2 – Tribos, Deuses e Migrações: O Período
Formativo:
Por volta do início do V milênio antes de Cristo, a situação de ressecamento climático iniciada no IX milênio já havia terminado de se consolidar, isso fez com que ao longo de quatro mil anos os animais migrassem para o sul e para o norte e os homens (outrora povos nômades de regiões propícias) se fixassem em torno de oásis ou à beira do Nilo.
Os
processos de migração ocorridos nesse período é
complexo e igualmente confuso sendo que, possivelmente,
nunca viremos a compreende-lo com perfeição. O que se
sabe é que por volta de 4500 a.C. (ou talvez um milênio
antes), várias comunidades estavam estabelecidas ao longo
das margens do Nilo.
Essas comunidades se dividiam em vilas que eram administradas por uma vila maior, formando espécies de ligas de vilas chamadas Spat, ou Nomo (em Grego). Caracteristicamente, essas sociedades deviam se agrupar a partir de uma mesma crença religiosa, ou seja, a partir de deuses em comum.
Os
deuses dos primeiros períodos da História Egípcia eram
predominantemente zoomórficos, ou seja, constituíam-se
de animais que, por uma ou outra determinada característica
eram adorados. Por exemplo, aves poderiam ser adoradas por
poderem voar, algo que possibilitava melhor locomoção e
possibilidade de caça; crocodilos poderiam ser adorados
por serem uma ameaça constante às populações que
habitavam as margens do rio e, sendo assim, seu culto
poderia ter o intuito de apaziguar seu ânimo destruidor;
serpentes poderiam ser adoradas por razões semelhantes às
dos crocodilos; bois e ovelhas, assim como vários tipos
de animais, poderiam ser adorados por razões de alimentação
e assim por diante.
O
fato é que esses Spat construíam espécies de totens de
seus deuses, com templos em sua homenagem e, também em
sua homenagem, guerreavam uns contra os outros.
A consolidação de um Spat (ao todo, no Egito, existiam 44) era um processo complexo e demorado, mas, possivelmente se dava pela expansão das áreas cultiváveis de uma aldeia original, ou seja, na medida em que a população crescia, era preciso construir mais diques e mais casas o que vinha a criar novas vilas, porém, vilas ligadas a uma vila-mãe, capital do Spat.
Até
bem pouco tempo, algo denominado de “Hipótese Causal
Hidráulica” era tido como sendo a melhor teoria para a
unificação do Egito, ou seja, o país teria se unido sob
a autoridade de um único governante para que assim, com a
organização central dos recursos da nação, fosse possível
construir obras de irrigação. Essa teoria é
perfeitamente coerente e foi primeiramente proposta por
Karl Marx, sendo descrita como “Modo de Produção Asiático”,
ou seja, um Estado centralizado que emprega a mão-de-obra
livre de seus habitantes para realizar grandes construções,
em especial, obras de irrigação.
A teoria hidráulica da unificação do Egito, no entanto, não é mais muito aceita hoje em dia pelo fato de até o Médio Império (mais de mil anos após a data sugerida para a unificação do Egito) não haver sequer um documento Estatal que comprove o controle do Estado sobre os diques de irrigação, o que leva a crer que até aquele período tais obras fossem de caráter local.
Bem, vejamos,
derrubada a “Hipótese Causal Hidráulica”, podemos
concluir que, muito possivelmente os próprios Spat haviam
desenvolvido seus meios de irrigação para agricultura.
Como a agricultura chegou ao Egito é outra questão
complicada. Pode-se dizer que tenha sido por difusão
através da Mesopotâmia, pode-se dizer que tenha vindo da
África Central, pode-se ainda dizer que tenha sido
descoberta paralelamente no próprio Egito, nunca será
possível saber, mas também, essa não é exatamente uma
informação relevante, na medida em que sabemos que havia
agricultura no Egito pré-unificação.
2.1
– A Etnia Egípcia Antiga:
Falar de etnicidade é sempre tocar em um ponto
complicado e, muitas vezes tabu na nossa sociedade. Essa
questão se torna mais importante na medida em que grupos
minoritários começam a ganhar força e a reclamar os
direitos que sempre lhes foram negados. Em contra-partida,
grupos antiquados, racistas e protecionistas de sua
mentalidade político-religiosa atrasada tentam sustentar
preconceitos insustentáveis como forma de manter negros
(e membros de outras etnias) longe de cargos e
acontecimentos importantes da História.
Hoje
existe na África um grupo cada vez maior de intelectuais
negros que, como forma de compensar as humilhações
sofridas ao longo de séculos pelos indivíduos oriundos
do continente Africano, criaram uma corrente de pensamento
conhecida como Pan-Africanismo. Segundo essa corrente, os
negros não devem em hipótese alguma se envergonhar de
suas origens e de sua cor, além disso, todos os
Africanos, independente de religião ou de região, devem
buscar origens negras que os legitimem como irmãos. É
uma atitude louvável, mas, por um certo aspecto,
perigosa, na medida em que pode vir a gerar, num futuro
hipotético, movimentos semelhantes às doutrinas de
superioridade racial surgidas na Europa dos anos 30.
Deixando
suposições e previsões de lado, nos deparamos com um
grave problema de cunho étnico: como determinar o biótipo
do Egípicio antigo?
Alguns
autores dirão que basta que se observe os Egípcios
atuais para que se tenha uma idéia bastante aproximada de
como eram os Egípcios antigos. Porém, essa recomendação
é, no mínimo despropositada, seria o mesmo que
determinar como eram os brasileiros do século XX a.C.
observando os brasileiros do século XX d.C.. Não preciso
dizer os absurdos que seriam cometidos, não é?
Pelo
Egito, desde a unificação de seu território, passaram Núbios
(possivelmente negros); Líbios (possivelmente Berberes);
Judeus, Fenícios, Acadianos, Hititas e Assírios (com
caracteres semíticos); Hicsos (com caracteres talvez
Arianos); Persas e Árabes (com caracteres Médicos);
Gregos (com feições balcânicas); Romanos (com biótipo
latino); Ingleses e Alemães (com tipo ariano-saxão);
Turcos (que originalmente tinham feições orientais)
entre outros povos. Seria muito complicado dizer que tais
populações passaram incólumes pelo Egito, sem deixar
sua marca étnica na população; seria o mesmo que dizer
que os Portugueses e Africanos não modificaram a população
do Brasil.
Essa
explicação foi toda feita para que se chegasse a uma
conclusão: não se pode afirmar que a etnia Egípcia
tinha os traços característicos das múmias dos Faraós
porque estes eram membros de uma classe dominante e,
justamente por isso, sem miscigenação com as classes
mais baixas, além disso, muitas vezes o Faraó era o
filho de uma esposa secundária de seu pai e esta, por sua
vez, podia ser uma princesa estrangeira, o que também
deixaria o Faraó sem os traços típicos da população
comum. Não se pode, porém, como querem os intelectuais
Pan-Africanistas, fechar os olhos às pinturas e mesmo aos
caracteres das múmias e simplesmente assumir que a população
do Egito antigo fosse predominantemente negra.
Para
que não tomemos uma postura que possa ser considerada
racista por qualquer parte, acredito que uma boa saída
seria analisarmos as pinturas egípcias. Se o fizermos,
poderemos ver que existem pessoas retratadas com a cor
negra e pessoas retratadas com cores mais claras,
lembrando o semítico original. Talvez essa seja uma saída
para que determinemos a etnia do Egito antigo.
Outra
saída seria assumir que a população Egípcia fosse de
origem semítica ou berbere e, portanto, branca, sendo a
população Núbia de origem negra. Isso explicaria, por
exemplo, porque o Egito, mesmo tendo dominado a Núbia por
tanto tempo e mesmo sendo esta região um prolongamento
natural de seu território, nunca a tenha considerado como
parte do Egito, apenas como domínios Imperiais, sendo que
havia até uma espécie de Vice-Rei para a região, como
se se tratasse de um domínio distante.
Uma
terceira saída (se bem que passível de legitimação de
preconceitos) seria assumir que o grosso da população Egípcia
seria negro, mas que aqueles em posições mais elevadas
seriam brancos, pois seriam descendentes de um grupo semítico
(possivelmente de procedência Acadiana) que teria se
estabelecido na região pouco antes da unificação. Essa
teoria não é de todo descabida, visto que há indícios
de que Acadianos tenham realmente se estabelecido no Delta
do Nilo pouco antes da unificação do Egito e há,
inclusive, aqueles que pensem (a meu ver erroneamente) que
teriam sido estes Acadianos que teriam trazido ao Vale do
Nilo a idéia de unificação política, idéia já
consolidada na Mesopotâmia, de onde eram oriundos.
Particularmente,
este autor acredita que a segunda hipótese aqui proposta
seja a mais plausível, na medida em que explicaria a
presença de negros (em quantidades não tão grandes) nas
pinturas murais e também a não anexação da Núbia ao
Egito propriamente dito, mas, tão somente, aos
domínios Egípcios.
2.2 – A Política dos Spat:
Agora que já delimitamos uma hipótese (que se não
é verdadeira, ao menos é boa) de trabalho para a etnia
Egípcia, partamos para o esclarecimento da política dos
Spat e de sua evolução rumo ao período Pré-Dinástico.
Como
organizações populacionais recém-estabelecidas nas
margens do Nilo, os Spat precisavam de uma nova organização
interna, uma vez que aquela das tribos nômades já não
mais era útil.
Não
é muito difícil de se aceitar que as sociedades se
transformem em mais de quatro mil anos de existência,
afinal, civilizações inteiras podem surgir, evoluir,
entrar em colapso e desaparecer num período de tempo tão
longo. Portanto, não é de se estranhar que os Spat
tenham descoberto formas de se organizar gradualmente
melhores na medida em que os séculos foram se acumulando.
Para
poder realizar obras públicas, ainda que no campo do
microcosmo (uma vez que já justificamos a derrubada da
“Hipótese Causal Hidráulica” para o macrocosmo), os
Spat precisaram organizar lideranças e estas,
possivelmente foram escolhidas entre os chefes de família.
É possível que mulheres tenham tomado parte dessas
lideranças tribais, especialmente se levarmos em conta
que pode ter havido um difundido culto Neolítico a uma
grande divindade feminina em todo o Mediterrâneo Oriental
(pelo qual o Egito é banhado), o que indica que a mulher
deve ter tido uma importância muito mais destacada nas
sociedades Neolíticas em geral do que veio a ter nas
sociedades Arcaicas.
Pois
bem, voltemos ao que estávamos falando, possivelmente
havia conselhos de anciãos em cada Spat, anciãos estes
que eram responsáveis pela organização dos recursos do
Spat e por sua distribuição nas diferentes necessidades:
principalmente o culto, a irrigação e a defesa.
Esse
conselho, denominado Saru, era legitimado por assembléias
populares onde, a priori, poderiam participar todos os
habitantes do Spat (talvez excetuando-se as crianças).
Essas assembléias, denominadas Zazat devem ter tido a função
de levantar os problemas e necessidades da população, além
de, talvez, ratificar as decisões mais controversas do
Saru, como a decisão de atacar outro Spat, por exemplo.
É
possível que entre as funções do Saru; por ser este
composto de pessoas idosas que já não podiam trabalhar
fisicamente; estivessem as obrigações religiosas. Dessa
maneira, os membros do Saru seriam ao mesmo tempo
governantes e sacerdotes dos Spat.
Apenas
para um efeito de comparação com sistemas de governos
que nos são mais conhecidos, podemos dizer que os Spat
eram governados por uma Oligarquia Aristocrática
assistida por uma Assembléia Popular, ou seja, em moldes
rudimentares, uma espécie de Democracia com uma elite
Aristocrática superposta.