O Egito de Nasser e a Crise de Suez
Após a comemoração dos cinqüenta anos da Crise de Suez, de 1956, vem
se tornando relevante uma análise da representação de Nasser na imprensa ocidental - em especial a britânica e francesa - pari pasu ao acompanhamento
da construção de sua imagem de grande líder unificador do mundo árabe. Esse artigo propõe esse estudo, através de uma breve análise midiática, baseada
nos jornais da época e declarações de envolvidos, descrevendo o processo da crise.
Introdução
Nasser na capa da revista americana Time de 1958O dia 26 de julho de 1956 marcou para sempre o Ocidente em sua relação com o Oriente, a Guerra
Fria e o papel de Israel no Oriente Médio.Neste dia, discursando a uma multidão entusiasmada na tradicional
cidade de Alexandria, o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser (???? ??? ??????),(na época) de 38 anos, falaria impetuosamente a frase mais
importante de toda a sua vida "O Canal pagará a barragem [de Assuã]! Tomarei o Canal para devolvê-lo ao povo
egípcio".
Era o anúncio estrondoso da nacionalização do Canal de Suez, até então
administrado pela Companhia Do Canal de Suez, controlada majoritariamente por acionistas franceses e britânicos. Enquanto Nasser fazia seu discurso,
comandos do exército egípcio tomavam o escritório da companhia, em Ismailia.
Nacionalizações não eram exatamente uma novidade. Já haviam sido feitas com sucesso em casos como no do transporte londrino (1933), do gás
inglês (1949), da montadora Renault (1944) - para citarmos apenas as mais importantes, nos principais países capitalistas. Embora politicamente
discutível, a nacionalização é relativamente comum e regida pela lei, local ou internacional, que demanda o ressarcimento pelo Estado do investido na
empresa nacionalizada.
Contudo, ainda que legal e administrativamente simples, nacionalizações são eventos políticos de grande magnitude, que colocam em
questão o papel do Estado e o orgulho nacional, gerando fortes oposições e levantando paixões nacionalistas.
A nacionalização do Canal de Suez por Nasser, em 1956, implicou na tomada pelo Estado egípcio de uma empresa anglo-francesa que, muito mais que
mero empreendimento empresarial, era a conseqüência da presença inglesa na região desde 1857, quando da compra das ações egípcias do Canal. Para os
franceses, era a continuação de sua influência no Egito, que remontava à ocupação por Napoleão.
Portanto, mais que uma mera empresa controlada por estrangeiros, a Companhia do Canal de Suez era um dos raros remanescentes ativos de um
antigo passado imperial, a prova da presença das nações britânica e francesa
como global players ainda atuantes já no contexto da bipolaridade da Guerra Fria.
Além disso, geoestrategicamente a Companhia garantia o controle de um dos estreitos economicamente mais relevantes do mundo, por onde fluía o
petróleo do Oriente, abastecendo toda a Europa e EUA. Tal controle resultava numa importante vantagem no contexto da Guerra Fria, além de gerar receitas
consistentes, na época de £35 milhões2, devido ao tráfego marítimo intenso na região.
Na verdade, o acesso a tal montante de receita foi o determinante da nacionalização. Nasser propunha a construção da barragem de Assuã como a
maior obra de infra-estrutura egípcia, capaz de regularizar a agricultura, dobrar a quantidade de terras cultiváveis e aumentar em cerca de dez vezes a
produção de hidroeletricidade, permitindo uma ampla industrialização e modernização da economia egípcia. Assuã era condição para a modernidade
egípcia, meta maior revolução de 1952, que levou o grupo de oficiais comandados por Nasser, os oficiais livres, ao poder.
Inicialmente, Nasser procurou as fontes óbvias de financiamento de uma obra gigantesca como a da barragem: os EUA, Londres, Paris e o Banco
Mundial. A recusa de todos, em grande parte orquestrada pelo então secretário de Estado americano John Foster
Dulles, é que deixava como única opção a concordância com o empréstimo soviético então proposto - portanto, a
uma associação ao bloco comunista na Guerra Fria - ou a nacionalização do canal, único empreendimento do país capaz de, com sua renda,
financiar a construção da barragem.
O uso do Canal era estipulado por um contrato que expiraria apenas em 1968. Nasser adiantou o processo de devolução, aproveitando para se alinhar
ainda mais aos movimentos de resistência ao colonialismo - posição anunciada desde 1955. Além disso, permanecia fora do alinhamento automático com a
URSS, prosseguindo em sua meta de estabelecer uma terceira opção à
binariedade da Guerra Fria, mantendo uma distância equânime das duas superpotências, criando um grupo de países não-alinhados do qual já se
interessavam a Índia e a Iugoslávia.
A Reação Ocidental
Em 1956 a influência da imprensa escrita era suprema entre as mídias: a televisão ainda estava em sua infância e os leitores de jornais eram mais
numerosos hoje, compondo um público variado econômica e socialmente. O mundo era noticiado pelas manchetes dos jornais.
Mais que isso, os jornais mostravam a opinião pública em funcionamento, as diferentes posições geralmente ocupando manchetes
sucessivas, num trabalho duplo de divulgação das notícias e de demonstração
da reação pública à elas.
Quando Nasser nacionalizou o Canal, no corpo da lei da medida já constava, em seu artigo I, a previsão de pagamento imediato aos acionistas
das empresas, num processo de compra obrigatória das ações da empresa, ditado pelo seu valor de mercado, na bolsa de Paris na hora do anúncio. Isso
é significativo: o principal ponto de uma nacionalização, a indenização aos
proprietários, foi perfeitamente coberto por Nasser, sem prejuízo algum para franceses ou ingleses. Além disso, Nasser seguiu garantindo a livre
navegação de embarcações sob qualquer bandeira - menos a israelense, país que o Egito ainda sequer reconhecera.
Isso mostra que qualquer discussão da nacionalização não teria nunca uma base legal ou mesmo econômica: o debate se assentaria sobre o
nacionalismo imperial - ou, melhor ainda, à memória de um passado imperial, presente na população francesa e inglesa, ainda confiantes em sua posição
como potências mundiais após a vitória na II Guerra Mundial.
A Imprensa Inglesa
Inicialmente, houve uma rara concordância entre os trabalhistas e os conservadores: o líder trabalhista Aneurin Bevan classificou a
nacionalização como "simples roubo", acompanhado por Hugh Gaitskell, líder do partido na Câmara dos Comuns, que declarou "não se opor a medidas de
precaução militar tomadas pelo primeiro-ministro".
Caricatura de Nasser no jornal britânico Daily Express de 23 de novembro de 1956 Os jornais, ainda que mostrassem a legalidade da nacionalização,
dividiram-se: alguns mostravam Nasser como "chantagista", "traidor", "bandido", chegando ao extremo de oratória de compará-lo a Hitler, como fez
o jornal Fleet Street. A campanha difamatória prosseguiu, abraçada entusiasticamente por membros do governo:
"There is no doubt in our minds that Nasser, whether he likes it or not, is now effectively in Russian hands, just as Mussolini was in
Hitler's. It would be as ineffective to show weakness to Nasser now in order to placate him as it was to show weakness to
Mussolini." Sir Anthony Eden, Primeiro-Ministro
inglês.
"No arrangements for the future of this great international waterway could be acceptable to Her Majesty's Government which would leave it in the
unfettered control of a single Power which could, as recent events have show, exploit it purely for purposes of national
policy." Sir Anthony Eden, Primeiro-Ministro
inglês.
Geoffrey Goodman, editor do jornal Fleet Street, se referiu ao papel da imprensa na cobertura de Suez durante uma série de reportagens da BBC em
comemoração aos 50 anos da crise. Disse ele:
"[It] developed into one of the fiercest, and costliest, battles between government and the media of any in the last half century".
Na mesma reportagem, Goodman revela uma pesada censura governamental à BBC, tornando seu apoio à guerra inevitável.
A Imprensa Francesa
Inicialmente centrada com a guerra de independência da Argélia e sua guerrilha, a opinião francesa dedicou-se em menor escala ao tema - reflexo
disso é a virtual ausência de artigos sobre o tema no aniversário corrente de 50 anos da crise. Essa ausência francesa corrobora a afirmação britânica
atual, de considerar a crise como "A Very British Crisis", nome concedido a um documentário da BBC sobre os 50 anos da crise3.
Essa aparente "amnésia" francesa tem motivos: espremida entre a insurreição Argelina, a batalha de Algiers e a tomada de poder por DeGaulle
em 1958, com o início da V República. Suez ficou na memória francesa como um evento menor em uma série de grandes crises.
Embora citada nos EUA como unânime em favor de uma resposta bélica do governo4, a opinião francesa se mostrou longe da unanimidade - também na
França os jornais se dividiram entre opositores do enfrentamento com o Egito e os raros defensores da abertura de um novo conflito com tropas francesas.
O contexto de envolvimento do governo francês na crise, aparentemente se deu mais ao seu envolvimento com Israel que com a defesa de acionistas
franceses. Na época, a França era aliada preferencial de Israel, tendo repassado à Tel-Aviv tecnologia nuclear. O governo francês seguiu a
demonização inglesa de Nasser:
"All this [is] written in the works of Nasser, just as Hitler's policy [was] written down in Mein Kampf . . . Nasser [has] the ambition to
recreate the conquests of Islam." Guy Mollet, Primeiro-Ministro francês.
A Reação Mundial ao Fim da Crise
Um Nasser heróico contra o capitalismo, na caricatura da revista soviética Krokodil de agosto de 1956.Com o fim da Crise, Nasser perdia
militarmente o conflito, mas comemorava uma expressiva vitória política, que iria projetá-lo como um líder árabe, elevando seus projetos de nacionalismo
árabe e união dos povos árabe ao primeiro plano da política mundial. O sucesso do nasserismo, como seria chamado essas propostas políticas, ficou
evidente no Oriente Médio.
De forma oposta, o resultado da crise foi decisivo para todos os demais envolvidos. As superpotências viram testadas com sucesso sua
capacidade de negociação direta para encerrar crises regionais capazes de alterar o quadro político mundial - experiência que seria útil em todas as
crises seguintes da Guerra Fria.
A Inglaterra viu sepultada de forma definitiva seu Império, transformando-se de uma potência global numa simples potência
regional, sem maior peso político. Essa submissão à política americana foi marcante - e
foi causa direta na mudança da política externa britânica, que desde então se aliou automaticamente aos EUA.
A França, por sua vez, encarou a derrota como uma traição de uma aliança anglo-americana. Isso marcou De Gaulle, que começou a ver o futuro
como estando na Europa continental e sua união - excluindo explicitamente os britânicos e americanos desse processo, inclusive abandonando a OTAN. A
União Européia, tendo como raiz o apoio francês ao projeto de integração, é
resultado direto da Crise de Suez.
É significativo o governo francês nunca ter reconhecido a seus combatentes o status de veteranos: segundo o governo, a participação das
tropas francesas se estendeu por 60 dias, enquanto pela lei francesa são necessários 90 dias para a concessão do status de veteranos de guerra.5
Israel via pela primeira vez a limitação do poder americano à sua expansão. A preferência dos americanos em preservar aliados árabes em
detrimento de um alinhamento automático com Israel causou uma mudança gigantesca na política externa israelense, que começou com o
primeiro-ministro David Ben-Gurion a perseguir uma aliança com os EUA. O resultado foi positivo: na década de 60, Ben-Gurion passou de opositor à
aliado americano, enquanto Nasser transformou-se de aliado americano a um foco de instabilidade regional.
Nessa mudança incrível de contextos, Israel passou a ser o único aliado americano seguro, em meio a um Oriente Médio turbulento e oscilando
entre o nacionalismo árabe e o comunismo. Inaugurava-se a relação privilegiada Israel-EUA, que perdura até os dias atuais.
O mundo via sua realidade sem disfarces, como palco de ação de duas superpotências, e não um território dividido entre vários extintos impérios
europeus.
"There are only two Great Powers in the world today, the United States and the Soviet Union . . . The ultimatum put Britain and France in
their right place, as Power neither big nor strong." Anwar Sadat, em 19 de Dezembro de
1956.
"Europe will be your revenge". Konrad Adenauer, Primeiro-Ministro alemão, ao Ministro do Exterior francês, comentando a perda de Suez.
"France and England will never be powers comparable to the United States and the Soviet Union. Nor Germany, either. There remains to them only
one way of playing a decisive role in the world; that is to unite to make Europe. England is not ripe for it but the affair of Suez will help to
prepare her spirits for it. We have no time to waste: Europe will be your revenge." Konrad Adenauer, Primeiro-Ministro
alemão, em 6 de Novembro de 1956.
"How could we possibly support Britain and France, if in doing so we lose the whole Arab world?"
Dwight D. Eisenhower, presidente Americano, Outubro de 1956.
"Since we are about to get thrown out of the [Middle East], we might as well believe in Arab nationalism." Dwight D. Eisenhower, presidente Americano, em 31 de julho
de 1958
Historiografia Atual - A Permanência de Discursos
Na comemoração dos 50 anos da Crise de Suez, o tema foi relembrado em publicações e seminários ingleses, americanos e franceses. Novos documentos
foram apresentados, novos testemunhos foram registrados. De forma geral, a crise ganhou importância maior como um evento que alterou as relações
internacionais de poder em diversos e múltiplos níveis, se tornando bem mais profundo que apenas um confronto que inaugurou a mediação direta das
superpotências no controle de poderes locais.
Abordagens menos engajadas da imprensa britânica enfatizam o evento como fim da Britannia, substituindo a versão original de mera trapaça árabe.
A imprensa francesa reavalia sua participação na crise, contrariando sua postura usual de considerar a crise um evento mais britânico. EUA olha com
evidente nostalgia a crise, quando um envolvimento americano no Oriente Médio não significava um pesadelo político-militar. Os árabes ainda aguardam
seu grande unificador, ainda lamentando a perda de Nasser.
Mas os grandes estereótipos se recusam a ceder tão facilmente.
Jean Lacouture, correspondente do France-Soir no Egito na época da Crise - portanto, testemunha dos eventos da Crise - escreveu recentemente
artigo na revista francesa de história Historia6. No artigo, Lacouture faz a inacreditável afirmação que Nasser teve "sua carreira marcada por essa
vitória de Pirro", por ter ganho a nacionalização do canal, mas em troca de perder apoio do congresso americano, ser demonizado pela mídia ocidental e
experimentar a derrota frente à Israel.
O autor francês ignora que o sucesso na crise foi exatamente o que tornou Nasser um símbolo, mais que um homem: uma figura de proa da política
internacional, e principal político do mundo árabe, exportando sua política para toda a região, num processo de integração regional ainda a ser
superado, independente das superpotências da época.
Nasser é uma presença constante no mundo árabe como exemplo de liderança, união e, acima de tudo, honra e altivez árabe. Em manifestações à
favor do Hizzbolah em sua luta com o exército israelense, aparecem fotos de Nasser. Em protestos contra Israel, pessoas gritam seu nome. Em Gaza,
Beirute, Damasco e Bagdá vêem-se fotos de Nasser - ele está em todo o Oriente Médio.
No aniversário da nacionalização, o colunista Rifaat Rashad, do jornal egípcio Al-Masry Al-Yom, disse:
"Nasser will always be there for us even though he died 36 years ago. His pictures are still there [not just in the demonstrations] but in
the houses and magazines of Arab citizens. Long live Nasser!" Hamdi Rizq, também colunista do jornal, escreve no mesmo dia:
"Those who are waving the photos of Nasser today are trying to erase the long decades of humiliation that have befallen the nation... Nasser is
still alive in the conscious of the nation... Nasser is still the leader adored by millions across the nation."
Nasser, no contexto atual de submissão islâmica ao Ocidente, frente a um Israel criminosamente imperialista em seus territórios ocupados, criando
cada vez mais instabilidade regional com seu belicismo, é mais do que nunca uma lembrança de que toda a comunidade árabe pode e deve ser unida - e num
governo laico e democrático. Essa continua sendo sua melhor opção contra
abusos externos e influências ocidentais deletérias.
Ainda hoje, a memória de Nasser é cultuada no mundo árabe como exemplo de uma excepcional liderança unificadora - uma imagem que, progressivamente,
vem sendo também adotada pelos antigos envolvidos na Crise, num processo ainda com resistências, mas com amplos avanços já identificáveis.
NOTAS:
1 Mestrando de Relações Internacionais, Segurança e Defesa Nacional (PRÓ-DEFESA) na UFRJ; pesquisador do GEG - Grupo de Estudos de Genocídios da
UFRJ. voltar
2 Egypt Seize Suez. BBC. Londres 26 de julho de 1956, Disponível na
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/onthisday/hi/dates/stories/july/26/newsid_2701000/2701603.stm. voltar
3 "Suez: A Very British Crisis" (2006), diretor Louise Hooper.
4 OWEN, Jean. The Polls and Newspaper Appraisal of The Suez Crisis in
The Public Opinion Quarterly, Vol. 21, No. 3 (Outono de 1957), pp. 350-354 .
5 France's Own Lessons from Suez - BBC, 1° de Novembro de 2006. Disponível na Internet no endereço:
http://news.bbc.co.uk/2/hi /europe/6102536.stm .
6 in História Viva, ano IV, N° 38. 2006: editora Ediouro, São Paulo, SP.
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2007.[ISSN 1981-3384]
De: "Theodoro da Silva Junior" <theojr@terra.com.br>
Data: Thu, 26 Feb 2009 11:09:44 -0300
Assunto: O EGITO de Nasser e a Crise de Suez: Uma Análise Midiática