DEPOIMENTOS - GUERRA DOS SEIS DIAS
Ex-soldados (árabes e israelenses) lembram do conflito que consolidou a força de Israel
Texto de:Andrea Wellbaum
Enviada especial da BBC Brasil a Jerusalém
Especial: Guerra dos Seis Dias
Em 10 de junho de 1967, último dia da Guerra
de Seis Dias, entre Israel e países árabes, a maioria da população israelense
sentiu que estava renascendo.
"Para a maioria de nós foi um milagre", afirmou o veterano Danny Rubinstein,
soldado em 1967 e hoje analista político do jornal Haaretz, em entrevista à BBC
Brasil.
"Em seis dias, nós enfrentamos todo o mundo árabe e sobrevivemos. Foi como um
sonho que nós achávamos que jamais fosse virar realidade."
Naquele mesmo dia, os egípcios sentiam exatamente o oposto, como conta o então
cadete militar Mohamed Kadri Said, hoje ex-general e analista militar do Centro
Al-Ahram de Estudos Políticos e Estratégicos,
"Foi um fim terrível. Até hoje, quando leio a respeito ou vejo um filme sobre a
guerra, não consigo me controlar. Foi algo que entrou muito profundamente nos
nossos corações", diz Said.
O conflito entre Israel, de um lado, e Egito, Síria e Jordânia, do outro, durou
apenas seis dias, mas permanecem na memória de grande parte da população dos
países envolvidos na guerra.
Surpresa e decepção
A surpresa dos israelenses e a decepção dos egípcios não são difíceis de
entender quando se olha para os ânimos dos dois lados naquela época.
O analista do Instituto Judaico para Assuntos de Segurança Nacional, Giora Romm,
que integrava a força aérea do Exército israelense em 1967, diz que, nos dias
que antecederam a guerra, os israelenses não paravam de ouvir notícias de que os
países árabes, liderados pelo presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, iriam
destruir Israel.
"O moral estava muito baixo, e os líderes civis falavam em milhares de mortos.
Eu me lembro que o principal parque de Tel Aviv foi preparado para virar um
cemitério temporário para a população da cidade. Todos perceberam que isto não
era mais brincadeira de criança", afirma Romm.
Já os árabes estavam com o moral elevado, segundo Said. "Todos consideravam
Nasser um herói e tinham muita confiança em seus soldados."
Os árabes também levavam vantagem nos números: além de somarem os Exércitos do
Egito, da Síria e da Jordânia, eles contavam com o apoio de Iraque, Kuait,
Arábia Saudita, Argélia e Sudão. O Exército de Israel tinha cerca de um quarto
do número de soldados dos inimigos.
Ataque preventivo
Mas, apesar da suposta superioridade, os países árabes ainda não haviam decidido
se iniciariam mesmo um conflito com o Estado Judeu.
O Egito posicionou suas tropas na Península do Sinai e bloqueou a passagem de
navios israelenses no Mar Vermelho, mas sem dar o primeiro passo no conflito.
Diante do que sentia ser uma ameaça iminente, na manhã de 5 de junho de 1967
Israel realizou um ataque preventivo contra os egípcios. Caças israelenses
atacaram nove bases aéreas do vizinho, antes que os aviões saíssem do solo.
Muitos dizem que Israel venceu a guerra naquela primeira hora. "Foi extremamente
importante, porque nós paralisamos aquelas bases aéreas", diz Romm.
"Naquela primeira hora de ataque, o Egito deixou de ser uma potência militar.
Eles ainda tinham duas ou três divisões na península do Sinai, mas sem
capacidade aérea essas pobres divisões estavam totalmente expostas ao nosso
Exército."
Ainda no primeiro dia, Israel destruiu também a maior parte das forças aéreas da
Síria e da Jordânia, e depois de outros cinco dias de batalhas, o Exército
israelense acabou capturando a Península do Sinai do Egito, as Colinas de Golã
da Síria e a Cisjordânia e Jerusalém Oriental da Jordânia.
Explicações
Especialistas militares têm inúmeras explicações para o resultado do conflito,
que consolidou a supremacia militar israelense na região.
Zakariya Hussein, capitão no Exército egípcio em 1967, afirma que o governo
egípcio não soube calcular o risco de iniciar uma guerra naquele momento, em que
havia grandes divisões entre os líderes políticos e militares do país.
"Se os dois lados não estão em perfeita comunicação, isto se reflete em falta de
responsabilidade e preparação. O governo começou a provocar a opinião pública e
Israel sem ter um plano estratégico completo que nos levaria à vitória", diz
Hussein.
O ex-general egípcio Said culpa também a falta de preparo das tropas pela
derrota.
"Nós tínhamos mais soldados quando juntávamos as tropas de todos os países que
lutaram contra Israel. Mas essas tropas nunca treinaram juntas. Além disso, do
lado egípcio o nível de treinamento também não era bom."
Luta pela sobrevivência
As condições do Exército israelense eram bem diferentes, como explica Ephraim
Inbar, diretor do Centro de Estudos Estatégicos da Universidade de Bar-Ilan.
"O Exército israelense tinha generais melhores, o que fez com que fosse muito
bem orientado. Além disso, Israel teve três semanas para treinar suas reservas,
que eram a grande massa da força militar", diz Inbar.
Inbar também afirma que o efeito-surpresa foi decisivo. "As táticas israelenses
rápidas deixaram pouca opção para os egípcios se defenderem e, além disso,
Israel sempre foi muito bom de improvisação."
Na opinião de Romm, os soldados também estavam extremamente motivados, porque
lutavam pela sobrevivência do país.
Espaço conquistado
Os israelenses não apenas sobreviveram como conquistaram seu espaço no Oriente Médio, segundo Said.
"O mundo árabe percebeu que Israel não pode
ser removido, porque é apoiado por potências mundiais e aceito por elas. Pode
não ser aceito pelos árabes, mas é um fato. Ou seja, o sonho de remover Israel
acabou ali", afirma o ex-general egípcio.
O Exército israelense também se consolidou como uma das maiores potências
militares do mundo após a Guerra dos Seis Dias.
O Exército é um fator importante para a existência de Israel e, de acordo com
Inbar, é a única força capaz de convencer os árabes a não destruir o país.
"Esta é a nossa melhor política de seguro. Nós vivemos no Oriente Médio, e o uso
da força faz parte das regras do jogo."
O ex-comandante Romm concorda. "Nós não temos escolha, precisamos ser muito
fortes militarmente e espero que continue assim enquanto não assinarmos tratados
de paz com o resto do mundo árabe, que a minha geração, pelo menos, não vai
ver."
de Theodoro da Silva Junior <theojr@terra.com.br>
data 29/04/2008 08:57
assunto - TEXTO ESPECIAL