2º Contingente - Osni Pisani
HISTÓRIA DE UM BOINA AZUL

4ª Parte:  HISTÓRIA DE UM BOINA AZUL ( Quarta e última parte)

 

         Sobre as Comunicações

Em 1957, não existiam satélites para transmissão de áudio e vídeo. Então, praticamente não havia informações entre Brasil e Egito. Todavia, tínhamos um serviço de radiotelegrafia que proporcionava contatos com o Ministério da Guerra no Rio de Janeiro. Depois de seis meses mais ou menos, foi criado um serviço de fonia via rádio, numa freqüência específica que proporcionava apenas contatos com quem estivesse no Rio de Janeiro.  

Como funcionava 

Aqueles que tivessem parentes no Rio de Janeiro e que quisessem entrar em contato teriam que fornecer o endereço do parente. Alguém do Ministério da Guerra entrava em contato via telefone ou ia diretamente à casa dos familiares e marcava um dia e hora para que estas pessoas comparecessem na sala de Comunicações Radiotelegráficas do Ministério da Guerra, na Praça da República, RJ. Em Rafah Camp, na sala de rádio, não mais que cinco soldados aguardavam a partir da meia-noite. O contato era feito via rádio, e um de cada vez, com um tempo limitado. Geralmente esses contatos ocorriam às quintas-feiras, a partir da meia noite. Não havia contatos com outras cidades do Brasil. Se alguém do Paraná, Santa Catarina ou São Paulo, etc. quisesse falar com parentes no Egito, teria que se deslocar até o Rio de Janeiro.

 

Outro Meio de Contato 

Antes de partimos para o Egito, assistentes sociais cariocas e repórteres de revistas femininas foram ao 2º R.I. e, com ordem do Comandante, entravam em contato conosco para saber se queríamos ter os nomes divulgados em várias revistas do gênero. Nelas, o editores   pediriam que as leitoras nos escrevessem dando-nos notícias do Brasil! Isto foi muito legal, pois recebíamos cartas de moças de todos os lugares do Brasil e assim, dentro do possível , íamos respondendo às nossas “madrinhas”. Essas moças foram extraordinárias em nossas vidas, suas cartas eram como lenitivo às nossas dores. Quero deixar aqui registrada a minha mais profunda gratidão a todas que participaram destes contatos e ao Serviço Social do Rio de Janeiro, desejando que todas estejam bem de saúde com seus filhos e netos. Muito obrigado!

 

Mais uma forma de saber das notícias do Brasil 

Quem possuísse um Rádio com faixas de ondas curtas poderia escutar em 49 metros algumas estações de Rádio difusão. Captava-se razoavelmente a Rádio Sociedade da Bahia, a Rádio Guarujá de Florianópolis, a Rádio Nacional do Rio e outras. Geralmente estas estações acionavam as ondas curtas de 49 e 31 metros a partir das 18 horas. Daí, poderíamos ouvi-las somente depois da meia-noite no Egito.  Jamais ouvi algo sobre o Batalhão de Suez.

 

Relatos 

Caros colegas, pertenci ao 2º contingente que partiu do Rio de Janeiro nos primeiros dias do mês de Setembro com destino a Port Said a bordo do Trt Ary Parreiras, que fez apenas uma parada na Ilha de Gran Canária.

Sem ordem cronológica, relatarei alguns fatos ocorridos conosco:

1º Apesar de estarmos avisados sobre escorpiões, numa manhã, ao colocar os calçados, esqueci-me de olhar e sacudi-los. Coloquei o pé direito e quando comecei a pressionar o pé esquerdo, algo picou-me na planta do pé, rapidamente retirei o calçado e vi um escorpião amarelo agitado dentro da bota. Uma dor aguda foi tomando conta de minha perna, enquanto colegas faziam um torniquete um pouco acima do joelho. Alguém capturou o escorpião. Com dificuldade, acionei o Rádio-Transceptor e no Btl. em Rafah Camp, um operador de nome Clóvis Esteves da Costa e Silva atendeu meu chamado. Após algum tempo, surgiu uma viatura com um médico que aplicou-me com uma injeção ou algum soro dizendo-me que aquele tipo de escorpião não era venenoso. O soldado que o capturou mostrou-o ao médico. Gradativamente a dor foi passando e o medo de morrer também! Até hoje antes de calçar sapatos sacudo-os muito bem, adquiri este hábito.

2º Quando fui destacado para trabalhar em Port Fouad, cidade oposta a Port Said separada pelo Canal de Suez, um soldado chamado Braz ficou como cozinheiro provisório até que chegasse o cozinheiro efetivo do 3º contingente que estava a caminho. Estávamos instalados numa grande casa que era de um americano. Ocupávamos o andar superior. Dali, via rádio, nos mantínhamos em contanto com Rafah Camp, a mais ou menos 400 km de distância. Tudo ia bem até que uma desgraça aconteceu: o nosso cozinheiro, ao lavar a cozinha, apanhou um recipiente com um líquido que supunha ser água e despejou-o no piso. O conteúdo se espalhou rapidamente e, como o forno não havia sido desligado, ocorreu um incêndio de uma chama apenas que tomou conta do recinto, envolvendo o soldado Braz.  Desesperado, ele saltou por uma janela lateral mais próxima, caindo na escada que dava acesso ao 2º pavimento onde estávamos. Os gritos e o barulho chamaram a atenção de todos.  Corremos a auxiliá-lo. O quadro era horrível: a pele dos braços enrugara-se de forma assustadora; não tinha mais cabelos. Um tenente tratou de transportá-lo para um hospital em Port Said, enquanto eu passava uma mensagem para o Coronel Iracílio cientificando-o do fato. Mais tarde, fui visitar o soldado Braz que estava sedado dentro de uma câmara refrigerada. Naquela madrugada, não resistindo às queimaduras, perdemos o nosso colega. Falecera o nosso cozinheiro!

3º Com a chegada do 3º contingente no navio Soares Dutra, o pessoal foi designado para serviços vários. Tudo era repassado pelos que estavam em ação, assim os postos foram preenchidos. Na ocasião eu trabalhava para a 7ª Cia. na Fronteira do Egito com Israel. Nesta área – LDA Line Demarcation Armistice – vigiada em toda a sua extensão pelas tropas da ONU, não era permitido o trânsito, nem de civis, nem de militares. A ordem era atirar em quem tentasse transpô-la. Porém, certa vez, ouvi uma voz feminina do outro lado da LDA que gritou “Brasil!”. Eram várias garotas fardadas que serviam ao exército de Israel. Aproximei-me ao máximo da LDA e a comunicação ficou fácil, afinal eram brasileiras, paulistas, que me convidavam a ultrapassar a fronteira para conhecer seus alojamentos - “KIBUTZ”- e até Tel-aviv! Outros colegas foram chegando e mesmo com ordens de não ultrapassar a LDA, começou um vai e vem. Havia um contato durante o dia para marcar a hora em que elas viriam buscar alguém. Então, quem cruzava a Linha, combinava uma senha para o retorno com quem estava no serviço. Em caso de troca do plantão, a senha deveria ser repassada àquele que assumia o posto. Numa noite, um soldado do 3º contingente cruzou a LDA. Houve troca de guarda e, quem saiu, não passou a informação ao que assumiu o serviço de que havia alguém do outro lado. Isto gerou um fato grave, pois um soldado brasileiro matou um colega. Como a ordem era para atirar, o soldado que voltava, mesmo gritando a palavra combinada, foi metralhado e morreu. Nunca mais ninguém ousou transpor a Linha.

4º Outra morte causada por um brasileiro ocorreu por conta da entrada de um canadense no acampamento brasileiro. Os canadenses bebiam muito whisky, mas gostavam mais da pinga que chegava do Ceará e de outras cidades do Brasil, e por isso havia uma troca constante desses destilados entre as duas tropas. Uma noite, no acantonamento em Rafah Camp, um soldado canadense entrou sem ser notado pelos guardas. Foi fuzilado por ser confundido com um invasor comum.

5º Era comum de vez em quando alguém “perder o juízo”. Um tenente jogou uma pedra para o alto e de propósito deixou-a cair sobre a cabeça causando-lhe desmaio e um corte no couro cabeludo. Havia um soldado que cortava-se com uma faca. Estes e outros  regressaram ao Brasil de avião.

6º Em 1958, durante a Copa do Mundo na Suécia, houve uma espécie de “Copa” entre os países que mantinham tropas na Faixa de Gaza: Brasil, Canadá, Colômbia, Dinamarca, Finlândia, Índia, Indonésia, Noruega, Suécia e Iugoslávia. Os jogos eram disputados num estádio na cidade de Gaza. O Brasil foi ganhando dos outros países e a Final foi entre Brasil e Iugoslávia. O estádio estava lotado de militares e civis. Dois canadenses e eu estávamos sentados num muro próximo ao portão de saída. Quando o Brasil fez o gol da vitória, houve uma briga generalizada entre civis e militares. De repente, houve uma correria em direção ao portão, afim de alcançar a rua. O portão tornou-se pequeno e a multidão se comprimiu ali. Cadeiras eram jogadas entre outros objetos. Os dois canadenses e eu pulamos para rua e de longe assistíamos a multidão sendo empurrada para fora do estádio. Houve pisoteamento de muitas crianças, senhoras, etc. O clima ficou tenso, mas aos poucos os soldados, oficiais, sargentos e cabos foram chegando aonde estavam as viaturas brasileiras. Começou o embarque para voltarmos a Rafah Camp. Não foi fácil sairmos dali. Quando as viaturas começaram o deslocamento, pedras vinham de todos os lados. Parávamos e os atiradores escondiam-se rapidamente naquelas vielas e assim continuou até que um cabo de nome Fouad Mubarak, do Rio de Janeiro, do 2º contingente foi ferido com uma pedrada na cabeça. Então um superior deu ordens para sairmos atirando. Foi assim que saímos do alcance das atiradeiras. No Btl., em Rafah Camp, o cabo foi medicado devidamente. Ele era nosso intérprete eventual. 

9º Os primeiros contatos que tive com os árabes foi com os civis que trabalhavam na lavanderia e barbearia do Btl. Com eles, fui trocando experiências com a linguagem. No 2º contingente, no qual servi, havia um cabo de nome Fouad Mubarak que era do Rio de Janeiro, morava no bairro de Botafogo e falava fluentemente a língua árabe. Através dele aprendi muitas frases, isso facilitou um pouco as relações entre nós e aquele povo. Quanto aos israelenses, não tivemos muito contato, porque estávamos servindo no lado palestino e havia ordens expressas para não ultrapassarmos a LDA “Line Demarcation Armistice”.  

 

Sobre o Retorno 

Em setembro de 1958, atracava em Port Said o navio Barroso Pereira com o 4º contingente. Naquela ocasião eu trabalhava em Port Fouad, cidade do lado oposto a Port Said separadas pelo Canal do Suez. Antes que saltasse alguém, subi a bordo por uma escada lateral e falei rapidamente com um cabo que se apresentou com o nome de Henrique Ramos. Minha presença ali foi rápida porque o pessoal começou logo a desembarcar e a entrar em um trem que levaria todos para Rafah Camp. Eu sabia que retornaria ao Brasil naquele navio, era uma questão de dias. Todos os meus pertences estavam comigo em Port Fouad e eu não voltaria mais para Rafah Camp.

 

Retorno ao Brasil 

Na 2ª quinzena de outubro, de trem, chegavam a Port Said o comandante Ten. Cel. Iracílio Ivo Pessoa com o restante do 1º contingente, do 2º e parte do 3º. Quanto a mim, apresentei-me ao comandante e finalmente começou o embarque da tropa que regressaria ao Brasil. Tão logo o navio saiu do porto, seu comandante o C.M.G Ângelo Nolasco de Almeida, através do alto-falante disse-nos o seguinte: “Atenção, pessoal, aqui é o comandante do navio e todos terão que trabalhar. Nossos sargentos vão organizar grupos de soldados do exército com marinheiros para executarem serviços diversos”.

Sob a supervisão de marinheiros, soldados do exército começaram a bater com os martelos pontiagudos uma camada de ferrugem no convés do navio, enquanto outros, com pincéis, pintavam com tinta zarcão a parte já limpa. Combinei com uns amigos para trabalharmos na cozinha. O serviço não era pesado, mas descascar batatas e abóboras não foi fácil. Em contrapartida, comíamos o que quiséssemos a qualquer momento: queijo, marmelada, goiabada, pão com manteiga, etc., enquanto os demais só o faziam nas horas já determinadas. Este trabalho foi suspenso quando entramos em águas brasileiras e, graças a Deus, ao contrário dos contratempos com a ida, nosso retorno foi como se o navio estivesse cruzando uma lagoa. Apenas um nevoeiro no Estreito de Gibraltar fez com que o navio reduzisse a velocidade e apitasse intermitentemente até sair do Mediterrâneo e entrar no Oceano Atlântico.

Mais alguns dias, chegávamos ao porto de Recife, onde fomos recepcionados por autoridades civis, militares e eclesiásticas. Ali ficamos alguns dias. Muitos militares daquela região nordestina não viajaram para o Rio, nosso porto final. Pouco tempo depois, o navio traçava uma reta para o Píer da Praça de Mauá, RJ. Ao contrário da partida, durante a qual não pudemos ver o cenário que, com certeza, seria uma saudade a mais, agora nos foi dado o direito de assistirmos à chegada. De longe, muito longe, começamos a avistar a estátua do Cristo Redentor, no Corcovado. Ele parecia nos dizer: “Venham, meus filhos, eu os recebo de braços abertos”. Depois, Copacabana, o Pão de Açúcar, a Baía de Guanabara e finalmente o Píer da Praça Mauá, o nosso ponto final. Realmente, o Rio é uma cidade maravilhosa! De longe podia-se perceber uma multidão que nos aguardava no cais do porto. O navio atracou e já se ouviam músicas de bandas militares, vozes e choros de parentes que aguardavam mais cariocas. Eu não tinha nenhum parente ali, mas para minha surpresa eis que vejo meu pai, na multidão. Ele também abriu seus braços e os fechou suavemente envolvendo-me e nós choramos.

Como não lhe dissera nada quando parti como voluntário, o que só soube quando lhe escrevi de Las Palmas, ele também nada me dissera sobre sua presença naquele dia! Obrigado meu pai, o senhor e Deus me esperaram. Que ambos estejam juntos e que eu possa ter a graça de ao “partir” poder juntar-me a vocês.

Grato aos que leram minhas palavras e minha eterna gratidão a todos que direta ou indiretamente participaram comigo na missão de paz na Faixa de Gaza – Egito. 

Osni Pisani 

Obs.: Antes de embarcarmos para o Egito, fomos informados da possibilidade de importar, sem impostos, um automóvel dos Estados Unidos, se permanecêssemos um ano ou mais no exterior. Quando voltamos ao Rio de Janeiro, permanecemos mais de uma semana vinculados ao exército e fardados com o uniforme canadense que usávamos lá no Egito. Despertávamos curiosidade nas pessoas e interesse nos importadores de carros que tinham suas agências na Avenida Princesa Isabel, em Copacabana.

Éramos abordados constantemente para vender o direito de importação, alguns o fizeram, eu não. Será que existiu essa lei? Quem passa um ano fora do Brasil a serviço da ONU tem esse direito?

(Informações curiosas serão enviadas a qualquer momento)

Osni pisani 2º Contingente 1957-1958. 

 


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