- (1.) O armistício com o Egito não mais existia e não
podia ser restaurado.
- (2.) Como conseqüência, as linhas do armistício ficavam
desprovidas de validade.
(3.) Não havia qualquer disputa entre o povo de Israel e o povo do Egito.
(4.) Não queremos que nossas relações com o Egito permaneçam neste estado
anárquico e estamos dispostos a empreender negociações diretas, sem
precondições, de parte a parte.
- (5.) Esperamos que todos os povos a favor da paz apóiem
nossa intenção de negociações e, mesmo que estejam despreparados para a
obtenção de uma paz permanente, que observem os acordos de armistícios. É o
que Israel fará.
- (6.) Sob nenhum pretexto Israel concordará com a
existência de forças militares estrangeiras em seu território.
- (7.) Israel não lutará contra nenhum país árabe, nem
mesmo contra o Egito, a não ser que seja atacado.
A guerra do Suez durou apenas sete dias, tendo culminado com a retirada do
Egito das forças militares de Israel, da França e da Inglaterra no início de
janeiro de 1957.
-
- Como resultado do conflito, o ditador Nasser tornou-se o
herói do mundo árabe, passando a promover o conceito do pan-arabismo.
Expulsou 25 mil judeus do Egito e confiscou suas propriedades, encarcerou
sem julgamento outros mil judeus, nacionalizou empresas inglesas e francesas
estabelecidas no país, fortaleceu-se no poder e alinhou-se com a União
Soviética, de quem recebeu toneladas de armamentos e centenas de tanques e
aviões de combate destinados a continuar sua luta contra Israel.
Na terça-feira, dia 23 de outubro, a atmosfera em Sèvres entre franceses e
israelenses estava bem mais informal e relaxada, com os primeiros se
esforçando ao máximo para encontrar uma solução satisfatória.
-
- O general Challe, vice-comandante do estado-maior da
França, sugeriu que Israel encenasse um ataque aéreo do Egito contra a
cidade de Beersheva, de modo a justificar o ataque israelense e a
intervenção franco-britânica.
-
- Ben Gurion reagiu de forma rude: "Não posso mentir para o
mundo".
-
- Para amenizar o mal-estar decorrente, o ministro da
defesa francês Bourgès-Manoury ofereceu forças navais e aéreas para proteger
a costa e o espaço aéreo de Israel.
-
- Ben Gurion estava inclinado a aceitar porque lhe
interessava, sob todos os aspectos, uma sólida aliança com a França.
-
- Mais uma vez, o lado pragmático coube a Moshe Dayan.
-
- Uma elite de pára-quedistas israelenses ocuparia o
estratégico Passo de Mitla, bem ao sul do deserto do Sinai, a cerca de
quinze quilômetros do canal de Suez, ao mesmo tempo em que uma brigada de
tanques se movimentaria naquela direção.
-
- Seria um ato explícito de guerra e um pretexto aceitável
para uma intervenção franco-britânica, decorridas 36 horas daquele ataque.
-
- Ben Gurion achou conveniente que Pineau embarcasse para
Londres com aquela proposta, pois estava certo de que, se ele ali chegasse
de mãos vazias, o encontro de Sèvres resultaria em absoluto fracasso.
Naquela noite, na capital da Grã-Bretanha, Lloyd e Pineau encontraram-se com
Anthony Eden e se trancaram numa reunião, sem testemunhas, que demorou
longas horas.
-
- O ministro Anthony Nutting, membro do gabinete, revelou
anos mais tarde que, conversando com Lloyd, no dia seguinte, soube que Eden
dissera a Pineau que sob hipótese alguma deixaria Israel "no sereno" e que
um ataque no Sinai contaria com seu apoio.
- Agastado, Lloyd preferiu não voltar a Sèvres e indicou
para substituí-lo Patrick Dean, seu sub-secretário.
Às seis horas da manhã do dia 24 de outubro, Dean foi recebido por Anthony
Eden, que lhe explicou a dimensão através da qual Nasser prejudicava os
interesses do país, no Oriente Médio, e enfatizou que a Inglaterra só se
mobilizaria se, de fato, Israel atacasse no Sinai. Dean chegou a Sèvres sob
segredo, naquele mesmo dia.
-
- Nesse terceiro dia dos encontros, Ben Gurion, após longa
reflexão solitária, finalmente decidiu engajar as forças israelenses no
combate, insistindo, porém, em obter as mais firmes garantias de que a força
aérea egípcia seria neutralizada.
-
- Seu objetivo primordial, conforme escreveu em suas
memórias, era o afastamento definitivo de Nasser: "Tratava-se de uma
oportunidade única. Duas nações, longe de serem pequenas, tentariam a
derrubada de Nasser, e nós não ficaríamos sozinhos, na medida em que ele
ficava cada vez mais forte e poderia obter a adesão de todos os
países árabes".
-
- Ainda cedo, no jardim da vila, chamou Peres e Dayan e
pediu que este delineasse o plano de ocupação do Passo de Mitla, conforme
sua sugestão.
-
- Como não havia papel disponível, Peres pegou o verso do
invólucro laminado de um maço de cigarros e nele Dayan traçou um mapa
rudimentar do Sinai, detalhando os procedimentos que implementaria.
Ben Gurion, então, tirou um papel do bolso, que continha uma enorme lista de
perguntas que formulou a Dayan.
-
- Queria todos os pormenores sobre quando, como e onde a
ação seria realizada. Às três da tarde, Pineau regressou de Londres e a
discussão foi retomada.
-
- O chanceler francês informou que Eden estava de acordo
com uma agenda de seis itens, na linha anteriormente proposta por Dayan.
-
- Às quatro e meia da tarde, Patrick Dean chegou a Sèvres e
as conversas bilaterais tornaram-se de imediato trilaterais.
-
- Ben Gurion acrescentou mais um ponto: parte alguma
obstaria a ocupação israelense do estreito de Tirã, pois este representava
para Israel o mesmo que o canal de Suez significava para a França e a
Inglaterra.
-
- Dean quis saber se Israel emitiria uma declaração de
guerra formal contra o Egito. Ben Gurion respondeu que as violações do
armistício de Rodes (celebrado em 1949) por parte do Egito eram tão
freqüentes que tornariam supérflua uma declaração de guerra.
-
- Quando Dean pediu a Dayan que lhe exibisse o plano do
ataque a Mitla, Dayan limitou-se a lhe mostrar o papel do maço de cigarros,
esquivando-se de expor qualquer segredo militar.
-
- Em seguida, Ben Gurion sugeriu que fosse redigido e
assinado um protocolo sobre a reunião, o que foi feito em francês, então o
idioma da diplomacia internacional.
Nos preparativos para a guerra, do lado francês foram mobilizados 34 mil
homens e 30 navios de guerra. Do lado inglês, 45 mil homens e 200 navios de
guerra. O plano consistia em ocupar a localidade de Port Said para depois
avançar na direção do Cairo.
-
- A operação foi codificada como Mosqueteiro, em alusão ao
romance "Os Três Mosqueteiros", de Alexandre Dumas. No dia 29 de outubro de
1956, o ministério das relações exteriores de Israel emitiu uma declaração
para a comunidade internacional, na qual dizia: "Israel tomou as medidas
necessárias para destruir as bases dos fedayn na Península do Sinai.
- Essas unidades, organizadas há dois anos pelo governo
egípcio, têm cometido atos de terror, assassinatos indiscriminados, colocado
minas terrestres e empreendido atos de sabotagem.
O coronel Nasser vem declarando de forma persistente que, apesar dos artigos
previstos no tratado de armistício, seu país se encontra em permanente
estado de guerra contra Israel".
-
- Às duas e quinze da manhã daquele mesmo dia tinha sido
iniciada a Operação Kadesh, destinada à ocupação do Passo de Mitla, enquanto
o embaixador Abba Eban viria declarar, à tarde, perante a Assembléia Geral
das Nações Unidas: "No decorrer dos últimos seis anos, registramos 1.339
casos de confrontação militar provocados pelo Egito, 435 ocorrências de
incursões terroristas em nosso território e 172 atos de sabotagem. Como
resultado das hostilidades egípcias dentro do Estado de Israel, 364
israelenses foram mortos e 101 feridos".
Naquele dia, dezesseis aviões israelenses do tipo Douglas C-47 decolaram
rumo ao sul, voando o mais baixo possível, protegidos por dez jatos de
combate.
-
- Às cinco da manhã, saltaram sobre Mitla os primeiros 395
pára-quedistas, onde se postaram à espera da brigada de tanques comandada
pelo general Ariel Sharon, que cruzava o Sinai.
-
- Em seguida, enormes aviões de carga lançaram sobre Mitla,
com pára-quedas, jipes, armas e suprimentos.
-
- Ao mesmo tempo, três destróieres franceses fundearam na
costa israelense, protegendo Tel Aviv e Haifa. No dia 30 de outubro, França
e Inglaterra emitiram um ultimato, com prazo até as quatro e meia da manhã
do dia seguinte, para que os israelenses detivessem suas forças terrestres
a, no máximo, cinco quilômetros do canal de Suez.
-
- Conforme o plano, Israel aceitou o ultimato e, conforme
esperado, o Egito o rejeitou, na medida em que contra-atacava com redobrado
empenho.
-
- Na noite de 31 de outubro para 1o de novembro, a armada
de invasão franco-britânica partiu da ilha de Malta e da Argélia. Antes que
o prazo do ultimato expirasse, começaram as batalhas navais.
-
- A fragata egípcia Ibrahim Al-Awal, que disparava contra
Haifa, foi aprisionada e, mais tarde, incorporada à marinha israelense.
-
- O cruzador inglês Newfoundland afundou a corveta egípcia
Damietta nas imediações do canal de Suez.
-
- De madrugada, aviões ingleses do tipo Canberra e Vickers
decolaram de Malta e da ilha de Chipre com a missão de bombardear as bases
militares aéreas do Egito, no que foram bem sucedidos, ao mesmo tempo em que
as forças navais impediam que navios egípcios bloqueassem a entrada do
canal.
-
- No dia 2 de novembro o Egito concordou com um cessar-fogo
proposto pelas Nações Unidas. Instigado pela França e Inglaterra, Israel o
rejeitou porque, se aceitasse, desmoronaria todo o plano de invasão.
-
- Na recusa, Ben Gurion apresentou uma série de condições
que sabia que não seriam acolhidas. Seguindo o plano da Operação
Mosqueteiro, pára-quedistas franceses e ingleses saltaram sobre o território
egípcio a pouco menos de dois quilômetros de Port Said.
-
- A vitória dos invasores estava assegurada, enquanto
Israel reforçava suas posições no
deserto do Sinai.
Na arena política internacional, as coisas ferviam.
O líder russo Nikolai Bulganin mandava mensagens frenéticas para Londres,
Paris e Tel Aviv, formulando as mais sinistras ameaças e dizendo, inclusive,
que a ação em Suez estava colocando o mundo à beira de uma terceira guerra
mundial.
-
- Entretanto, tudo não passava de blefe. Os soviéticos
estavam excitados com o desenrolar dos acontecimentos porque estes
colocariam Moscou como atento aliado dos países árabes e distrairia a
atenção mundial para a brutal repressão cometida, semanas antes, durante a
revolução na Hungria.
- Eis o trecho de uma carta enviada por Bulganin a Ben
Gurion: "Nós apelamos ao senhor, ao seu parlamento e ao povo trabalhador do
Estado de Israel que parem com a agressão, que parem com o derramamento de
sangue, que retirem suas tropas do território egípcio. Instruímos nosso
embaixador em Tel Aviv a regressar imediatamente a Moscou. Esperamos que o
governo de Israel entenda bem e considere esta advertência".
-
- Final da resposta de Ben Gurion: "Para concluir, estou
constrangido, surpreso e decepcionado com a ameaça à existência de Israel
contida em sua carta.
-
- Nossa política externa é ditada por nossas necessidades
essenciais e por nosso desejo de paz. Assim, não será decidida por nenhum
fator externo.
-
- Na qualidade de estado soberano, unimo-nos a todos os
povos amantes da paz e lutamos por justiça em nossa região e no mundo
inteiro".
-
- Os protestos soviéticos foram seguidos por objeções dos
Estados Unidos, porém a sério.
-
- O presidente Eisenhower, inconformado por não ter sido
avisado dos planos de invasão, começou a pressionar Londres e Paris para que
cessassem suas atividades militares.
-
- As duas potências concordaram depois de asseguradas de
que não haveria obstáculos para a passagem de seus navios pelo canal de
Suez, a partir do ano seguinte, condição não aplicada às embarcações
israelenses.
No dia 7 de novembro, numa carta dirigida a Ben Gurion, o líder americano
escreveu: "É nossa convicção, com máxima prioridade, que a paz deve ser
restaurada e que todas as tropas estrangeiras, exceto as das ONU, sejam
evacuadas do Egito. Em seguida, novos e enérgicos passos precisam ser
tomados no contexto das Nações Unidas para resolver os problemas que deram
origem às presentes dificuldades".
-
- Ben Gurion respondeu: "Sua declaração no sentido de que
uma força das Nações Unidas seja enviada ao Egito, de acordo com a resolução
da Assembléia Geral, é bem-vinda por nós.
-
- Jamais planejamos anexar o deserto do Sinai.
-
- Portanto, tomaremos as necessárias medidas junto às
Nações Unidas no que concerne a criação dessa força internacional e
retiraremos nossas tropas".
-
- A decisão do primeiro-ministro baseava-se nas garantias
que lhe haviam sido dadas pela Casa Branca de que uma força internacional da
ONU (da qual o Brasil participou com o Batalhão Suez), protegeria Israel dos
comandos terroristas e que não haveria problema quanto à liberdade de
navegação pelo estreito de Tirã.
-
- Mesmo assim, apesar do sucesso militar alcançado por
Israel, que ocupou a faixa de Gaza, a maior parte do Sinai e chegou até
Sharm El Sheik, ao sul de Eilat, Ben Gurion estava deprimido por causa das
mortes de 231 militares.
-
- Antes de abandonar o Sinai, incluindo a faixa de Gaza,
ele compareceu perante o parlamento e apresentou uma declaração de sete
pontos estipulados "com absoluta força moral e inabalável determinação",
conforme suas próprias palavras:
- (1.) O armistício com o Egito não mais existia e não
podia ser restaurado.
- (2.) Como conseqüência, as linhas do armistício ficavam
desprovidas de validade.
- (3.) Não havia qualquer disputa entre o povo de Israel e
o povo do Egito.
- (4.) Não queremos que nossas relações com o Egito
permaneçam neste estado anárquico e estamos dispostos a empreender
negociações diretas, sem precondições, de parte a parte.
- (5.) Esperamos que todos os povos a favor da paz apóiem
nossa intenção de negociações e, mesmo que estejam despreparados para a
obtenção de uma paz permanente, que observem os acordos de armistícios. É o
que Israel fará.
- (6.) Sob nenhum pretexto Israel concordará com a
existência de forças militares estrangeiras em seu território.
- (7.) Israel não lutará contra nenhum país árabe, nem
mesmo contra o Egito, a não ser que seja atacado.
A guerra do Suez durou apenas sete dias, tendo culminado com a retirada do
Egito das forças militares de Israel, da França e da Inglaterra no início de
janeiro de 1957.
-
- Como resultado do conflito, o ditador Nasser tornou-se o
herói do mundo árabe, passando a promover o conceito do pan-arabismo.
-
- Expulsou 25 mil judeus do Egito e confiscou suas
propriedades, encarcerou sem julgamento outros mil judeus, nacionalizou
empresas inglesas e francesas estabelecidas no país, fortaleceu-se no poder
e alinhou-se com a União Soviética, de quem recebeu toneladas de armamentos
e centenas de tanques e aviões de combate destinados a continuar sua luta
contra Israel.
Zevi Ghivelder é escritor e jornalista
N.59/dezembro 2007