|
ATEMPORAL |
|
ATEMPORAL= "aquilo ou o que transita no tempo sem necessariamente pertencer ao passado, ou futuro, ou presente".
THEODORO
Caros amigos...
Na "Confraria" Boina Azul, a palavra >ATEMPORAL< vem ganhando cada dia mais e
mais espaço e vai sendo melhor conhecida, difundida, enfim, muito citada.
E esse fenômeno vem acontecendo, em nossa
confraria Btl.Suez desde 2003, após o lançamento do Livro do ZOUAIN - "Histórias
de Suez -Aventuras dos nossos Soldados".
A dita palavra " ATEMPORAL" está contida e bem comentada no Livro do ZOAUIN ,
aos poucos e gradativamente vai sendo mais compreendida a cada dia que passa.
Para dar continuidade a essa expansão e visando dar ainda maior ênfase, com os propósitos de ver firmar essa palavra em nosso "vocabulário" das Coisas de Suez, tomo a liberdade de repassar outros dois textos que exploram a palavra citada.
Esses dois textos que segue abaixo, encontrei nas minhas viagens que sempre faço pela Internet.
Então... Veja mais sobre a palavra ATEMPORAL...
============================================
============================================
Comentários... Momento atemporal (Moacir Sader)
Chegará o momento dimensional em que o tempo, como conhecemos agora, não mais
existirá. Viveremos sem passado, nem futuro, num tempo único. Não haverá razão
para se sentir saudades, pois, tocaremos as pessoas e as circunstâncias
vivenciadas
instantaneamente.
Não fará sentido ansiar pelo futuro, porque os amanhãs estarão acontecendo
momentaneamente.
O amor estará sendo praticado com integridade, intensidade e além dos limites
temporais.
Quando o ontem, o hoje e o amanhã transformarem-se em momento atemporal a vida
se eternizará na plena realidade dos instantes únicos, vivenciada no sempre
agora, com a paz absoluta da alma desapegada de outros tempos senão o presente.
http://www.moacirsader.com
moacirsader@moacirsader.com
============================================
SOBRE O TEMPO E O ATEMPORAL NA ARTE, >>por Cauê Alves<<
Sobre o tempo e o atemporal na arte
“Há também uma historicidade viva, de que só oferece a imagem diluída: a que
anima o pintor em ação, quando num único gesto enlaça a tradição que retoma à
tradição que funda, que num passe o reúne a tudo que se pintara no mundo sem que
precise abandonar seu espaço, seu tempo, seu bendito trabalho maldito, e que
reconcilia as pinturas por exprimirem uma a uma a existência inteira, em vez de
as reconciliar todas como acabadas e como outros tantos gestos inúteis.”
M. Merleau-Ponty, A linguagem indireta e as vozes do silêncio
Um dos principais pressupostos de uma obra de arte talvez seja o fato dela
sempre nos possibilitar uma renovada e próxima experiência, um interminável
recomeço. E essa experiência não pode ser dissociada do tempo, afinal nosso
contato com ela nunca acontece fora tempo e da história. Mesmo que a gente não
viva mais no período em que uma obra foi realizada, sentidos dela nunca deixam
de ser presentes. E isso acontece mesmo com trabalhos produzidos nos tempos mais
remotos, pelas culturas mais distantes, das quais temos pouca ou nenhuma
informação.
Talvez o que continue presente não sejam seus sentidos, mas justamente aquilo
que é percebido como falta, que será completado pela posteridade, pela recepção
e pelos artistas que ainda surgirão. Paradoxalmente, o que falta a uma obra de
arte é o que ela tem de excesso, de abertura, mas também de inacabado: tudo
aquilo que não seja a intenção inicial do artista, os significados já
antecipados, estabelecidos, aquilo que ela realiza plenamente. Esse excesso é o
que não foi pensado, o que ficou por fazer e estimula tanto outros pensamentos
como a produção de outras obras. Afinal, não existe e jamais existirá um
trabalho de arte definitivo, o último. Sempre haverá o seguinte e um próximo...
Não é à toa que não nos cansamos de retornar a um museu para reencontrar aquele
trabalho que tanto admiramos. Poder voltar a ele infinitas vezes nos faz
perceber o quanto a arte é inesgotável, ou seja, cada vez que a percebemos
participamos dela como nunca havíamos feito antes. Entretanto, esse retorno
jamais pode ser uma obrigação sob pena de tornar-se burocrático e simplesmente
extirpar o que há de mais próprio da arte: a singularidade da experiência que
ela propicia. Muito já foi dito sobre a necessidade de se saber voltar a uma
obra como se fosse pela primeira vez.
A singularidade de um trabalho de arte não se opõe ao que há de universal nele.
Talvez esse seja um de seus principais atributos, e isso ocorre especialmente
quando ele consegue sedimentar questões que ultrapassam a expressão de um único
sujeito e, no contato com o outro, repercute e preenche vazios que antes dele
não existam. Esse dado universal da arte não pode ser separado do que a
particulariza, do lugar em que foi feita e da experiência que ela criou. Mas se
a arte está inevitavelmente atrelada ao período em que foi feita – e ao isolá-la
do contexto em que foi produzida pode haver prejuízo para a sua compreensão,
afinal ela não é completamente autônoma em relação ao mundo que habita –, sua
relação com o seu presente jamais poderia ser mecânica ou automática.
Inversamente, do mesmo modo que uma obra pode nos ajudar a compreender o entorno
em que foi realizada, o espaço em que foi concebida, ela nos permite refletir
sobre o seu e o nosso tempo.
Uma boa obra tem a capacidade de nos dizer algo sobre o espírito de seu tempo de
um modo que não poderia ser diferente. Assim como a recepção dela pela
posteridade também nos ajuda a compreender seu tempo. Não foram poucos os
artistas, e a arte moderna em especial se voltou sobre essa questão, que
justamente buscaram se opor e negar o espírito de seu próprio tempo. Não dá para
esquecer os conflitos que a arte moderna gerou e continua a gerar. Já na
história da filosofia, Nietzsche talvez seja o pensador que recusou como ninguém
certas proposições de seu tempo porque compreendeu que aqueles que se
identificam completamente com sua época são os que primeiros fracassam e que,
como o próprio tempo, passam e são aniquilados.
Nenhuma obra dura eternamente; por mais conceitual que seja ela tem a sua
materialidade como algo incontornável para sua aparição. Ela é aquilo que a
constitui e não raro algumas obras são datadas por historiadores a partir da
investigação sobre os materiais e técnicas nelas empregado. Obviamente um
trabalho de fotografia não poderia ter sido feito, em termos técnicos, antes da
invenção dela. E como sabemos, um novo meio não torna os anteriores
necessariamente obsoletos, muito pelo contrário; no caso da fotografia a
tradição da pintura foi essencial para a constituição de sua própria tradição e
do seu entrelaçamento com outras. Por isso não é apenas a tecnologia
contemporânea que vai definir a atualidade de um trabalho de arte. Talvez seja
preciso certo distanciamento do mundo para conseguir estar presente nele com os
pés mais firmes e conseguir enlaçar tradições. Por falta disso, há muita obra
que não consegue nem por um segundo se descolar do seu próprio tempo e que já
nasce morta, mas nada impede que alguém consiga ressuscitá-la tempos depois,
mesmo que ela não pretenda ficar para a posteridade. Há algo na arte que
dificilmente pode ser desprezado, e que é atemporal. Conseguir guardar certa
distância de seu tempo sem deixar de refletir sobre seu momento histórico e seu
lugar é um feito que poucos realizam.
Mas se apenas a técnica ou meio não são suficientes para tornar um trabalho de
arte cidadão de seu próprio tempo, talvez seja o modo como ele se instaura no
mundo o fundamental. E como o que uma boa obra de arte diz e o modo como o faz
não pré-existem a ela mesma, ou seja, como ela torna presente significações em
vez de simplesmente traduzi-las para um novo suporte ou matéria – conseguindo ir
além da sua materialidade, do visível e do sensível –, ela jamais poderá ser
reduzida a um instrumento. É nesse sentido que se diz que ela é instituinte,
porque ela não se contenta com o já instituído, mas ela institui outras
significações até então inéditas.
Mais do que isso, a arte possui o que se costuma chamar de fecundidade, ela tem
a capacidade de dar origem, de propiciar algo que ela não previu, de instigar o
outro, o futuro, além de nos fazer rever o passado. Retomar o passado, seja por
ruptura ou continuidade, se abrir para o que ainda virá, talvez fundando uma
nova tradição, para ser retomada, de um modo jamais pensado, é algo próprio da
arte.
Sem nunca sair do tempo, ela consegue abri-lo por dentro e instalar nele uma
eternidade provisória. Isso só é possível se entendermos que cada instante traz
consigo o momento que o precede e o sucede. É por isso que o tempo vivido é
contínuo, possui duração e nunca pode ser reduzido a uma soma de instantes
isolados. Ele é fluxo, engendramento de momentos e não cronologia ou série de
acontecimentos desconexos ou ligados mecanicamente, como pelo ponteiro de um
relógio. Desse modo, o tempo não pode ser dividido, espacializado e medido
numérica e quantitativamente, pois ele é passagem, pura mobilidade, duração,
como conceituou Bergson. Embora constituído por estados sucessivos, esses
estados não se repetem, estão sempre se diferenciando um do outro, num constante
jorro de novidade.
Assim, infiltrada no tempo, cada obra de arte carrega seu próprio devir e
porvir, é gênese interminável, trabalho infinito e, em vez de reproduzir o
tempo, ela o reinventa para que ele continue transcorrendo e para que ela não
cesse de desafiá-lo.
Cauê Alves
de Theodoro da Silva Junior <theojr@terra.com.br>
data 04/02/2008 10:49
assunto A PALAVRA - ATEMPORAL - COMENTÁRIOS.