TEXTO DO LIVRO DE EDISON IABEL

06 DE JUNHO O 2º DIA DE GUERRA - INICIO DA TOMADA DE GAZA


THEODORO

Caros amigos Internautas interessados no Site Btl.Suez, bem como interessados na História dos soldados brasileiros na Faixa de Gaza, como um todo, em especial histórias sobre o que foi enfrentar a Guerra de junho 1967.

Apraz-me comunicar que o Nobre e estimado amigo EDISON IABEL, Soldado Interprete do 20º Contingente, e Autor do Livro "SIX DAY WAR - A SAGA DO 20º CONTINGENTE BTL.SUEZ- 1967", autorizou repassar para conhecimento público, a divulgação de mais um trecho do seu precioso e alucinante livro.

Desta vez ele autoriza divulgar a partir da página 215 até o que está contido nesta mensagem. É mais um endosso do conteúdo do Livro para a brilhante narrativa sobre os acontecimentos que envolveram os Soldados do 20º Contingente nos dissabores sobre o conflito sangrento e histórico da "Guerra dos Seis Dias".

Tenham todos um bom proveito. Comentários e/ou críticas com o autor no e-Mail - edisoniabel@msn.com -

Abraços a todos - Theodoro


CONTINUANDO COM NOSSA SAGA...

06 DE JUNHO O 2º DIA DE GUERRA - INICIO DA TOMADA DE GAZA


O dia em que pagamos todos nossos pecados e ainda ficamos com alguns créditos...!

SABE-SE que as ordens do Alto Comando Israeli, talvez por subestimar o poderio da artilharia egípcio/palestina, era não atacar Gaza diretamente. Porém devido a tenaz resistência, e continuo bombardeio pesado direcionado às fazendas, e a outros alvos civis, causando a morte de gado leiteiro, incêndios e danos consideráveis, aos trigais e pomares dos Nahal, e nos silos de cereais dos kibbutz situados no Deserto de Negev, fez com que o Gen. Itzhak Rabin mudasse de idéia e pessoalmente desse o aval para invasão de Gaza. A IDF pretendia desta forma, cessar definitivamente o bombardeio inimigo contra alvos civis. A uma Ugdah (brigada) de Reserva sob o comando do Coronel Yehuda Reshef, coube a incumbência de avançar contra a cidade, a partir de Khan Yunes. Porém uma tenaz resistência, dos defensores de Gaza retardou o avanço dos comandados do coronel Reshef. Um terço de seus homens tombou sob o fogo do contra-ataque egípcio/palestino. Houve também um grande perda de material bélico. A resistência só foi quebrada, no anoitecer de 2ª Feira. A primeira providencia da IDF, foi posicionar as peças de artilharia entre Khan Yunes e Deir-Aballah, e ao norte de Gaza. Ao raiar do segundo dia de guerra, 3ªFeira 06, a Brigada Mecanizada já estava refeita e pronta para o avanço sobre Gaza, penetrando pela ponta sul da Faixa, e rumando para o nordeste, em direção a seu objetivo final.

PORÉM antes dos carros de combate entrar novamente em ação, a artilharia israelense, fez uso de seus canhões de campo de 105 mm e baterias de mísseis, para amaciar a resistência da cidade. A IDF despejou, pasmem os senhores, em torno de 4horas, toneladas e mais toneladas de bombas de todos os calibres, sobre as defesas dos Exércitos Egípcio/Palestino, cujo principal bastião era a “Ali Muntar Hill”, uma colina que domina toda a cidade. A extensa barragem de fogo atingiu, por conseguinte, duramente o prédio do HQ da UNEF e transformou em ruínas quase tudo em redor. Como se era de esperar, além dum barulho ensurdecedor o bombardeio provocou um montão de vitimas civis. O pessoal contava que bombardeio israelense pegou as defesas da cidade de Gaza, literalmente de ‘calças na mão’. Os correspondentes de guerra, falavam que Gaza e Beit Hanun, pareciam Londres sob o bombardeio da V2 alemãs, durante a 2ª Grande Guerra.

3ª feira, 7 de junho: logo após o amanhecer a artilharia israelense castiga as defesas de Gaza...

Lembro que, enquanto a turma aguardava ansiosamente, que a fila do banheiro andasse mais rápida (o Iabel, ‘seco’ para dar uma ‘barrigada’), somos surpreendidos por um barulho ensurdecedor. Sentimos o efeito de um terremoto, na medida em que o prédio todo sacudia. Todo mundo ficou atordoado; ninguém tinha a menor idéia do que estava ocorrendo. “Será que estão nos bombardeando?? - gritavam uns, com ansiedade-” Só se for por engano...!”– replicavam outros- A ‘galera’ se perguntava: “De onde vem todo este fogo”?… O que estou fazendo nesta merda de fila??”.

Houve pânico e correria para todo lado. Por mais que tentássemos, não conseguimos ficar em pé... Na medida em bombas caíam, o chão sacudia violentamente; mesas e armários voavam e prateleiras de metal tombavam tal quais castelos de cartas. Uma porta voa com o deslocamento de ar e quase nos atinge; na fuga escorrego e bato com a nuca e o cotovelo, direito no duro cimento. Quando me recobro enxergo tudo escuro por um bom par de minutos, tentando entender o que acontece em redor; felizmente, apesar da forte dor no ‘coco’ e um arranhão no antebraço, além da manga direita manchada de iodo... Nada mais do que um baita susto... Apesar do sufoco geral, teve ‘neguinho’ rindo da minha queda, incluindo o próprio enfermeiro que me atendeu... Deve ter sido o maior tombo da paróquia... Sem ter outra alternativa, acabei rindo também.. Vejo que vidro do meu relógio rachou ao meio, mas ele continua funcionando...

Canhões 155 mm AMX despejando toneladas e mais toneladas de bombas sobre Gaza...

Num breve intervalo, do bombardeio, engatinhamos até uma sala melhor protegida, tentamos ajudar os funcionários civis; nisso o dito cujo recomeça ainda mais forte... e em pânico acabamos por nos jogarmos uns por sobre os outros, e assim permanecemos por um bom tempo. Olhos e gargantas ardentes... o desespero é geral... A maioria tosse convulsivamente, vomitando quilos de poeira.

Honestamente... Escapamos vivos por um verdadeiro milagre; a mesma sorte faltou a uns 14 ou 15 militares indianos, mortos entre os dias 6 e 7, além mais de 30 feridos, alguns com certa gravidade, incluindo militares e civis de varias nacionalidades.

Por volta do meio dia, quando finalmente o bombardeio amainou, conseguimos nos levantar ao meio dos escombros de nosso abrigo improvisado, sacudimos a poeira, e limpamos nossa garganta com um providencial gole d’água Na medida do possível, acalmamos os civis, com os nervos em frangalhos... Muita gente se mijou nas calças (ambos os sexos).. Muitos ficaram em estado de choque, balbuciavam frases sem nexo, e se mantiveram alheios a tudo em redor... dava pena de vê-los, naquele estado deplorável...

A partir daí, entramos todos em ação, sem distinção de sexo raça, credo ou posição hierárquica: uns auxiliando a equipe medica com os mortos e feridos e outros, a brigada de incêndio a debelar as chamas na ala norte do prédio, bem como na torre de comunicações da Motorola, seriamente danificada. Com a torre fora de combate, a energia foi totalmente interrompida, cortando conseqüentemente, qualquer contato do Headquarter, com os Qgs da ONU em Nova Iorque, Jerusalém e em Genebra; e o restante dos Batalhões espalhados ao longo da Faixa de Gaza.

Canhão ‘Howitzer’ 155 mm, martelando impiedosamente as defesas de Gaza...

A situação de emergência fez com que toda equipe trabalhasse sem se importar com balas zunindo sobre suas cabeças. O barulho resultante daquele terrível bombardeio... deixou-nos temporariamente surdos e a alta dose de adrenalina, perigosamente alheios ao perigo...

O lado irônico, desta situação, foi a súbita mudança de atitude do staff feminino do HQ: antes da guerra, o mulherio desprezava olimpicamente o pessoal militar... De uma hora para a outra nossos braços viraram corrimão!

Cessado o corre-corre, aproveito a calmaria momentânea e vou descansar um pouco no pátio. Quando que tento localizar novamente a pedra de mármore amiga, tudo em redor é envolvido por um barulho surdo; parecia uma mistura de motor dezenas de caminhões, andando em marcha lenta, com o som metálico de pesadas correntes sendo arrastadas. Não esperei para ver o que seria: pulei imediatamente para dentro da trincheira mais próxima e me juntei a um grupo de colegas assustados. O cabo yugoslavo Javic, aquele do ‘Registry’, me vê, sorri, arregala os olhos e encosta o polegar em riste no lábio faz um ‘schiihh’, de silencio...!!

Neste exato instante testemunhamos boquiabertos, o avanço resoluto e ensurdecedor das colunas de blindados da IDF; dezenas de carros de combate; vamos identificando os tanques: Shermans, Centurions, todos marcados com um V invertido. No meio dos tanques varias Meia-Lagartas. Finalmente um incontável numero de jipes, equipados com metralhadoras. 30. A lenta progressão dos veículos provocava um barulho surdo e rangente, na medida em que se aproximavam das ruas próximas do HQ. Conforme progrediam, abriam caminho a tiros para do Centro da cidade. Vimos alguns tanques com as torretas abertas e seus Comandantes, meio malucos, (só pode!) mão esquerda no gatilho da metralhadora, e a direita empunhando um megafone e gritando para seus comandados, algo parecido com ‘Barata/Baralho/Cará... ’(?) Descobri mais tarde o que eles gritavam era: “Abarái... Abarái!” [Sigam-me... Sigam-me! - em vez do tradicional Kadima... Kadima! (Avante... Avante!, em hebraico), como acontece em outros exércitos... Com certeza é esta a razão do numero de baixas entre oficias israelis ter sido incrivelmente elevado, conforme depoimento acima mencionado (pág. 156/7), do Maj. Israelense Uri Dan, para o livro “The Seventh Day”,]

Quando os blindados se aproximam do alcance da artilharia, começam a ser furiosamente repelidos por uma chuva de morteiros, e por metralhador tipo. 50 instaladas nas lajes das casas, sob a proteção de pilhas de sacos de areia. Os blindados israelenses são atingidos por uma formidável barragem de fogo; param e viram seus canhões na direção dos tiros. Segue-se uma violenta troca de fogo. Incontinente, todo mundo se joga ao chão e enfia a cara na areia, com a respiração presa e permanecem por um longo tempo na famosa posição ‘cúapertádodemêdo’, ouvindo o zunir de balas e mais balas, voando rasantes sobre nossas cabeças. O sufoco dura mais de meia hora... De repente o tiroteio cessa e, a não se por tiros e rajadas de metralhadoras, aqui e acolá, tudo volta a ficar quieto. Quando finalmente ficamos de cócoras, nos congratulamos emocionados por ainda estar vivos...! O ambiente é tomado por uma densa nuvem de poeira e pólvora, que aos poucos vai se a se dissipando. O cheiro acre é simplesmente insuportável. Olhos ardem. Alguns não resistem: choram copiosamente, e vomitam até as tripas...

Cessada a refrega, os carros de combate que conseguem andar, retomam a marcha resoluta, como se nada tivesse acontecido. Na medida em que avançam, passam por cima, com o aço de suas lagartas, de vários automóveis de passeio, abandonados ao longo das ruas. Conforme avançam, arrebentam o meio-fio e parte das calçadas. Desconfiados, que nem cavalo caolho, atiram em casas e em tudo que se mexe, exceto, para nossa grande sorte, no prédio branco da UNEF. Nesse meio tempo, a população civil, de olhos esbugalhados e abandonados à própria sorte, corria para todo lado, buscando da melhor forma se proteger, em abrigos escavados as pressas... Uma gritaria e tanto...

Recomeça o furioso tiroteio aos blindados invasores, porém, desta vez não tão efetivo. A curiosidade supera o medo: assistimos o avanço israelense de cócoras, quiçá envergonhados por, antes, termos nos jogado num buraco...

Um dos tanques é atingido em cheio por vários morteiros, quando passa bem ao lado do HQ, e vira instantemente uma horrível bola de fogo. Sem poder fazer nada, assistimos angustiados, a tripulação daquele desafortunado carro de combate ser inapelavelmente consumida pelas chamas vorazes, No ar, além de um calor sufocante, um horrível cheiro de combustível, misturado com tinta e carne queimada, ao ponto de voltar a arder nossos olhos...

Um pouco mais adiante, dois carros ‘half-track’ também são atingidos, resultando em perda total de seus ocupantes. O saldo de mortos resultante da entrada em Gaza da Ugdah do Cel. Reshef foi alto: acima de 80 soldados tombaram - entre eles vários oficiais comandantes, e correspondentes estrangeiros, como os americanos Ben Oyserman e Paul Schutzer. O numero de feridos foi três vezes maior. Quanto aos árabes suas perdas foram incontáveis...

Um fato cada vez mais evidente: os israelis não esperavam encontrar tanta resistência, ao entrar na cidade; fica cada vez mais claro que eles haviam subestimado o poder de fogo da guarnição egípcio-palestina. Números acima atestam a violência que foi a tomada de Gaza.

IMPOTÊNCIA TOTAL

PASSADO o choque inicial do começo da guerra; como militar, e talvez por ser jovem sem ter nada a perder, custei a me conformar com minha impotência, pois já não agüentava mais a idéia assistir aqueles acontecimentos como uma mera testemunha... Logo eu, cuja preferência eram os filmes eletrizantes de Holywood e livros baseados na Segunda Grande Guerra... Contudo, para quem vê uma guerra ao vivo, em termos de realismo, os filmes sempre deixarão a desejar... Duas coisas eu realmente lamentava: Não poder ajudar os feridos de ambos os lados (testemunhamos, sem poder fazer nada, o sofrimento de muitos soldados, tanto árabes, quanto judeus em franco desespero, carregando seus companheiros gemendo de dor, à procura de socorro medico. Até hoje me dói não ter podido ajudar...) e não uma maquina fotográfica à mão. Perdi uma chance de ouro... Teve gente que conseguiu fotografar quase toda a ação, da passagem dos tanques israelenses, em frente ao HQ. Assistimos a estas cenas, e outras cenas brutais, sem nos preocuparmos com o perigo eminente... Já que de qualquer forma... Nossa morte estava por acontecer em minutos... ou no máximo horas! Confesso que a esta altura não nos interessava o que acontecia fora do HQ, ou quem estivesse ganhando a ou perdendo a guerra...

Só restou afogar as magoas com a metade duma providencial garrafa de whisky John Haig abandonada intacta perto de nossa trincheira, por alguma alma generosa e distraída!

Nosso abrigo foi construído, aproveitando a existência dum (providencial!) buraco de lixo, cheio de tábuas, restos argamassa, cal seco e entulho. Ao abandonar seu aconchego, nos entreolhamos surpresos ao descobrimos os narizes, mãos, joelhos e os coturnos, lambuzados de branco pela cal... Parecíamos àquela famosa dupla de palhaços de dos antigos filmes da ‘Atlântida’, ‘Arrelia & Pimentinha...! O pessoal solta um riso contido, quando comento com ironia: “Ainda bem que nos deitamos encima de cal e cimento; já pensou se fosse naquela famosa substancia orgânica marrom, gosmenta e malcheirosa”??

Quando saímos do nosso abrigo, olhamos surpresos a quantidade de buracos de bala nas arvores e paredes. Balas de todos os calibres imagináveis. De repente, alguém aponta na direção do famoso forno. O ‘guloso’ foi atingido em cheio: dele só restou um monte de tijolos quebrados e cinzas espalhadas em redor... Debaixo do entulho, a equipe médica descobre o corpo dilacerado de um desafortunado habib. É provável que ele, e outros tenham se escondido dentro do forno.

Decidimos voltar para o interior do prédio, à procura duma amigável xícara de café preto, ou chá indiano. Porém, nos arrependemos da idéia; lá reencontramos um bando de gente tri-desanimado. Olhávamos os rostos e os mesmos retribuíam com olhares vazios e desesperançados; um bando de morto-vivos, em permanente estado de choque, resultante dos brutais bombardeios sobre o Headquater, e a carnificina em redor.

Mando tudo às favas e pulo dentro duma trincheira. Quase caio encima da bandeja de papelão com alguns sanduíches de queijo com tomate, já meio rançoso, e lembro que estou um tempão sem comer...! Bebo mais um trago de whisky, e sou tomado pelo sono. Um sargento indiano espécie de ‘xerife’ da trincheira, me empresta sua manta quadriculada, dobro-a ao meio, me jogo em cima e adormeço profundamente. Não sei quanto tempo apaguei... Só sei que dormi que nem uma pedra, aliás, o chamado sono sem sonhos...

HINDI MAJNUM!!

NO BOM do sono, sou despertado pelo xerife indiano, chutando meu antebraço direito: “Wake up, wake up, soldier!” – Acorde acorde Soldado!-- “Ouça os tiros... parece que estão atirando diretamente no Headquarter... Será que estamos sendo atacados? Rápido, rápido, vamos verificar o que está ocorrendo!” Respondo ao ‘inconveniente’ “Take it easy, Sarg.!” Sossega sargento... deixa os caras atirarem... Não é a primeira vez que atiram na gente...!”Tento me virar para o outro lado, e continuar roncando”... ante a insistência do outro, acabo desistindo; com raiva, destampo o garrafão d’água morna, e molho o rosto para espantar o maldito sono... Ainda tonto salto da trincheira e corro meio agachado para dentro do prédio, a tempo de me juntar a um grupo de civis, espiando para fora, por uma persiana entreaberta. Neste instante testemunhamos incrédulos, um punhado de soldados indianos (provavelmente muçulmanos; aparentemente, não havia nenhum sikh entre eles..) agachados ao abrigo de uma frágil mureta, descarregando seus fuzis semi-automáticos em cima dos carros meia-lagarta israelenses, passando em frente ao HQ! Os coitados recebem uma resposta definitiva: uma longa saraivada de balas de metralhadora. 30, aquelas, montada encima dos jipes...! Não deu para saber quantos foram atingidos.

Passada a cena brutal, restou o gemido surdo dos feridos e o silencio dos tombados... além do choro compulsivo das funcionárias que testemunharam o embate. Dou um doce para quem adivinhar como ficou a frente do HQ, bem como os carros e as kombis no estacionamento, com o impacto das balas de diversos calibres: alguns em chamas e a maioria tal qual queijo suíço! Do elegante ‘Karman Ghia’ vermelho novinho em folha duma funcionaria holandesa (?) recém chegada de Jerusalém, sobrou um monte de ferros retorcidos.

Teria sido devido a este tipo de atitude, pra lá de estúpida, talvez, uma das razões do elevado numero de baixas, no lado dos nossos amigos do Batalhão Indiano?? Será que aqueles ‘mentecaptos’ de turbante azul conseguiram esquecer que faziam parte de uma Força de Paz da ONU, e como tal nunca poderiam pender para nenhum lado... E que o inimigo comum não era o ‘yahudy’ nem o árabe: o inimigo de todos os Boina-Azuis era a guerra em si??

No breu da noite, além da companhia amiga do radio, do trago duma bebida forte, o fulgor dos potentes holofotes israelenses; o relâmpago dos morteiros assustadores, junto com o matraquear de metralhadoras, o uivarem de ambulâncias e gritos de dor e desespero, vindos dos quatros pontos cardeais... por mais cruel que possa parecer, ajudavam à embalar a monotonia da longa vigia noturna...


3º Dia de Guerra, 4ª Feira 07.06.

LOGO AO (triste) amanhecer, recebi a dura tarefa de auxiliar a equipe medica a colocar etiquetas metálicas de identificação, no dedão do pé direito dos corpos cobertos com lençóis dos militares mortos, durante o bombardeio e, no fogo cruzado. Um dos primeiros a falecer foi o Sargeant Singh Pritan, meu amigo hindu, chefe do “Reproduction Section”. Meu tributo ao O Singh Pritan: Fostes um valoroso soldado, guardião da paz, cidadão da Província de Uthar Pradesh, como dizias orgulhosamente, e um grande jogador de Pólo Sobre a Grama, e outros esportes, orgulho do Sikh Regiment. Corajoso como poucos, com certeza morrera carregando algum companheiro ferido ou ajudando apagar algum incêndio.

Fiquei chocado ao ler seu nome na plaqueta de metal. Sem acreditar, no que estava escrito, meio tremulo, levantei o lençol para confirmar seu rosto, já meio amarelecido, sem cor de gente viva, e cheirando fortemente a formol... Sua cabeça estava envolta por uma atadura branca, em vez do turbante azul...

Aliás, com relação ao número de vitimas fatais, principalmente do Batalhão Indiano, estas me pareceram bem mais do que 14 ou 15, como são oficialmente admitido pela UNEF... Para mim o numero de hindus mortos foi no mínimo o dobro! Com quem estará a verdade??

[NA VERDADE, nunca mais me livrei deste trauma: passadas quatro décadas da Guerra dos Seis Dias, quando entro em lojas de roupas, tipo Renner, sinto um baita desconforto ao andar por entre fileiras de roupas, com as etiquetas de preço penduradas na manga.... É como se eu segurasse o dedão do pé gelado do cadáver de algum soldado hindu para ler sua etiqueta de identificação.... Quem nunca passou uma guerra jamais poderá avaliar estes sentimentos; isto é, o ‘privilegio’ de conviver com estes fantasmas é reservado somente para os que estiveram numa frente real de batalha... seja qual for a guerra... Confesso que é um verdadeiro desafio escrever sobre isto...até os dias atuais estas lembranças as vezes me causam náuseas e arrepio, na verdade, um tremendo desconforto... e uma vontade danada de acabar com a outra metade daquela garrafa de whisky abandonada junto a tal arvore, do pátio do Headquarter da UNEF ...)

Sob um Sol incandescente, suspenso solitário no céu, os caças da IAF, nesta altura já livre das obrigações de atacar as bases aéreas egípcias, continuavam o trabalho que haviam iniciado no dia anterior: os pesados bombardeios aos alvos militares e depósitos de munições, na Faixa Gaza e no restante da Península do Sinai, em apoio às tropas terrestres. Assistimos incrédulos, alguns soldados árabes, saindo das trincheiras, revólver em punho, apertando o gatilho e tentando inutilmente atingir, as Estrelas de Davi, pintadas em cada asa dos bombardeiros Vatour da IAF, zunindo rasante sobre os telhados.

Bombardeio Vautour ‘balança as asas’, ao passar rasante sobre uma coluna de tanques Centurion...

Os combates continuavam com intensidade variada, em varias partes da cidade e da Faixa. De quando em quando ouvíamos o uivo das sirenes de ambulâncias da Cruz Vermelha Internacional. Bravos médicos (as) e enfermeiras (os) aproveitavam o breve intervalo das batalhas, para recolher os mortos ou tratar dos feridos. Ao levar água para o pessoal da trincheira junto à mureta frontal do HQ, assisto o triste cortejo de dois enormes caminhões, abarrotados de corpos de soldados árabes; o olor exalado por dezenas de cadáveres empilhados é pra lá de nauseante... Onde serão enterrados?

Imagem nua e crua dum esqueleto de um Soldado Anônimo cujas entranhas foram devoradas pelas implacáveis hienas do deserto...

Passamos mais uma noite terrível às escuras, nas bordas da sobrevivência humana; o suprimento água fresca, material de primeiros socorros e víveres, está próximo do fim. Nesse meio tempo captamos uma emissora árabe, cujo locutor mais perece um animador de auditório, nos informa em inglês, com acento britânico meio forçado, a seguinte noticia que seria cômica se não fosse trágica: “Atenção amigos ouvintes: soubemos de fonte segura que a brava Força Aérea do Egito está heroicamente reagindo aos ataques covardes dos ‘macacos sionistas’, e já abateu mais de 175 aviões inimigos; informam-nos que o Negev foi cortado em dois. Alguns oficias da ‘Arab Legion’ da Jordânia, foram fotografados, por um enviado do jornal egípcio “Al Ahram”, passeando e tomando sorvete numa avenida perto da praia principal de Tel-Aviv; o porto de Haifa foi tomado pela Marinha egípcia e o Terminal de Petróleo e as Refinarias explodidos por comandos anfíbios, com o apoio de forças terrestres sírias; soubemos também que os irmãos iraquianos colhem laranjas nos “Moshavs” da Galileia e tâmaras e bananas no Monte Carmel. No Negev, nossos heróis Fedayyns bebem água e se refrescam no famoso poço de Jacó de Beersheva! Nossos heróis escolhem novas esposas judias e preparam-se para uma nova lua de mel...! Os ‘yahudy’ foram expulsos de Nazaré; Jafa foi libertada; O Marechal Amer inspeciona os destroços da Principal base aérea do inimigo sionista. Fotos do Ra’is Nasser estão sendo coladas em todos prédios públicos de Tel-Aviv!”(Sic) E assim por diante... Porém, de acordo com informações da verdadeira BBC de Londres, e da Voz da América, somente o Egito já havia perdido no primeiro dia de guerra, perto de 350 aviões de ataque de todo tipo, a maioria ainda em terra. Este era o começo de outra batalha, presente em todas as guerras: A FAMOSA GUERRA DE INFORMAÇÕES!

Flagrantes da guerra real: soldados egípcios jazem ao lado dum lançador de móvel mísseis...

A energia elétrica e comunicações com as sedes da ONU, e os demais Contingentes, são parcialmente restabelecidas. Os tiroteios voltam a intensificar-se, a carga de morteiros volta a cair, sobre o telhado do HQ, incendiar veículos e esburacar tudo em redor. Aparentemente o Exercito Egípcio/ELP, se reagrupa e contra-ataca furiosamente as tropas israelenses, numa desesperada tentativa de retomar a colina Ali Muntar e daí o controle de Gaza. Evidentemente, a inútil, porém valida, tentativa de reação árabe causou, ainda mais, pesadas perdas de ambos os lados.

Pioram as condições de segurança; informam-nos que não tem outro jeito: teremos que abandonar definitivamente o HQ. Cada um carrega o que pode para os Bedford. Aproveitamos à quietude momentânea, nos amontoamos nos veículos ainda em condições de funcionamento, a maioria com os pneus estourados. Mesmo assim, seguimos em frente, com os aros raspando o asfalto... Desta forma, sob uma discreta escolta da Infantaria Israelense, nos deslocamos em comboio até o Tre Kronor. NB: Há quem afirme que, na realidade, fomos expulsos do HQ pelos israelenses; de outra forma porque eles iriam nos escoltar até as imediações do Tre Kronnor??!

Bem, seja como for, a caminho do ‘Tre’, testemunhamos ‘ao vivo e a cores’ o estrago que uma guerra provoca: vimos com espanto uma Gaza totalmente devastada; tivemos que ziguezaguear por entre as barreiras de pedras e sacos de areia, erigidos no meio das ruas, a cada 50 m. Alguns automóveis com os faróis e lanternas pintadas de verde passavam a toda velocidade.

Havia ainda mais sacos de areia, empilhados em cada bico de esquina e nas lajes das casas, para proteger as posições dos ninhos de metralhadoras. Desviamos também de muitos veículos e carros de combate destruídos com suas lagartas a metros de distancia; alguns deles ainda fumegantes, quantos prédios e casas com suas entranhas abertas; restos de moveis e tijolos para todos os lados!

Observamos, mais uma vez, sem ter condições de prestar ajuda, a uma grande quantidade de feridos gemendo de dor e sendo atendidos, pela Cruz Velha; outros atônitos, correndo e gritando desesperados; em algumas esquinas, cadáveres de civis e de soldados, alguns em adiantado estado de decomposição. Abstenho-me de falar sobre velhos e crianças, mortos pelo fogo cruzado: a lembrança é muito traumatizante... Continuamos no desespero de nossa jornada; no horizonte, se erguem grandes colunas de fumaça negra, resultante de grandes incêndios, provavelmente provocados pelos bombardeios sobre depósitos de combustíveis.

O QG, junto com o Estado-Maior da UNEF foi transferido para o Tre Kronor pelo Comandante, Gen. Indar Rikhye. Lá havia um radio Motorola a espera do Comando, recuperado pelo pessoal do Setor de Comunicações, em perfeitas condições de funcionamento. Desta forma foram restabelecidas as comunicações com a Nova York, via Chipre, Jerusalém, Brazil Camp, Camp Rafah, Delhi Camp e demais Fortes indianos ao longo da ADL, bem como os colegas do Contingente Yugoslavo em El-Arish.

O ‘velho Gaza Camp’, estava irreconhecível; uma típica praça de guerra, cheia de trincheiras protegidas por sacos de areia, e crateras por todo lado. Parecia o solo lunar. Na entrada e no estacionamento vários veículos queimados e furados de bala. Nem bem descarregamos os caminhões, uma salva de tiros de canhão vindo do mar: aparentemente a Marinha Egípcia havia aberto fogo contra Gaza... Será...?? Ao mesmo tempo foi reiniciado o martelar dos morteiros; largamos tudo no chão e corremos para o abrigo das trincheiras, abarrotadas de gente assustada.

Porém, logo após esta merda toda, tive uma das maiores e mais agradáveis surpresas de toda minha vida, falo do...


INESPERADO REENCONTRO COM MEUS IRMÃOS BRASILEIROS

AINDA aturdido com os últimos acontecimentos, mal acreditei em meus olhos, ao ver a imagem de quatro rostos pra lá de familiares: os companheiros, Karam, Cb. Garcia Regianini e o ‘gordinho’ Amarante, sujos e cobertos de poeira dos pés a cabeça, e, a não ser por alguns arranhões... sãos e salvos! Segunda de manhã, os quatro tentavam retornar ao Batalhão Brasileiro, em Rafah quando foram surpreendidos pelo inicio das hostilidades e tiveram que voltar no meio do caminho; vaguearam por dois dias e se abrigaram do fogo cruzado dentro de vários abrigos improvisados. Nossos bravos amigos passaram o maior sufoco, até serem acolhidos por nossos colegas indianos, em Deir-El Balah. Nossos rapazes chegaram ao HQ, graças aos bons ofícios do saudoso amigo de todos, Cel. Bill Carvalho, do Batalhão Indiano, cujo carro oficial da ONU, passou por cima duma mina, sendo cortado ao meio pelo impacto, perto de Khan Yunes As mulheres do Headquarter verteram muita lagrima com a noticia da morte do amigo ‘boa pinta’, Cel. Bill Carvalho....

 

de Theodoro da Silva Junior <theojr@terra.com.br>
cc EDSION IABEL <edisoniabel@msn.com>
data 30/06/2008 14:02
assunto DIVULGAÇÃO DE MAIS UM TRECHO DO LIVRO DO EDISON IABEL


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