o asfalto,
conseguiram se refugiar na praia de Gaza, onde pediram socorro pelo rádio.
"Não estamos lutando contra nenhum dos lados" General Rikhye relatou a Nova
York, via Chipre, "mas estamos sob fogo cerrado." Vida de boina-azul.
Ele conhecia
bem o Oriente Médio, onde sua carreira de
boina-azul havia iniciado, em 1956. Enviado, na ocasião, pelo então Premier
Jawaharlal Nehru, num rompante de entusiasmo para provar as credenciais de
neutralidade da recém independente Nação Indiana. Aquela foi a primeira
força de paz da ONU (UNEF1), estacionada ao longo do Canal de Suez. O
General Rikhye, já naquela época um soldado com muita tarimba, adquirida em
relevantes serviços prestados ao exército indiano c ao britânico, estranhou
a forma um tanto confusa de comunicação entre os Oficiais de Ligação das
forças de paz, e seus próprios governos. No ano seguinte, ao ser nomeado
Chefe do Estado Maior, tratou de por a casa em ordem: a partir daquela data
todos os Contingentes da UNEF passaram a reportar-se diretamente a ele.
Outros
problemas eram menos tratáveis. O principal deles era o
próprio Oriente Médio. Este não foi seu compromisso mais difícil como
mantenedor da paz: ele escolheu o conflito do Congo, quando, em 1960, a
força de paz da ONU foi obrigada a reconhecer uma autoridade 'de facto'
(imposta) ao mesmo tempo ilegítima e assassina. Mas era no Oriente Médio que
antigas rivalidades enterravam qualquer esperança de paz. O General
pessoalmente nunca acreditou vê-la instalada naquela região.
Em algumas
ocasiões, os boinas-azuis chegaram a se ressentir de
desempenhar suas missões. O General Rikhye, um homem quase inabalável, ficou
chocado, ao ver seu avião ser atacado, e quase forçado a aterrissar, por
jatos israelenses, em 1967. O General indiano sentiu-se novamente
ultrajado
em 1982, quando visitou as tropas da ONU pessimamente instaladas no sul do
Líbano, após a invasão israelense. Lá encontrou seus homens espremidos entre
bloqueios de estrada levantados por soldados israelenses de um lado e
guerrilheiros da OLP do outro, "tal qual salame dentro dum sanduíche", disse
ele.
"Todo
soldado- refletiu ele em trabalho sobre a manutenção da
paz, intitulado "The Thin Blue Line" de 1974- teria dificuldade de lidar com
o sentimento de ser atacado e não poder revidar" Ele próprio sentiu esta
dificuldade. Porém a missão de paz não tem nada a ver com demonstração de
força, e sim com dar tempo, com o consentimento das partes conflitantes,
para a diplomacia poder funcionar. Esta função de mediador emprega em vez de
fuzis automáticos, o uso de outros tipos de habilidades tais como: ganhar
confiança dos contendores, o não envolvimento ao ponto de total isenção,
além de muita táctica e paciência. A ONU politicamente dividida, e enrolada
na burocracia, nunca chegou a ser uma organização ideal para este tipo de
missão. Contudo, o General Rikhye sabia que, apesar destes percalços a ONU
era tudo o que restava ao mundo.
O General Rikhye trabalhou também, como mediador na Indonésia, e
em Cuba (NT: durante a Crise dos Mísseis), e no Iêmen. Antes de se aposentar
foi Conselheiro Militar de dois Secretários Gerais. Após uma longa folha
de
serviço prestado as Nações Unidas, estabeleceu-se em Nova York, onde fundou
a "International Peace Academy". Militares e diplomatas tem sido enviados a
Academia para aprender a resolver conflitos simulados, desde a primeira
explosão de violência, até o envio de Resoluções para o Conselho de
Segurança, e a imposição de cessar-fogo. O ensino mais importante, no ponto
de vista do General Rikhye, ministrado as futuras delegações de paz a serem
enviados para delicadas missões em determinadas áreas de conflito, versava
sobre o sobre o histórico, e emoções escondidas por trás dos conflitos, em
si. O prévio conhecimento da situação é a melhor forma de entrar em ação.
Confraternizando com Zia
Ele tinha
suas próprias razões para tornar-se um dos melhores
Boina-Azuis do mundo: nasceu em Lahore no Estado de Punjab, entrou para o
Exercito da Índia em 1941(NT: Lahore pertencia à Índia, antes da divisão de
seu território em dois em 1947: Índia secular e Paquistão muçulmano), e
serviu no Esquadrão Muçulmano. Embora fosse hindu, ele sempre gostou da
companhia dos muçulmanos. Após a divisão territorial foi instado a declarar
à qual país desejaria servir; ele escolheu o Paquistão. Porém por ser hindu,
foi repatriado para a Índia.
Ele voltou a Lahore em 1982, a convite do então Presidente do
Paquistão Zia ul- Haq, seu antigo subordinado; o General Rikhye promoveu-o a
Tenente, apesar da suspeita dos ingleses. Ambos se confraternizaram, apesar
das relações nada amistosas entre ambos paises.

No crepúsculo de sua vivencia tranqüila na América, o General Rikhye sempre expressou seu desejo de que o Paquistão e a Índia pudessem resolver suas pendengas e unir seus exércitos. Juntos eles poderiam dar um grande exemplo e convívio, e uma enorme contribuição para a manutenção da paz mundial. Na verdade, talvez tenha sido exatamente este o exército que Gandhi tinha em mente, ao sorrir para o jovem estudante de 17 anos, e dar-lhe a missão de manter a paz mundial.