CONFLITO ÁRABE-ISRAELENSE
CAPÍTULO III
LIVRO: EGITO - UMA VIAGEM AO BERÇO DE NOSSA
CIVILIZAÇÃO (*)
AUTOR: FÉLIX MAIER
A diáspora judia
A presença judaica na antiga Palestina terminou depois que os romanos abafaram
duas revoltas judias, uma em 70 e outra em 135 de nossa era.
A primeira revolta começou com judeus e samaritanos matando-se uns aos outros.
Com a chegada do general romano Vespasiano e sua tropa de 60 mil soldados, os
judeus refugiaram-se em Jerusalém. Com a morte de Nero, Vespasiano foi
proclamado imperador, retornando a Roma. Seu filho Tito assumiu o comando da
campanha contra os judeus e em 70 ocupou e destruiu a cidade de Jerusalém,
promovendo um banho de sangue. Apesar de ordens contrárias de Tito, o Templo de
Salomão, reconstruído por Herodes (2º Templo), foi demolido, permanecendo apenas
uma parede do mesmo, que hoje conhecemos por "Muro das Lamentações". Somente uma
pequena parte das muralhas da antiga cidade de Jerusalém não foi destruída.
No ano de 130, o Imperador Adriano começou a reconstrução da antiga Jerusalém em
ruínas, com um templo dedicado a Júpiter. Devido a essa tentativa de paganização,
os judeus rebelaram-se mais uma vez contra os romanos. Foram novamente
massacrados e os que sobreviveram proibidos de pôr os pés na Cidade Sagrada.
Jerusalém passou a se chamar Aelia Capitolina e os romanos aboliram o nome
"Judéia". A partir de 135, a população judia remanescente na Palestina
restringiu-se a um pequeno número, completando-se a diáspora dos judeus, que a
partir de 70 começaram a se espalhar por todos os cantos do mundo.
Após o domínio árabe, que começou em 637, permeado por um curto domínio do Reino
Latino de Jerusalém - dos Cruzados (1099-1291) -, os muçulmanos governaram a
Palestina até 1917, quando as tropas britânicas expulsaram as forças turcas do
país e estabeleceram um domínio até 1948, data de criação do Estado de Israel.
Embora os turcos otomanos tivessem permitido o retorno à Palestina de refugiados
judeus perseguidos pela Inquisição espanhola, a maioria deles preferiu escolher
outros países.
A partir da década de 1880, intelectuais judeus do leste europeu criaram um
movimento político chamado "sionismo", que pretendia restabelecer na Palestina
um Estado para o povo judeu espalhado pelo mundo. A palavra "sionismo" vem de "Sião",
antigo nome da cidade de Jerusalém. O judeu húngaro Theodor Herzl publicou Der
Judenstaat (O Estado Judeu), abordando idéias de assentamentos judeus na
Palestina, a Eretz Israel ou a "pátria histórica dos judeus". Em 1897, Herzl
organizou o Primeiro Congresso Sionista, na Suíça, e foi criada a Organização
Sionista Mundial. Foi cogitada a criação de um Estado judeu em outro território,
fora da Palestina. Foram propostos a Argentina, o Chipre e o Sinai. Até a Uganda
foi oferecida. Os judeus, porém, permaneceram fiéis ao sonho de estabelecer uma
nova pátria na Eretz Israel.
Embora existissem menos de 1.000 judeus em Jerusalém até o século XVI, na década
de 1880 esse número aumentou para 25.000, contra 600.000 cristãos e muçulmanos.
O motivo dessa imigração era fundamentalmente religioso. As aliot ou "levas de
imigração" para a Palestina intensificaram-se a partir do movimento sionista,
formando uma base econômico-social de inspiração socialista, com a criação dos
kibbutzim, as famosas colônias agrícolas judaicas. Em 1914, cerca de 30 colônias
sionistas já haviam se estabelecido na Palestina, somando 40.000 judeus na
região, embora houvesse crescente restrição dos otomanos.
A partilha da Palestina
Em 2 de novembro de 1917, o Governo britânico reconheceu a "Declaração Balfour"
- de seu Ministro do Exterior, Arthur James Balfour -, que concedia o direito do
estabelecimento de um lar judeu na Palestina. A Palestina tinha sido tomada dos
turcos pelos ingleses ao fim da Primeira Guerra Mundial e a Liga das Nações
concedeu ao Reino Unido mandato sobre a Palestina, para que principiasse a
criação do Estado judeu.
Com o crescimento do antagonismo árabe-judeu, começou a haver restrições à
imigração judia para a Palestina. Em 1922, Winston Churchill publicou o Livro
Branco, que restringia oficialmente a imigração dos judeus. É a época em que
aparecem os primeiros grupos terroristas judeus, como o Irgun de Menachen Beguin,
aterrorizando árabes, britânicos e os próprios judeus que não apoiavam suas
ações. Violentos distúrbios ocorreram em 1929 e 1936, quando foram atacadas
muitas aldeias judaicas. Nessa mesma época, milhares de judeus europeus
imigraram para a Palestina, fugindo do nazismo.
O hebraico ressurgiu como língua oficial para os judeus na Palestina, um idioma
falado e vivo, graças principalmente ao trabalho de Eliezer Ben-Iehudá.
Com o fim da II Guerra Mundial, o problema da Palestina apresentava outro
aspecto. Seis milhões de judeus haviam perecido no holocausto nazista e o
movimento sionista passou a exercer uma maior pressão internacional para a
criação do Estado judeu. Assim, a questão palestina foi levada à
Assembléia-Geral da ONU, em Flushing Meadows, presidida pelo embaixador
brasileiro Osvaldo Aranha. Em 29 de novembro de 1947, foi votada a partilha da
Palestina, prevendo um território judeu e outro palestino, com 33 votos a favor,
13 contra e 10 abstenções. Jerusalém teria status de cidade internacional.
Convém salientar que a ONU destinou aos judeus as terras mais férteis da
Palestina, como a planície costeira e a planície do Esdrelon, além do Lago da
Galiléia. Embora a população árabe, na época da partilha, comportasse 2/3 da
população total da Palestina, de 1.936.000 habitantes, a ONU lhe destinou apenas
42,88% do território, com terras arenosas e pobres.
Em 14 de maio de 1948, em Tel Aviv, David Ben-Gurion leu a proclamação da
independência do Estado judeu. Oito horas após esse ato, o Estado de Israel foi
invadido por tropas de países árabes vizinhos.
À espera do "5º round"
No "boxe" árabe-israelense, eles finalizaram o "4º round" em 1973. Depois de
enxugarem seu suor com a toalha, tomarem um novo fôlego, quando ocorrerá o "5º
round"?
Horas após a criação do Estado de Israel, o Egito, a Síria, a Jordânia e o
Iraque atacaram o país judeu, não aceitando a decisão da ONU sobre a partição da
antiga Palestina. Após essa guerra vitoriosa, Israel aumentou seu minúsculo
território em 50%.
Os palestinos, em sua maioria, fugiram para a Jordânia, convictos de que os
árabes venceriam a guerra e que poderiam voltar depois para suas casas. Israel
arrasou vilas-fantasma inteiras dos antigos moradores e proibiu a volta dos
mesmos após a guerra, iniciando-se assim a diáspora palestina. Muitos palestinos
estabeleceram-se no Egito, no Líbano e principalmente na Jordânia. Outros
atravessaram os oceanos para procurar novo lar, inclusive no Brasil. No Egito há
muitas indústrias de renome comandadas por palestinos, como a Cristal Asfour.
A parte árabe da antiga Palestina, que deveria formar o novo Estado palestino,
foi anexada pela Jordânia em 1950. Os guerrilheiros palestinos começaram a
entrar em choques violentos contra o Exército da Jordânia, culminando em 1970
num sangrento massacre de palestinos, conhecido como "Setembro Negro". Os
sobreviventes foram expulsos para o sul do Líbano, onde Yasser Arafat montou seu
quartel-general.
O "2º round" começou em 1956, quando Násser nacionalizou o Canal de Suez e
proibiu o seu uso a Israel. O Estado judeu ocupou a Península do Sinai e a Faixa
de Gaza, pertencentes ao Egito. Sob pressão internacional, Israel foi obrigada a
retornar a seus antigos limites. Para fazer valer a resolução da ONU, dentre a
forças internacionais de paz enviadas para o Sinai e Gaza, convém salientar a
presença do Batalhão Suez, composto pelos boinas azuis brasileiros, que se fizeram
presentes na região a partir de 1957.
Em 1967, foi um "knock-out" que Israel aplicou nos árabes logo no primeiro
assalto - usando mais uma vez um termo do boxe. Em apenas 6 dias, Israel tomou
toda a Península do Sinai, a Faixa de Gaza, toda a margem oeste do Rio Jordão
(Cisjordânia) e as Colinas de Golã, na Síria. Os aviões no Cairo sequer
conseguiram alçar vôo. Foram bombardeados no solo.
Há analistas que consideram aquele conflito como a "guerra da água", o líquido
precioso que Israel foi buscar no solo da Cisjordânia, nas nascentes do Rio
Jordão (Colinas de Golã), além de passar a ter completo controle das águas do
Jordão. No recente tratado de paz com a Jordânia, Israel se comprometeu a
desviar uma parte da vazão das águas do Rio Jordão ao país vizinho. Muitos
apostam que uma futura guerra na região, se houver, será uma guerra pela água.
Durante a Guerra de 1967, aumentou o terrorismo de Israel contra os palestinos
dos territórios ocupados. Muitas aldeias inteiras foram destruídas pelos judeus,
os tratores alisando o terreno, a população tendo que fugir para escapar do
massacre. As terras dos "ausentes" foram confiscadas para instalação de bases
militares e assentamentos agrícolas. Formaram-se "cinturões" de assentamentos
judeus em torno das principais cidades da Cisjordânia, como Hebron, Belém,
Ramallah, Jericó e Nablus, além de Jerusalém. De 1967 até 1983, foram instaladas
163 colônias (kibbutzim) na Cisjordânia e 12 em Gaza. No Golã sírio foram
estabelecidos 29 kibbutzim entre 1967 e 1980. Enquanto os colonos judeus na
Cisjordânia podiam perfurar poços artesianos de até 300 m de profundidade, os
palestinos só podiam atingir 100 m. Além disso, foi fixado para os palestinos um
limite máximo de água bombeada por dia. Todos os governos anteriores ao atual
governo de Yitzak Rabin procuraram acelerar o ritmo de assentamentos nos
territórios ocupados, com a intenção clara de saturar a área com população
judia, de modo que a ocupação judaica se tornasse irreversível.
Além da ocupação dos territórios árabes efetuada na Guerra de 1967, deve-se
destacar a invasão no sul do Líbano, em 1978, a partir de quando Israel passou a
ocupar 10% do território libanês. O objetivo prioritário daquela operação foi o
de apoderar-se das águas do rio Litani. A autoproclamada "zona de segurança"
israelense no sul do Líbano, desta forma, destinou-se a aumentar em 50% a
captação de água no país e não a defender o país contra ataques árabes a partir
do Líbano, como a mídia israelense tem propalado.
Em 1969 e 1970 houve a chamada "Guerra de Atrito" entre Israel e o Egito, ao
longo do Canal de Suez, onde Israel havia instalado a fortificada linha de
defesa Bar Lev. As tropas de ambos os lados faziam escaramuças, com perdas de
vidas humanas, devendo ser destacada a operação cinematográfica de Israel ao
apreender uma estação de radar egípcia no lado ocidental do Canal. Porém, a
"Guerra de Atrito" não pode ser considerada uma guerra convencional.
Entre 1948, ano de criação do Estado judeu, e 1970, mais de 1.300.000 imigrantes
judeus se instalaram na Palestina, aumentando a população judia de 700 mil para
3.000.000. A Lei do Retorno concede, ainda hoje, cidadania israelense a qualquer
judeu no exterior que chegue para viver no país. Após o fim da União Soviética,
houve grande fluxo de judeus russos a Israel, além de judeus africanos, como os
falashas etíopes, atraídos pela política desenfreada de assentamentos do governo
Yitzhak Shamir, principalmente nos territórios ocupados. Porém, após a Guerra do
Golfo, com a nova situação política no Oriente Médio em direção à paz entre
árabes e judeus, os EUA negaram um empréstimo de 10 bilhões de dólares a Israel,
para congelar a política de rápida ocupação do solo da Cisjordânia. Entre 1990 e
1993, 550.000 imigrantes se estabeleceram no Estado judeu. Em 1994, foram apenas
78.000.
No "4º round", em 1973, houve uma fenomenal reação do adversário de Israel, na
chamada Guerra do Ramadã, como a chamam os egípcios, ou Guerra do Yom Kippur,
assim conhecida em Israel. Num ataque fulminante, o Egito furou a fortificada
linha de defesa Bar Lev, ao longo do Canal de Suez, e se aprofundou nos desertos
do Sinai, ao mesmo tempo em que a Síria avançava pelo norte do Mar da Galiléia.
A data escolhida para o ataque não podia ter sido melhor: no dia 6 de outubro
comemorava-se a festa religiosa do Yom Kippur, em Israel, o "Dia do Perdão", num
sábado, quando tudo pára naquele país, inclusive a transmissão das emissoras de
rádio e televisão.
O Egito havia se preparado muito bem para a revanche, criando sua 4ª Força
Armada, a Força de Defesa Aérea - lição aprendida no vexame dos seus aviões
sendo bombardeados no Cairo em 1967. Com seu enorme arsenal soviético e uma
eficaz proteção antiaérea contra ataques de seu inimigo, o Egito obteve logo nas
primeiras horas de combate importantes vitórias.
Aprofundaram-se no Sinai 250 aviões de combate egípcios que destruíram, na
primeira hora, 3 aeroportos, 10 bases de mísseis superfície-ar, 3 postos de
comando israelenses e centros de monitoração e interferência eletrônica. Como se
pode ler no livro The Ramadan War, 1973, de Hassan El Bardi e outros, caiu por
terra o mito da invencibilidade israelense. O front do Canal de Suez foi
testemunha de 2.000 peças de artilharia que despejaram 3.000 toneladas de
explosivos em 53 minutos. Menos de seis horas após o início do combate, 5
Divisões egípcias cruzaram o Canal, 80.000 soldados furaram a até então
inexpugnável Linha Bar Lev. Hoje, na região do Lago Timsah encontra-se um
memorial à Guerra, no local onde havia uma das mais fortificadas cidadelas
israelenses.
É muito provável que o Egito e a Síria tivessem chegado a Tel Aviv, não fosse a
rápida ponte-aérea de suprimentos feita pelos americanos, além de fornecerem
fotos aéreas de posições egípcias e sírias para Israel. Os americanos teriam
sido chantageados por Israel se não fornecessem rápida ajuda: os judeus poderiam
utilizar suas armas atômicas. Segundo uma reportagem do Herald Tribune, de 21
Out 91, Seymour M. Hersh afirma em seu livro The Samsom Option que para o Estado
judeu não restaria outra senão A Opção Sansão. Essa opção, como o Sansão da
Bíblia, era o de, morrendo, matar o maior número de inimigos. Ou seja, se
necessário, usariam as bombas atômicas contra as nações árabes que estavam
ameaçando Israel e também contra algumas cidades soviéticas. Mesmo com o perigo
de Israel desaparecer do mapa. O holocausto, a batalha de Armagedon, poderia ter
ocorrido naquele conflito.
Segundo o mesmo livro, as bombas nucleares israelenses saíram dos silos para
serem instalados em lançadores pelo menos três vezes: duas vezes durante a
guerra de 1973 e uma vez durante os ataques iraquianos de mísseis Scuds durante
a Guerra do Golfo, em 1991.
Os israelenses, até hoje, nunca confirmaram seu arsenal atômico, avaliado em
mais de 100 ogivas nucleares pelo livro The Samsom Option. O complexo nuclear
israelense estaria instalado nos subterrâneos de Dimona, no Deserto do Negev. O
livro afirma, ainda, que Israel colocou minas nucleares terrestres nas Colinas
de Golã e que possui centenas de bombas de nêutrons capazes de destruir grande
número de tropas inimigas.
Até hoje, a imprensa ocidental sempre se refere à Guerra do Yom Kippur como mais
uma vitória israelense, tentando diminuir o valor do surpreendente ataque
egípcio. Isso não é novidade, pois a literatura ocidental também nunca deu o
devido valor às antepassadas façanhas de Saladino frente aos Cruzados na Terra
Santa. A verdade é que por muito pouco Golda Meir e Moshe Dayan não viram seu
diminuto país ser varrido da face da terra.
Com a ameaça dos soviéticos frente à ajuda americana na guerra de 1973, é
assinado um armistício. Após muitas negociações, incluindo a reunião em Camp
David, nos EUA, Anwar Al-Sadat, do Egito, e Menachen Beguin, de Israel,
assinaram um Acordo de Paz, em 1979. Esta decisão ocasionou o assassinato de
Sadat por extremistas muçulmanos, que não aceitavam negociar com o Estado judeu.
Sem dizer que Sadat oferecera asilo político ao antigo Xá do Irã, Rehza Pavlavi,
destronado por Khomeiny, o que irritou todos os xiítas do mundo. Com o Acordo,
Israel se comprometeu a devolver o Sinai ao Egito, o que veio a ocorrer somente
em 1982.
Devido à ajuda americana aos judeus, os países árabes boicotaram a venda de
petróleo ao Ocidente. Os preços quadruplicaram da noite para o dia, afetando a
economia de todos os países dependentes da importação do petróleo. O Brasil, que
tinha baseado seu Programa Nacional de Desenvolvimento em cima de um petróleo
barato, sofreu duro golpe, pois importávamos mais de 80% do óleo cru. Com os
preços altos, os grandes países produtores de petróleo - o cartel da OPEP -
enriqueceram-se rapidamente, a exemplo da Arábia Saudita, graças à chamada
"guerra do petróleo" de 1973.
A guerra de 1973 foi a mais custosa de todas as guerras que o Egito teve com
Israel, tanto em vidas humanas, quanto em material bélico. Ainda hoje vêem-se
muitas carcaças de carros de combate no Sinai, bem como esqueletos humanos
inteiros pros¬trados nas escaldantes areias do deserto. Volta e meia há gente
indo pelos ares, após pisar numa mina que não foi desativada. Isso acontece,
muitas vezes, em praias lindíssimas do Mar Vermelho, por onde passam muitos
turistas. Critica-se o Egito por não ter mapeado suas minas, o que permitiria
sua destruição após a guerra.
Até o recente Acordo de Paz com a Jordânia, o Egito era o único país árabe que
tinha relações diplomáticas com Israel, porém frias. Dois terços do Exército
egípcio encontram-se estacionados perto do Canal de Suez, onde tropas se
movimentam continuamente em acampamentos provisórios. Não há intercâmbio
cultural entre os dois países e o comércio bilateral é insignificante. Nas
escolas egípcias, quando se estuda geografia, os mapas não apresentam o Estado
de Israel e sim a Palestina. O nome "Israel" não é se¬quer pronunciado. Salah, o
egípcio que trabalhava na aditância militar, só se referia a Israel como
Phalistina (Palestina) - nome proveniente dos antigos habitantes da região de
Gaza, os filisteus.
Uma vez eu disse a alguns egípcios no British Council, onde estudava inglês, que
iria conhecer Israel. Eles se espantaram e procuraram me demover da idéia,
dizendo que era muito mais interessante visitar a Jordânia, por exemplo. Eu
achava que aqueles alunos tinham a mente mais aberta que a população menos
esclarecida, pois desejavam trabalhar no Canadá, Estados Unidos ou na Austrália,
em busca de um futuro mais promissor, já que no Egito a perspectiva de emprego
era sombria. Para isso estavam estudando o inglês. Nunca imaginava que o
preconceito contra os judeus era tão forte entre estes.
Nos últimos 15 anos, o vôo de turistas de Israel para o Egito não teve sua
contrapartida, apesar do Acordo de Paz entre os dois países. Enquanto 1 milhão
de turistas israelenses visitaram o Egito na década de 80, somente 3 mil
egípcios visitaram Israel no mesmo período. Continua a barreira ideológica dos
egípcios, que vêem Israel como agressor, querendo exterminar os palestinos.
Mesmo o Papa Shenouda III, o Patriarca da Igreja Copta, do Egito, disse ao
Al-Ahram nº 161 de 24-30 Mar 94: "Nós, os coptas, não visitaremos Jerusalém
enquanto não pudermos lá andar lado a lado com nossos irmãos muçulmanos".
Os árabes criticam, até hoje, a política expansionista de Israel, temendo que o
país judeu estenda seus limites desde o Vale do Nilo até o Eufrates. Parece uma
acusação sem fundamento. Porém, se observarmos o mapa do "Grande Israel"
estampado em uma moeda israelense de 100 sheqalim, não podemos deixar de dar
razão aos árabes.
No momento, com a nova situação criada no Oriente Médio, após a Guerra do Golfo,
não se vislumbra de imediato um novo choque entre os contendores. Com o Acordo
de Paz entre Israel e a OLP de Yasser Arafat, em 13 de setembro de 1993 - o que
valeu o Prêmio Nobel da Paz em 1994 para Yasser Arafat, Yitzak Rabin e Shimon
Perez -, a situação da contenda árabe-israelense toma novos rumos, até então
considerados inimagináveis. Engatinhando como nação em Gaza e no enclave de
Jericó, não se sabe ainda se a autodeterminação dos palestinos será mesmo
efetivada. Há que se considerar as dificuldades financeiras do incipiente Estado
palestino, os ataques dos grupos extremistas, quer judeus, como a Espada de
Davi, quer islâmicos como o Hamás e a Jihad Islâmica, que não aceitam sequer a
existência do Estado de Israel, e a disposição de Israel implementar, no futuro,
a completa devolução da Cisjordânia.
Com o atual governo Mubarak alinhado aos Estados Unidos, o que torna sua cabeça
uma mira em potencial das metralhadoras dos fundamentalistas islâmicos, é mais
provável que um ataque contra Israel pudesse partir da Síria ou do Iraque.
Porém, a Síria, sem o antigo apoio soviético e mais contido, visando a
recuperação das Colinas de Golã, não se arriscaria a invadir o Estado judeu e
ter que enfrentar as modernas armas americanas. O Iraque, por hora, está se
recuperando da surra sofrida na Guerra do Golfo, em 1991, e não arriscaria uma
aventura semelhante à que tentou no Kuwait. Assim, quem poderia iniciar o "5º
round"?
Com o Acordo de Paz com Israel, o Egito recuperou todo o Sinai e sua auto-estima
como nação. O dia 6 de outubro, data do início da Guerra do Ramadã, é um feriado
importante no país - Dia do Exército -, assim como a data da devolução do Sinai,
comemorada no dia 24 de abril. Todos os anos são chamados veteranos de guerra
para essas comemorações que visam enaltecer os feitos de guerra do país, em
1973, após as várias derrotas fragorosas anteriores.
Para o Egito, a paz com Israel é fundamental. Já desistiu da devolução da Faixa
de Gaza. Quer que esse território, junto com a Cisjordânia, forme um Estado
palestino. As guerras só trouxeram prejuízo para o Egito, o êxodo rural
aumentou, a cidade do Cairo inchou e está um caos, a falta de empregos é
crônica.
Um Egito governado por muçulmanos fundamentalistas poderia fornecer meios de se
armar a "lona" para mais uma contenda árabe-israelense, o "5º round". Esse
perigo existe, pela ação desencadeada por extremistas, com ataques a turistas,
policiais, intelectuais, cristãos coptas e autoridades governamentais, visando
minar o governo com a crise social que se alastra. O turismo caiu de 50 a 70%
nos últimos 2 anos, os hotéis estão vazios, assim como os famosos navios que
fazem os cruzeiros no Nilo. Como sabemos, o turismo é a segunda maior fonte de
moeda estrangeira, depois do Canal de Suez. Uma parcela considerável da
população egípcia vive dessa renda.
O conflito árabe-israelense é satirizado pela magistral pena do chargista
egípcio Gomaala, do jornal Al-Ahram, editado em inglês, principalmente no que
tange à parcialidade da ONU e dos EUA frente àquele problema, sempre em
detrimento dos árabes. Os árabes, não sem razão, sempre perguntam por que os EUA
não procuram impor aos israelenses a Resolução 242 do Conselho de Segurança das
Nações Unidas, de 1967, que exige até hoje a retirada de Israel dos territórios
ocupados, da mesma forma que impuseram pela força a saída de Saddam Hussein do
Kuwait, após a Resolução 660 do mesmo Conselho de Segurança. Ou a imposição da
Resolução 425, de março de 1978, que exige a retirada de Israel do sul do
Líbano. Enfim, na época de Cristo a Palestina era regida pela pax romana. Hoje,
pela pax americana...
O jornal Egyptian Gazette rebatizou a Guerra do Golfo como sendo uma guerra
árabe-israelense. Teríamos tido, assim, o "5º round" e não sabíamos. Esses
exageros são comuns na imprensa egípcia, principalmente aquela que não aceita a
influência americana na região e a situação de Israel, ainda com poder de mando.
(*) MAIER, Félix. "Egito - Uma viagem ao berço de nossa civilização". Editora
Thesaurus, Brasília, 1995
de Theodoro da Silva Junior <theojr@terra.com.br>
data 15/12/2007 17:28
assunto EGITO - UMA VIAGEM AO BERÇO DE NOSSA CIVILIZAÇÃO