2º Contingente - Osni Pisani
HISTÓRIA DE UM BOINA AZUL

2ª Parte: Do treinamento à partida.

Após a seleção, fomos submetidos a intensos treinamentos sobre como utilizar armas novamente.

Alguns dias antes da partida no Píer da Praça Mauá, assistentes sociais e funcionárias de revistas femininas procuraram-nos para obterem nossos nomes com a finalidade de divulgá-los em colunas especiais nas quais solicitavam às leitoras para que nos escrevessem enquanto estivéssemos na Missão, para dar-nos notícias do Brasil. Assim, não nos sentiríamos tão sós naquele deserto.

Finalmente chegou o dia do embarque e em vários veículos militares, dirigimo-nos ao Píer onde nos esperava o Tr.T.G21 (Transporte de Tropas) ARY PARREIRAS, navio da Marinha de Guerra, comandado pelo Capitão-de-Mar-e-Guerra Lauro Martins Ferreira. O G21 já tinha a bordo vários caminhões Alfa Romeu (FNM), Jeeps e muitos tambores de óleo diesel.

A maioria do contingente que embarcava era composta por voluntários vindos das Regiões Norte e Nordeste do Brasil, por alguns cariocas, fluminenses e por pelo menos um catarinense, eu. Não recordo de nenhum outro conterrâneo que tenha seguido nesta turma.

Não tenho como precisar o dia da partida, todavia, em 04/07/1957, fomos batizados por Netuno, prática comum da Marinha àquele que cruza a Linha do Equador.

Lembro-me de quatro fatos dignos de nota ocorridos durante a viagem:

1º: No segundo dia de viagem, um Cabo, de quem vou omitir o nome, apresentou-se voluntariamente ao Serviço Médico alegando estar com uma doença venérea e que não pressentira nada antes do embarque. Constatado o problema, o médico entendeu que o mesmo havia ludibriado a inspeção ocorrida antes do embarque. Por isso, o Cabo viajou até Port Said na cadeia do Navio, sem direito a desembarcar em Las Palmas nem apreciar a viagem. Seu “castigo” terminou em Port Said.

2º: No local onde foi a pique o Cruzador Bahia, foi realizada uma missa em homenagem aos que ali pereceram. Enquanto os ofícios religiosos se desenrolavam, o G21 fez um giro de 360º, seguindo após seu curso a Las Palmas de Gran Canária.

3º: Durante a viagem, uma tormenta abateu-se sobre nós. Tínhamos a impressão, por vezes, de que o navio ia ser tragado pelos imensos vagalhões. A fúria dos ventos era tamanha que o navio assemelhava-se a uma frágil casca de amendoim. As ondas eram tão gigantescas que faziam do navio uma gangorra: e ora toda a proa ficava emersa, ora a popa mostrava seus hélices girando fora d’água o que ocasionava enorme trepidação na embarcação e nesse momento o navio perdia a propulsão fazendo com que o mesmo balançasse violentamente lateralmente. Foi assustador e preocupante, pois as amarras que prendiam os veículos e os tambores de óleo se romperam e o convés virou um caos com óleo esparramado e caminhões indo e vindo ao sabor da tempestade. Imediatamente, o comandante deu uma ordem expressa: “Ninguém poderá fumar, acender fósforos ou isqueiros. A comida será fria”.Essa situação durou quatro dias, a cozinha foi fechada, tripulação e passageiros alimentaram-se à base de frutas, chocolates, bolachas, etc., até que tudo voltasse ao normal. Fato semelhante, segundo declarações do Tenente-Coronel Comandante do Batalhão Iracílio Ivo Figueiredo Pessoa, ocorreu quando da ida do Iº Contingente. Acho estranha esta coincidência, até porque na nossa ida também foi lançado um corpo ao mar.

4º: Um militar, não sei se da Marinha ou do Exército, faleceu a bordo do G21 e seu corpo foi lançado ao mar. Embrulhado em tecido branco, o corpo foi colocado sobre uma rampa com trava ao lado do navio. Após a cerimônia religiosa, soltou-se a trava, o corpo deslizou em direção ao mar afundando vagarosamente. Foi uma cena comovente e inesquecível. Nunca soube de quem se tratava.

Após alguns dias de viagem, aportamos em Las Palmas onde permanecemos por quatro dias, seguindo posteriormente direto para Port Said. A parte mais elevada da Ilha chama-se Escaleritas. Do alto avista-se o fundo do vulcão que deu origem a Las Palmas. Guardo-a na minha memória, assim como não guardo as imagens do Pão-de-Açúcar, do Cristo Redentor e de Copacabana vistas do mar, pois logo que iniciamos a viagem, a ordem geral foi a de descermos aos alojamentos de onde pudemos sair quando já não se avistava nada além do mar. Lembrei-me então do seguinte ditado: “o que os olhos não vêem, o coração não sente” e concluí que isto é verdade pura, pois psicologicamente não nos foi concedido ver para que tivéssemos uma saudade a menos.

 OSNI PISANI

Remetente: Fernando Vargas <fvargas@batalhaosuez.com.br> 
Data: Tue, 31 Jan 2006 00:34:51 GMT 


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