- Israel Blajberg (*)
Meia-noite em Jerusalém, cafés lotados e luzes acesas. TVs transmitem final
da Copa América em hebraico. A cada gol o alarido pelas ruas denota como o
Brasil é querido neste país. Shir haDaguim, versão hebraica da famosa Canção
dos Pescadores do grande Dorival Caymmi. Caetano, Daniela Mercury, batucada,
Gal Costa, Saudades da Bahia, nomes familiares ... nossas novelas ocupam
primeiros lugares de audiência, passam varias vezes por dia. Mas não é
apenas a cultura que une Brasil e Israel. Intenso comércio bi-lateral,
intercâmbio de estudantes, turismo, tudo com amplas perspectivas de grande
expansão no momento em que a paz chegar à região.
Grupos de capoeira nas praças e academias, mesmo sucesso do Krav Magá no
Brasil. Monumentos imortalizam Oswaldo Aranha, Presidente da
Assembléia-Geral da ONU em 29 de abril de 1947. Quem sabe, um dia outro
brasileiro não será o grande artífice do sonhado processo de paz ?
3 x 0. Um grupo de argentinos cabisbaixos retorna ao hotel Jerusalém Gold,
enfrentando o friozinho da madrugada na Cidade Santa. Os saudamos com nossa
bandeira brasileira ...
São colegas do Seminário Memória do Holocausto, 14 argentinos, 10 mexicanos,
4 brasileiros e mais meia-dúzia de outros paises latino-americanos, reunidos
no Instituto Yad Vashem durante duas semanas de julho. Muitos não são
judeus, o caso das três professoras de Belo Horizonte e da USP.
Uma lei da Knesset (Parlamento) de 1953 estabeleceu nas colinas de
Jerusalém, ao lado do Monte Herzl e do Cemitério Militar, um instituto que
leva as palavras do versículo 5, capitulo 56, do Profeta Isaias: “dar-te-ei
memorial (Yad) e nome (Shem)”, significando o esforço para que a memória de
6 milhões desaparecidos no Holocausto seja eternizada pelas futuras
gerações: Instituto Yad Vashem para a Recordação dos Heróis e Mártires do
Holocausto.
Chama Eterna in memoriam, muito verde, extenso museu, Escola Internacional
para Estudo do Holocausto, diversos monumentos, Salão dos Nomes, depositário
das pastas com 3 milhões de fichas levantadas até agora.
Árvores homenageiam Justos Entre as Nações, remetendo à reflexão os
visitantes pelos caminhos em meio às colinas, de onde a magnífica vista de
Jerusalém simboliza que o Estado de Israel reconstruído após 2 mil anos foi
a resposta à barbárie.
Durante 2 semanas convivemos juntos em aulas, visitas, excursões de caráter
histórico e cultural. Juntos significa conviver 24 horas, seja no hotel, no
ônibus, nas refeições ou nas atividades didáticas. É como se fossemos uma
grande família.
Tentamos entender o absurdo, os estereótipos, os ódios fabricados, seja
“funcionalmente” seja “intencionalmente”, como defendem correntes opostas de
historiadores. Aconteceu, perpetrado por gente culta e dita civilizada
contra vitimas indefesas, assistido por observadores indiferentes, e por uma
minoria de Justos, nomes eternizados nos jardins do Yad Vashem.
Conjunto de museu, monumentos, jardins temáticos, cada pedra tem um
significado, cada marco arquitetônico um simbolismo. 2 semanas foram
insuficientes para trilhar todas as vertentes. Um mês inteiro talvez não
bastasse para rever todos os mostruários, perpassar documentos, consultar
bancos de dados, navegar pelas telas dos computadores, contemplar obras de
arte, meditar na sinagoga, assistir filmes, adquirir livros, DVDs e álbuns
na loja, ou simplesmente andar pelos caminhos bem cuidados, fazendo a si
mesmo a pergunta cuja resposta ainda buscamos: Porquê ?
Seminários congregam anualmente quase 300 mil alunos, de crianças do
primário a soldados, de húngaros a africanos, católicos, budistas,
principiantes ou doutores, todos empenhados em analisar este fenômeno
iniciado segundo uns em 1933, segundo outros em 1939 ou 1942, de raízes
complexas e comprometedoras.
A participação brasileira poderá doravante ser bem maior nos seminários,
doravante também conduzidos em espanhol. O numero de visitantes do Brasil ao
museu de há muito já é bastante expressiva.
Os dias passaram rápido, hora de voltar ao lar. No caminho para o aeroporto,
atravessando velozmente a moderna via-expressa, não pude deixar de recordar
que ali mesmo Yoshua bin Nun da tribo guerreira de Ephraim fez com que a Lua
pairasse imóvel sobre o Vale de Ayalon, que dá nome à rodovia, a fim de que
pudesse a batalha contra os Amoritas terminar a luz do dia, evitando
profanar o Shabbat.
Por estes mesmos caminhos passaram as legiões romanas, gregos, bizantinos,
turcos, ingleses, para citar alguns. Pensavam que haviam conquistado aquela
terra para sempre ...
Na viagem de volta, à janela do Boeing da EL-AL, 40 anos da primeira de
algumas viagens àquela terra de nossos bíblicos ancestrais, a saudade aperta
após 4 semanas distante da terra verde-e-amarela. Mais 17 horas e estarei
novamente em casa.
A aeronave decola, visão das praias de Tel-Aviv se afastando ao longe no
comecinho da manhã, o sol do verão colorindo as areias em tons dourados.
Lembram as praias do Nordeste, trazendo pensamentos de que a Terra é uma só,
o Sol nasce para todos, homens e mulheres de bem são todos irmãos, esperança
de que um dia a Humanidade saberá a final conviver em paz ...
(*) - iblaj@telecom.uff.br