Dag
Hammarskjöld por Peter
Wallensteen
"A grande
história do Secretário Geral da ONU que determinou a criação da UNEF e conseqüentemente
criou as FORÇAS DE PAZ."
Dag
Hammarskjöld entrou
para a cena mundial de maneira inesperada, ao tornar-se Secretário Geral da ONU
em abril de 1953.
Para o público em geral, para a mídia e para os tomadores de decisão, era um
sueco esconhecido. Breve, porém, ele se tornaria uma figura quase legendária.Sua
morte, trágica e também súbita, oito anos mais tarde, reforça essa imagem. O
choque que sua morte provocou em todo o mundo evidencia até que ponto – ao
longo de sua permanência na ONU – ele conseguiu dar um relevo à sua posição
na política mundial que nenhum outro Secretário Geral, e nenhum outro conterrâneo,
conseguiu atingir depois dele. Quem era, na verdade, o Secretário Geral
Hammarskjöld? O que o tornou tão singular? Possuía qualidades criativas, ou
foi moldado pelas condições políticas globais vigentes em sua época? As
respostas para essas perguntas não se encontram todas na carreira de Dag
Hammarskjöld anterior ao seu período na ONU, porém (como se tornou evidente
mais tarde), esta foi uma preparação valiosa para um posto que ninguém
imaginava que lhe seria oferecido. Também não é possível,
efetivamente, responder essas perguntas analisando a sua vida à margem
da posição que ocupou na ONU. Foi um membro ativo do Touring Club Sueco (STF).
Interessava-se pela natureza e pela fotografia. Dedicava-se à leitura e tradução
de obras literárias. Tinha um vivo interesse pela arte moderna, especialmente
graças à amizade com o artista e escritor Bo Beskow. Gostava de ser membro da
Academia Sueca. Todas essas facetas lançam uma luz diferente sobre o homem que
ocupou o posto na ONU, porém não explicam o seu modo de exercer as funções.
As suas realizações na ONU surpreenderam a todos, talvez inclusive a ele
mesmo. A estréia de Dag Hammarskjöld na cena mundial foi captada por uma foto
tirada em 9 de
abril de 1953.
Ao descer as escadas (3)

do
avião, no aeroporto de Idlewild em Nova York, é cumprimentado pelo até então
Secretário Geral, Trygve Lie, da Noruega, que descreveu o posto como “a função
mais impossível da terra”. Hammarskjöld não tinhas dúvidas disso. Mas logo
comprovaria que era, ao mesmo tempo, mais possível e mais impossível do que
Lie ou ele próprio jamais imaginaram.
O
servidor público sueco
dag
hammarskjöld nasceu
em Jönköping em 1905.
Passou sua infância em Uppsala, onde seu pai, Hjalmar
Hammarskjöld, foi nomeado governador distrital em 1907.
O pai é descrito 4
como uma pessoa séria
e dominante. Era um homem de princípios, traço herdado por seu filho. Hjalmar
Hammarskjöld era professor de direito, assumiu funções políticas e era ativo
nos círculos legais internacionais. Atuou como delegado à Conferência
de
direito internacional em Haia, em
1907,
e a ua experiência, sem dúvida alguma, coloriu a sua própria carreira e também
a dos filhos. Os dois irmãos mais velhos de Dag – Bo e Åke – também foram
ativos no campo do direito internacional, porém seu terceiro irmão, Sten,
tornou-se escritor. Os interesses literários da família são atribuídos à
influência da mãe de Dag, cujo nome de solteira era Agnes Almquist, sobrinha
por casamento do escritor Carl Jonas Love Almqvist (1793–1866). Em 1914 o
rei Gustav V nomeou Hjalmar Hammarskjöld Primeiro Ministro da Suécia, depois
que as forças conservadoras derrotaram um governo popularmente eleito. Subseqüentemente,
serviu
na Primeira Câmara do Parlamento, mantendo o posto de governador distrital de
Uppsala e desempenhando missões internacionais. Nos livros de história da Suécia,
Hjalmar Hammarskjöld não
é
retratado de maneira muito favorável. Foi chefe de um governo
que
representava o poder real, numa era de democracia emergente, pouco antes da vitória
do governo parlamentar na Suécia. No entanto, Dag Hammarskjöld mais tarde
explicou que seu pai considerava um dever aceitar o cargo de Primeiro Ministro,
sem com isso adotar qualquer posição na questão constitucional. Estava agindo
na qualidade de servidor público, que não pertencia a nenhum partido político.
Esse retrato poderia ser um reflexo de conversas anteriores mantidas entre pai e
filho, mas poderia também ser a expressão da imagem que o filho desejava
fazer
do pai, à luz de suas próprias experiências. Durante a I Guerra Mundial, o
Primeiro Ministro Hjalmar
Hammarskjöld
seguiu uma política da mais estrita neutralidade. Entre outras coisas, isso
significava que a Suécia continuaria a comerciar com a Alemanha, apesar da crítica
dos aliados Ocidentais. Muitos consideravam esta uma política pró-Alemanha,
porém Hjalmar Hammarskjöld – assim como seu filho, Dag – 5
viam nisso apenas
um exemplo de princípios firmes. O pai nutria a esperança que os sacrifícios
criados por essa política
iriam
demonstrar que a Suécia não era oportunista, mas sim que estava cuidadosamente
seguindo os princípios do direito internacional. O país estaria, depois da
guerra, em situação mais sólida. Os princípios firmes comprovaram ser
adequados, numa perspectiva a longo
prazo – porém a curto prazo, conduziram à fome e à instabilidade política
na Suécia, devido ao bloqueio Aliado. Essa política isolou Hjalmar Hammarskjöld,
que foi obrigado a renunciar. De acordo com Dag, em última análise, “o único
apoio de seu pai era a fidelidade às suas próprias convicções.
O
conselho dos demais era bem-vindo e valioso, porém não o isentava de suas
responsabilidades.” Essas foram questões às quais Dag Hammarskjöld
retornaria mais tarde. Assim, Dag Hammarskjöld teve a oportunidade de ver,
ainda jovem e muito de perto, que uma posição de princípios poderia levar a
duros sacrifícios – particularmente para a própria pessoa. Tais experiências
foram sem dúvida úteis, quando ele teve que enfrentar diretamente muitas das
grandes potências mundiais, como por exemplo durante a crise do Congo. O
sentido do dever e do auto sacrifício fundiam-se no que Dag Hammarskjöld freqüentemente
denominava de “integridade”. O princípio reitor era a fidelidade “a si
mesmo”.
Vägmärken (Marcos), livro de reflexões pessoais de autoria de
Hammarskjöld,
publicado
após a sua morte, pode ser considerado como a sua maneira de examinar o próprio
papel e personalidade. O processo o conduz a refletir sobre questões eternas,
mas não é necessariamente o reflexo de uma convicção religiosa. De onde
vieram esses princípios? Por que deveria defendê-los, quando os outros não os
compreendiam? Será que seus princípios e suas ações realmente beneficiariam
a todos a longo prazo? Hammarskjöld completou o ensino secundário em Uppsala,
obteve o bacharelado em direito na Universidade de Uppsala em 1930
e concluiu seu
doutorado em economia na então Faculdade de Estocolmo (atualmente
Universidade), em 1933.
Foi nomeado para o cargo de Ministro das Finanças. (6)
Trabalhou
com o eminente teórico do Partido Social Democrata, Ernst Wigforss, um homem
cuja política e perspectivas pareceriam estar no polo oposto às do seu pai.
Dag Hammarskjöld foi subsecretário do Ministério das Finanças durante 10
anos e se tornou
presidente da Diretoria do Banco Central da Suécia (Sveriges Riksbank). Os
assuntos internacionais eram parte integrante de suas funções, mas não
constituíram sua tarefa principal até 1947,
quando passou para o Ministério dos Assuntos Exteriores. Ali serviu como
subsecretário permanente, de 1949
a 1951.
Depois passou a integrar o governo como ministro não-político sem pasta,
lidando com questões internacionais
diversas, sob comando do Secretário de Relações Exteriores Östen Undén. 7 Ou seja, na ocasião em que foi nomeado Secretário
Geral da ONU, Hammarskjöld já tinha considerável experiência política,
muito
embora tivesse exercido suas funções como servidor público e nunca tivesse
sido político, na verdadeira acepção da palavra. Também havia participado de
negociações internacionais, como por exemplo, na qualidade de Delegado Chefe
na nova Cooperação Econômica Européia (OEEC), de 1948
até 1953.
Não galgou posições na Suécia através da atividade política normal. Não
fez campanha para obter votos em eleições, não tinha uma grande fortuna
pessoal, nem era uma personalidade da mídia. Pelo contrário, era uma “eminência
parda”, muito respeitado
por
suas qualidades. Seus pontos fortes eram uma grande articulação, resistência
mental e física, e a capacidade de analisar rapidamente uma situação, manter
os fatos em ordem e propor cursos de ação. Tinha um ar de auto segurança que
granjeava a confiança das pessoas. Os amplos interesses culturais e acadêmicos
de Hammarskjöld eram um ativo adicional para conseguir contatos. A pré-condição
para obter influência, era poder ganhar
a
confiança do “verdadeiro” detentor do poder. Nas mãos de Hammarskjöld,
isso poderia se transformar em estratégias de ação, que por sua vez lhe davam
um poder “real”. A tradição de serviço público, que Hammarskjöld tão
bem encarnava, é típica da administração pública escandinava e existe também
na Grã-Bretanha. O servidor público considera-se a si mesmo o depositário da
eficiência e da incorruptibilidade. Também se constitui em barreira para mudanças
políticas que sejam incompatíveis com princípios anteriores. O servidor público
é
também o guardião do processo legal, papel que pode ser visto como
conservador, mas que em última análise depende das políticas estabelecidas
pelos órgãos legítimos, tais como o governo, o Parlamento e os tribunais. A
tradição do serviço público
tem
certos paralelos com o sistema do mandarinato na China, onde a escolaridade e a
lealdade são, igualmente, elementos de uma preocupação paternalista com relação
aos habitantes e à prosperidade futura do país. Na qualidade de servidor público,
Hammarskjöld achava possível manter-se leal a um governo 8
9 social democrata,
porque as mudanças realizadas haviam sido implementadas de forma legalmente
correta e foram úteis para todo o povo sueco, e não apenas para alguns. Surpresa:
Secretário Geral ao
tornar-se secretário geral da
ONU, Hammarskjöld assumiu a chefia de uma organização criada apenas 8
anos antes, mas que
já havia sido duramente tratada, apesar de sua relativa juventude. A Carta das
Nações Unidas entrou em vigor em 24
de outubro de 1945.
A organização nascia com uma posição de maior força do que a de sua
antecessora, a Liga das Nações. O Conselho de Segurança, com seus cinco
membros permanentes (China, França, Grã-Bretanha, União Soviética e Estados
Unidos: as cinco potências vitoriosas da II Grande Guerra), tinha grande
autoridade – desde que nenhum dos cinco
integrantes
bloqueasse uma decisão, invocando seu poder de veto. A Assembléia Geral, onde
cada país integrante da Organização tinha um assento e um voto, também
exercia um papel importante. O Secretário Geral detinha uma posição de força,
como diretor-chefe do órgão executivo da ONU. Tinha o direito de “apresentar
à consideração do Conselho de Segurança qualquer
ameaçar a manutenção da paz e segurança internacionais” (Artigo
99
da Carta).
Assim,
as Nações Unidas contavam com três órgãos autorizados a tomar medidas sobre
questões relacionadas à guerra e à paz: o Conselho de Segurança, a Assembléia
Geral e a Secretaria, chefiada pelo Secretário Geral. Nos seus primeiros meses
de vida, a sede da ONU ficou em Londres. O prédio em Nova York, atualmente tão
conhecido, foi finalizado em
1952.
O político e sindicalista norueguês Trygve Lie tornou-se o primeiro Secretário
Geral
da ONU, em
1946,
e dedicou muito de seu tempo à construção da organização. Nesse meio tempo,
teve início a Guerra Fria. A ONU encontrava-se a ponto de tornar-se uma de suas
primeiras vítimas. Sob alguns aspectos, o poder de veto de cada um dos 5 grandes no Conselho de Segurança tinha condições de salvar a
organização,
impedindo
que um bloco numericamente superior de potências pudesse utilizar a ONU contra
outros países. Em 1950,
quando a União Soviética boicotou o Conselho de Segurança, em protesto,
porque o regime comunista de Pequim (hoje Beijin) não havia sido autorizado a
assumir o assento da China na ONU, surgiu pela primeira vez uma situação onde
a maioria de países podia tomar uma decisão que poderia afetar negativamente
uma das grandes potências. Assim aconteceu quando, por decisão da Assembléia
Geral, a ONU passou a opositora na Guerra da
Coréia
(1950–53), ao tomar partido a favor da Coréia do Sul, contra a
Coréia do Norte e a China. Trygve Lie, defendendo essas decisões, foi
gradativamente perdendo a confiança da União Soviética, aliada da China. Ao
ser indicado para reeleição de mais um mandato de cinco anos, a União Soviética
votou contra ele. Mas quando a decisão foi encaminhada à Assembléia Geral,
Lie foi reeleito por mais três anos. Depois disso, os representantes
soviéticos
se recusavam a falar com ele. Trygve Lie viu-se, portanto, diante de um conflito
intolerável com um dos
fundadores
e membro mais influente da Organização. A situação piorou ainda mais, quando
o Senador norte-americano Joseph McCarthy rotulou a ONU de ninho de “espiões
comunistas”. O FBI começou a investigar a ficha de todos os funcionários
norte-americanos da ONU. Em
1952,
a ONU passava por série crise de confiança. Lie, finalmente, percebeu que
teria que renunciar antes do final de seu mandato. E foi uma grande
surpresa quando, após cinco meses de debates, as cinco potências chegaram a um
acordo sobre o desconhecido Dag
Hammarskjöld
para assumir o posto de Secretário Geral. Hammarskjöld havia causado forte
impressão entre os negociadores franceses e ingleses na OEEC (Comunidade Econômica
Européia). A União Soviética, parentemente,
desejava chegar ao fim do impasse na ONU, e um Secretário Geral proveniente da
neutra Suécia, era aceitável. A morte de Stalin, em março de
1953,
proporcionou uma abertura para o Ocidente e promoveu o interesse em reduzir as
tensões. Nos Estados Unidos, também no (10)
início
de 1953,
assumiu um novo governo, que deu ouvidos aos seus aliados europeus. É
interessante observar que a Suécia não fez qualquer campanha para que
Hammarskjöld fosse eleito. Pelo contrário, os diplomatas e políticos suecos
parecem ter sido tomados tão de surpresa quanto o próprio Dag Hammarskjöld.
Este, por exemplo, recusava-se
a acreditar nos telegramas e telefonemas que chegavam a Estocolmo. Nem sequer
lhe haviam perguntado se estava disponível para assumir o cargo. Talvez os
membros do Conselho de Segurança estivessem receando que ele recusasse. No
Conselho de Segurança, em 31
de março, os votos
a favor de seu nome foram unânimes. No dia 10 de
abril de 1953,
Dag Hammarskjöld pres- 11
tou juramento como
Secretário Geral da ONU, e assumiu em meio a grandes mudanças na política das
grandes potências.Novos governos haviam tomado posse nos Estados Unidos
e
na União Soviética. Negociava-se o armistício na guerra da Coréia. Entre os
líderes chineses de Pequim, observava-se
uma nova atitude. No entanto, não faltavam crises em potencial, que logo se
materializaram, sob forma de tumultos em Berlim e testes de novas armas atômicas.
Mas Hammarskjöld iniciou seu primeiro mandato de cinco anos como Secretário
Geral sob condições mais promissoras do que as vigentes nos anos anteriores.
A
primeira medida de Hammarskjöld foi proteger a integridade da Organização
contra o comitê investigador do senador McCarthy e a interferência do FBI.
Primeiro, mandou retirar os agentes do FBI das instalações da ONU. Depois,
encontrou um método para lidar com as acusações do comitê do Senado contra
os funcionários da ONU. Segundo o Artigo
101
da Carta das Nações
Unidas, todos os funcionários da ONU estão subordinados ao Secretário Geral,
e não às agências nacionais. Na Carta das Nações Unidas, o princípio
fundamental era o de criar um serviço público internacional neutro com relação
a todos os países membros. Sem dúvida, o histórico de Hammarskjöld como
servidor público sueco, influiu na sua forma de lidar com essa crise. A
força da ONU não poderia ser medida em termos de armas ou poder econômico,
mas apenas pela sua imparcialidade, talento e eficiência. Essas três
qualidades tinham sido cruciais para a própria carreira de Hammarskjöld na Suécia.
Ao adotar uma posição firme contra as autoridades norteamericanas e iniciar
mudanças organizacionais adequadas, Hammarskjöld melhorou muito o clima de
trabalho dentro da ONU.
A posição do Secretário Geral como um servidor público internacional
imparcial foi reforçada. Porém, restava ainda a tarefa de dar à organização
um novo papel global proeminente. Devido à sua atuação na Guerra da Coréia,
a ONU corria o perigo de parecer um simples apêndice dos ministérios de relações
exteriores do Ocidente. E por outro lado, o Ocidente em geral – e os Estados
Unidos em particular – não pareciam 12
dispostos a
conceder à ONU um papel mais relevante. A Organização havia tido um
desempenho bem limitado para a finalização
da
Guerra na Indochina, em
1954.
As principais questões européias, tais como o papel da Alemanha, Berlim e Áustria,
tinham sido resolvidas pelas potências vitoriosas entre elas mesmas. A questão
das armas nucleares, na medida em que sequer foi discutida, também estava fora
do alcance da ONU. Existia o risco evidente de que a ONU se visse reduzida a
mero foro para os debates informais e as manifestações propagandísticas. Em
junho de 1954,
quando a Guatemala solicitou uma reunião do Conselho de Segurança para tratar
da invasão do país pela vizinha
Honduras,
Hammarskjöld viu ali uma oportunidade para chamar a atenção sobre o papel
relevante da ONU. A tentativa porém falhou, e Hammarskjöld entrou em conflito
com os Estados Unidos: a invasão havia sido liderada e realizada pela CIA, a agência
de informações dos Estados Unidos. O objetivo era derrubar o governo
popularmente eleito vigente na Guatemala desde
1951,
que havia começado a distribuir, para os cidadãos sem terra do país, as
terras
agricultáveis de propriedade de companhias americanas. Do ponto de vista do
governo norte-americano, isso era “comunismo” e o governo ofensor deveria
ser deposto. Não interessava ao governo norte-americano trazer a questão para
o Conselho de Segurança, mas não podia impedir que tal acontecesse. No
Conselho, os Estados Unidos propuseram que a questão fosse encaminhada à OEA
(Organização dos Estados Americanos), mas a proposta foi vetada pela União
Soviética. Aprovou-se uma resolução vaga, determinando que os países membros
“não deveriam contribuir para ações que pudessem levar ao derramamento de
sangue”. Depois disso, os Estados Unidos aproveitaram a vantagem de seu
mandato temporário na Presidência do Conselho de Segurança, para retardar a
discussão da questão. O governo eleito da Guatemala foi deposto no final de
junho de
1954.
Para Hammarskjöld, isso representou uma derrota. As Nações Unidas não haviam sido
capazes de intervir, para proteger uma pequena nação das manipulações de um
país vizinho maior. Insistiu para que a ONU tivesse um papel central na questão
da (13 )
14
Guatemala, para não
ficar subordinada à OEA. Talvez tenha sido pouco diplomático, e ao mesmo tempo
uma falta de tato, provocar uma briga com os Estados Unidos, porém Hammarskjöld
havia sido informado que outros membros do Conselho de Segurança compartilhavam
sua opinião, embora não pudessem apoiá-lo abertamente. Dentro de uma
perspectiva mais longa, ao adotar essa posição Hammarskjöld talvez tenha
efetivamente fortalecido a sua posição.
Atuação
global independente
o
grande enfrentamento entre
Hammarskjöld e os Estados Unidos aconteceu numa questão muito mais complexa.
Durante
a Guerra da Coréia, alguns aviadores norte-americanos, formalmente comandados
pela ONU, haviam sido abatidos e aprisionados na China. Eram onze membros da
tripulação de um B-29
e mais 4
pilotos, que haviam
sido abatidos em operações de combate. Em fins de novembro de 1954,
a Rádio Pequim anunciou que os onze tripulantes haviam sido condenados a longos
anos de prisão por espionagem. O governo norteamericano reagiu veementemente.
No começo de dezembro, o Presidente Dwight D. Eisenhower deixou claro que a
responsabilidade pelo destino dos aviadores estava nas mãos da ONU, pois
estavam sob o comando da Organização. Começaram as conversas com Hammarskjöld.
Em 10 de
dezembro, a Assembléia Geral determinou que ele deveria iniciar a tarefa de
liberação de todo o pessoal da ONU.As complicações eram inúmeras. A República
Popular da China não tinha representação na ONU. O assento da China no
Conselho de Segurança estava em mãos dos derrotados na guerra
civil,
o regime nacionalista de Chiang Kai-Shek, que havia fugido para Formosa
(Taiwan). Os Estados Unidos não mantinham relações diplomáticas com a República
Popular da China. Ao colocar a questão nas mãos da ONU, o governo
norte-americano eximia-se de qualquer responsabilidade. Qualquer falha seria
atribuída à ONU. Além do mais, a ONU havia apoiado o outro lado no conflito
contra a China, durante a Guerra da Coréia, e havia imposto sanções à China.
A tarefa de Hammarskjöld, como principal representante da ONU, era conseguir
de alguma maneira a libertação dos aviadores americanos. Dificilmente a
China iria aceitar a sua autoridade como Secretário
Geral
da ONU, e ainda menos teria qualquer motivo para obedecer às recomendações da
Assembléia Geral. Para superar a desconfiança da China, seria necessário um
grande talento diplomático. Por outro lado, a Suécia e a Grã-Bretanha estavam
entre os poucos países ocidentais que haviam reconhecido de imediato o novo
regime da China continental. A República Popular tinha sua embaixada em
Estocolmo, o que provou ser muito útil. Da perspectiva de Hammarskjöld, a sua
missão era uma aposta. Se tivesse sucesso, fortaleceria a posição da ONU, nos
Estados
Unidos
e de maneira geral. Um fracasso seria difícil de consertar, especialmente aos
olhos da opinião pública norte-americana. Hammarskjöld adotou a mais
audaciosa possível das medidas ao decidir visitar pessoalmente a China. Enviou
um telegrama ao Primeiro Ministro chinês e ao Ministro de Relações
Exteriores, Chou En-lai, solicitando um encontro em
Pequim.
A resposta foi positiva. As providências práticas foram finalizadas durante a
estada de Hammarskjöld na Suécia, para a reunião anual da Academia Sueca de
20
de dezembro de 1954.
As conversas com Chou En-lai em Pequim ocorreram entre os dias 5 e 10
de janeiro de 1955.
O único resultado publicamente anunciado foi um breve comunicado. As conversas
haviam transcorrido sem dificuldades. Haviam estabelecido contatos. Hammarskjöld
agiu segundo o que mais tarde ficou conhecido como a “fórmula de Pequim”:
estivera em Pequim na qualidade
de
Secretário Geral, conforme disposto na Carta das Nações Unidas, e não como
representante de tudo o que a Assembléia Geral
mencionara na resolução. Chou En-lai aceitou essa sutil distinção. Mais
tarde, essa fórmula foi utilizada por Hammarskjöld também em outros
contextos, para distanciar-se de resoluções formuladas de maneira pouco diplomática.
(15)
Chou
En-lai sustentava que os onze aviadores do B-29
já tinham sido
julgados por espionagem, conforme as leis em vigor na China. O governo chinês,
portanto, não estava disposto a considerá-los prisioneiros de guerra, como
queriam a ONU e Hammarskjöld. A mudança da sentença era uma questão interna
da China. Os outros quatro americanos ainda não haviam sido julgados, e
Hammarskjöld aproveitou essa margem de manobra. A atitude de Chou En-lai,
durante as conversas, indicava que a China provavelmente não se mostraria
inflexível, ou pouco disposta a contribuir para reduzir as tensões na região.
Os passos concretos, discutidos na reunião, consistiam em tirar fotos dos
prisioneiros, intercambiar informações sobre seu estado de saúde e
providenciar a visita de familiares. 16
Hammarskjöld
considerou as negociações em Pequim como o alvorecer de uma nova era. “A
porta que se abriu pode ser mantida aberta, considerando as restrições de
todos os envolvidos”, afirmou aos jornalistas que o aguardavam na sua chegada
aos Estados Unidos. Porém o oferecimento da China, de permitir a
visita de membros da
família dos prisioneiros, foi recebido de maneira desfavorável pelo
Departamento de Estado norte-americano, que desaconselhou as visitas e
recusou-se a emitir os passaportes. Hammarskjöld havia ficado com a impressão
de que a China pretendia liberar os prisioneiros por ocasião das visitas
familiares. Mas agora os Estados Unidos bloqueavam essa possibilidade
Hammarskjöld
então continuou trabalhando pela libertação dos quatro pilotos ainda não
julgados. E conseguiu. Foram liberados em maio de 1955.
Hammarskjöld estava certo de que as reações positivas nos Estados Unidos
diante desse resultado iriam preparar o terreno para a libertação dos outros 11.
Efetivamente, estes foram libertados no dia 1º
de Agosto. Segundo a mensagem enviada por Chou En-lai a Hammarskjöld, os
pilotos haviam se comportado de maneira disciplinada e o tribunal chinês,
portanto, manifestara boa disposição a seu favor. A
informação
chegou até ele por intermédio de um pequeno posto de correio, no extremo sul
da Suécia. Hammarskjöld estava
passando uns dias numa fazenda em Skåne e saíra para pescar, no dia de seu
50º
aniversário. Chou En-lai escreveu dizendo que a libertação dos prisioneiros
era uma forma de manter a sua amizade
pessoal
com Hammarskjöld, e, ao mesmo tempo, enviava seus votos de feliz aniversário.
A libertação dos aviadores norte-americanos foi um triunfo do estilo diplomático
de Hammarskjöld. O risco havia compensado. A ONU provou a sua utilidade, num
impasse quase impossível entre duas das maiores potências mundiais. A atitude
com
relação
à ONU e Hammarskjöld modificou-se. O público norteamericano e a mídia agora
viam Hammarskjöld e a ONU como atores independentes na cena política global.
(17)
Promotor da paz
inovador em 1956, o Egito nacionalizou a empresa que administrava o
Canal de Suez, provocando forte reação entre as potências do Ocidente, que
desejavam manter esse canal, que liga o Mediterrâneo ao Mar Vermelho, sob
controle internacional. Começaram as negociações. Porém, ao mesmo tempo, a
França, a Grã-Bretanha e Israel concluíram uma aliança secreta, cujo
objetivo era assegurar o controle do canal, derrubar o líder egípcio Gamal
Abdel Nasser e terminar com os ataques aéreos contra Israel, iniciados a partir
do Egito. De acordo com o plano, Israel atacaria o Egito primeiro, depois a França
e a Grã-Bretanha iriam exigir que os beligerantes (Egito e Israel) se
retirassem do canal. O canal passaria para o controle franco-britânico, dessa
forma conseguindo uma separação entre os dois rivais. No Egito, essa sucessão
de eventos teria como conseqüência a queda de Nasser – ou pelo menos, é o
que a França esperava. Os franceses estavam convencidos que Nasser estava por
trás da rebelião contra a colonização francesa na Argélia. As conspirações
complexas são, em geral, difíceis de serem executadas. O plano foi
desencadeado em outubro de 1956,
mas fracassou. As tropas israelenses invadiram o território egípcio. Seguiu-se
um ultimato anglo-francês e o envio de tropas. Porém o ultimato não teve
credibilidade. Os Estados Unidos se declararam contra a ação de Israel. O
Conselho de Segurança foi convocado. Os Estados Unidos propuseram uma resolução
exigindo a retirada de Israel. A França e a Inglaterra vetaram a
moção.
A União Soviética apresentou uma versão modificada da mesma proposta de
resolução, apoiada pela China nacionalista. A proposta foi novamente vetada
pela França e Inglaterra. O Conselho de Segurança encontrava-se paralisado.
Foi convocada uma sessão de emergência da Assembléia Geral, que ouviu os
pedidos para o cessar-fogo imediato, a retirada das tropas pertencentes aos três
países e a reabertura do Canal de Suez. Nessa altura, o
presentante canadense Lester Pearson apre-
(18)

sentou
a idéia de organizar uma força de paz da ONU. Hammarskjöld, a princípio,
mostrou-se cético, mas a idéia foi apoiada por vários lados. As tropas
francesas e inglesas pretendiam fazer parte também da força de paz, mas
Hammarskjöld rejeitou firmemente a idéia, pois isso corresponderia a legitimar
a ação dos dois países. A Assembléia Geral autorizou Hammarskjöld a
organizar uma força de emergência sob liderança da ONU. Ao
mesmo
tempo, ele devia convencer as partes a firmar um cessarfogo. A força de paz e a
mediação de conflitos eram tarefas inéditas para a Organização mundial. A
missão de Hammarskjöld
19
tinha três
vertentes: enviar uma força militar da ONU, conceber as diretrizes de sua atuação
e persuadir a França e a Inglaterra a retirar-se do Egito.
Dag
Hammarskjöld foi o homem que concebeu o mandato para as operações de paz da
ONU. Esse tipo de missão militar estava destinado a se tornar um recurso
permanente no arsenal de medidas da ONU contra as crises, embora a Carta das Nações
Unidas não faça qualquer referência explícita a isso. A primeira dessas missões
estabeleceu o padrão para as outras. Obteve sucesso porque – por diversas razões
– o mandato era aceitável para todos os envolvidos. As negociações mais difíceis
de Hammarskjöld foram com o Egito, que precisava aprovar o
estacionamento
de tropas estrangeiras – embora sob pavilhão da ONU – em seu território
nacional. A Assembléia Geral solicitou a Hammarskjöld que organizasse toda a
operação, o que na prática significava que caberia a ele resolver essa questão.
Se o Egito tomasse a decisão final, ficaria criado um precedente perturbador.
Por outro lado, o consentimento do Egito obviamente
era vital. Esse tipo de dilema delicado era a especialidade de
Hammarskjöld:
ao mesmo tempo em que reconhecia a soberania do Egito e enfatizava a importância
de trazer as Tropas de Emergência da ONU (UNEF) o mais cedo possível, para que
as tropas britânicas e francesas pudessem se retirar, Hammarskjöld
conseguia
obter o consentimento para enviar os primeiros contingentes da ONU ao Egito. A
questão da soberania foi resolvida graças a uma disposição especial,
mediante a qual o Egito tinha o direito de exigir a retirada das forças da ONU.
Essa disposição foi invocada onze anos depois, em 1967,
quando o Egito solicitou a remoção das tropas. O ataque de Israel havia sido
desencadeado em 29
de outubro de 1956.
O cessar-fogo entrou em vigor no dia 6
de novembro, e as
primeiras forças da ONU estavam no local em 15 de novembro. Em menos de três semanas, o mapa político do Oriente
Médio mudou, e surgiu um novo tipo de operação da ONU. A habilidade de
Hammarskjöld para trabalhar de maneira rápida, ponderada e eficiente rendeu
dividendos. A sua repu- 20
tação cresceu no
mundo todo, e seus esforços foram alvo de grande respeito. Por outro lado, uma
nova crise começava a se desenrolar, porém neste caso a ONU nada podia fazer.
Em 22 de
outubro, ocorreram manifestações em Budapeste, capital da Hungria,
contra
o regime comunista vigente. O regime pediu auxílio às forças soviéticas,
provocando uma escalada nas hostilidades. O Conselho de Segurança se reuniu em
28
de outubro, mas não
conseguiu chegar a qualquer decisão. O delegado soviético sustentava que os
acontecimentos na Hungria eram de caráter interno. Em 30
de outubro, Imre
Nagy assumiu o cargo de Primeiro Ministro da Hungria. Exigiu a retirada das
tropas soviéticas e, à primeira vista, parecia que isso estava sendo feito,
mas subitamente a situação tomou novo rumo. Novas tropas soviéticas
estavam
chegando à Hungria. Em
4
de novembro, o
Conselho de Segurança reuniu-se novamente. Os Estados Unidos apresentaram uma
proposta de resolução para a retirada das tropas soviéticas que estavam
invadindo a Hungria e cercavam Budapeste. A proposta foi barrada pelo veto soviético.
Em termos incisivos, a Assembléia Geral exigiu a retirada dos soviéticos da
Hungria, solicitando ao Secretário Geral que analisasse mais de perto a situação.
Nem a União Soviética, nem o novo regime húngaro, rapidamente instaurado em
Budapeste, davam ao
Secretário
Geral qualquer oportunidade para estudar os fatos na Hungria. As potências do
Ocidente não tinham condições de reagir
ao que estava acontecendo. A crise de Suez já estava complicando as relações
entre os principais países ocidentais e enfraquecendo os governos da França e
da Inglaterra. Dar ao Secretário
Geral
a tarefa de lidar com a crise húngara, era uma maneira de mascarar a
incapacidade do Ocidente de agir contra a União Soviética, dentro da sua
esfera de supremacia militar. Depois de seu papel na resolução da crise do
Suez, o Secretário Geral empreendeu uma série de ações diplomáticas e de
outras naturezas. Em setembro de
1957
foi reeleito, por
unanimidade, para outro mandato de cinco anos. Nos anos subseqüentes, atuou
ativamente em situações de crise onde as princi- 21 pais potências não tinham interesses tão evidentes, e onde não
havia motivo para se oporem à intervenção de um Secretariado da ONU
independente e habilidoso. Como exemplo, a crise de
1958
no Líbano e a
crise do Laos em 1959.
Portanto, não foi surpresa quando, em julho de 1960,
os líderes do Congo – recentemente independizado – em vez de procurar a
ajuda de qualquer uma das grandes potências, dirigiram-se a Hammarskjöld e à
ONU. A Organização era agora uma alternativa realista e parecia ser uma força
bastante independente, ou afastada dos interesses das grandes potências. Também
não foi surpreendente que
Hammarskjöld
houvesse chegado à conclusão de que a ONU deveria intervir no Congo. No
entanto, o que havia começado como uma série de eventos circunscritos,
rapidamente atingiu proporções globais e arrastou Hammarskjöld a uma de suas
crises mais sérias. Quando, finalmente, parecia haver uma saída, o próprio
Hammarskjöld tornou-se vítima dos mesmos eventos.
Defensor da Carta o congo belga tornou-se independente em 30 de junho de 1960,
sob o nome República do Congo (mais tarde Zaire, e atualmente República Democrática
do Congo). Muito pouco havia sido feito para preparar o terreno para a independência.
Existiam poucos congoleses com experiência administrativa, liderança política
ou militar. O país enfrentava problemas graves de desenvolvimento. A administração
belga era o que mantinha o país unido e os oficiais belgas comandavam o exército
congolês. Uma grande empresa belga de mineração, a Union Minière,
operava
nas jazidas minerais da província de Katanga, no Sul. O Primeiro Ministro do
Congo era Patrice Lumumba, e o presidente era seu rival Joseph Kasavubu. A tensão
entre ambos complicava ainda mais o panorama. Hammarskjöld e sua equipe estavam
cientes dos problemas do Congo, e até mesmo antes da independência haviam
iniciado discussões sobre ajuda para o desenvolvimento. Porém os
acontecimentos se desenrolaram mais rápido do que (22)

seria
possível prever. Havia muita expectativa, e a insatisfação explodiu após
apenas alguns dias. Os soldados se recusaram a obedecer os oficiais belgas, e se
amotinaram na capital Léopoldville (hoje Kinshasa). A população civil belga
foi tomada pelo pânico. Revoltas semelhantes ocorriam em todo o país, e alguns
europeus foram mortos. As tropas belgas, sem aprovação do governo central do
Congo, intervieram para proteger a população branca. Em 11 de
julho, o líder da rica província de Katanga, Moise Tshombe, declarou a
independência da província. Solicitou e obteve o auxílio das tropas belgas
para a manu- 23 tenção
da ordem. Do ponto de vista do governo congolês, foi
uma
interferência belga nas questões internas do país. Kasavubu e Lumumba
apelaram para a ajuda da ONU contra a agressão belga, dando a entender que
solicitariam ajuda a outros países, caso a ONU não interviesse. Havia um risco
iminente de transformar o Congo num campo de batalha, disputado por muitos.
Hammarskjöld convocou o Conselho de Segurança, invocando o Artigo
99 da Carta das Nações Unidas – que faculta ao Secretário fazer a
convocação. Esse artigo nunca havia sido invocado antes. A reunião do
Conselho de Segurança recebeu
ampla
cobertura da mídia e a crise do Congo transformou-se num grande evento mundial.
O Conselho de Segurança aprovou um projeto de resolução apresentado pela Tunísia,
solicitando ao Secretário Geral que providenciasse ajuda militar para o governo
congolês e seu exército. Era uma tentativa de ajudar o governo central do
Congo. A União Soviética apresentou uma proposta de resolução mais radical,
condenando a agressão armada da Bélgica. As potências do Ocidente adotaram
uma postura cautelosa, pois não estavam dispostas a antagonizar seu aliado
belga.
A
resolução da Tunísia foi aprovada, porém houve várias interpretações
sobre o que “realmente” pretendia alcançar.
Hammarskjöld
havia desenvolvido um instinto muito bom para equilibrar ações diplomáticas
porém, desta vez, as dificuldades foram marcantes desde o início. Conseguir
simultaneamente o apoio dos Estados Unidos, da União Soviética e dos países
afroasiáticos
parecia
ser um bom começo, mas neste caso significava que a resolução havia sido
aprovada por motivos inteiramente diferentes. Além do mais, as tensões
Leste-Oeste recrudesciam. Os movimentos de libertação africanos também
estavam avançando em
1960,
e os problemas do Congo eram semelhantes aos de muitos outros países africanos.
Hammarskjöld compreendeu o significado de tudo isso. Embora a sua posição
quanto à crise do Congo fosse cada vez mais parecida com o ponto de vista dos
países africanos, era preciso evitar o confronto
com
as principais potências.
24
O Conselho de
Segurança tomou a sua decisão sem demora, no dia 14 de
julho. Hammarskjöld imediatamente começou a reunir as tropas para o que se
denominou Operações das Nações Unidas no Congo (ONUC). As tropas tunisianas
desembarcaram em Léopoldville em 15 de julho. Tropas provenientes
do
Marrocos, Ghana e Etiópia chegaram nos dias subseqüentes. Os Estados Unidos, a
Grã-Bretanha e a União Soviética proporcionaram o transporte de aeronaves. Em
18 de
julho, Hammarskjöld podia informar que uma força das Nações Unidas de
3.500 homens, provenientes de quatro países, estava presente
no Congo. Hammarskjöld utilizou, sobretudo, as forças africanas, uma política
também apoiada pelos países afro-asiáticos e pela
União
Soviética. No entanto, dado que essas tropas não tinham qualquer efeito
tranquilizador sobre a população belga, Hammarskjöld permitiu que soldados
suecos e irlandeses fizessem também parte da operação. A velocidade de ação
do Conselho de Segurança e a disposição dos países membros da ONU de
fornecer tropas e transporte
foi
impressionante. Hoje é comum que, após uma decisão seja tomada, se passem vários
meses até que se consiga a presença de tropas da ONU no local. Dado que a
tecnologia de comunicações se aperfeiçoou, e que agora seria ainda mais fácil
movimentar forças militares, essa diferença de tempo deve ser explicada de
outras maneiras. Em
1960,
um sentimento de urgência deliberada, porém controlada, levou os tomadores de
decisão a agir. Os países afro-asiáticos queriam evitar o colapso do Congo
como país, pois isso iria contribuir para reforçar os argumentos contrários
à descolonização, e não queriam ver o país transformado em campo de batalha
entre Leste e Oeste.
A
União Soviética desejava se livrar da presença militar belga o mais cedo possível,
para poder ampliar sua própria área de influência. Os Estados Unidos
desejavam a independência e a estabilidade de um país da África central rico
em recursos. Todos esses fatores podem ter contribuído para aquele sentimento
de urgência. Uma parte da explicação também se encontra na atuação de
25 Hammarskjöld, impelido por um desejo pessoal de agir rapidamente.
Convinha ao seu temperamento, e encaixava-se em sua percepção, solucionar os
problemas logo, antes que se tornassem complicados. E seu conhecimento do Congo
permitia-lhe antever os conflitos em potencial. A velocidade com que foi montada
a operação no Congo constitui uma boa medida do talento de Hammarskjöld para
conseguir captar e focar o interesse das grandes potências. Também é fácil
compreender que, sem a ONUC, o Congo teria podido sofrer, naquele momento, o
esfacelamento que ocorreu mais tarde na ex-Iugoslávia e em
Ruanda,
depois da Guerra Fria (1997–2002). O primeiro problema político de Hammarskjöld era a
remoção das tropas belgas, o que deslocou os holofotes para Katanga. As tropas
da ONUC não tinham autorização para
penetrar
na província separatista, e ali os soldados belgas mantinham a ordem. Uma
tentativa inicial de negociar o estacionamento pacífico das tropas da ONU na
província, fracassou. O Conselho de Segurança tomou nova decisão em 9
de agosto de 1960,
ordenando que a Bélgica retirasse as tropas do local. Ao mesmo tempo, o
Conselho declarou que não seria possível empregar as forças da ONU para
solucionar conflitos internos de natureza política ou constitucional. Hammarskjöld
agiu com ousadia, como era sua característica. Ele estava convencido que
a
resolução significava que as forças da ONU seriam enviadas a Katanga, porém
as questões constitucionais seriam resolvidas pelos dois lados, através de
negociações. Assim, voou para Katanga em seu próprio avião, acompanhado por
quatro aeronaves de soldados suecos da ONU. Quando somente a aeronave dele teve
autorização para pousar, ficou discutindo a situação com Tshombe, pelo rádio,
enquanto a aeronave voava em círculos pelo aeroporto. Hammarskjöld se recusava
a aterrissar, se as demais aeronaves não recebessem também a autorização de
pouso. Tshombe, finalmente, cedeu e assim a ONU estabeleceu a sua presença em Katanga,
seguida depois pelas tropas da Etiópia e Marrocos. Os soldados belgas foram
removidos, sendo que o último destes partiu de Katanga no início de setembro.
(26)
O
fato de que a ONUC estava agora presente em todo o Congo representava um grande
sucesso. Lumumba, no entanto, não ficou satisfeito. A secessão de Katanga não
tinha sido detida, pois de acordo com Hammarskjöld e o Conselho de Segurança,
tratava-se de assunto interno e constitucional. A União Soviética criticou
Hammarskjöld por ter negociado com Tshombe, um traidor. Houve uma reaproximação
entre a União Soviética e Lumumba e o Congo continuava sob risco de se tornar
um peão da Guerra Fria. Os problemas se tornaram agudos em setembro de 1960,
quando o Presidente Kasavubu anunciou ter demitido Lumumba do cargo de Primeiro
Ministro. Kasavubu
era
apoiado pelo chefe do exército, Joseph-Désiré Mobutu (que
27 mais tarde adotou o nome de Mobutu Sese Seko e governou o país de 1965
a 1997).
Lumumba retrucou com um discurso pelo rádio, declarando que Kasavubu não era
mais o Chefe de Estado. Na prática, o país tinha agora dois chefes de governo.
E a pergunta que surgia era: quem era o governo constitucional, responsável
pela manutenção da lei e da ordem? Segundo a constituição
congolesa,
o presidente tem o direito de demitir o Primeiro Ministro, e, portanto, Kasavubu
podia alegar que representava o governo legítimo. Por outro lado, Lumumba era
aparentemente uma personalidade mundialmente respeitada, com substancial apoio
em Katanga. A ONU procurou dar o mesmo tratamento a ambos. Nenhum dos dois lados
poderia ganhar essa queda de braço com a ajuda da Organização. A ONU, por
outro lado, procuraria evitar a guerra civil. A tarefa não era fácil. A
primeira medida foi manter os aeroportos abertos única
e
exclusivamente para a ONUC. Todas as estações de rádio foram fechadas. Os críticos
argumentavam que essa medida era mais prejudicial para Lumumba do que para
Kasavubu. Este último poderia, por exemplo, usar as emissoras do país vizinho.
E Lumumba era quem precisava de reforços por via aérea. Os Estados Unidos
criticaram a ONU por não apoiar Kasavubu. A União Soviética tomou o partido
de Lumumba e criticou Hammarskjöld por seu “comportamento colonialista”.
Este, por sua vez, solicitava instruções ao Conselho de Segurança, que
não
chegava a um acordo. A União Soviética recrudesceu as críticas ao Secretário
e a França também criticou a operação. Os países membros que haviam
fornecido as tropas, começavam a considerar a opção de repatriá-las. Como o
Conselho de Segurança
não
tivesse chegado a qualquer decisão, o assunto foi encaminhado à Assembléia
Geral. Uma proposta dos países africanos, no sentido de que toda a ajuda ao
Congo fosse canalizada pela ONU, recebeu considerável apoio. Entre os objetivos
dessa política, estava o de evitar que países de fora da organização
pudessem apoiar diferentes facções no país. Foram
70
votos a favor e
nenhum contra. É importante notar que o bloco soviético, a França e a África
do Sul se abstiveram de votar. (28)

Para
Hammarskjöld, o apoio obtido era suficiente, porém suas relações com a União
Soviética esfriaram.
Entre
os participantes de alta patente normalmente presentes às sessões da Assembléia
Geral, no outono de
1960,
estava o líder do Partido Comunista soviético, Nikita Krushchev, que
aproveitou para criticar em seu discurso as atividades da ONU no Congo. Também
lançou a proposta de que o Secretariado não fosse mais chefiado por um único
Secretário Geral, mas por três representantes oficiais: um representante dos
países ocidentais,
um
do bloco socialista e um dos não-alinhados. Essa proposta tornou-se conhecida
como a proposta da
troika.
Isto
representaria
uma mudança drástica na ONU, eliminando a posição de força do Secretário
Geral. A aprovação dessa reforma da Carta seria um longo processo e deixaria a
organização
29 paralisada.
Hammarskjöld tomou a palavra e argumentou contra a proposta, dizendo que assim
ficaria impossível o Secretariado ter uma atuação independente, imparcial e
objetiva. A reação de Krushchev foi bater insistentemente com os punhos na
mesa à sua frente. Nenhum outro líder apoiou a proposta soviética. No
entanto, diversas propostas de meio-termo foram apresentadas,
mas
Hammarskjöld manteve-se firme. Krushchev tornou
a atacar Hammarskjöld e, no dia
3
de outubro, disse
que
“Hammarskjöld
não conseguiria reunir a coragem para renunciar”. Declarou que a ONU não
tinha lugar para um homem que “havia violentado os princípios elementares da
justiça”. A réplica de Hammarskjöld foi histórica:
“Renunciando,
eu estaria, na atual conjuntura de dificuldades e perigos, jogando a Organização
ao vento. Não tenho o direito de fazer isso, porque tenho uma responsabilidade
perante os Estados Membros, para quem a Organização é de importância
decisiva – e essa é uma responsabilidade que está acima de todas as outras
considerações. Quem precisa das Nações Unidas para sua proteção não é a
União Soviética, nem mesmo qualquer outra grande potência:
são
todos os demais. Nesse sentido ela é, antes de mais nada, a Organização
deles, e eu acredito profundamente na sabedoria com que
saberão usá-la e orientá-la. Eu ficarei em meu posto durante o mandato que
recebi como servidor da Organização,
no
interesse de todas essas outras nações, desde que elas assim
o desejem. O representante da União Soviética falou aqui de coragem. Renunciar
é muito fácil. Não é tão fácil permanecer no posto. É muito fácil
curvar-se aos desejos de uma grande potência. Resistir é outra questão. Como
bem sabem os membros desta Assembléia, eu resisti em diversas ocasiões, e em
muitos sentidos. Se for a vontade dessas nações, que vêem na Organização a
sua melhor proteção no mundo atual, tornarei a resistir.” O discurso foi
interrompido várias vezes pelos aplausos.
Quando
Hammarskjöld disse “eu ficarei no meu posto”,
30
foi novamente
interrompido por grande ovação. Teve que recomeçar a frase várias vezes. Ao
terminar o discurso, os delegados o aplaudiram durante vários minutos.
Krushchev e o Ministro de Relações Exteriores Andrei Gromyko batiam com os
punhos na mesa. Esse apoio maciço talvez tenha impressionado o líder soviético.
Quando se encontraram no dia seguinte, numa recepção
soviética,
Krushchev mostrou-se amistoso. O mesmo tom conciliatório permeou seu discurso
de despedida perante a Assembléia Geral, uma semana depois, quando contou que
os dois tinham saído num passeio de barco no Mar Negro, com Krushchev remando.
Hammarskjöld retrucou que gostaria de fazer novo passeio de barco com o líder
soviético, para mostrar que ele também sabia remar, mas mantendo seu próprio
ritmo. Era preciso levar a sério a crítica da União Soviética, pois essa potência
era importante para Hammarskjöld e a operação no Congo. Também é
interessante discutir se não havia outros fatores por trás do comportamento de
Krushchev. Uma hipótese é
que
o prêmio Nobel de Literatura de
1958,
concedido ao russo Boris Pasternak, opositor do regime, tenha influído nessa
postura. Desde 1954
Hammarskjöld era
membro da Academia Sueca, que seleciona o prêmio Nobel de literatura. Em ocasião
anterior, Krushchev havia mencionado essa questão e Hammarskjöld defendeu a
escolha de Pasternak e os méritos literários do escritor dissidente. Krushchev,
por sua vez acreditava que a obra de
Pasternak
devia ser também analisada em termos políticos. É evidente que Hammarskjöld
e Krushchev tinham formação filosófica totalmente diferente. Um outro dado é
que Krushchev não podia aceitar a noção de um Secretário Geral neutro.
Aparentemente, a visão marxista, de que em última análise tudo é questão de
política, via-se confrontada por uma perspectiva multi-dimensional. Em outros
casos, porém, a visão da União Soviética e do Secretário Geral já havia
coincidido. O governo soviético, inclusive, havia proposto que o Secretário
Geral participasse das reuniões de cúpula das grandes potências. Portanto, é
razoável pensar que as diferenças de opinião política na ope-
31 ração do Congo eram de essência, e que a leitura de Hammarskjöld
sobre a situação, no outono de 1960,
era correta. A ONU havia se tornado um fator de poder independente. Porém como
a ONU não estava seguindo o rumo que a União Soviética teria preferido,
Krushchev considerou importante minar a posição de Hammarskjöld. A proposta
da troika tinha
esse objetivo.
Tragédia
em novembro de
1960, a Assembléia
Geral aprovou a decisão de que o governo de Kasavubu ocupasse um assento nas Nações
Unidas. Isso significava que a ONU e o Ocidente estavam apoiando um dos lados na
crise no Congo. Por outro lado, o mandato da ONUC determinava que a operação
militar não poderia intervir nos conflitos internos do país. As forças da ONU
ficavam, portanto, postadas fora da residência de Lumumba em Léopoldville,
para evitar que ele fosse atacado. No entanto, não podiam evitar que ele saísse
de casa. Depois da
decisão
da Assembléia Geral, foi exatamente o que aconteceu. Na mesma noite em que
Kasavubu comemorava sua vitória, Lumumba deixou a proteção do seu
quartel-general, provavelmente com destino a Stanleyville (hoje Kisangani), onde
contava com forte apoio. Mas foi capturado pelo exército congolês e levado de
volta a Léopoldville. A União Soviética imediatamente acusou a ONUC de
cumplicidade. Kasavubu, por seu lado, criticou
a
ONU pela interferência na movimentação do exército congolês. O Conselho de
Segurança se reuniu em meados de dezembro, mas não chegou a um acordo sobre o
que devia ser feito agora. A União Soviética exigia que Lumumba fosse
libertado e os militares congoleses desarmados. Os países do Ocidente
propuseram uma resolução sobre o tratamento humanitário dos prisioneiros políticos.
A Assembléia Geral continuava incapaz de chegar a uma decisão. Criou-se uma
situação paradoxal: a ONU estava desenvolvendo uma vasta operação militar no
Congo,
porém nenhum de seus organismos líderes era capaz de
32 decidir
o que fazer. Hammarskjöld tinha que decidir sozinho qual a estratégia a seguir
e, não importa o que fizesse, seria questionado por algum lado. Em meados de
janeiro de 1961,
Kasavubu e Mobutu entregaram a Tshombe, em Katanga, três prisioneiros políticos.
Entre eles estava Lumumba. Há muitos indícios de que Lumumba tenha sido
assassinado imediatamente
depois,
porém os líderes de Katanga não reconheceram oficialmente a sua morte até
meados de fevereiro. A operação da ONU entrava em nova crise. O novo
embaixador soviético, Valeria Zorin, exigia sanções contra a Bélgica, a
detenção de Mobutu e Tshombe, o encerramento das operações da ONU no Congo e
a demissão de Hammarskjöld. Não há certeza de que a União Soviética
efetivamente esperava que Hammarskjöld abandonasse
a
Organização. Quatro meses antes, é verdade, ele havia declarado sua permanência
até o final do mandato e tinha
recebido
o apoio da Assembléia Geral. Mas, a longo prazo, o
confronto com a União Soviética talvez tivesse tornado insustentável
sua situação. Hammarskjöld continuava contando com o apoio dos países
afro-asiáticos e dos Estados Unidos. O Conselho de Segurança parecia estar
chegando a um acordo sobre uma política mais clara para o Congo. Os países
afro-asiáticos propuseram que a ONU fosse autorizada a impedir pela força a
eclosão de uma
guerra
civil no Congo, e exigir que os assessores belgas deixassem
o
país. Pediam ainda a convocação do Parlamento Congolês. Os Estados Unidos
estavam dispostos a apoiar essa resolução, porém preferiam que o Secretário
Geral fosse mencionado explicitamente no texto. Os autores da resolução,
cuidadosamente, haviam evitado fazê-lo, para impedir que a União Soviética
exercesse seu poder de veto. A resolução foi aprovada em
21 de fevereiro de 1961,
com abstenção da França e da União Soviética. De acordo com a resolução,
mais tropas da ONU seriam necessárias no Congo e caberia ao Secretário Geral
tomar
as providências para tanto, embora isso não estivesse explicitamente
mencionado. Para Hammarskjöld, o texto era uma novidade: significava que não
tinha mais a mesma autori-
33
dade de antes.
Seria mais difícil obter dos países membros contribuições para tropas. Tal
como Hammarskjöld entendeu a resolução, os países pequenos e médios teriam
cada vez mais dificuldade para fazer frente às potências como a União Soviética.
Os ataques soviéticos contra ele começavam a ter conseqüências sérias. A
questão viu-se ainda mais complicada pelo fato de que Kasavubu não estava
preparado para aceitar o novo mandato da ONUC. Considerava-o uma forma de
intervenção nos assuntos internos do Congo. A convocação do Parlamento era
uma questão soberana e cabia aos congoleses decidir sobre isso. Surgiram
hostilidades entre o exército congolês e as tropas sudanesas da ONU,
estacionadas na cidade portuária de Matadi. O exército congolês assumiu o
controle. Mesmo assim, Hammarskjöld
decidiu
começar testando a questão da convocação do Parlamento. A ONU precisava ter
um governo legítimo e
funcionando,
que pudesse trabalhar com ela. Em março de
1961,
a União Soviética declarou que não iria pagar a sua parte na operação do
Congo. Pouco tempo depois, a França adotou a mesma posição. Isto provocou um
problema, que breve iria assumir muita importância, e deixou patente a fraqueza
crítica da comunidade internacional na sua capacidade de agir. Na prática,
via-se que alguns países podiam bloquear as decisões majoritárias,
simplesmente recusando-se a pagar sua parte nos custos, o que representava uma
espécie de poder financeiro de veto. Hammarskjöld foi o primeiro Secretário
Geral a enfrentar esse problema, que também assolou todos os seus sucessores.
Um fato positivo, porém, foi a melhoria das relações com Kasavubu. O
Parlamento Congolês foi convocado sob supervisão da ONUC e, no início de
agosto, o poder legislativo chegou a um acordo sobre um novo governo liderado
por Cyrille Adoula. Havia, assim, uma autoridade clara, constitucionalmente
legítima,
com a qual a ONU poderia trabalhar. Hammarskjöld pretendia iniciar um programa
de treinamento para
o
exército congolês, de modo que este gradativamente pudesse assumir as funções
da ONU no local. Também na Bélgica houve (34)

mudanças
e um novo governo assumiu. Embora a opiniãopública daquele país ainda fosse a
favor da separação de Katanga, o novo governo belga e seu ministro de relações
exteriores, Paul-Henri Spaak, estavam ansiosos por melhorar as suas relações
com a ONU. 35 A
questão de Katanga voltava a ser pivô da cena. Hammarskjöld
nomeou
um novo representante da ONU na capital provincial de Elisabethville (hoje
Lumumbashi), Conor Cruise
O’Brien,
da Irlanda, que iria ter um papel crucial. Em julho, ele mandou prender e
deportar um dos mais importantes assessores
belgas de Tshombe. No final de agosto, a mesma providência foi tomada
contra outros assessores europeus. As ações da ONUC obedeciam o disposto na
resolução de
21
de fevereiro do
Conselho
de
Segurança, que estabelecia a deportação de todos os assessores estrangeiros
de Katanga, com exceção dos que estavam sob comando da ONU. Mas, a partir de
13 de setembro, as forças da ONU em Katanga começaram a
enfrentar oposição cada vez maior. A imprensa publicou que O’Brien tinha
afirmado que o objetivo
da
operação da ONU na província era terminar com a secessão de Katanga. Esse
ponto de vista, no entanto, não refletia exatamente a decisão do Conselho de
Segurança, nem as instruções de Hammarskjöld. Talvez O’Brien não
estivesse ciente de todos
os
fatores que Hammarskjöld devia levar em consideração, e que por isso era
extremamente importante que a ONUC seguisse à risca a resolução do Conselho
de Segurança. Afinal, a resolução não era apenas uma instrução
exclusivamente relativa à operação da ONU: era também um documento
politicamente negociado. A sua unidade subjacente deveria ser estritamente
respeitada, caso contrário toda a operação da ONU entraria em colapso. Era
especialmente importante manter uma frente unida, numa situação onde duas das
grandes potências se recusavam
a
financiar a sua parte nos custos da operação. Terminar pela força com a
secessão de Katanga poderia ser uma medida popular entre os países afro-asiáticos,
mas corria o risco de encontrar oposição entre os demais países. O governo
britânico mostravase crítico. O novo presidente dos Estados Unidos, John F.
Kennedy, estava manifestamente contrariado por não ter sido informado sobre a ação
da ONU em Katanga, especialmente porque
o
seu país era o principal financiador da ONUC. Com sua experiência, Hammarskjöld
tinha condições de prever todas essas
36
reações. O que
agora estava acontecendo em Katanga poderia arruinar toda a coalizão implícita
que mantinha de pé a operação no Congo. Hammarskjöld encontrava-se a caminho
de Léopoldville, levado
por
outras questões, quando eclodiu a crise em Katanga. Na sua chegada, recebeu um
relatório completo. A resistência das forças de Katanga às forças da ONUC
era extensa. O único avião do governo de Elisabethville operava livremente em
todo o Sul de Katanga, atirando nas forças da ONU. Hammarskjöld percebeu que
era necessário um cessar-fogo. Era também necessário que tivessem início
imediatamente as negociações diretas
entre
Adoula e Tshombe, para encontrar uma solução para a situação. Isso somente
poderia acontecer, acreditava Hammarskjöld, se ele e Tshombe se encontrassem.
Hammarskjöld falaria com Tshombe na qualidade de Secretário Geral, ou seja, não
apenas como chefe da ONUC. A reunião estava marcada para
18 de setembro em Ndola, Rodésia do Norte (hoje Zambia). Hammarskjöld
voava numa aeronave com tripulação sueca. Apenas alguns membros de sua equipe
o acompanhavam, inclusive seu guarda-costas permanente. O avião, saindo de Léopoldville,
sobrevoaria o lago Tanganyika e depois rumaria para o Sul, em direção a Ndola.
Às 11:35 da noite, horário local, do dia 17
de setembro, o
piloto informou à torre de controle de Ndola que estaria pousando pouco depois
da meia-noite. Às 12:10 a aeronave informou ter avistado as luzes da pista de
Ndola. Depois disso, perdeu-se o contato. Levaram 16
horas para
localizar os destroços, a 15
km do aeroporto.
Esse é um dos fatores peculiares que envolvem a morte de Hammarskjöld. O relógio
do painel da aeronave deteve-se às 12:20 a.m., hora local, (22:20 GMT)
do dia 18 de
setembro. A maioria das vítimas foi encontrada gravemente queimada em meio aos
destroços.
Hammarskjöld,
porém, foi lançado para fora do avião. Seus ferimentos eram gravíssimos –
entre outras coisas, teve a espinha quebrada em vários lugares. Hammarskjöld não
gostava de cintos de segurança, o que pode explicar porque foi encon-
37
trado naquele
lugar. Seis inquéritos diferentes foram realizados para determinar as causas do
acidente e porque não foi iniciado o resgate imediatamente. Um passageiro ainda
estava vivo e conseguiu responder algumas perguntas quando a equipe de resgate
chegou Hammarskjöld não poderia ter sido salvo, ainda que o resgate tivesse
chegado antes, mas muitos pontos obscuros poderiam ter sido decifrados. Existem
inúmeras teorias sobre o que poderia ter causado a queda do avião de Hammarskjöld.
Uma delas é que foi abatido pela aeronave que estava à disposição de Katanga.
Mas Ndola ficava longe demais. Outras teorias sugerem que havia outros
aviões
no mesmo espaço aéreo, que havia bombas clandestinas a bordo, que Hammarskjöld
havia cometido suicídio, que ficaram sem combustível, que os pilotos estavam
exaustos, etc. Não há qualquer base consistente para tais teorias. A mais
simples das explicações parece ser a mais razoável: o avião, que estava para
pousar, entrou baixo demais e bateu na copa das árvores. Nesse caso, foi um
acidente explicável, do tipo que não pode acontecer,
mas
que parece excessivamente simples quando há personalidades importantes
envolvidas. Dez dias depois do acidente, o corpo de Hammarskjöld foi enviado de
avião para a Suécia. O funeral, com honras de Estado
e
transmitido pela televisão, realizou-se na Catedral de Uppsala. Hammarskjöld
foi sepultado no túmulo da família, em Uppsala. A Suécia estava em estado de
choque. A operação da ONU no Congo se prolongou por mais três
anos,
e a secessão de Katanga terminou em janeiro de
1963.
É difícil avaliar o sucesso dessa operação. No entanto, é fato que nunca
houve intervenção política por parte das grandes potências. O Congo se
manteve uma nação unificada. Evitou-se uma guerra civil em larga escala. E
apesar de todas as complicações que continuamente assolavam a operação no
Congo, esta deve ser vista como uma ação preventiva. O objetivo era evitar o
desenrolar de situações ainda piores, como as que afligem outros países
africanos: por exemplo, o apoio das grandes
potências
a diferentes facções em guerras civis – como foi o caso
38 de Angola, a guerra Nigéria-Biafra em 1967–70; ou as guerras envolvendo tropas de uma grande potência,
como a França na Argélia; ou um colapso total em algum território menor, mas
com administração autônoma, como foi o caso da Somália depois de 1991.
É
difícil acreditar que os acontecimentos no Congo poderiam ter sido mais pacíficos,
caso não houvesse intervenção da ONU – nem Lumumba nem Kasavubu tinham a
envergadura, ou os recursos políticos e administrativos necessários. Há
muitos indícios de que a análise de Hammarskjöld, sobre a importância de uma
ação precoce, estava correta. Também é notável que Hammarskjöld tenha
conseguido manter, por tanto tempo e de forma
tão
eficiente, a aliança “profana” exigida para montar a operação e fazê-la
funcionar. Parece ainda mais inacreditável, se levarmos em conta que a operação
no Congo ocorreu numa época em que o confronto entre as superpotências estava
recrudescendo. Contra todas as condições desfavoráveis, Hammarskjöld manteve
o Congo de fora da Guerra Fria.
A
sua experiência no Congo permitiu-lhe refletir sobre o cargo de Secretário
Geral e o papel do servidor público internacional. Em um discurso feito em
Oxford, Inglaterra, em
30
de maio de 1961,
enfatizou os conceitos de dever e responsabilidade. Ao mesmo tempo em que o
Secretariado deve ser imparcial, precisa levar adiante decisões – muitas
vezes pouco claras – que outros tomaram. Nas palavras de Hammarskjöld: “As
responsabilidades atribuídas ao Secretário Geral pela Carta não podem ser
postas de lado por ele somente porque, ao executar as decisões, provavelmente
vai se tornar o alvo de controvérsias políticas. O Secretário Geral continua
com a obrigação de levar
adiante
as políticas aprovadas pelos órgãos; o requisito essencial é que o faça
“tendo por base única e exclusivamente a sua responsabilidade internacional,
e não para servir os interesses de qualquer Estado em particular, ou de grupo
de Estados.” Em outras palavras, cabia ao Secretário Geral levar adiante
decisões cujas conseqüências nem sempre haviam sido inteiramente previstas.
Pelos mais diversos meios, o Secretário Geral (39) devia
determinar o que se pretendia, e o que estava estipulado na Carta. Essa era uma
forma de “reduzir o círculo” dentro do qual o Secretário Geral devia
assumir posições e assegurar que nada mais, além das medidas pretendidas,
fosse implementado. Sem dúvida, era uma forma de colocar em prática a política,
mas não uma política diferente
da definida
pela Organização a quem servia. O Secretário Geral mantinha, assim, a
neutralidade de um servidor público. Não é difícil reconhecer aqui a clássica
tradição do funcionalismo público sueco, aplicada às condições
internacionais.
O seu livro de reflexões pessoais,
Vägmärken
(Marcos), pode
ser considerado como um diálogo interno contínuo sobre estas questões de
princípio e, em última análise, sobre questões existenciais.
Ao
dedicar-se à literatura, como fez em tão alto grau Dag Hammarskjöld, ele
adquire essa dimensão adicional. Para
ele,
a grande literatura mundial era fonte de auxílio e inspiração. Hammarskjöld
usou tanto o Conselho de Segurança, como a Assembléia Geral, para levar
adiante as suas ações. Os seus excelentes contatos com a maioria (os países
afro-asiáticos) lhe permitiram conferir à ONU uma legitimidade global nunca
antes obtida. Fazer parte da ONU parece ser um passo óbvio para todo novo país
independente. Não seria possível garantir que uma ONU controlada pelas grandes
potências teria usufruído da mesma confiança. É sintomático que os maiores
problemas de Hammarskjöld foram sempre com as grandes potências, que viam sua
influência diminuir, à medida que o número de membros da ONU crescia. Isto é
verdade, por exemplo, no caso da França. Hammarskjöld também se viu
competindo com a União Soviética. Mas ao mesmo tempo, as ações de Hammarskjöld
beneficiaram as grandes potências, especialmente os Estados Unidos e a União
Soviética. Ao resolver o problema dos aviadores na China, gerou boa vontade dos
americanos com relação à ONU. Com sua maneira de lidar com a crise do Suez,
inspirou confiança na União Soviética. É difícil explicar porque Hammarskjöld
se viu num conflito
(40)

tão
sério com os soviéticos durante a crise no Congo. Naquela crise, ele conseguiu
manter, não apenas o bloco do Leste, mas também o bloco ocidental, fora da ação,
e a operação da ONU basicamente tinha por objetivo a Bélgica. A animosidade
talvez se explique pelo fato que a União Soviética queria ser o único
porta-voz do Terceiro Mundo na ONU, e esse papel foi-lhe “roubado” por
Hammarskjöld. Um Secretário Geral de sucesso precisa satisfazer grupos com
interesses os mais diversos. Ou, dito de outra forma: é uma questão de
encontrar o interesse comum dos envolvidos, antes de descobrir as diferenças
irreconciliáveis que também têm entre si. A ação precoce, rápida e bem
pensada era o ponto forte especial de Hammarskjöld, o que lhe granjeou um papel
na política 41 mundial que poucos tiveram. Não é nem um pouco evidente que um
Secretário Geral da ONU teria atingido a mesma posição
que
ele conseguiu. Dag Hammarskjöld criou o seu próprio papel, que foi crescendo
com o tempo. E que estava basicamente fundamentado em um único documento: a
Carta das Nações Unidas. Não se baseou em dinheiro, nem em exércitos, apenas
em lealdades e expectativas. É na personalidade de Dag Hammarskjöld que
poderemos encontrar a razão de ele ter atingido essa posição tão singular
– e não apenas nas circunstâncias à sua volta.
Dag
Hammarskjöld recebeu postumamente o Prêmio Nobel da Paz de
1961. Hammarskjöld
e a ONU hoje durante
o seu período como
Secretário Geral, Dag Hammarskjöld esteve envolvido em pelo menos 20 crises internacionais documentadas. Isto permite afirmar que
Hammarskjöld deixou três contribuições claras e duradouras: as operações
de paz (um novo instrumento da ONU), a percepção da importância de agir no
estágio inicial das crises (diplomacia preventiva), e a ênfase na posição da
ONU como recurso internacional (um Secretariado internacionalmente
independente). Essas três contribuições merecem ser mais destacadas. Operações
para manutenção da paz A
primeira operação mundial genuinamente destinada à manutenção da paz foi a
criada por Hammarskjöld em 1956
(Tropas de Emergência
da ONU, UNEF, p. 20).
No final de 2004,
a ONU já havia executado quase 60
operações desse
tipo. Estas se tornaram um modelo para outras organizações internacionais,
que
contribuíram com mais de
50
missões próprias
adicionais. Em mais de uma centena de situações, a comunidade internacional
assumiu
a louvável tarefa de tentar ajudar a resolver agudos conflitos armados. Até o
final da Guerra Fria, os princípios formulados por Hammarskjöld, durante
aqueles dias atribulados
42
de novembro de 1956,
continuaram a servir de guia. Referiamse aos conflitos entre países, onde a ação
local rápida e o relato dos incidentes era de suma importância. Se algo
acontecesse com as tropas, ou se observasse qualquer coisa que violasse os
acordos vigentes, poderia agir diretamente e acionar o sistema central da ONU.
Dessa forma, conseguia ajudar a administrar as crises. Muitas operações,
montadas desde a Guerra Fria, funcionaram de forma muito diferente do padrão
original da crise
de Suez. Hoje, com freqüência, as ações envolvem missões complexas que
envolvem a população civil, a polícia e componentes militares. Normalmente,
essas operações eram realizadas no final, ou imediatamente depois, de guerras
civis devastadoras. Às vezes, como parte de seu mandato, auxiliavam a formar os
novos governos nacionais. A ONU, inclusive, chegou a administrar uma região ou
um futuro país – como em Kosovo e Timor
Leste.
Durante a Guerra Fria essas situações eram raras. Hoje em dia, o termo
“manutenção da paz” já não é mais suficiente. Trata-se também de
conseguir a paz, sustentar a paz e prevenir conflitos. “Operações de paz”
é a nova expressão que descreve tais tarefas, e reflete o conceito de que a
paz é feita pelos próprios interessados, e não por alguém de fora.
Diplomacia
preventiva Muitas
foram as viagens de Hammarskjöld, que sem dúvida eram estressantes. As grandes
conferências internacionais e reuniões regulares ainda não eram rotina, como
hoje. Os contatos entre os líderes eram escassos. Hammarskjöld tinha como
objetivo criar um relacionamento pessoal com os tomadores de decisões em todo o
mundo. Encontrando-se com eles, granjeando o respeito e demonstrando a
capacidade da ONU, com freqüência Hammarskjöld conseguiu assumir um papel
logo no início de um conflito. O segundo Secretário Geral a tirar proveito
dessas oportunidades, foi Javier Pérez de Cuellar, que chefiou a
ONU
de
1982 até
1991.
Aproveitando o período de distensão pós Guerra Fria, durante a segunda metade
dos anos 80,
procu- 43 rou
solucionar conflitos que haviam se tornado devastadores e já duravam anos –
como por exemplo, no Afeganistão, no Líbano e na guerra Irã-Iraque. Somente
depois do final da Guerra Fria, a questão da prevenção
de
conflitos voltou a ganhar a importância que tivera sob Hammarskjöld. Kofi
Annan assumiu o posto em
1997,
e é o Secretário Geral que mais trabalhou até agora para desenvolver a prevenção
de conflitos, apoiado por um tipo de diplomacia pessoal muito semelhante à de
Hammarskjöld. No entanto, essa já não é uma estratégia puramente da ONU. As
medidas de prevenção de conflitos constituem parte integrante da política
externa de muitos países, e são enfatizadas por diversos organismos
internacionais, inclusive a União Européia e a OTAN (Organização do Tratado
do Atlântico Norte). As crises dos anos 90
também resultaram
numa ampliação do conceito de prevenção de conflitos. Atualmente existem
duas estratégias, mutuamente compatíveis. As medidas destinadas a estimular o
desenvolvimento
democrático e a diversificação econômica (que incluem, por exemplo, a
prevenção
estrutural,
assumida a longo prazo), para ajudar a reduzir o número de conflitos em países
assolados pela desordem e pela guerra civil. A segunda estratégia é comparável
ao ideário de Hammarskjöld, focalizado na prevenção
operacional direta.
Essa ação visa conduzir os conflitos ameaçadores para um rumo pacífico,
esperando reduzir o risco de violência e aumentando as possibilidades de uma
solução. Hoje, a ação preventiva não é apenas questão de
“diplomacia”,
mas inclui ainda assistência financeira, e esforços para o desenvolvimento
econômico e a construção da nação. Independência
internacional Como
foi visto, Hammarskjöld tentou fazer da ONU e seu Secretariado, um instrumento
da vontade coletiva dos países membros, expressa nas decisões do Conselho de
Segurança e da
Assembléia
Geral. Na prática, isso significava que o Secretariado permaneceria neutro em
relação aos países membros individualmente, e os seus funcionários deveriam
lealdade exclusiva à
44
Organização.
Hammarskjöld sem dúvida conseguiu imbuir o Secretariado desse espírito. De
certa forma, era uma lealdade pessoal a Hammarskjöld e à sua habilidade para
fazer avançar o trabalho da ONU. Com ele, o Secretariado tornou-se
politicamente relevante. Ainda dentro de sua visão, considerava que os funcionários
da ONU teriam que ser razoavelmente bem pagos e ter condições de trabalho
aceitáveis. E, o que era fundamentalmente importante, somente receberiam ordens
da liderança da Organização. Colocar em prática essa visão comprovou ser
mais difícil.
A
crise financeira da ONU, iniciada nos últimos anos de Hammarskjöld, tem
assombrado a Organização desde aquela época. Com isso, as contribuições
voluntárias dos membros se tornaram vitais, influindo no que a Organização
pode ou não fazer. Os países membros adquiriram maior influência dentro da
Organização, até na escolha dos funcionários. A ONU ainda tem um longo
caminho a percorrer, para chegar aos ideais estabelecidos
por Hammarskjöld. Entre outras coisas, ainda hoje o Secretariado da ONU carece de
um dos recursos mais importantes: uma unidade analítica forte, diretamente à
disposição do Secretário Geral. Isso porque os países membros consideram –
desnecessariamente – que essa unidade pode ser um perigo. Na verdade, deixaria
a Organização ainda melhor equipada para proteger os países pequenos e médios,
em um mundo de países
grandes
e interesses econômicos dominantes. Era esse o sonho de Hammarskjöld. Ainda
falta ser concretizado.
Literatura
a vida de
hammarskjöld atraiu
a atenção de muitos escritores. Uma grande parte dessa literatura cobre os
interesses religiosos e o seu livro, Vägmärken
(Marcos), de
publicação póstuma. As suas contribuições políticas, por outro lado, não
constituíram tema de biografias tão penetrantes. Isto em parte se explica pelo
fato de que nem todos os arquivos foram ainda abertos, mas também porque a
biografia escrita por Brian 45 Urquhart,
em 1972,
é tida como exaustiva. Essa biografia também foi o ponto de partida para esta
publicação. À medida em que houver mais material disponível, a nossa visão
sobre as contribuições
feitas
por Hammarskjöld também poderá ser reavaliada. Em um futuro próximo, seria
talvez particularmente interessante examinar os arquivos do ocidente relativos
aos acontecimentos na crise de Suez, em
1956,
e à formação da primeira força de paz da ONU. As circunstâncias de sua
morte, em 1961,
também deram origem a uma literatura desproporcionalmente extensa e
especulativa, embora não acrescente quaisquer explicações mais razoáveis
para o destino da aeronave. Foram feitas aqui citações diretas da coleção
comentada dos documentos públicos de Hammarskjöld, elaborada por Andrew
Cordier e Wilder Foote.
Bibliografia
(em português) Miller,
Richard I., Dag
Hammarskjöld e a diplomacia de crise. Rio
de Janeiro, 1962.
344 pág.
De: Theodoro da Silva Junior <theojr@terra.com.br>
Data: 18/10/2005 (14:37:05)
VOLTAR