A RELIGIÃO MUÇULMANA
Os fundamentos do Islã
O islamismo não é uma religião original. Formou-se com base nas religiões
judaica e cristã e sua cultura nasceu do encontro das civilizações altamente
desenvolvidas da Grécia, Pérsia, Egito e Crescente Fértil. O Crescente Fértil
envolvia as ricas terras da Palestina, do Líbano, da Síria e da Mesopotâmia,
atual Iraque. Na parte cultural, os conquistadores foram subjugados pelos
conquistados. Os contos Alf Laylah wá Laylah (As Mil e Uma Noites) eram
originalmente persas, não árabes. Os persas escreveram os mais importantes
livros da Hadith (Tradição), tanto da seita xiíta quanto da sunita. Contribuíram
também na formação de cientistas como o físico e filósofo Avencina (Ibn Sina),
formado nas universidades ocidentais.
Porém, a cultura árabe floresceu esplendidamente durante a Idade Média, enquanto
o "período das trevas", ocasionado pela Inquisição, colocou a Europa na mais
completa escuridão cultural. Devemos aos árabes a conservação da cultura grega e
muitos aspectos culturais europeus inspiraram-se em costumes árabes. Alguns
consideram que a concepção da cavalaria, na Europa, a arte bélica desenvolvida
em volta do cavalo, foi uma noção que veio do islã.
Paradoxalmente, os muçulmanos preservaram a cultura grega para o Ocidente, que
mais tarde iria ser o fermento do Renascimento, quando os cruzados levaram
aquela cultura e as ciências árabes para a Europa. Enquanto isso, os árabes
permaneceram fiéis aos rígidos ensinamentos do Corão, sem desvio de rota.
Lendo-se o Corão, observa-se que as idéias centrais são repetidas dezenas e
dezenas de vezes, como o sermão de um pároco que discorresse sobre um só tema.
As ilustrações são diversas, os ensinamentos são veementes, nobres e profundos.
O livro sagrado dos muçulmanos afirma como verdadeiras as primeiras revelações
divinas: "Verdadeiramente, nós lhes enviamos a Torá, cheia de ensinamento e luz"
(5: 45). O Corão relaciona os pecados a serem evitados e as virtudes a serem
seguidas.
O Corão prega a liberdade de consciência. É taxativo quando diz que a fé é uma
questão de consciência de cada um e não pode ser imposta: "Proclame: Esta é a
verdade de seu Senhor; então deixe quem quiser, que creia, e deixe quem quiser,
que não creia" (18: 30). Porém, há enunciados corânicos que vão contra os
cristãos e judeus, como veremos adiante. Isto, certamente, deve ser a causa da
intolerância de muitos muçulmanos frente à civilização ocidental.
O livro dos muçulmanos lembra continuamente as responsabilidades do homem e da
mulher, que devem ser tolerantes com as pessoas nas desavenças. O Corão lembra
aos filhos que eles foram gerados com a dor da mãe, que os carregou no ventre
por mais de 30 meses. Assim, quando a mãe atingir a maturidade, por volta dos 40
anos, o filho deve retribuir a dádiva que recebeu ao vir ao mundo. Ao pai idoso
o mesmo cuidado deve ser concedido.
Socialmente, o Corão é mais evoluído em um aspecto que a Bíblia: o divórcio. Em
nossa sociedade ocidental, o divórcio está cada vez mais presente em nosso
cotidiano, inclusive entre os cristãos, mesmo que os Evangelhos não o permitam.
Como foi escrito numa época em que o sistema patriarcal era absoluto, quando na
antiga Arábia até as meninas muitas vezes eram enterradas vivas porque o pai
preferia homens, a mulher no Corão tem uma posição inferior. Os religiosos
muçulmanos, no entanto, interpretam a posição secundária da mulher não como uma
humilhação, mas a necessidade de ela precisar do amparo e da assistência do
marido, principalmente na vida material, e da custódia contra o abuso de outros.
O problema todo é o choque dos ensinamentos rígidos do Corão frente à vida
moderna, na entrada do século XXI, quando presenciamos no Ocidente a banalização
de todos os conceitos morais e religiosos.
Por isso, não deve causar estranheza que o Corão tenha se cristalizado naqueles
princípios que então regiam as sociedades, já que o livro sagrado dos
muçulmanos, escrito na “língua dos anjos”, não pode jamais ser modificado. Para
os religiosos islâmicos, não pode haver uma "revisão" do Corão, assim como houve
a Reforma Protestante - um movimento religioso contra a Igreja Católica estática
e corrupta da época. Da mesma forma, as exortações veementes, a rígida moral, os
castigos extremos - como a pena de morte para os que renegarem sua religião, ou
o corte das mãos dos ladrões -, tudo isso decorre da época em que vivia Maomé. O
Antigo Testamento, com a Lei Mosaica, não era menos rigoroso em seus
ensinamentos. A pena de morte era prescrita com bastante freqüência.
Assim, de acordo com o rigor que os muçulmanos interpretam seu livro sagrado,
observamos as várias nuances no mundo árabe e muçulmano, com países mais
liberais de um lado, como o Egito e a Turquia, e de outro lado países mais
conservadores, como a Arábia Saudita e o Irã.
A Sharía (Charia ou Lei) significa "caminho do bebedouro", o "caminho que leva a
Alá". É a crença ou doutrina islâmica, além do ritual religioso e a moral
social, que deve ser aplicada a toda a sociedade muçulmana. Quatro são os
fundamentos da Charia: o Corão, a Sunna, o Ijima e o Quias.
Al-Quran ("o Corão" ou "o Alcorão") significa "discurso", "recitação" e é também
chamado de Kitab Allah (Livro de Alá). Eterno e imutável, considerado a língua
dos anjos, o Corão não pode sequer ser traduzido. Para a unanimidade dos ulema
(teólogos muçulmanos), a tradução do Corão para qualquer outro idioma não se
considera mais Corão e sim "tradução dos significados dos versículos corânicos".
Para os fundamentalistas muçulmanos, devem ser cumpridas todas as determinações
do Corão, sem possibilidade de contestações, revisões ou interpretações livres
em qualquer época da história humana.
A Sunna (caminho do Profeta) é o conjunto de acontecimentos da vida de Maomé,
reunidos na Hadith (Tradição), para preencher as lacunas do Corão, que é
imutável. A Hadith começou a ser reunida desde a época omíada.
O Ijima ou "consenso universal" é qualquer crença ou prática, mesmo não contidas
no Corão ou na Hadith, que se tornam justificáveis, desde que aceitas pela
comunidade muçulmana.
O Quias é a base de interpretação da Charia. É um raciocínio analógico, através
do qual novas crenças e modos de conduta são deduzidos. Os conservadores limitam
tal princípio, pois pode levar à livre interpretação.
Na doutrina islâmica, convém destacar, ainda, o papel dos religiosos na
atualidade.
O mufti é o intérprete máximo da Sharia, a lei islâmica. No antigo império
islâmico, a administração das províncias previa o cadi e o mufti. O cadi julgava
as questões judiciais e sua autoridade era apenas inferior à do chefe de Estado.
Hoje, o Grande Mufti do Egito é a maior autoridade religiosa do país e trabalha
em conjunto com o Grão-Sheikh da Mesquita Al-Azhar.
O alim é um sábio religioso. Os ulema (plural de alim) são os teólogos
muçulmanos, os profundos estudiosos e intérpretes do islamismo.
O sheikh é um estudioso da religião e, junto com o imam, normalmente dirige uma
mesquita. No Egito, destaca-se o Grão-Sheikh da Mesquita Al-Azhar, importante
centro de teologia não só do Egito mas de todo o mundo muçulmano. Tínhamos um
amigo oriundo de Paranaguá-PR estudando na Universidade Al-Azhar para ser um
sheikh (xeque).
O imam (imã, sacerdote muçulmano) está associado com uma mesquita em particular,
onde lidera as orações, principalmente das sextas-feiras ao meio-dia, quando
profere "sermões". É como se fosse o "vigário" da Igreja Católica.
As obrigações do muçulmano
São 5 as principais obrigações do islamita: a shahada, que é o recital do credo
"Alá é o único Deus e Maomé o seu profeta"; a salat, que consiste em orar 5
vezes ao dia, voltado para Meca; a zakat, que é o pagamento de doações, espé-cie
de dízimo, para ajudar os pobres; a siam, jejuar no mês sagrado do Ramadã; e
fazer, ao menos uma vez na vida, uma peregrinação a Meca, a hajj.
Já cedinho, de madrugada, os alto-falantes das mesquitas chamam os fiéis para a
oração: "é melhor rezar do que dormir". Antigamente, era o muezin que chamava,
do alto das mesquitas, os fiéis para a oração. Hoje, várias vezes durante o dia
e à noite as fitas gravadas e os alto-falantes fazem esse serviço.
A abertura da televisão é feita com leitura de trechos do Corão. Várias vezes
durante o dia, na hora do chamamento dos fiéis para a oração, a programação da
televisão é interrompida para a leitura do Corão. Da mesma forma, ao sair do ar,
a televisão apresenta algumas orações extraídas do livro sagrado.
A 6ª feira é o Yum Al-Guwah, o "Dia da Reunião", o dia por excelência da oração.
Nesse dia, o imam sobe ao púlpito e profere dois sermões. Comparando, seria a
missa dos católicos nos domingos e dias santos. O horário é por volta do
meio-dia e podíamos ver, em todas as mesquitas do Cairo, o povo aglomerado do
lado de fora, aqueles que não conseguiram lugar dentro da mesquita, acompanhando
as orações pelos alto-falantes. Todos os fiéis vão chegando com seu pequeno
tapete para as orações. Alguns, na falta do tapete, improvisam jornais para
ficar em pé ou ajoelhado em cima dos mesmos, como prevê a tradição.
A oração a Alá deve ser feita em um local limpo, por isso a necessidade do uso
do tapete. Ao entrar em uma mesquita, o fiel muçulmano deve deixar os sapatos do
lado de fora. Na maior parte das mesquitas a entrada é somente permitida aos
homens. Os estrangeiros também têm acesso, mas somente em algumas mesquitas são
permitidas fotografias ou filmagens. Cada mesquita tem seu mihrab, o nicho
indicador da direção de Meca, para onde o fiel muçulmano deve se voltar durante
as orações.
Os religiosos muitas vezes admoestam os fiéis, que trocam a mesquita pela
televisão, principalmente quando jogam o Zamalek e o Ahli, do Cairo, um clássico
que pára a cidade. Seria uma espécie de Fla-Flu dos bons tempos. Ou de um
Corinthians versus Palmeiras da atualidade.
Mas não é só nas mesquitas que o fiel faz suas orações. Nem só naqueles horários
rígidos anunciados pelos alto-falantes das mesquitas, pelo rádio ou pela TV. Em
qualquer local e a qualquer hora o fiel muçulmano pode fazer sua oração. Para a
oração, o fiel deve fazer a tagsil, a ablução do rosto e das mãos com água, ou o
tayammum, ablução simbólica, que consiste em esfregar areia nas mãos na falta de
água, como se segue:
"Para rezar, lavar as faces e as mãos até o cotovelo; passar as mãos secas sobre
a cabeça; lavar os pés até o artelho. Se tiver tido relação sexual com suas
esposas, tomar banho para se purificar. Se estiver doente ou em viagem ou vier
da privada, ou tenha tido relação sexual com suas esposas e não encontrar água,
há o recurso do pó limpo, tocando-o com as mãos e passando o pó no rosto e no
antebraço" (5: 7-8).
Ajudar os pobres é outra obrigação do muçulmano. Não só oferecendo carne aos
pobres no Aid El-Adha, a Festa do Sacrifício, mas também contribuindo com
gorjetas aos pedintes nas ruas. E qualquer favor prestado, o pagamento é
obrigatório. A zakat, a contribuição purificadora, tem por objetivo a
redistribuição da riqueza, maneira de reduzir as diferenças sociais - ao menos
em tese. É para purificar os ricos do egoísmo e os pobres da inveja. Se o bauab
(porteiro), normalmente um beduíno analfabeto do interior, ajudar a levar as
compras até sua casa, ou qualquer pessoa pobre prestar algum favor, você é
obrigado a dar um bakshish (gorjeta). Na época do ramadã, os estrangeiros também
são convidados a dar alguma contribuição ao bauab, ao carteiro, aos cobradores
de energia elétrica e de gás canalizado.
Pudemos observar, numa telenovela em que entendíamos muito pouco, que os árabes
até fazem humor com essa obrigação de dar gorjeta aos mais pobres. Um homem
rico, ao esperar um elevador, tentou se esquivar do toque de uma pessoa mal
vestida, que pedia uma esmola, para evitar a contribuição de gorjeta. No
primeiro descuido, o mendigo espanou com a mão uma sujeirinha do ombro do paletó
do homem e este não conseguiu escapar da obrigação de dar um bakshish como
pagamento pelo "trabalho" executado...
A siam é a 4ª obrigação do muçulmano, que consiste em jejuar no mês sagrado do
ramadã. Como já visto anteriormente, durante o ramadã, do nascer ao pôr do sol,
o muçulmano não pode se alimentar ou ingerir qualquer tipo de bebida, a não ser
em caso de doença, com receita médica.
A última das cinco principais obrigações do islamita é fazer, ao menos uma vez
na vida, uma peregrinação a Meca, na Arábia Saudita. Na Hajj (Peregrinação para
a Casa de Alá), o peregrino deve chegar à cidade de Meca no sétimo dia do último
mês muçulmano, o mês de Dhu'l-hijja, e participar de cerimônias até o 10º dia
daquele mês.
A umra é a visitação aos lugares sagrados que o muçulmano deve fazer na Arábia
Saudita, cumprindo determinado ritual. Inicialmente, deve visitar a Al-Masquid
Al-Haram (a Mesquita Sagrada), no centro da qual se encontra a Caaba. Deve
rodear 7 vezes a Caaba, 3 vezes correndo e 4 vezes andando vagarosamente. Deve
beijar a Al-Hajar Al-Asuad (a Pedra Negra), que é o meteorito localizado no
ângulo leste da Caaba e que serviu de mesa para o sacrifício de Abraão. Deve
beber água do poço de Zam-Zam e percorrer, 7 vezes, a distância entre os montes
Safa e Marwa (405 m de distância). Esta caminhada, de quase 3 km, é para lembrar
quando Agar, esposa do profeta Abraão, correu de uma a outra rocha em procura de
água para o sedento filho Ismael. Finalmente, a água jorrou da fonte de Zam-Zam
e é a mesma água que hoje é usada para beber, para a ablução e para lavar o
santuário de Meca. Os muçulmanos atribuem poderes curativos àquela água.
Depois, o fiel muçulmano deve ir ao Monte Arafat e a Mina, para atirar pedras
contra colunas baixas, as "lapidações do diabo". Por último, deve sacrificar um
animal, no Aid El-Adha, em memória de Abraão, considerado um dos grandes
profetas, construtor da Caaba e pai dos árabes, para lembrar que Abraão quase
sacrificou seu filho Ismael.
Não-muçulmanos são proibidos de entrar em Meca. Nos check-points são revistados
todos os passaportes, para terem a certeza de que todos são muçulmanos. Mulheres
são checadas para ver se estão acompanhadas do marido, irmão, pai, filho ou
enteado.
Assim como é costume dos cristãos levarem água do Rio Jordão, como lembrança, os
muçulmanos levam garrafas de água da fonte de Zam-Zam.
Em 1991, foi permitido o retorno de iranianos para a visitação a Meca, depois de
ficarem 4 anos proibidos de entrar na Arábia Saudita. Em 1987, 400 iranianos,
fortemente armados, morreram em choques com a polícia saudita.
Durante o Aid El-Adha pudemos ver rebanhos de ovelhas e carneiros sendo tocados
por beduínos pelas ruas do Cairo. Aos brados, o beduíno anuncia o seu produto e
as pessoas vão descendo de seus apartamentos para a compra do animal. Na rua
mesmo, em frente ao prédio, sem nenhuma preocupação com higiene, o beduíno mata
o animal, retira as vísceras e parte o bicho em muitos pedaços. Os mais
endinheirados compram o animal inteiro, enquanto outros compram apenas alguns
pedaços. Às vezes, devido à matança de grande quantidade de animais em um mesmo
local, forma-se uma verdadeira lagoa de sangue na rua, com cães e moscas em
volta. O sangue coalhado e as vísceras ficam dias na rua, ocasionando mau
cheiro, até sumir de vez.
O cisma muçulmano e o fundamentalismo islâmico
As heresias e os movimentos separatistas começaram logo após a morte de Maomé,
fugindo da ortodoxia sunita (de Sunna ou "Caminho do Profeta").
Maomé não tinha herdeiros homens. Isso o preocupava muito e, após a morte de sua
mulher Cadidja, passou a ter várias mulheres, em um total de 8 ou 9, para
conseguir um herdeiro masculino. Esse, talvez, um dos motivos da permissão da
poligamia que foi autorizada, também, para seus seguidores, porém em um número
máximo de 4 mulheres. Ou de 2 mulheres, para os escravos.
Áli Ibn Ábi Taleb era casado com Fathima, filha do Profeta, e assim, além de
primo, tornou-se genro de Maomé. Áli era um dos discípulos mais queridos do
Profeta e este uma vez dissera que "para onde Áli for, todos devem ir também".
Pouco depois Maomé morreu, sem deixar filho para sucedê-lo e sem estabelecer
regras claras de sucessão. Os homens mais chegados a Áli esperavam que este
fosse proclamado sucessor do Profeta. Porém, Abu Bakr, sogro de Maomé, foi
escolhido para ser o 1º califa.
O xiísmo formou-se com o partido chi'a de Áli, que considerava o califa não um
chefe executivo mas como um imam carismático, apontado por Alá. Kufa, no Iraque,
era sua capital. Áli acabaria sendo o 4º califa da linha sunita - a ortodoxia
muçulmana -, embora tenha se separando dessa linha para ser o 2º ímã da linha
xiíta.
A corrente principal do xiísmo é a dos Doze, assim chamada porque acredita que o
12º ímã, Al-Muntazar, desaparecido em 878, continua vivo e reaparecerá, antes do
julgamento final, para salvar o mundo. Al-Muntazar significa "o Esperado", o
mesmo que "Messias". O primeiro imam foi Maomé. Áli foi o segundo. O terceiro
ímã foi Hussein, filho de Áli. Segundo os xiítas, todos os ímãs são destinados
ao martírio.
Os xiítas introduziram algumas modificações na prática religiosa: peregrinação
por procuração, visita a túmulos de santos e o casamento temporário, a muta. No
Irã, ainda hoje o casamento é um contrato que poderá ser desfeito, caso um dos
cônjuges assim o desejar.
Os xiítas concentram-se, principalmente, no Irã, Ira-que, Paquistão e sul do
Líbano. Da raiz xiíta decorrem seitas dos caradjitas, ismaelitas e zaiditas.
Os ismaelitas formam a corrente dos Sete, pois reconhecem Ismail como sétimo
imam e não seu irmão mais jovem, Musa, assim considerado pelos Doze. São ramos
dos ismaelitas os drusos, a seita dos assassinos e os fatímidas do Egito.
Fatímidas, como foi afirmado, tem o nome derivado de Fathima, filha de Maomé e
mulher de Áli.
O Ayatollah Khomeiny, ao instaurar a Revolução Islâmica no Irã em 1979,
proclamou o conceito de velayat-e-faqih, que literalmente significa a
"guardiania do jurista religioso". O conteúdo dessa doutrina é que um homem de
destacado conhecimento da lei islâmica seja designado vali-e-fagih, sucessor do
profeta Maomé. Khomeiny tentou, assim, restabelecer o sistema do califado
otomano abolido por Mustafa Kamel, na Turquia, em 1924. O sonho maior dos xiítas
iranianos é restabelecer o poderoso Império Otomano, comprovado nas palavras de
Khomeiny: "Não há fronteiras reais entre nações islâmicas". No entanto, o
conceito de Khomeiny chocou-se com a tradição xiíta, fundamentada no messianismo
do "12º Imã", e que não aceita o princípio da sucessão.
Deve-se destacar os antecedentes do fundamentalismo islâmico na atualidade.
Antes de Khomeiny, no século XVIII, houve o wahabi (fundamentalismo) na Arábia
Saudita, derivado do reformador islâmico Mohammed Ibn Abdel Wahab. Neste século,
tiveram destaque as ações da Irmandade Muçulmana,fundada
em 1928 pelo egípcio Hassan Al-Bauna, com grande influência atualmente em todo o
Oriente Médio. Segundo os fundamentalistas, o Profeta usou a mesquita para orar,
para a guerra, para a justiça e outros motivos mais.
Convém aqui acrescentar as palavras de John Laf-fin no livro "The Arab Mind":
"A lei islâmica não reconhece a possibilidade de paz com descrentes e infiéis. A
parte do mundo não-muçulmano é conhecida na teologia islâmica como 'território
de guerra'. A maior parte dos militantes muçulmanos acredita que a tarefa de
Maomé não será bem-sucedida enquanto não-muçulmanos tiverem controle de qualquer
parte do planeta".
Messianismo semelhante havia antigamente quando a Igreja Católica, ainda sem os
ventos ecumênicos de Roma, tinha por objetivo levar o cristianismo a todos os
pontos da Terra, sentindo-se na obrigação de impor o Evangelho a todos os povos
do mundo. Mesmo que fosse pelo terror, como aconteceu durante a Inquisição. Eu
me lembro de um padre que conheci na adolescência, que se sentia muito
desgostoso e arruinado por saber que havia milhões e milhões de chineses pagãos,
sem perspectiva de serem convertidos à fé cristã. O Concílio Ecumênico pôs um
ponto final nessa apreensão e atualmente a Igreja Católica convive pacificamente
com todas as outras religiões e prega que todos serão salvos, se levarem a sua
religião a sério.
Algo semelhante à antiga postura da Igreja Católica tivemos neste século, com o
Movimento Comunista Internacional, tentando impor um sistema econômico-social de
abrangência planetária. Pudemos observar, nas últimas décadas, o esforço do
comunismo em se estabelecer em todos os países do mundo, quer pela força das
armas, quer por eleições livres, para depois aplicar o golpe. De grande apelo
popular, por tentar acabar com todas as diferenças sociais, o que presenciamos
na verdade foram regimes sanguinários que se estabeleceram à força em vastas
áreas do mundo, a exemplo da União Soviética e da China. Nunca o mundo havia
presenciado tamanha truculência. Onde o comunismo foi implantado, o fracasso foi
estrondoso. Não conseguiram resolver o problema das desigualdades sociais.
Igualou-se apenas a miséria.
Hoje, pode-se dizer que o fundamentalismo islâmico - ao menos aquele pregado por
Khomeiny e outras correntes extremistas - substituiu o Movimento Comunista
Internacional pela mesma ambição de implantar um sistema de vida único a todos
os povos: os preceitos da Sharia. Seria talvez a última ideologia em curso no
mundo atual. Como visto anteriormente, a parte do mundo que não é islâmica é
conhecida na teologia muçulmana como "território de guerra". Assim, não causa
estranheza a propagação do islamismo pelo mundo todo, já comportando milhões de
adeptos também na Europa e nas Américas. E a jihad dos fanáticos nos atentados
contra a Embaixada de Israe na Argentina (1992), no World Trade Center, em Nova
Iorque (1993) e no prédio da Associação Mutual Israelita Argentina, em Buenos
Aires (1994).
Convém lembrar que a palavra "fundamentalismo" não tem, necessariamente,
conotação pejorativa. Significa "fundamento", "alicerce". Segundo os religiosos
muçulmanos, é "uma volta à origem, à pureza e aos fundamentos do verdadeiro islã
da época de Maomé". O Papa João Paulo II não deixa de ser um fundamentalista
quando não aprova o divórcio e não permite o aborto, porque isso contraria o que
está prescrito nos fundamentos da religião cristã, os Evangelhos. Atualmente, o
termo "fundamentalismo" se tornou sinônimo de fanatismo islâmico extremado,
ligado aos movimentos integristas que querem subordinar a vida dos muçulmanos à
Sharia, a lei islâmica que integra Religião e Estado em uma única entidade. Nem
que seja à base do terror.
Expansionismo muçulmano na atualidade
Segundo John Laffin (op. cit.), a história tinha se "tornado certa" para os
árabes há 14 séculos atrás, quando começou o expansionismo árabe. Segundo o
raciocínio do autor, tudo o que o profeta Maomé tinha prometido a seu povo
concretizou-se rapidamente: glória e domínio por séculos, em três continentes, a
religião muçulmana estendendo-se da costa atlântica da África até a Índia,
incluindo a Espanha e Portugal. O povo árabe era realmente o escolhido de Alá. A
história - para os árabes - estava "certa".
Porém, com a saída dos árabes da Península Ibérica e, posteriormente, com a
fragmentação do Império Otomano, a sujeição de muitos países árabes ao
imperialismo inglês e francês, a história tinha se tornado "errada".
Segundo a análise de Laffin, após a Guerra Árabe-Israelense de 1973, com o
embargo do petróleo árabe às nações do Ocidente, os árabes estavam novamente em
destaque. O "choque" do petróleo foi sentido em todo o mundo industrializado, os
preços mais do que quadruplicaram e seus efeitos se fizeram sentir também no
Brasil de uma forma cruel, pois importávamos mais de 80% do óleo cru. Para os
árabes em particular, e para os muçulmanos em geral, depois da "guerra do
petróleo", a história novamente estava tomando rumo "correto".
Se anteriormente era dado destaque ao expansionismo árabe, dominando vários
povos através da jihad, hoje deve-se dar destaque ao expansionismo muçulmano,
que está se fortalecendo nas repúblicas da Ásia Central, após a queda da União
Soviética, no sudeste asiático e na Oceania. Como se sabe, o islamismo, hoje, é
a religião que mais cresce no mundo.
Com a derrubada do Xá Rehza Pahlavi e a ascensão do Ayatollah Khomeiny ao poder
no Irã, ocorreu o 2º "choque" do petróleo. O preço do barril de petróleo chegou
a atingir o valor estratosférico de 34 dólares. Khomeiny encurralou os EUA, ao
tomar reféns americanos na Embaixada dos EUA em Teerã, começou a expurgar seus
desafetos, promovendo execuções sumárias e mostrou a que veio: seus seguidores
promovem atentados em todo mundo, fazem tremer o coração financeiro do mundo
ocidental - o World Trade Center, em Nova Iorque - e mandam "evangelizadores"
para todos os pontos do mundo onde haja comunidades muçulmanas, para pregar a
"revolução islâmica". Pode-se dizer, como diria John Laffin, que a história para
os muçulmanos, hoje, está mais "correta" do que nunca.
Para comprovar isto, basta estender o mapa-múndi na mesa e examinar os conflitos
atualmente existentes no mundo. Há em torno de 50 países com conflitos diversos,
principalmente étnicos. Destes, pelo menos duas dezenas envolvem muçulmanos, que
desejam implantar o fundamentalismo religioso no país ou pregam o separatismo de
alguma província. Senão, vejamos alguns exemplos.
No Egito, a partir de 1992, se tornaram freqüentes os atentados de
fundamentalistas islâmicos. O Egito sempre foi um país muito tolerante,
coexistindo cristãos, judeus e muçulmanos na mais perfeita harmonia. Existem
muitos templos coptas, às vezes ao lado de mesquitas, assim como diversas
sinagogas. Ultimamente, essa harmonia foi quebrada pelo ataque dos
fundamentalistas, que metralham as autoridades do país, os turistas estrangeiros
e os cristãos coptas. Os ataques aos cristãos coptas dá-se principalmente no
bairro cairense de Imbaba e em cidades do Alto Egito, como Assiut, ninho de
fundamentalistas islâmicos. Em Assiut, em maio de 1992, ataques de extremistas
causaram a morte de 14 cristãos coptas e 3 muçulmanos.
Em 1990, no primeiro ano em que estávamos no Egito, foi assassinado o Presidente
do Parlamento Egípcio, Dr. Rifaat Mahgoud. Os autores do crime foram componentes
do movimento fundamentalista Al-Jihad (Guerra Santa), o mesmo movimento que
havia assassinado o Presidente Sadat em 6 Out 81. Em 1993, o Primeiro Ministro
egípcio Atef Sedki também sofreu um atentado, porém teve mais sorte que o Dr.
Rifaat.
Em 1991, extremistas islâmicos incendiaram uma igreja copta e várias lojas
comerciais dirigidas por cristãos, no bairro de Imbaba. Além de seu mercado de
camelos, Imbaba é conhecida por sua extrema pobreza, ruas sem asfalto,
vazamentos de água que alagam tudo, altas taxas de analfabetismo, sem
infra-estrutura e onde 600.000 pessoas se comprimem em 2 km² de área. O Governo
não se faz presente no bairro e por isso Imbaba foi "adotata" pelos
fundamentalistas islâmicos. Basta dizer que após o terremoto que afetou o Egito
em 12 de outubro de 1992 o auxílio dos fundamentalistas chegou a Imbaba muito
antes do Governo. Isto mostra a fácil penetração de grupos extremistas em locais
pobres, cuja população não tem nada mais a perder e tem na religião sua última
esperança. Se o Governo nada faz, o povo clama por Alá. O Egito se ressente
muito desses últimos atentados contra os cristãos coptas, contra o Governo e
contra turistas, pois depois do Canal de Suez é no turismo que o Egito tem a sua
maior fonte de divisas estrangeiras.
No Sudão observa-se uma "faxina étnica" semelhante àquela observada na
Bósnia-Herzegovina. O governo muçulmano, com apoio financeiro e pessoal do
exterior, persegue os cristãos no sul do país, que a custo conseguem ainda se
manter no território, sabe Deus até quando. Como é sabido por todos, depois do
Irã e da Arábia Saudita, o Sudão também implantou a Sharia - a lei islâmica
absoluta, que administra o país e seu povo conforme as regras estabelecidas no
Corão.
Em Israel, a intifada (rebelião) nos territórios ocupados (Gaza e Cisjordânia)
dificilmente acabará depois do recente acordo do governo de Ytzhak Rabin com a
OLP de Yasser Arafat. Os grupos armados Hamás e Jihad Islâmica rejeitam qualquer
tipo de acordo com o país judeu, pois são movimentos de resistência islâmicos
que combinam a fé fundamentalista com o nacionalismo palestino. Não aceitam,
sequer, a existência do Estado de Israel. Por isso, é provável que haja, também,
uma intifada em Gaza e Jericó contra o incipiente governo de Arafat.
Acrescente-se aos grupos citados a militância do Hizbullah, de origem iraniana,
que atua no Líbano, em confronto ermanente contra os israelenses na sua
autoproclamada "zona de segurança", no sul do Líbano.
Na Argélia, um golpe militar impediu que os fundamentalistas da Frente Islâmica
de Salvação tomassem o poder no segundo turno das eleições livres de 1991. O
país vive uma guerra civil que já matou milhares de contendores e dezenas de
estrangeiros - normalmente estrangulados. Em 24 de dezembro de 1994, extremistas
islâmicos seqüestraram um Airbus da Air France em Argel, para vingar o apoio
francês ao regime militar da Argélia, resultando na morte de 3 reféns e dos 4
seqüestradores. Os extremistas pretendiam explodir o avião com todos os
passageiros nos céus de Paris.
No Senegal, pessoas são obrigadas a fugir ou são mortas pelo governo controlado
por muçulmanos e rebeldes.
Na Bósnia-Herzegovina, após a humilhação na Batalha de Kosovo, há mais de 5
séculos, os sérvios promovem contra os muçulmanos, como vingança, uma "limpeza
étnica" nos moldes medievais, como já abordamos anteriormente.
Na Geórgia, pertencente à antiga URSS, os muçulmanos querem a independência da
Abcásia, ou anexação à Rússia. Da mesma forma, a Ossétia do Sul, de maioria
muçulmana, quer se unir à Ossétia do Norte. Na mesma região do Cáucaso há o
conflito da Chechênia, de maioria muçulmana, que proclamou sua independência da
Rússia em 1991. A Inguchétia, também de maioria muçulmana, se opõe à Rússia
devido à humilhante deportação de seus habitantes realizada por Stálin em 1944.
Na Nigéria, dentre os vários conflitos étnicos, destaca-se o grupo husta,
muçulmano, e os iorubás, cristãos.
Na Índia, que tem uma população de mais de 100 milhões de muçulmanos, o conflito
mais grave dos últimos tempos ocorreu quando hindus incendiaram uma mesquita em
Ayodhia, em 1992. O conflito se propagou pelo mundo todo, como rastro de
pólvora, ocasionando milhares de mortes em outros países, além da Índia. Em
Bangladesh, até crianças foram queimadas vivas. Atentados contra templos hindus
foram observados em várias partes do mundo, inclusive na Grã-Bretanha. A
província de Cachemira, na Índia, de maioria muçulmana, luta por sua emancipação
ou por sua anexação ao Paquistão.
Em Bangladesh há choques entre muçulmanos e budistas, na região das Colinas de
Chittagong.
Na Birmânia mais de 250 mil muçulmanos fugiram para Bangladesh nos últimos anos,
para escapar da ditadura militar.
Na China, em Xinjiang, o governo reprimiu uma revolta de muçulmanos de origem
turca, em 1990.
Nas Filipinas - único país asiático de maioria cristã - observa-se uma guerra
entre o governo e separatistas muçulmanos da Ilha de Mindanao.
Na Indonésia, há uma década houve muitos choques entre muçulmanos e o governo do
general Suharto. Os muçulmanos radicais se recusaram a aceitar a Pancasila,
ideologia de princípios hinduístas. Hoje, a ditadura de Suharto mantém a
situação sob controle, com dificuldade, mas é bom lembrar que mais de 80% da
população da Indonésia é muçulmana.
Podemos ainda acrescentar a perseguição muçulmana que os drusos sofrem na Síria,
os curdos no Iraque e na Turquia, e os maronitas no Líbano, onde houve um
atentado dentro de uma igreja pouco depois do massacre na Mesquita dos
Patriarcas, em Hebron. Os maronitas são cristãos do Líbano que seguem a doutrina
de São Maron.
A "onda verde" (cor islâmica), antes apoiada pelos EUA para criar um cinturão de
defesa na Ásia Central contra a "onda vermelha" da antiga URSS, é um feitiço que
virou contra o feiticeiro. A República Islâmica do Irã é a que está mais se
empenhando em ocupar o vácuo do poder na região após a dissolução da União
Soviética. As ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central, como o Azerbaijão e o
Cazaquistão, estão sendo intensamente "evangelizadas" pelos mullahs do Irã.
O cientista político Samuel Huntington, conhecido por suas instigações
intelectuais e previsões ousadas, em famoso artigo escreveu sobre "conflito de
civilizações". Garantiu o professor de Harvard que uma Terceira Guerra Mundial,
se houver, será uma guerra entre civilizações. Dentre as várias civilizações
hoje existentes no planeta, Huntington destacou a civilização ocidental e a
islâmica.
Esta futura guerra poderia ser bem mais dramática que aquelas dos cruzados
contra os árabes. As cimitarras árabes e as lanças dos cristãos poderiam dar
lugar à jihad nuclear. Com o aumento de atentados de extremistas muçulmanos, o
World Trade Center, em Nova Iorque, poderia tremer, em futuro próximo, não com
detonação de cargas de dinamite mas, quem sabe, ser pulverizado por uma bomba
nuclear caseira.
Segundo Huntington, do confronto de duas civilizações surgem duas hipóteses
vistas na história: ou uma se funde à outra, ou uma destrói a outra. Já disse o
escritor Rudyard Kipling que "o Ocidente é o Ocidente e o Oriente é o Oriente, e
os dois jamais se encontrarão". Se isso for verdade, será mesmo que uma dessas
civilizações irá destruir a outra? Muitos fundamentalistas islâmicos não têm
dúvidas de que o próximo milênio verá a consolidação do governo dos muçulmanos
sobre todo o mundo.
A intolerância islâmica
"Com certeza, a religião verdadeira na estima de Alá é o Islamismo, isto é,
completa submissão a Ele, e aqueles a quem foi dado o Livro (judeus e cristãos)
somente discordam em inveja mútua, após o conhecimento ter chegado a eles" (3:
20).
"Vós que credes, não tenhais os judeus e os cristãos como vossos amigos, pois
eles são amigos uns dos outros. Se algum de vós os tiver como amigos, vireis a
ser um deles" (5: 52).
Lendo os versículos corânicos acima, pode-se constatar a intolerância que há no
islamismo, em relação às outras religiões. Por isso, talvez, o motivo de
fundamentalistas islâmicos não aceitarem a convivência pacífica com outros
credos religiosos. Porém, há uma brecha para o ecumenismo, se traduzirmos "Alá"
por "Deus", como se segue:
"Seguramente, sobre os crentes (muçulmanos), os judeus, os cristãos e os sabeus
(de Sabá, atual Iêmen), aqueles que verdadeiramente crêem em Deus e no Último
Dia (Juízo Final) e agem retamente, terão a recompensa de seu Senhor e nenhum
medo se apossará deles ou lhes afligirá" (2: 63).
Este último texto corânico, como afirma Mohamad Ahmad Abou Fares em seu livro
“Jesus Cristo na Visão de um Muçulmano”, "deixa patenteado que, qualquer que
seja a seita, desde que se crê em Deus e no Juízo Final, e se pratiquem boas
ações, as pessoas estarão a salvo: nada deverão temer, e nem ficarem apreensivos
quanto à salvação".
Como se pode constatar, depende do enfoque que um muçulmano faça ao ler seu
livro sagrado para ele se posicionar frente às pessoas de outros credos. Poderá
ser de uma intolerância absoluta ou de uma convivência amigável. Muitos fatos,
ao longo dos tempos, mostram que a intolerância islâmica tem-se manifestado
freqüentemente, como podemos comprovar nos episódios a seguir expostos.
Uma prova típica de intolerância é o observado na localização da Esplanada das
Mesquitas, dentro dos muros da velha Jerusalém. Aquelas mesquitas impedem que,
hoje, os judeus construam seu Terceiro Templo. Por que os muçulmanos foram
construir as mesquitas justamente naquele lugar mais sagrado dos judeus, onde
antigamente havia sido erigido o Templo de Salomão? Não seria o mesmo que, se a
Arábia Saudita algum dia viesse a ser tomada por inimigos, e estes fizessem
erguer seus templos justamente na praça onde fica a Caaba?
As muralhas da antiga Jerusalém tinham 8 portas que permitiam o ingresso das
pessoas para o interior da cidade. Hoje, só 7 portas permitem o ingresso, pois
uma foi lacrada, a Porta Dourada. Segundo a tradição judaica, um dia chegará o
Messias, que irá entrar por aquela Porta. Para impedir que isso aconteça, os
árabes lacraram a Porta Dourada com pedras...
Em Betânia, agora dentro da Grande Jerusalém, fica o túmulo de Lázaro. Para
impedir que os peregrinos cristãos chegassem até aquele local, os árabes
fecharam a entrada do túmulo, construindo uma mesquita em seu lugar.
Posteriormente, um frade franciscano construiu um outro caminho, dentro da
rocha, até as profundezas do túmulo, por onde os peregrinos hoje conseguem ter
acesso até o seu interior.
O local onde - segundo a tradição cristã - Jesus subiu aos céus hoje comporta a
Capela da Ascensão, que é na realidade uma pequena mesquita. Para a comemoração
da Festa da Ascensão do Senhor, os cristãos recebem permissão para a celebração
da missa e de outras cerimônias religiosas na Capela. Porém, enquanto os
cristãos participam da festa, alto-falantes de outra mesquita, nas imediações,
são colocados a volume máximo, tirando a concentração dos fiéis.
O leitor deve se lembrar do grave incidente que ocorreu depois que uma mesquita
em Ayodhia, na Índia, foi incendiada por hindus, em 1992. Houve tumultos e
depredações de templos hindus em todas as partes do mundo. Na realidade, os
hindus estavam apenas querendo retomar o local onde antigamente havia um templo
hindu, que marcava o local de nascimento do deus Rama, e que foi destruído para
dar lugar à construção de uma mesquita.
Há poucos anos atrás, os muçulmanos construíram uma mesquita bastante próxima da
Basílica de São Pedro, no Vaticano. O símbolo do hilal (lua-crescente) se fez
representar, quase que lado a lado, junto a um dos maiores símbolos do
cristianismo: a Igreja de Roma. Porém, será que os muçulmanos permitiriam que se
construísse uma igreja católica ou algum templo protestante em Meca? Com
certeza, isso eles jamais permitirão, pois os não-muçulmanos sequer têm
autorização para ingressar naquela cidade. Mas eles se julgam no direito de
construir templos onde bem desejarem, mesmo que seja em sítios sagrados de
outras religiões - caso do Templo de Salomão em Jerusalém e do templo hindu na
Índia. Como dizem alguns teólogos islâmicos, a parte do mundo governada por
não-muçulmanos é um "território de guerra".
Tomamos conhecimento das dificuldades dos aliados em convencer os sauditas a
permitir a presença das forças ocidentais em seu território para combater Saddam
Hussein, na Operação Tempestade no Deserto, para a retomada do Kuwait. Muitas
"costuras" políticas foram feitas, muitas restrições superadas antes de
permitirem o desembarque das tropas do general Schwarzkopf naquele território
árabe. Provavelmente, eles só devem ter permitido a presença dos "infiéis" em
seu país pela iminência de uma invasão iraquiana, o que Saddam poderia ter feito
sem muita dificuldade, pois a Arábia Saudita não tinha força militar suficiente
para impedir que isso viesse a ocorrer.
Um episódio narrado por John Laffin (op. cit.) é contundente: "Na Guerra Civil
do Iêmen (1962-65), na qual tropas egípcias estavam envolvidas, dois egípcios,
um copta e um muçulmano, ambos membros bem conhecidos de famílias de classe alta
e amigos de longa data, ficaram feridos num mesmo combate. A guarnição do
caminhão tinha ordens de recolher os muçulmanos antes dos cristãos. Assim, o
muçulmano foi salvo e o cristão morreu no campo, provavelmente trucidado por
tribos iemenitas".
Além dessa intolerância de muçulmanos contra não-muçulmanos, podemos acrescentar
aquela violência de muçulmanos contra eles próprios, principalmente escritores e
artistas que não se moldam nos ditames do islamismo ou que escrevem palavras
julgadas ofensivas ao Corão.
Dentre as pessoas atingidas por essa intolerância podemos citar Salman Rushdie,
um indiano naturalizado inglês, que escreveu o livro Versos Satânicos e
ocasionou a ira do Ayatollah Khomeiny. Rushdie foi condenado pela fatwa (decreto
religioso) islâmica e sua cabeça posta a prêmio: 3 milhões de dólares para o
muçulmano que tirar sua vida ou 1 milhão de dólares se o autor do crime for um
não-muçulmano. Se estivéssemos na época da Inquisição, e se o Papa João Paulo II
se valesse do mesmo rigor, o escritor Gore Vidal seria condenado à fogueira por
ter escrito palavras blasfemas contra Cristo em seu livro Ao Vivo do Calvário.
Outra pessoa perseguida é a escritora de Bangladesh, Taslima Nasrin, que fugiu
de seu país e se refugiou na Suécia para escapar da perseguição de
fundamentalistas islâmicos. Ela é acusada de distorcer o sentido do Alcorão ao
propor direitos iguais entre homens e mulheres e de escrever temas relacionados
a sexo, um tabu para as mulheres islâmicas.
Em junho de 1992, o escritor egípcio Farag Fouda foi morto por dois extremistas
no Cairo e um porta-voz da Sociedade Islâmica, grupo fundamentalista do Irã,
assim se pronunciou: "Quem quer que advogue as idéias de Fouda merece ser morto
de acordo com a norma do Islã". E em 14 de outubro de 1994, o escritor egípcio
Nobel de Literatura, Naguib Mahfouz - considerado a consciência do mundo árabe
-, foi esfaqueado na garganta, após sofrer várias ameaças de morte por parte de
fundamentalistas islâmicos. Seu romance Children of Gebelawi, pelo qual foi
condenado à morte pelos zelotes islâmicos, passou a ser vendido "como tortas
quentes" - segundo afirmou o jornal Al-Ahram de 29 Dez 94 - 4 Jan 95.
A mulher no Islã
A mulher islâmica é bastante discriminada na sociedade muçulmana. Ela deve ser
submissa ao pai ou ao marido. Muitas vezes não tem sequer o direito de escolher
o futuro marido, que é imposto pelos pais em troca de acordos pecuniários,
embora o Profeta tenha dito: "Não se case com uma viúva sem o seu consentimento,
nem com uma virgem sem sua permissão".
É óbvio que o mundo muçulmano não é monolítico. Existem significativas
diferenças entre os seus diversos países, alguns mais liberais como o Egito, a
Turquia, o Paquistão e a Tunísia, outros extremamente conservadores como a
Arábia Saudita, o Irã e o Sudão. Quem não se lembra das mulheres dirigindo seus
carros em protesto, na Arábia Saudita, após a Guerra do Golfo, exigindo direito
idêntico ao dos homens em conduzir um simples veículo pelas ruas? Foram todas
reprimidas e mandadas de volta para casa para se recolherem à subordinação de
seus maridos. Lá, as mulheres não têm permissão para sair de casa sem a
companhia de um mihram, que pode ser o marido, o pai, o sogro, o irmão, o filho
ou o enteado. E a vestimenta para as mulheres, mesmo para as estrangeiras, deve
incluir lenço na cabeça e vestido longo cobrindo os calcanhares. Há tempos
atrás, a embaixatriz brasileira foi agredida em uma loja na Arábia Saudita por
zelosos soldados porque não estava vestindo roupas islâmicas.
Por outro lado, podemos destacar a posição que as mulheres têm atualmente no
Paquistão. Benazir Butho, escolhida pela segunda vez Primeira-Ministra daquele
país em 1993, é uma das poucas mulheres a governar um país muçulmano, ao lado
das colegas Tansu Ciller, da Turquia, e Khaleda Zia, de Bangladesh.
Muitas mulheres islâmicas, na atualidade, protestam contra a prática da
circuncisão feminina, que consiste em extirpar o clitóris, para que a mulher não
sinta prazer sexual. Principalmente por não ser prescrito no Corão. Os homens
muçulmanos acreditam que a circuncisão feminina irá lhes garantir mulheres
fiéis.
Como eco à conturbada Conferência das Nações Unidas sobre População e
Desenvolvimento, levada a efeito no Cairo em 1994, a CNN filmou uma cerimônia de
circuncisão feminina naquele país.Enquanto a menina emite um grito lancinante,
os parentes riem e berram em comemoração (Time, 26 Set 94).
Geralmente, a mutilação do órgão sexual feminino é feita sem anestesia,
ocasionando infecções e até a esterilidade. Esta é, sem dúvida, a pior coisa que
pode acontecer a uma mulher islâmica: não ter filhos. A procriação é
extremamente valorizada na sociedade muçulmana e o marido normalmente pede o
divórcio quando não tem herdeiros ou só tem herdeiros femininos. Este
anacronismo - a circuncisão feminina - persiste na atualidade não somente entre
os muçulmanos, mas também entre outros grupos religiosos do Oriente Médio e da
África, incluindo cristãos.
Apesar dessa discriminação contra as mulheres islâmicas que perdura até hoje, o
Corão redimiu as mulheres em muitos aspectos. Segundo nos ensina Dr. Hassam
Al-Alcheik em seu livro O Lugar da Mulher no Islã, antigamente, antes de Maomé,
muitos árabes enterravam as meninas vivas, para evitar que fossem desonradas. As
meninas pereciam na areia pela mão de seu próprio pai, como o descrito no Corão:
"Quando a alguém é anunciado o nascimento de uma filha, seu semblante se torna
sombrio e ele se torna profundamente agitado. Ele tenta se ocultar do povo pela
má nova que lhe foi anunciada. Deverá preservá-la apesar da desgraça acontecida
ou enterrá-la?" (16: 59-60).
O enterro das meninas vivas é censurado e proibido pelo Corão: "São perdedores
aqueles que matam seus filhos néscia e estupidamente na sua cega ignorância, e
se descartam do que Alá agraciou, forjando mentiras a respeito de Alá. Já estão
perdidos e jamais serão encaminhados" (6: 149).
Segundo Dr. Hassam (op. cit.), algumas passagens corânicas enaltecem a posição
da mulher na sociedade islâmica:
"A quem praticar o bem, seja homem ou mulher, e seja crente, conceder-lhe-emos
uma vida agradável
e o recompensaremos com um galardão superior ao que houver feito" (16: 97).
"Aqueles que difamam as mulheres castas, inocentes e crentes, serão malditos
neste mundo e no
outro e sofrerão severo castigo" (24: 23).
"Ó crentes, não vos é permitido tomar as mulheres (de parentes) como herança
contra a vontade
delas". (4: 20).
Os direitos das mulheres nem sempre são levados à risca pelos homens. No Egito,
muitos crimes
hediondos são cometidos por mulheres que não aceitam maus tratos e a presença de
rivais em casa.
Normalmente, a pena imposta a um marido que tenha matado sua mulher é
sensivelmente menor que
aquela imposta a um homem que tenha matado o amante de sua mulher. É o tipo de
crime ainda
bastante popular em muitos pontos do planeta, onde predomina o machismo, que
tenta compensar com
a morte a "perda da honra".
Há crimes violentos no Egito, como o do marido que viajou para outro país em
busca de melhor salário, a mulher arranjou outro parceiro e quando o marido
voltou foi degolado pelos amantes. Ou do caso do homem que levava prostitutas
para dentro de casa, se embebedava, fumava haxixe e espancava a mulher. A
conseqüência não podia ter sido pior: a mulher aproveitou o sono profundo do
marido, jogou gasolina em cima e tocou fogo. No Cairo, é famoso um pavilhão de
detentas, onde as mulheres são conhecidas como "assassinas de maridos".
Um caso escabroso, abordado pelos jornais durante semanas a fio, aconteceu
quando estávamos no Egito. Uma mulher cortou o marido em pedacinhos, que foram
guardados em sacos de plástico na geladeira. Aos poucos, a mulher ia jogando na
lixeira os pedaços do marido até o dia em que foi descoberto o crime.
O final dos tempos
Para o islamismo, o apocalipse será antecipado pelo Anticristo, falso Messias,
que aparecerá entre o Iraque e a Síria. Cristo aparecerá para matar o
Anticristo. Interessante é observar que o Apocalipse da Bíblia também cita o
mesmo local como o cenário da última batalha que está por vir, a batalha de
Armagedon, perto de Nazaré, em Israel.
Só os profetas e os mártires terão acesso direto ao paraíso. Todas as outras
pessoas que não sejam profetas ou mártires serão julgadas por Alá quando soar o
chamado do anjo Israfil. Além de Maomé, último e maior de todos os profetas, há
outros importantes profetas na religião muçulmana, como Adão, Noé, Abraão,
Moisés, Jesus.
"Não tenhais em conta como mortos aqueles que foram imolados pela causa de Alá.
Em verdade, eles estão vivendo na presença de seu Senhor e estão preparados" (3:
170).
Este é um dos principais apelos que os fundamentalistas islâmicos fazem a seus
fiéis, para receberem um "passaporte" direto aos céus, ao se imolarem pela causa
de Alá. Por isso não é de estranhar a auto-imolação dos fedayin, que carregam
explosivos no próprio corpo ou em viaturas e, como kamikazes suicidas, se atiram
sobre o inimigo gritando o nome de Alá. A Al-Fatha (A Conquista), grupo armado
da OLP de Yasser Arafat, durante muito tempo treinou seus fedayin no Oriente
Médio para promover atentados suicidas contra os judeus. Como se sabe, a
guerrilha dos fedayin (voluntários da morte) foi a resposta egípcia aos ataques
de Israel a Gaza, em 1955. Em Israel, muitos muçulmanos, incluindo mulheres, se
aproximam de guarnições ou patrulhas de soldados e acionam os explosivos
escondidos sob suas túnicas.
No Líbano, durante a guerra civil, os EUA foram obrigados a retirar seus
soldados do país depois que um carro-bomba - certamente com motorista suicida -
matou quase 2 centenas de americanos em um acampamento militar. Acredita-se que
um suicida muçulmano, dirigindo um furgão cheio de dinamite, também tenha feito
ruir o prédio da associação judaica em Buenos Aires, no dia 18 de julho de 1994,
matando em torno de 100 pessoas. Da mesma forma, um "voluntário da morte" teria
ocasionado o atentado a um ônibus no centro de Tel Aviv, no dia 19 de outubro de
1994, matando 22 pessoas.
Convém lembrar que o martírio era também incentivado, antigamente, pela Igreja
Católica, por ocasião das Cruzadas para a libertação da Terra Santa, nas mãos
dos árabes, a exemplo do que afirmou o Papa Urbano II: "Agora prometemos-lhe
guerras que trazem consigo a recompensa do martírio glorioso, guerras que
garantem o direito à glória temporal e eterna". São Bernardo também glorificava
a matança de não-cristãos: "...sem recear ter pecado ao matar o inimigo, nem
temer sua própria morte, visto que nem o ato de morrer nem o de causar a morte
de outrem, quando for por Cristo, contém nada de criminoso; ao contrário, merece
uma recompensa gloriosa" (Cf. Templários: Os Cavaleiros de Deus, de Edward
Burman). Será por sua "valentia" que São Bernardo se transformou em nome de raça
de cachorro?
O verso número 36 do capítulo 13 Al-Ra'd (O Trovão) diz claramente que as
descrições no Corão sobre o paraíso são simbólicas: "O paraíso prometido para os
retos é como se rios corressem por ele, com frutas intermináveis e também com
sombra". No céu, os eleitos muçulmanos encontrarão sempre sombra, água potável,
leite, vinho e mel, e terão a companhia de belas mulheres virgens, de grandes
olhos brilhantes (37: 49-50). O paraíso terá, ainda, fontes perfumadas com
cânfora e gengibre e conterá rios e jardins com frutas diversas, como tâmaras,
bananas, uvas e romãs. Os eleitos vestirão trajes de seda fina, enfeitar-se-ão
com braceletes de ouro e utilizarão taças de ouro e prata.
Os culpados serão lançados no inferno, que tem 7 portões: os infiéis passarão
por seis portões e os muçulmanos pecadores pelo sétimo. Dezenove anjos guardam o
fogo do inferno e a comida dos pecadores será sempre muito quente ou muito
gelada.
Já que escrevi sobre o fogo eterno, convém citar uma anedota sobre um inferno
bem particular: o inferno militar. Um milico, ao ser levado por um diabo para o
inferno, descobriu que havia um inferno para cada grupo distinto de pecadores:
políticos corruptos, comerciantes ladrões, traficantes de drogas e armas,
assassinos, blasfemadores, tipos diversos de pecadores, e um inferno só para
militares. Em todas as bocas do inferno havia guardas tomando conta dos
condenados, para que não fugissem. O militar só estranhou que não havia nenhum
soldado tomando conta do "portão das armas" do inferno militar. O diabo então
explicou: "Não precisa, eles se puxam uns aos outros para dentro do inferno
quando alguém tenta fugir".
Alguns capítulos corânicos
Fatihah
O primeiro capítulo do Corão, Fatihah (que significa "Abertura"), é também
chamado de "Sumário do Corão". Em apenas 7 versos concisos esse capítulo resume
toda a doutrina islâmica, que começa dizendo "Em nome de Alá, o Misericordioso e
Compassivo". Segundo a Fatihah, Alá é o Mestre do Dia do Julgamento (Juízo
Final), a quem somente se deve adorar e a quem o fiel muçulmano pede que mostre
o caminho reto a ser seguido. Nas aberturas de cerimônias civis ou religiosas,
na abertura e no encerramento das transmissões de TV, ou na formalização do
noivado, a Fatihah é sempre recitada.
Maryam - Mãe de Jesus
O capítulo 19 do Corão chama-se Maryam (Maria), que em árabe quer dizer
"devota". A Virgem Maria dos cristãos, mãe de nosso Salvador, tem destaque
especial no livro sagrado dos muçulmanos. Nenhum nome de mulher é citado no
Corão, nem a mãe de Maomé, nem sua filha Fátima. Maria, porém, é citada 34
vezes. Isto demonstra a veneração e a exaltação que o islamismo tem por ela.
No Corão, a concepção de Jesus ocorreu de modo muito parecido com o narrado na
Bíblia, na passagem em que Maria indaga como é possível ter um filho se nenhum
homem a tocou e ela continua virgem: "O anjo disse: Assim seja, pois o Senhor
disse: Isto é fácil para mim" (19:17).
Não é feita, no Corão, nenhuma citação de José, esposo de Maria. Quando Imran -
o pai de Maryam - morre, Zacarias passa a tutelá-la.
Segundo o Corão: "Jesus ensinou: Eu sou um servo de Alá, Ele deu-me o Livro
(Bíblia) e me fez profeta" (19:31).
O Corão não admite o conceito de Trindade - Pai, Filho e Espírito Santo: "Não
está de acordo com sua Majestade Alá que Ele tenha junto a si mesmo um filho"
(19:35).
Jesus é citado em outros capítulos do Corão, além do 19º. Segundo o Corão, Jesus
não morreu na cruz, porém de morte natural e os judeus e cristãos continuarão a
acreditar em sua morte (5:115). Ainda de acordo com o Corão, Jesus era um
profundo conhecedor da Torá, os 5 primeiros livros do An-tigo Testamento, que
conhecemos por Pentateuco (5:111).
Bani Israel
Bani Israel significa "Filhos de Israel" e compreende o 17º capítulo do Corão.
Nesse capítulo, destaca-se o Livro dado por Deus a Moisés, a Torá. Há várias
exortações, como: "Não se aproxime sequer do adúltero; verdadeiramente, ele é
uma coisa ruim e um mau caminho. Não destrua a vida que Alá tem declarado
sagrada, salvo por justa causa. Não se aproxime da propriedade do órfão durante
sua menor idade, exceto com o melhor propósito" (17:32-37).
Nessa passagem, podemos notar como é altamente perigoso a falta de definição do
que seria uma "causa justa" para matar um semelhante nosso, ou o que poderia ser
esse "melhor propósito" para discernir sobre o destino dos bens de um órfão.
Afirmações vagas desse tipo talvez expliquem as ações de grupos fundamentalistas
muçulmanos em tirar vidas humanas em atentados que ocorrem todo dia. No caso,
pela "justa causa" de Alá. Vale lembrar, também, que Just Cause (Causa Justa)
foi o codinome da operação americana que promoveu a invasão no Panamá, em
1989...
Em Bani Israel destaca-se a missão de Moisés em resgatar os hebreus da tirania
do faraó, levando-os para fora do Egito e atravessando o Mar Vermelho. A
peregrinação pelo deserto, durante 40 anos, como castigo divino, a chuva de
maná, a idolatria do bezerro de ouro, tudo é muito seme-lhante ao que está
escrito na Bíblia.
Nessa surata, deve-se destacar, ainda, o modo como o fiel muçulmano deve rezar:
"Observai a oração em diferentes tempos, entre o pôr do sol e a profunda
escuridão da noite, e recitai o Corão prostrados. A recitação do Corão prostrado
é especialmente agradável a Alá" (17:79). A atitude que o fiel muçulmano tem
durante a oração - a prostração - é um costume antigo, também utilizado por
nosso Mestre: "E, adiantando-se um pouco, (Jesus) prostrou-se com o rosto em
terra, orando ..." (Mateus, 26:39).
Além de Maryam e Bani Israel, outros nomes bíblicos dão o título a capítulos ou
suratas do Corão. O capítulo 12 refere-se a Yusuf (José). Não é o esposo de
Maria, porém o filho de Jacó, vendido por seus irmãos a mercadores do Egito. O
capítulo número 14 é o de Ibrahim (Abraão), pai dos árabes e dos judeus. O
capítulo 10 é o de Yunus (Jonas). Estes últimos são todos grandes profetas do
islamismo, incluindo ainda Da'ud (Davi), Dhul-Kifl (Ezequiel), Idris (Enoch),
além de Adão,
Noé, Elias, Jesus e outros.
A beleza das mesquitas
Nas mesquitas não há estátuas. O islamismo proíbe a mimese, a imitação da figura
humana, que na cultura greco-romana atingiu seu mais alto grau de elaboração,
esculpindo estátuas perfeitas, e que na cultura cristã viria a se tornar uma
obra de intenso fulgor, principalmente com as pinturas e esculturas do
Renascimento. Por isso, as mesquitas são enfeitadas internamente apenas com
desenhos de letras árabes, repetindo centenas ou milhares de vezes o nome de
Allah, com muitos arabescos e detalhes em dourado. Há até uma arte árabe em que
letras utilizadas no Corão, a língua árabe, formam desenhos de grande impacto
visual. Além disso, assim como nós no Ocidente gostamos de ter alguma reprodução
de pintores famosos como Da Vinci ou Van Gogh, os árabes enfeitam as paredes de
suas casas com uma profusão de quadros com textos corânicos escritos em letras
douradas.
O chão das mesquitas é forrado com dezenas e até centenas de tapetes, dependendo
do tamanho dos templos. Quando recolhidos, para limpeza ou obra na mesquita, os
tapetes chegam a formar montanhas nas naves e nos vastos corredores, como vi-mos
na Mesquita de Ibn Tulun, no Cairo. No Egito, os tapetes das mesquitas são
feitos de lã, que pode ser local ou importada da Austrália.
A planta central e a cúpula das mesquitas tiveram origem bizantina, com
elementos armênios. A ornamentação riquíssima tem fonte copta (cristã do Egito).
As mesquitas mais monumentais são as do Cairo, de Kairum (Tunísia), de Omar
(Jerusalém) e as mouriscas da Espanha: nas cidades de Córdoba, Toledo e Alhambra.
Porém, o Taj Mahal, na Índia, mausoléu que o imperador Shah Jahan construiu para
sua mulher Mamtaz Mahal, é a obra suprema da arquitetura islâmica.
Algumas prescrições corânicas
Em 1994, fez sucesso nas manchetes de todo o mundo o rapaz americano condenado a
sofrer chibatadas, em Singapura, devido à sua ação nefasta em pichar veículos
naquele país. O mais interessante é que uma pesquisa nos EUA mostrou que os
americanos aprovaram, em sua maioria, aquela punição heterodoxa. No Brasil bem
que poderíamos utilizar esse tipo de castigo para punir os pichadores de
monumentos e igrejas.
No Corão, vários tipos de castigo prevêem o uso da chibata. "Flagele a adúltera
e o adúltero, a cada um deles, com 100 vergastadas..." (24: 3). A pena para os
caluniadores de uma mulher casta será de 80 vergastadas, caso não tragam 4
testemunhas para provar a acusação (24: 5).
Os ladrões devem sofrer rigoroso castigo: "Corte fora as mãos do homem que rouba
e da mulher que rouba, em retribuição de sua ofensa, como uma exemplar punição
de Alá" (5: 39).
Um homem casado pode deixar de ter relação sexual com sua mulher por um período
de, no máximo, 4 meses, após o qual deverá se reconciliar com sua esposa ou
divorciar-se (2: 227-228). A relação sexual é proibida durante a menstruação da
mulher, durante o período de retiro na mesquita, durante o jejum, no mês sagrado
do ramadã (durante o dia) e durante o período da peregrinação a Meca (2:
188-189).
"O homem é impetuoso por natureza" (21: 38). Talvez, por isso, pode ter até 4
mulheres, desde que as trate eqüanimemente: "Você deve aprender de que não será
correto ter relações com órfãs, se você casar com mais de uma delas, então
case-se com outra mulher que seja agradável a você, 2 ou 3, ou 4; porém, se você
sentir que não irá tratar cada uma delas com justiça, então case-se somente com
uma, ou com aquela sobre a qual você tenha mais autoridade. Este é o melhor modo
de você evitar a injustiça" (4: 4-5).
O Corão considera pecado dar apelido a alguém (49: 12). O político Leonel
Brizola não seria um bom muçulmano, pelo seu esporte preferido de dar apelidos a
seus desafetos, especialmente durante as campanhas para eleições presidenciais:
"sapo barbudo", "filhote da ditadura" e outros.
Para testemunhas, 2 mulheres valem 1 homem: "Procure duas testemunhas dentre
seus homens; e se 2 homens não estiverem disponíveis, então um homem e duas
mulheres, dentre os que você desejar como testemunhas, de tal forma que se uma
das duas mulheres estiver em perigo de esquecimento, a outra refrescará sua
memória" (2: 283).
No Corão não existe a noção de "pecado original", como prega a religião cristã.
Segundo o Corão, a natureza humana, originalmente, é pura: "... e siga a
natureza determinada por Alá, a natureza conforme Ele tem criado a humanidade.
Não se deve alterar a criação de Alá. Esta é uma fé eterna. Porém, muitos não
sabem" (30: 31).
"Em caso de divórcio, as mães devem amamentar suas crianças por 2 anos inteiros,
no local onde é desejado completar a amamentação, e o pai da criança deve ser
responsável pelo sustento da mãe durante aquele período, de acordo com o
costume" (2: 234). É óbvio que essa obrigação não é somente para as divorciadas,
mas um lema para toda mulher muçulmana que tenha filhos.
"Povo do Livro, por que você rejeita os sinais de Alá, tendo sido testemunha
disto? Povo do Livro, por que você confunde verdade com falsidade e afasta a
verdade deliberadamente?" (3: 71-72). O "Povo do Livro" são os judeus e os
cristãos. Comumente, o Corão identifica o livro dos judeus como sendo a Torá e o
livro dos cristãos como sendo os Evangelhos, o que não é de todo correto, pois
não englobam todo o Antigo e Novo Testamento. As exortações, feitas com
veemência, sempre têm como alvo o Povo do Livro. Por que não estão incluídos
também, por exemplo, os budistas e os hinduístas?
A zakat é uma espécie de dízimo que os mais bem aquinhoados doam aos pobres, e é
prescrito no Corão: "Observai as orações e pagai a zakat, pois, pelo tudo de bom
que derdes, antes de guardar para vós, encontrareis junto de Alá" (2: 111). A
exemplo da Igreja Católica, que prega a doação do dízimo mas que não consegue
incrementar o preceito, da mesma forma os vários países muçulmanos aplicam a
zakat a seus fiéis, alguns com mais sucesso que outros.
"Abraão não foi nem judeu, nem cristão, ele foi sempre temente a Alá e obediente
a Ele" (3: 68). Implicitamente, essa frase afirma que, para o Corão, Abraão é um
muçulmano, já que o termo "muçulmano" (muslim em árabe) significa o "ato de se
entregar", no caso, a Alá. Na verdade, as três religiões monoteístas - a judia,
a cristã e a islâmica - originaram-se a partir de Abraão.
Quanto à obrigação da mulher casada vestir o purdah (véu islâmico), o Corão
prescreve que somente os familiares mais chegados podem ver o seu cabelo, como o
marido, o pai, o sogro, os filhos, as senhoras, os empregados que não têm desejo
de sexo e as crianças que não têm conhecimento do relacionamento entre sexos
(24: 31-32). A obrigação das mulheres muçulmanas solteiras vestirem o purdah foi
uma imposição dos religiosos islâmicos, não do Corão.
A cobrança de riba (juro) para empréstimo de dinheiro é proibida. "Aqueles que
se devotam à usura ficam como aquele que satã tem ferido de insanidade. Isto se
dá porque eles ficam dizendo: 'O comércio de comprar e vender é também como
emprestar dinheiro a juros'; pois Alá tornou legal o ato de vender e comprar e
tornou ilegal a cobrança de juros" (2: 276). Muitos muçulmanos encontraram uma
forma de fugir desta regra e chamam os juros de "aluguel".
Félix Maier
ttacitus@hotmail.com
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Obs.: O autor viveu dois anos no Cairo (1990-92) e escreveu “Egito – uma viagem
ao berço de nossa civilização”, editado em 1995 pela Thesaurus, Brasília. O
livro encontra-se na Livraria da UnB e na Livraria da Rodoviária.
De: "Theodoro da Silva Junior" <theojr@terra.com.br>
Data: Sat, 28 Apr 2007 12:38:31 -0200
Assunto: SALAMALICO