- UN Bulletin
Nossas patrulhas tinham permissão para prender e interrogar o(s) infiltrador
(es) e após preenchimento do Relatório de Ocorrência, entregá-lo(s) às
autoridades locais. Para isso, semanalmente eram realizados exercícios
noturnos de adestramento das patrulhas mistas, junto às fronteiras.
(justamente, o horário preferido dos fedayyns atravessarem as duas linhas
demarcatórias)
Como sabemos os soldados da UNEF não tinham autorização para o uso de força,
a não ser em defesa própria, e.i., caso fossem atacados. É importante frisar
que a área de atuação da UNEF1, antes da chegada dos boinas-azuis, era uma
das mais conturbadas do Oriente Médio. Contudo, com o passar do tempo, mercê
da ação eficaz das patrulhas, tornou-se uma das mais calmas da região.
Incidentes e tiroteios continuavam a ocorrer, porém em menor escala. Ou esta
transformação teria sido mera coincidência??
Para melhor ilustrar estas lembranças faço uso de trecho desta excelente
crônica, escrita pelo então Comandante do 2º Pelotão, Tenente Maurer, hoje
General RI Oscar Maurer, gentilmente cedida pelo companheiro Vargas Neto,
sobre rotina diária na fronteira:
““... Como o Forte Robinson passara há bem pouco tempo ao controle dos
brasileiros, o apoio logístico de todas as classes era ainda encargo dos
canadenses, seus antigos ocupantes. Assim o comandante do pelotão era um
privilegiado, já que a água, alimentação, manutenção dos geradores, rádios,
viaturas, geladeiras, cozinha, apenas para citar as mais importantes
necessidades, era providenciada pela base logística do Rafah Camp, operada
pelo Exercito do Canada. Tudo funcionava com precisão britânica, tanto a
entrega dos gêneros, quanto as visitas de manutenção e substituição de
equipamentos.
Quanto ao fornecimento de água e alimentos, as quantidades recebidas eram
generosas, muito superiores às necessidades. Tanto é, que o comandante do
pelotão passava parte do excedente aos pelotões brasileiros vizinhos da
Faixa de Gaza que eram supridos pelo próprio batalhão brasileiro. Mas também
a sobra de água e até mesmo alguns alimentos eram distribuídos aos beduínos
que se movimentavam com seus camelos nas imediações do Forte Robinson.
Muitos deles se diziam ‘fedayyns’, guerrilheiros que faziam incursões no
território israelense e, lá, atuavam em ações de comandos.
O interprete entre os brasileiros do Forte Robinson e os beduínos era Salim,
também dublê de cozinheiro do pelotão. Salim tinha quase dez anos de
convivência com nossa tropa e dominava razoavelmente nosso idioma, por isso,
era chamado todas às vezes em (que) as coisas se complicavam com os árabes.
O segundo pelotão patrulhava dia e noite a fronteira, mas não poderia estar
presente junto a ela ininterruptamente, em toda a extensão dos 50 km sob sua
responsabilidade.
Era proibida a presença dos beduínos e seus camelos junto à fronteira,
porque as patrulhas israelenses, muito atuantes na área, fuzilavam os
animais e até mesmo os beduínos, seus donos, que estivessem do outro lado
dela. Os camelos não estavam informados nem da proibição, nem da rivalidade
entre os dois povos e, por isso não se importavam em se aproximar e
atravessar a linha demarcatória, em busca de um tufo de capim mais macio do
outro lado. Já os beduínos não queriam perder seus camelos e não vacilavam
em transpor a fronteira, a fim de trazê-los de volta. Como os beduínos eram,
sem distinção, considerados Fedayyn pelos israelenses, os problemas
internacionais estavam sendo criados a toda hora, com tiroteios e mortes.
Complicações para o comandante do Forte Robinson.
Mesmo sem a presença dos israelenses, a simples aproximação dos beduínos, e
camelos para as proximidades da fronteira, era freqüentemente notada pela
vigilância aérea canadense, sem que as patrulhas terrestres do 3ºpelotão o
percebessem, por terem a visão coberta, em algumas regiões, pela grande
quantidade de dunas bem elevadas, ali existentes.
Assim as chamados pelo rádio exigindo providencias, feitas pelos canadenses,
eram desconfortáveis e agrediam a honra de todos no pelotão. Depois de
várias chamadas, o comandante cujos comandados eram gaúchos, acostumados a
andar no lombo de um cavalo, resolveu treinar seus homens a montar, também,
camelos. Para isso obteve a ajuda de um beduíno que freqüentava com maior
assiduidade o pelotão. Este beduíno, Ahmud, em pouco tempo ensinou uma
equipe do pelotão a dominar o manejo daquele animal desengonçado, o rei do
deserto.
Por sorte, logo uma patrulha encontrou uma manada de mais ou menos 20 desses
animais junto à fronteira. Seus donos, lá no horizonte, na crista de uma
duna, observavam tudo. Nosso pessoal não vacilou. Um grupo desceu da
viatura, aproximou-se dos camelos, fê-los ajoelhar como manda o costume, e
em seguida, montara-nos e foram, logo, tangendo a manada em direção a do
Forte. À medida que iam progredindo, observavam que os beduínos os
acompanhava lá no horizonte, sem se aproximar.
Quando chegaram ao forte já estava escurecendo. De imediato, tangeram os
camelos detidos para seu interior. Os beduínos lá longe, só observando.
No outro dia, estavam os beduínos todos na porta de entrada do forte
reclamando sua propriedade com grande alarido. O tenente, com a ajuda do
Salim, explicou a missão do pelotão, as sucessivas desobediências das regras
bem conhecidas pelos beduínos, e que os camelos somente seriam liberados
mediante o pagamento de 5 pilastras (algo em tono de 50 centavos) de multa
por animal.
Assim aconteceu. Com muito choro, os homens do deserto foram pagando e
levando seus animais. Mas, em pouco tempo, estava tudo como antes: os
camelos, o comandante do pelotão sendo chamado à atenção pela vigilância
aérea. Em conseqüência, a operação chamada ‘campereada no deserto’ se
repetiu.
Sucedeu, então, que um emissário do Sheik, chefe das tribos de beduínos
daquela região, chegou ao pelotão trazendo um convite do próprio pra
participar de uma comemoração que aconteceria dali a alguns dias, no
acampamento onde era a sede de seu poder.
O comandante de pelotão, um pouco receoso, mas compreendendo que aquele era
o memento de resolver a questão, decidiu que iria atender o convite. Caso o
impasse continuasse, muito provavelmente criar-se-ia um conflito, no qual só
um poderia lavar a pior: o pelotão brasileiro. Para isso preparou uma equipe
pequena, porém escolhida, além do próprio Salim, que inicialmente, com medo,
não quis ir. Somente depois de muita insistência, Salim somou-se à comitiva.
Na data e na hora marcada, o comandante do Forte Robinson e sua equipe
chegam junto ao Sheik. Era um conjunto de barracas velhas e rasgadas, muito
parecidas uma favela brasileira. De uma delas demandava o poder. Lá era o
lugar do Sheik. No fundo da barraca uma vistosa espada curva, bem do modelo
árabe, bastante enfeitada, e um belo cavalo eram o que distinguia o chefe
supremo daqueles beduínos dos demais membros da tribo.
Na verdade uma decepção para todos. Acostumados com as descrições de
suntuosidade dos Sheiks das história das mil e uma noites, aquilo era uma
caricatura. Mas uma particularidade era evidente: a autoridade do Sheik era
indiscutível e insofismável. Sua voz era lei naquela tribo, isto deu logo
para perceber.
Depois dos comprimentos de praxe, a comitiva brasileira foi convidada pelo
Sheik e seu Estado-Maior a tomar chá e comer pão assado ali mesmo num buraco
na areia, onde queimavam alguns gravetos.
O comandante do pelotão não esqueceu de levar alguns presentes, entre eles
alguns quilos de café, o que agradou muito o Sheik.
Depois de muitas conversas e trocas de compromissos mútuos, de nosso lado
não mais recolher camelos, e do outro, de não permitir mais que os beduínos
tangessem seus camelos para junto à fronteira, o acordo foi selado. Tudo
acertado, a comitiva brasileira do forte Robinson se retirou, mas incrédula
em relação ao futuro quanto aos compromissos mutuamente assumidos,
particularmente da parte dos beduínos.
Contrariando as expectativas, porém, tudo deu certo. Nunca mais os habibs
voltaram a tanger seus camelos para junto à fronteira. Também o comandante
do pelotão não foi mais repreendido pela vigilância aérea canadense. A
distribuição de água e alguns alimentos continuou também normalmente. Enfim,
a paz voltou e o tenente comandante do Forte Robinson compreendeu que a
historia das ‘mil e uma noites’ não é mais que uma bela lenda. “Porém
compreendeu, também, que os Sheiks existem e se não são tão charmosos como
os da lenda, pelo menos têm o poder que a lenda conta...”.
A crônica acima, escrita com maestria pelo General Maurer, sintetiza com
perfeição, a missão de patrulhar a fronteira árabe/israelense. Ele nos fala
do convívio ambíguo com os habitantes do deserto- homens e animais- da ajuda
dos habibs que trabalhavam nos Fortes e no Batalhão, bem como o
relacionamento, um tanto abrasivo com os ‘Canadians’. A melhor parte, para
mim seria logicamente... o prazer de andar de camelo!
NOTA:-
O Texto acima está contido no Livro do EDISON IABEL " SIX DAY WAR- 1967"
cujo livro já está no "forno", recebendo os últimos retoques, e muito em
breve será lançado para conhecimento público. Aguardem.
Edison Iabel é um dos integrantes do 20º
Contingente Btl.Suez.
Correspondências para:-
(>>edisoniabel@msn.com <<)