Ascensão e declínio do nacionalismo árabe
Dossier Iraque
Ascensão e declínio do nacionalismo árabe
O Médio Oriente dos anos 50 e 60 foi marcado pelos ideais do nacionalismo árabe
e do pan-arabismo. Durante mais de dez anos, o egípcio Gamal Abdel Nasser foi o
líder incontestado deste movimento, que teve também importante repercussão no
Iraque.
Luis Leiria
"O Egito nacionalizou a Companhia do Canal do Suez. Quando o Egito cedeu a
concessão a Lesseps, ficou estabelecido, entre o Governo egípcio e a companhia,
que esta era egípcia e sujeita à autoridade egípcia. O Egito nacionalizou esta
empresa egípcia e declarou que a liberdade de navegação será preservada. Mas os
imperialistas ficaram zangados. A Grã-Bretanha e a França disseram que o Egito
se apoderou do Canal do Suez como se este fosse parte da França ou da
Grã-Bretanha. O ministro dos Negócios Estrangeiros britânico esqueceu-se de que
apenas há dois anos assinou um acordo declarando que a Canal do Suez é parte
integral do Egito. O Egito declarou-se pronto a negociar. Mas logo que as
negociações começaram, apareceram as ameaças e as intimidações...
(...) Defenderemos a nossa liberdade e independência até à última gota do nosso
sangue. Este é o mais profundo sentimento de cada egípcio. Todo o mundo árabe
ficará do nosso lado nesta luta comum contra a agressão e a dominação. Povos
livres, também, povos que são realmente livres, vão ficar connosco e apoiar-nos
contra as forças da tirania."
Quem leia hoje esta passagem do discurso do presidente egípcio Gamal Abdel
Nasser (15 de Setembro de 1956) não deixará de pensar que se tratava de mais uma
bravata de um líder árabe sem quaisquer condições de fazer o que dizia. Mas não
foi isso o que aconteceu. Pouco mais de um mês depois deste discurso, as forças
israelitas avançavam pelo Sinai em direção ao Suez, seguidas, uma semana depois,
pelas tropas francesas e britânicas. Mas a operação, apesar de obter vitórias
militares, foi um fiasco político que marcou o fim da influência das duas
potências européias na região (ver caixa). Enquanto franceses e britânicos
voltavam para casa sem conseguir garantir o domínio do estratégico canal, Nasser
emergia como o líder político de toda a nação árabe, uma espécie de Saladino do
século XX. Foi um dos pontos mais altos da sua vida política.
Nascido num bairro popular de Alexandria, o futuro presidente egípcio entrara na
Academia Militar e já era segundo tenente quando conheceu outros oficiais (entre
eles o seu futuro sucessor, Anwar Sadate) que compartilhavam as suas ideias
anti-britânicas. Com eles, pôs de pé uma organização clandestina, os Oficiais
Livres. Em 23 de Julho de 1952, cerca de 90 Oficiais Livres derrubam o rei Faruk
e a monarquia, e proclamam a República, numa revolução que quase não teve
derramamento de sangue. Tinham, em média, 33 anos de idade. Nasser entraria no
Conselho do Comando Revolucionário e dois anos mais tarde assumiria a
presidência até à sua morte, em Setembro de 1970.
A ordem natural de uma só nação
A ideologia que Nasser viria a construir nos anos seguintes baseava-se, em
primeiro lugar, no apelo ao nacionalismo e à união dos povos árabes numa única
nação. "O caminho para a unidade popular exige a restauração da ordem natural de
uma só nação", dizia a Carta Nacional aprovada em 1962. Para o mundo, o
presidente egípcio projetou-se na Conferência de Bandung de 1955, onde apareceu
como um dos líderes do Movimento dos Não-Alinhados.
No plano interno, o nasserismo implantou a reforma agrária - acabando com os
latifundiários, que davam a principal base de apoio social ao regime anterior -
e a propriedade estatal dos meios de produção. O "socialismo árabe" seria um
meio-caminho entre o capitalismo, por um lado, e o marxismo e a sua teoria da
luta de classes. A originalidade da variante árabe seria a união de todo o povo
em torno do governo, que representaria os interesses de todos. Um governo,
aliás, baseado na concepção do partido único de massas, a União Socialista
Árabe.
Em Novembro de 1957, logo após a crise do canal do Suez, o governo egípcio
nacionalizou primeiro os bancos franceses e britânicos, e, logo em seguida, os
restantes bancos. Nos anos seguintes seriam decretadas novas nacionalizações, o
confisco de propriedades, a imposição de impostos progressivos sobre a riqueza,
e o Estado assumiu o controlo de todo o comércio externo.
Dez por cento de Deuses
A revolução dos Oficiais Livres teve repercussões imediatas na Síria e no
Iraque. Em Fevereiro de 1958, a pedido da Síria, realiza-se a unidade entre esta
e o Egito, criando-se a República Árabe Unida (RAU), o primeiro (e mais efectivo
até hoje) passo no sentido da união árabe.
A Síria conquistara a sua independência em 1946, mas vivera em permanente
instabilidade desde então. O ideólogo da união foi o cristão Michel Aflaq, que
fundara em 1946 o Partido Ba'th (Ressurreição), que entraria na história tanto
da Síria quanto do seu vizinho Iraque. O Ba'th surgira de um movimento, no final
dos anos 30, dinamizado por Aflaq e um muçulmano sunita, Salah al-Din al-Bitar,
no decorrer de debates sobre a identidade Síria e as suas relações com os outros
países árabes.
Para os fundadores do Ba'th - e nisso tinham acordo com Nasser - existe apenas
uma Nação Árabe que tem o direito de ser um único Estado. A origem histórica
desta nação estaria na obra do profeta Maomé, não só no terreno religioso mas
também social. Mas esta experiência pertenceria não apenas aos muçulmanos, mas a
todos os árabes, que a deveriam levar a cabo através de um ideal - a compreensão
da necessidade de uma só nação árabe - e de um novo sistema social e político,
que cada vez mais, enquanto a teoria ba'thista era elaborada, ganhava contornos
socialistas.
Apesar do seu empenho no pan-arabismo, Nasser julgava que a Síria não estava
preparada para a união, e por isso apresentou algumas condições, todas aceites:
teria de haver um forte governo central, o Exército sírio deveria ficar
totalmente afastado da política e os partidos políticos teriam de ser
dissolvidos. Na verdade, esta condição era particularmente dura para uma nação
onde, segundo uma confidência irônica do ex-presidente sírio Al-Quwwatli a
Nasser, os políticos "cinqüenta por cento consideram-se líderes nacionais, 25%
profetas e pelo menos 10% Deuses"... Pior ainda, reduzia o Ba'th à impotência,
frustrando as expectativas de Aflaq, que esperava que Nasser deixasse o controle
da parte síria do novo país ao seu partido. Nestas circunstâncias, não era de
esperar que a RAU durasse muito tempo. E assim foi.
Três anos e meio depois da união, a RAU chegou ao fim através de um golpe de
Estado promovido por oficiais sírios. O pronunciamento representava a revolta
contra o tratamento subordinado dado aos sírios pela burocracia egípcia; outro
pretexto foram as nefastas conseqüências de uma severa seca que assolou o país.
O chamado regime secessionista promoveu a volta ao poder dos velhos políticos,
que rapidamente desfizeram as medidas sociais de Nasser. Mas também estava
fadado a durar pouco. Em 1963, o Ba'th voltava ao poder.
Oficiais Livres no Iraque
Entretanto, o Iraque tinha também vivido a sua revolução dos Oficiais Livres em
Julho de 1958, dirigida pelo brigadeiro Abd al-Karim Qasim, que derrubou a
monarquia do rei Faiçal II e proclamou a República. A união entre a Síria e o
Egito servira como um incentivo para os golpistas: na constituição provisória
adotada, o Iraque era apresentado como parte "da Nação Árabe". Mas logo surgiram
divisões entre os líderes da revolução em torno de uma eventual união com a RAU,
que constituiria um passo gigantesco no sentido do sonho pan-arabista. De um
lado, Qasim, apesar de não se opor ao princípio, não queria precipitar-se. Do
outro, o seu principal colaborador, Abd as-Salam Arif defendia apaixonadamente a
causa pan-árabe e a adesão imediata à RAU.
Qasim foi o vencedor, afastando Arif do poder em Outubro e instaurando uma
ditadura pessoal. Mas nunca conseguiu consolidar o novo regime, e os anos do seu
governo foram recheados de tentativas de golpes e conflitos com a minoria curda.
Em Outubro de 1959, o Ba'th iraquiano tenta assassinar Qasim, mas só consegue
feri-lo. Entre os organizadores do atentado estava um jovem militante de 22 anos
de idade que mais tarde se tornaria bem conhecido do mundo: Saddam Hussein.
Ferido, conseguiu escapar para a Síria, acabando por refugiar-se no Egito.
Numa tentativa de consolidar o seu poder, Qasim decretara ainda em 1958 a
primeira reforma agrária do país, acompanhando assim o Egito e a Síria. A lei
feria de morte o poder dos menos de 3 mil proprietários que possuíam mais de
metade da terra cultivável do Iraque. As parcelas confiscadas foram distribuídas
aos camponeses sem-terra, que eram obrigados a associar-se em cooperativas.
Outra medida que marcou o curto governo de Qasim foi a o confisco de 99,5% da
concessão da exploração do petróleo iraquiano à Companhia de Petróleo Iraquiano,
com maioria de capitais britânicos (além de franceses, norte-americanos e de
Gulbenkian). A indústria petrolífera seria totalmente nacionalizada em 1972.
Finalmente, em Junho de 1961, sentindo o crescente isolamento interno, Qasim
tentou uma fuga em frente e reivindicou a devolução do Kuwait ao Iraque,
argumentando que o novo país, que obtivera a independência poucos dias antes,
fora originalmente um distrito da província otomana de Baçorá, e tinha sido
separado injustamente pelos britânicos quando o Iraque se formou, após o
desmembramento do Império Otomano. A mesma argumentação que mais tarde Saddam
Hussein usaria. Com a iniciativa, Qasim queria aparecer como um paladino do
patriotismo árabe e um contraponto ao prestígio de Nasser.
Mas a iniciativa demonstrou-se um fiasco. O Kuwait pediu ajuda ao Reino Unido,
que enviou tropas. A Liga Árabe, então dominada pela RAU, admitiu o Kuwait na
instituição e prometeu salvaguardar a sua independência, pedindo a saída das
tropas britânicas. Estas foram substituídas por uma força da Liga Árabe, o que
levou o Iraque a retirar o seu representante da Liga e a romper relações
diplomáticas com muitos países árabes.
O fracasso externo ajudou a acelerar os preparativos do golpe que finalmente
derrubaria o líder iraquiano em 1963, numa revolução de novo inspirada pelo
Ba'th. Qasim foi executado e subiu ao poder o seu antigo colaborador, Abd
as-Salam Arif.
Com o Ba'th no poder tanto na Síria quanto no Iraque, parecia estar de novo na
ordem do dia a união Egipto-Iraque-Síria. Mas as negociações abertas
revelaram-se inconseqüentes e evidenciaram divisões no seio do próprio Ba'th. A
disputa entre os pró e os contra Nasser chegou até a confrontos de rua.
Sentindo-se ameaçado, Arif reagiu, expulsou o Ba'th do governo e assumiu todo o
poder. Saddam Hussein, que voltara ao país depois do golpe e se dedicara a
organizar o partido, foi preso e permaneceria na cadeia até 1966.
Em 1964, seguindo o Egito, Arif nacionalizou os bancos, as companhias de seguros
e as principais indústrias. Mas, em 1968, um novo pronunciamento militar punha
fim ao longo ciclo de golpes e contra-golpes - pelo menos até hoje.
1967: o início do declínio
Na madrugada de 17 de Julho de 1968, oficiais do Exército iraquiano ligados ao
Ba'th e comandados pelo principal dirigente do partido, Ahmad Hassan al-Bakr,
entraram no palácio presidencial pela porta da frente, aberta por um coronel que
aderira ao movimento. O presidente Abd ar-Rahman Arif (irmão de Abd as-Salam
Arif, que entretanto morrera num acidente de helicóptero) já estava informado da
revolta e rendeu-se imediatamente, aceitando partir para o exílio. Começava
assim o regime iraquiano mais estável da sua história republicana, o do Ba'th.
Saddam Hussein manteve-se como segunda figura até à renúncia de al-Bakr, por
alegados motivos de saúde, em 1979, assumindo então todos os poderes.
O golpe iraquiano já é uma marca do declínio do nacionalismo árabe. Um ano
antes, a guerra dos Seis Dias (1967) mostrara que Israel se tornara na mais
forte potência militar da região, ao derrotar o Egito, a Síria e a Jordânia, com
novas ocupações de territórios: o Sinai ao Egito (incluindo os seus campos
petrolíferos), os montes Golã à Síria, Jerusalém e a margem ocidental do Jordão
à Jordânia. O governo de Arif, do Iraque, não prestou qualquer apoio aos
beligerantes árabes.
A derrota abalou decisivamente o prestígio de Nasser, que aceitou a
responsabilidade sobre o resultado humilhante e renunciou. Mas enormes
manifestações de rua fizeram-no voltar atrás. O nasserismo, porém, já não seria
mais o mesmo. Após o desastre, o Egipto retirou imediatamente as suas tropas do
Iémen, onde há anos participava da guerra civil, e aproximou-se dos regimes
árabes conservadores. Manteve, porém, o apoio à causa palestiniana, declarando
que, em relação a Israel, a sua política não era nem de guerra nem de
negociações.
Em 28 de Setembro de 1970, Nasser morreu de ataque cardíaco, espalhando a
consternação pelo mundo árabe. Com ele, morria um pouco o ideal pan-árabe.
Nenhum outro líder mostrou até hoje, em toda a região, a estatura do presidente
egípcio. Um ano e meio antes, numa entrevista ao New York Times, Nasser fizera
um balanço da sua vida política onde não escondia o tom amargo dos seus dias
finais: "Como sabe, não conseguimos realizar todos os nossos sonhos durante os
últimos 17 anos devido a uma variedade de problemas: a ocupação, a agressão de
1967, etc.", disse. "O meu sonho acima de tudo é o desenvolvimento do país, a
eletricidade nas aldeias e trabalho para toda a gente. Não tenho sonhos
pessoais. Não tenho vida pessoal."
Pá de cal sobre o nasserismo
O sucessor de Nasser, Anwar Sadate, viria praticamente deitar a pá de cal em
cima do nacionalismo egípcio, ao concluir em 1978 os acordos de paz com Israel
em Camp David. Por um lado, Israel ganhava a paz formal com o Egito e a garantia
de navegação pelo Canal do Suez, em troca de uma retirada faseada em três anos
das tropas israelitas do Sinai. Mas, num segundo acordo sobre a questão
palestiniana, falava-se vagamente numa autonomia da Cisjordânia e da faixa de
Gaza, a ser definida mais tarde.
Aos olhos do mundo árabe, Camp David apareceu como uma capitulação de Sadate
diante de Israel e dos EUA, provocando uma onda de indignação. O Egito foi
expulso da Liga Árabe, que mudou a sua sede do Cairo para Túnis. Era o mais
claro epitáfio para o país que conduzira os destinos da Liga desde o seu
nascimento.
O pano caiu também sobre o sonho ba'thista do ressurgimento árabe quando o
Iraque de Saddam Hussein invadiu o Irão em 1980, dando origem a um dos mais
sangrentos conflitos ocorrido entre Estados após a II Guerra Mundial: durou oito
anos, os seus custos são estimados em 200 mil milhões de dólares diretos e um
bilião de dólares em custos indirectos, e as suas vítimas ascenderam a um
milhão. Nas suas origens estava uma disputa fronteiriça - e o controlo do Golfo.
Havia também o temor de Saddam de que a revolução xiita iraniana inflamasse a
maioria xiita do Iraque.
Foi neste conflito que ficou definitivamente claro que os dois regimes
ba'thistas vizinhos já nada tinham a ver um com o outro. A Síria ba'thista
negou-se a apoiar o Iraque ba'thista e árabe, para fornecer o seu apoio ao Irão
- muçulmano, mas não-árabe. Os oito anos de guerra deixaram os dois países
exaustos e sem qualquer ganho territorial de parte a parte. E, mais uma vez, a
solidariedade árabe ficava ferida de morte. Mais tarde, na Guerra do Golfo de
1990-91, a Síria participou da coligação formada pelos Estados Unidos para
atacar o Iraque e acabar com a ocupação do Kuwait.
O fim do nacionalismo?
Diante da impotência e da permanente desunião que tem sido a constante face aos
mais importantes conflitos que atingem o mundo árabe - dos quais avulta a
questão palestiniana -, cabe perguntar se o pan-arabismo está morto e enterrado.
A conclusão seria, no mínimo, apressada.
Os processos de independência trouxeram verdadeiras revoluções aos países do
Médio Oriente. Mesmo sabendo que nenhum deles vive sob um regime que garanta as
mínimas condições de democracia, o que é certo é que o salto econômico, social e
cultural que as novas nações deram no pós-guerra é impressionante. Só para
falarmos dos três países que mais abordamos neste artigo, Egito, Síria e Iraque
deixaram de ser países agrícolas governados por aristocracia latifundiárias para
se tornarem em nações urbanas, com um razoável índice de desenvolvimento e um
nível cultural alto. Ilustremos com alguns dados: em 1990, no Iraque, 87% da
população tinha acesso a água limpa, 93% a assistência médica, e a expectativa
de vida era de 65 anos. Em 1958, quando da revolução dos Oficiais Livres, apenas
60% das crianças iam à escola primária e menos de 20% entravam no ensino
secundário. Em 1980, praticamente 100% das crianças já freqüentavam a primária e
60% a secundária. A literacia de adultos subiu de 15% em 1958 para 90% em 1990.
E, ao contrário do que pensa o senso comum ocidental, as mulheres melhoraram
muito a sua condição e o seu acesso à educação e ao trabalho. Claro que estes
índices já retrocederam como conseqüência dos resultados desastrosos das guerras
com o Iraque, do Golfo, e do embargo econômico que ainda hoje vigora.
Outro elemento poderoso que ajudou a reforçar uma consciência árabe foi a maciça
emigração entre os diversos países da região, tendo como alvo os que mais
produzem petróleo. Em 1970, calculava-se que existiam pelo menos 3 milhões de
emigrantes árabes, metade dos quais trabalhava na Arábia Saudita. Pelo menos um
terço dos emigrantes vinham do Egito e um número semelhante do Yemen;
palestinianos e jordanos eram cerca de meio milhão. Todo este movimento provocou
um intercâmbio de culturas - facilitada pela língua comum -, a que se veio
juntar o papel dos meios de comunicação. O exemplo mais flagrante é o sucesso
que a rede de TV Al-Jazira obtém hoje em todo o mundo árabe: em qualquer casa ou
café de qualquer país árabe, as televisões estão sempre ligadas no canal que
emite a partir do Qatar.
Por tudo isto, e apesar da desunião dos governos, há uma crescente opinião
pública árabe - e islâmica - no Médio Oriente. O homem do bazar, o estudante, o
funcionário público, o camponês ou o trabalhador industrial ainda esperam por um
outro Saladino ou um outro Nasser que mais uma vez seja capaz de inflamar as
suas paixões, sacudir séculos de humilhações e levar o mundo árabe a ocupar o
lugar que merece na comunidade mundial. Os ideais de Nasser ainda pairam em toda
a região, e é provável que saiam mais reforçados de uma possível nova guerra no
Iraque.
Para Saber Mais
Albert Hourani, A History of the Arab Peoples, Faber and Faber, Londres, 1992
M. E. Yapp, The Near East Since The First World War, a History to 1995, Longman,
Essex, 1996
Charles Tripp, História do Iraque, ou do Nascimento e Estado de uma Nação,
Publicações Europa-América, Lisboa, 2003
Destaques:
A ideologia que Nasser viria a
construir nos anos seguintes baseava-se, em primeiro lugar, no apelo ao
nacionalismo e à união dos povos árabes numa única nação. "O caminho para a
unidade popular exige a restauração da ordem natural de uma só nação", dizia a
Carta Nacional aprovada em 1962.
Com o Ba'th no poder tanto na Síria quanto no Iraque, parecia estar de novo na
ordem do dia a união Egito-Iraque-Síria. Mas as negociações abertas revelaram-se
inconseqüentes e evidenciaram divisões no seio do próprio Ba'th. A disputa entre
os pró e os contra Nasser chegou até a confrontos de rua.
Há uma crescente opinião pública árabe - e islâmica - no Médio Oriente. O homem
do bazar, o estudante, o funcionário público, o camponês ou o trabalhador
industrial ainda esperam por um outro Saladino ou um outro Nasser que mais uma
vez seja capaz de inflamar as suas paixões, sacudir séculos de humilhações e
levar o mundo árabe a ocupar o lugar que merece na comunidade mundial.
Caixa 1
Gamal Abdel Nasser
Nasceu em 15 de Janeiro de 1918 numa casa de adobe no bairro Bacos de
Alexandria, filho de um carteiro. Já freqüentava a escola primária quando foi
para o Cairo, viver com um tio que acabara de ser libertado de uma prisão
britânica. Entrou na Faculdade de Direito, mas meses depois ingressou na Real
Academia Militar, onde se graduou como segundo tenente.
De serviço no Sudão, começou a idealizar a organização dos Oficiais Livres. Na
guerra de 1948 contra o recém-criado estado de Israel, Nasser estava num
batalhão que ficou cercado semanas pelas tropas israelitas.
Em 1952, os Oficiais Livres derrubaram a Monarquia. À cabeça do Conselho do
Comando Revolucionário estava o General Mohammed Naguib, enquanto Nasser atuava
nos bastidores. Mas na Primavera de 1954, Naguib foi deposto e Nasser passou a
ocupar o cargo de primeiro-ministro. Em 1956, quando o Egito foi proclamado um
estado socialista árabe, Nasser foi eleito presidente com 99,8% dos votos.
Até à sua morte, Nasser deixaria uma marca indelével no Egito e em todo o mundo
árabe. O seu pan-arabismo levou-o à criação da República Árabe Unida durante
três anos e meio. O Egito interveio na guerra civil do Yemen (um atoleiro de que
mais tarde o presidente egípcio se arrependeria) e ajudou a criar a OLP, sendo
um irredutível apoiante da causa palestiniana. A crise do canal do Suez, em
1956, levou-o ao ponto mais alto da sua vida política. Mas a derrota da Guerra
dos Seis Dias, em 1967, provocou a sua renúncia, de que desistiu depois de
maciças manifestações de rua.
Do ponto de vista social, o Egito, durante Nasser, passou de uma sociedade rural
atrasada para uma sociedade urbana. A sua maior obra foi a gigantesca barragem
de Assuão, construída com o apoio da União Soviética, que permitiu levar a
eletricidade às mais recônditas aldeias. No discurso pronunciado a 23 de Julho
de 1970, diante do 4º Congresso da União Socialista Árabe para assinalar o fim
da construção da Barragem do Assuão, Nasser, apesar de um sombrio balanço da
guerra de 67 e do apoio dado pelos Estados Unidos a Israel, ainda encarava com
muito optimismo o futuro do mundo árabe: "O povo egípcio não ficou sozinho face
à guerra, o perigo e o terror durante este admirável e histórico período. Toda a
nação Árabe ficou do seu lado, cumprindo o seu papel na luta, enquanto
reconhecia o seu direito de assumir a maior parte dos custos da batalha pelo
futuro. Acima de tudo estavam as massas, confiantes no reconhecimento de que a
liberdade da nação Árabe era o único objetivo, e a vitória dessa liberdade a
única exigência." Pouco mais de dois meses depois deste discurso, considerado o
seu testamento político, Nasser morria de um súbito ataque cardíaco.
Caixa 2
A Crise do Canal do Suez
Em 26 de Julho de 1956, Gamal Abdel Nasser anuncia a nacionalização da Companhia
do Canal do Suez, que, até então, apesar de se tratar de uma empresa egípcia,
fora controlada por interesses britânicos e franceses. A causa imediata da
iniciativa de Nasser foi o anúncio de que os Estados Unidos não iriam financiar,
como prometido, a construção da barragem de Assuão, estratégica para o
desenvolvimento do país. A Casa Branca ficara agastada devido ao anúncio, feito
no ano anterior, de que o Egito comprara armas à União Soviética, argumentado a
necessidade do equilíbrio de forças com Israel, com quem mantinha uma permanente
relação de atrito fronteiriço.
A nacionalização do Canal estava ao abrigo da lei internacional, e Nasser
prometeu indenizar os donos da concessão. Por isso, era incontestável
legalmente. Mas afetava decisivamente os interesses britânicos e franceses. Por
um lado, deixava o Egipto na posse de uma espécie de espada de Dâmocles sobre os
interesses econômicos britânicos, já que um quarto das importações britânicas e
as comunicações com o Oriente passavam pelo canal. Por outro, a ser mantida, a
nacionalização mostraria aos países do Médio oriente - e principalmente aos
aliados das potências européias - que a sua antiga força deixara de existir.
Mas, por iniciativa dos Estados Unidos, presididos então por Eisenhower,
começaram as negociações.
Ao contrário dos EUA, porém (que ironia, se levarmos em conta os atuais
acontecimentos...), França e Reino Unido queriam ação e não diplomacia. Em 24 de
Outubro de 1956, em Sèvres, realiza-se um encontro secreto entre o Reino Unido
do primeiro-ministro Anthony Eden, a França do premier Gui Mollet e Israel de
Ben-Gurion para preparar uma intervenção militar. Ficou acordado que Israel
atacaria o Egito até às margens do canal, Paris e Londres fariam um apelo para o
fim das hostilidades e a retirada das margens do canal; Israel aceitaria e o
Egito não, o que daria o pretexto para o desembarque das tropas européias.
Tudo correu como previsto, mas as tropas de paraquedistas e fuzileiros navais
franceses e britânicos tiveram de deter a sua marcha antes de chegar ao canal,
devido a uma resolução da ONU que exigia um cessar-fogo. A iniciativa da
resolução foi de Eisenhower, que se opôs com firmeza à aventura militar de Eden
e Mollet. Com o cessar-fogo entre Israel e o Egito, já não havia motivos para o
avanço francês e britânico. Para piorar, a libra esterlina entrara em queda
livre e Washington nada quis fazer para sustentá-la.
A França e o Reino Unido tiveram de aceitar uma retirada desonrosa, a 22 de
Dezembro, que marcou o fim da sua influência na região. As tropas israelitas
retirar-se-iam em Março de 1957. A partir desse momento, as únicas potências que
realmente contariam no Médio Oriente seriam os Estados Unidos e a União
Soviética.
Caixa 3
Michel Aflaq
Cristão sírio, filho de um comerciante que professava a religião grega ortodoxa,
Aflaq nasceu em Damasco em 1910. A sua consciência nacionalista despertou
primeiro nos movimentos de oposição à França, que manteve a Síria como um
protetorado depois da derrocada do Império Otomano, no pós I Guerra Mundial.
Entre 1929 e 1934, estudou em Paris, onde entrou em contacto com o pensamento
marxista. De volta a Damasco, juntou-se a um muçulmano sunita, Salah al-Din
al-Bitar para criar o partido Ba'th (Ressurreição, ou Renascimento). Era
convicção de Aflaq que a luta nacionalista tinha de se opor ao mesmo tempo à
aristocracia local e à potência que controlava o governo.
O objectivo do Ba'th era, em primeiro lugar, a união de todos os Estados árabes
numa única nação socialista, num processo de renascimento que levaria a uma
sociedade mais justa e unida, e inspirada nos valores que Aflaq considerava
positivos do Islão. A direção do partido seria pan-árabe e em cada país haveria
um comando local. Em 1953, o partido de Aflaq fundiu-se com o Partido Socialista
Sírio. Em 1958, depois de um período político conturbado que seguiu à queda da
ditadura do coronel Adib ash- Shishakli, Aflaq conduziu, do lado sírio, o
processo que levou à união da Síria com o Egito e constituiu a República Árabe
Unida.
É de notar que Michel Aflaq sempre foi um teórico e um organizador, quase nunca
ocupando cargos públicos. Em 1963, depois do golpe que derrubou o governo
secessionista e o golpe que levou o Ba'th ao poder no Iraque, Aflaq empenhou-se
em novas negociações de unificação entre os dois países, mas sem resultado.
Depois de 1966, mudou-se para o Líbano e deixou de ter um papel ativo na
política Síria, apesar de se manter ligado a algumas facções do Ba'th no Iraque,
Síria e Líbano. Morreu em Paris, em 23 de Junho de 1989.
de Theodoro da Silva Junior <theojr@terra.com.br>
data 06/10/2008 00:52
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