TEXTO DO LIVRO DE EDISON IABEL
06 DE JUNHO O 2º DIA DE GUERRA - INICIO DA TOMADA DE GAZA
THEODORO
Caros
amigos Internautas interessados no Site Btl.Suez, bem como
interessados na História dos soldados brasileiros na Faixa de Gaza,
como um todo, em especial histórias sobre o que foi enfrentar a
Guerra de junho 1967.
Apraz-me comunicar que o Nobre e estimado amigo EDISON IABEL,
Soldado Interprete do 20º Contingente, e Autor do Livro "SIX DAY WAR
- A SAGA DO 20º CONTINGENTE BTL.SUEZ- 1967", autorizou repassar para
conhecimento público, a divulgação de mais um trecho do seu precioso
e alucinante livro.
Desta vez ele autoriza divulgar a partir da página 215 até o que
está contido nesta mensagem. É mais um endosso do conteúdo do Livro
para a brilhante narrativa sobre os acontecimentos que envolveram os
Soldados do 20º Contingente nos dissabores sobre o conflito
sangrento e histórico da "Guerra dos Seis Dias".
Tenham todos um bom proveito. Comentários e/ou críticas com o autor
no e-Mail -
edisoniabel@msn.com
-
Abraços a todos - Theodoro
CONTINUANDO COM NOSSA SAGA...
06 DE JUNHO O 2º DIA DE GUERRA - INICIO DA TOMADA DE
GAZA
O dia em que pagamos todos nossos pecados e ainda ficamos com alguns
créditos...!
SABE-SE que as ordens do Alto Comando Israeli, talvez por subestimar
o poderio da artilharia egípcio/palestina, era não atacar Gaza
diretamente.
Porém devido a tenaz resistência, e continuo bombardeio pesado
direcionado às fazendas, e a outros alvos civis, causando a morte de
gado leiteiro, incêndios e danos consideráveis, aos trigais e
pomares dos Nahal, e nos silos de cereais dos kibbutz situados no
Deserto de Negev, fez com que o Gen. Itzhak Rabin mudasse de idéia e
pessoalmente desse o aval para invasão de Gaza. A IDF pretendia
desta forma, cessar definitivamente o bombardeio inimigo contra
alvos civis. A uma Ugdah (brigada) de Reserva sob o comando do
Coronel Yehuda Reshef, coube a incumbência de avançar contra a
cidade, a partir de Khan Yunes. Porém uma tenaz resistência, dos
defensores de Gaza retardou o avanço dos comandados do coronel
Reshef. Um terço de seus homens tombou sob o fogo do contra-ataque
egípcio/palestino. Houve também um grande perda de material bélico.
A resistência só foi quebrada, no anoitecer de 2ª Feira. A primeira
providencia da IDF, foi posicionar as peças de artilharia entre Khan
Yunes e Deir-Aballah, e ao norte de Gaza. Ao raiar do segundo dia de
guerra, 3ªFeira 06, a Brigada Mecanizada já estava refeita e pronta
para o avanço sobre Gaza, penetrando pela ponta sul da Faixa, e
rumando para o nordeste, em direção a seu objetivo final.
PORÉM antes dos carros de combate entrar novamente em ação, a
artilharia israelense, fez uso de seus canhões de campo de 105 mm e
baterias de mísseis, para amaciar a resistência da cidade. A IDF
despejou, pasmem os senhores, em torno de 4horas, toneladas e mais
toneladas de bombas de todos os calibres, sobre as defesas dos
Exércitos Egípcio/Palestino, cujo principal bastião era a “Ali
Muntar Hill”, uma colina que domina toda a cidade. A extensa
barragem de fogo atingiu, por conseguinte, duramente o prédio do HQ
da UNEF e transformou em ruínas quase tudo em redor. Como se era de
esperar, além dum barulho ensurdecedor o bombardeio provocou um
montão de vitimas civis. O pessoal contava que bombardeio israelense
pegou as defesas da cidade de Gaza, literalmente de ‘calças na mão’.
Os correspondentes de guerra, falavam que Gaza e Beit Hanun,
pareciam Londres sob o bombardeio da V2 alemãs, durante a 2ª Grande
Guerra.
3ª feira, 7 de junho: logo após o amanhecer a artilharia israelense
castiga as defesas de Gaza...
Lembro que, enquanto a turma aguardava ansiosamente, que a fila do
banheiro andasse mais rápida (o Iabel, ‘seco’ para dar uma
‘barrigada’), somos surpreendidos por um barulho ensurdecedor.
Sentimos o efeito de um terremoto, na medida em que o prédio todo
sacudia. Todo mundo ficou atordoado; ninguém tinha a menor idéia do
que estava ocorrendo. “Será que estão nos bombardeando?? - gritavam
uns, com ansiedade-” Só se for por engano...!”– replicavam outros- A
‘galera’ se perguntava: “De onde vem todo este fogo”?… O que estou
fazendo nesta merda de fila??”.
Houve pânico e correria para todo lado. Por mais que tentássemos,
não conseguimos ficar em pé... Na medida em bombas caíam, o chão
sacudia violentamente; mesas e armários voavam e prateleiras de
metal tombavam tal quais castelos de cartas. Uma porta voa com o
deslocamento de ar e quase nos atinge; na fuga escorrego e bato com
a nuca e o cotovelo, direito no duro cimento. Quando me recobro
enxergo tudo escuro por um bom par de minutos, tentando entender o
que acontece em redor; felizmente, apesar da forte dor no ‘coco’ e
um arranhão no antebraço, além da manga direita manchada de iodo...
Nada mais do que um baita susto... Apesar do sufoco geral, teve
‘neguinho’ rindo da minha queda, incluindo o próprio enfermeiro que
me atendeu... Deve ter sido o maior tombo da paróquia... Sem ter
outra alternativa, acabei rindo também.. Vejo que vidro do meu
relógio rachou ao meio, mas ele continua funcionando...
Canhões 155 mm AMX despejando toneladas e mais toneladas de
bombas sobre Gaza...
Num breve intervalo, do bombardeio, engatinhamos até uma sala melhor
protegida, tentamos ajudar os funcionários civis; nisso o dito cujo
recomeça ainda mais forte... e em pânico acabamos por nos jogarmos
uns por sobre os outros, e assim permanecemos por um bom tempo.
Olhos e gargantas ardentes... o desespero é geral... A maioria tosse
convulsivamente, vomitando quilos de poeira.
Honestamente... Escapamos vivos por um verdadeiro milagre; a mesma
sorte faltou a uns 14 ou 15 militares indianos, mortos entre os dias
6 e 7, além mais de 30 feridos, alguns com certa gravidade,
incluindo militares e civis de varias nacionalidades.
Por volta do meio dia, quando finalmente o bombardeio amainou,
conseguimos nos levantar ao meio dos escombros de nosso abrigo
improvisado, sacudimos a poeira, e limpamos nossa garganta com um
providencial gole d’água Na medida do possível, acalmamos os civis,
com os nervos em frangalhos... Muita gente se mijou nas calças
(ambos os sexos).. Muitos ficaram em estado de choque, balbuciavam
frases sem nexo, e se mantiveram alheios a tudo em redor... dava
pena de vê-los, naquele estado deplorável...
A partir daí, entramos todos em ação, sem distinção de sexo raça,
credo ou posição hierárquica: uns auxiliando a equipe medica com os
mortos e feridos e outros, a brigada de incêndio a debelar as chamas
na ala norte do prédio, bem como na torre de comunicações da
Motorola, seriamente danificada. Com a torre fora de combate, a
energia foi totalmente interrompida, cortando conseqüentemente,
qualquer contato do Headquarter, com os Qgs da ONU em Nova Iorque,
Jerusalém e em Genebra; e o restante dos Batalhões espalhados ao
longo da Faixa de Gaza.
Canhão ‘Howitzer’ 155 mm, martelando impiedosamente as defesas
de Gaza...
A situação de emergência fez com que toda equipe trabalhasse sem se
importar com balas zunindo sobre suas cabeças. O barulho resultante
daquele terrível bombardeio... deixou-nos temporariamente surdos e a
alta dose de adrenalina, perigosamente alheios ao perigo...
O lado irônico, desta situação, foi a súbita mudança de atitude do
staff feminino do HQ: antes da guerra, o mulherio desprezava
olimpicamente o pessoal militar... De uma hora para a outra nossos
braços viraram corrimão!
Cessado o corre-corre, aproveito a calmaria momentânea e vou
descansar um pouco no pátio. Quando que tento localizar novamente a
pedra de mármore amiga, tudo em redor é envolvido por um barulho
surdo; parecia uma mistura de motor dezenas de caminhões, andando em
marcha lenta, com o som metálico de pesadas correntes sendo
arrastadas. Não esperei para ver o que seria: pulei imediatamente
para dentro da trincheira mais próxima e me juntei a um grupo de
colegas assustados. O cabo yugoslavo Javic, aquele do ‘Registry’, me
vê, sorri, arregala os olhos e encosta o polegar em riste no lábio
faz um ‘schiihh’, de silencio...!!
Neste exato instante testemunhamos boquiabertos, o avanço resoluto e
ensurdecedor das colunas de blindados da IDF; dezenas de carros de
combate; vamos identificando os tanques: Shermans, Centurions, todos
marcados com um V invertido. No meio dos tanques varias
Meia-Lagartas. Finalmente um incontável numero de jipes, equipados
com metralhadoras. 30. A lenta progressão dos veículos provocava um
barulho surdo e rangente, na medida em que se aproximavam das ruas
próximas do HQ. Conforme progrediam, abriam caminho a tiros para do
Centro da cidade. Vimos alguns tanques com as torretas abertas e
seus Comandantes, meio malucos, (só pode!) mão esquerda no gatilho
da metralhadora, e a direita empunhando um megafone e gritando para
seus comandados, algo parecido com ‘Barata/Baralho/Cará... ’(?)
Descobri mais tarde o que eles gritavam era: “Abarái... Abarái!”
[Sigam-me... Sigam-me! - em vez do tradicional Kadima... Kadima!
(Avante... Avante!, em hebraico), como acontece em outros
exércitos... Com certeza é esta a razão do numero de baixas entre
oficias israelis ter sido incrivelmente elevado, conforme depoimento
acima mencionado (pág. 156/7), do Maj. Israelense Uri Dan, para o
livro “The Seventh Day”,]
Quando os blindados se aproximam do alcance da artilharia, começam a
ser furiosamente repelidos por uma chuva de morteiros, e por
metralhador tipo. 50 instaladas nas lajes das casas, sob a proteção
de pilhas de sacos de areia. Os blindados israelenses são atingidos
por uma formidável barragem de fogo; param e viram seus canhões na
direção dos tiros. Segue-se uma violenta troca de fogo.
Incontinente, todo mundo se joga ao chão e enfia a cara na areia,
com a respiração presa e permanecem por um longo tempo na famosa
posição ‘cúapertádodemêdo’, ouvindo o zunir de balas e mais balas,
voando rasantes sobre nossas cabeças. O sufoco dura mais de meia
hora... De repente o tiroteio cessa e, a não se por tiros e rajadas
de metralhadoras, aqui e acolá, tudo volta a ficar quieto. Quando
finalmente ficamos de cócoras, nos congratulamos emocionados por
ainda estar vivos...! O ambiente é tomado por uma densa nuvem de
poeira e pólvora, que aos poucos vai se a se dissipando. O cheiro
acre é simplesmente insuportável. Olhos ardem. Alguns não resistem:
choram copiosamente, e vomitam até as tripas...
Cessada a refrega, os carros de combate que conseguem andar, retomam
a marcha resoluta, como se nada tivesse acontecido. Na medida em que
avançam, passam por cima, com o aço de suas lagartas, de vários
automóveis de passeio, abandonados ao longo das ruas. Conforme
avançam, arrebentam o meio-fio e parte das calçadas. Desconfiados,
que nem cavalo caolho, atiram em casas e em tudo que se mexe,
exceto, para nossa grande sorte, no prédio branco da UNEF. Nesse
meio tempo, a população civil, de olhos esbugalhados e abandonados à
própria sorte, corria para todo lado, buscando da melhor forma se
proteger, em abrigos escavados as pressas... Uma gritaria e tanto...
Recomeça o furioso tiroteio aos blindados invasores, porém, desta
vez não tão efetivo. A curiosidade supera o medo: assistimos o
avanço israelense de cócoras, quiçá envergonhados por, antes, termos
nos jogado num buraco...
Um dos tanques é atingido em cheio por vários morteiros, quando
passa bem ao lado do HQ, e vira instantemente uma horrível bola de
fogo. Sem poder fazer nada, assistimos angustiados, a tripulação
daquele desafortunado carro de combate ser inapelavelmente consumida
pelas chamas vorazes, No ar, além de um calor sufocante, um horrível
cheiro de combustível, misturado com tinta e carne queimada, ao
ponto de voltar a arder nossos olhos...
Um pouco mais adiante, dois carros ‘half-track’ também são
atingidos, resultando em perda total de seus ocupantes. O saldo de
mortos resultante da entrada em Gaza da Ugdah do Cel. Reshef foi
alto: acima de 80 soldados tombaram - entre eles vários oficiais
comandantes, e correspondentes estrangeiros, como os americanos Ben
Oyserman e Paul Schutzer. O numero de feridos foi três vezes maior.
Quanto aos árabes suas perdas foram incontáveis...
Um fato cada vez mais evidente: os israelis não esperavam encontrar
tanta resistência, ao entrar na cidade; fica cada vez mais claro que
eles haviam subestimado o poder de fogo da guarnição
egípcio-palestina. Números acima atestam a violência que foi a
tomada de Gaza.
IMPOTÊNCIA TOTAL
PASSADO o choque inicial do começo da guerra; como militar, e talvez
por ser jovem sem ter nada a perder, custei a me conformar com minha
impotência, pois já não agüentava mais a idéia assistir aqueles
acontecimentos como uma mera testemunha... Logo eu, cuja preferência
eram os filmes eletrizantes de Holywood e livros baseados na Segunda
Grande Guerra... Contudo, para quem vê uma guerra ao vivo, em termos
de realismo, os filmes sempre deixarão a desejar... Duas coisas eu
realmente lamentava: Não poder ajudar os feridos de ambos os lados
(testemunhamos, sem poder fazer nada, o sofrimento de muitos
soldados, tanto árabes, quanto judeus em franco desespero,
carregando seus companheiros gemendo de dor, à procura de socorro
medico. Até hoje me dói não ter podido ajudar...) e não uma maquina
fotográfica à mão. Perdi uma chance de ouro... Teve gente que
conseguiu fotografar quase toda a ação, da passagem dos tanques
israelenses, em frente ao HQ. Assistimos a estas cenas, e outras
cenas brutais, sem nos preocuparmos com o perigo eminente... Já que
de qualquer forma... Nossa morte estava por acontecer em minutos...
ou no máximo horas! Confesso que a esta altura não nos interessava o
que acontecia fora do HQ, ou quem estivesse ganhando a ou perdendo a
guerra...
Só restou afogar as magoas com a metade duma providencial garrafa de
whisky John Haig abandonada intacta perto de nossa trincheira, por
alguma alma generosa e distraída!
Nosso abrigo foi construído, aproveitando a existência dum
(providencial!) buraco de lixo, cheio de tábuas, restos argamassa,
cal seco e entulho. Ao abandonar seu aconchego, nos entreolhamos
surpresos ao descobrimos os narizes, mãos, joelhos e os coturnos,
lambuzados de branco pela cal... Parecíamos àquela famosa dupla de
palhaços de dos antigos filmes da ‘Atlântida’, ‘Arrelia &
Pimentinha...! O pessoal solta um riso contido, quando comento com
ironia: “Ainda bem que nos deitamos encima de cal e cimento; já
pensou se fosse naquela famosa substancia orgânica marrom, gosmenta
e malcheirosa”??
Quando saímos do nosso abrigo, olhamos surpresos a quantidade de
buracos de bala nas arvores e paredes. Balas de todos os calibres
imagináveis. De repente, alguém aponta na direção do famoso forno. O
‘guloso’ foi atingido em cheio: dele só restou um monte de tijolos
quebrados e cinzas espalhadas em redor... Debaixo do entulho, a
equipe médica descobre o corpo dilacerado de um desafortunado habib.
É provável que ele, e outros tenham se escondido dentro do forno.
Decidimos voltar para o interior do prédio, à procura duma amigável
xícara de café preto, ou chá indiano. Porém, nos arrependemos da
idéia; lá reencontramos um bando de gente tri-desanimado. Olhávamos
os rostos e os mesmos retribuíam com olhares vazios e
desesperançados; um bando de morto-vivos, em permanente estado de
choque, resultante dos brutais bombardeios sobre o Headquater, e a
carnificina em redor.
Mando tudo às favas e pulo dentro duma trincheira. Quase caio encima
da bandeja de papelão com alguns sanduíches de queijo com tomate, já
meio rançoso, e lembro que estou um tempão sem comer...! Bebo mais
um trago de whisky, e sou tomado pelo sono. Um sargento indiano
espécie de ‘xerife’ da trincheira, me empresta sua manta
quadriculada, dobro-a ao meio, me jogo em cima e adormeço
profundamente. Não sei quanto tempo apaguei... Só sei que dormi que
nem uma pedra, aliás, o chamado sono sem sonhos...
HINDI MAJNUM!!
NO BOM do sono, sou despertado pelo xerife indiano, chutando meu
antebraço direito: “Wake up, wake up, soldier!” – Acorde acorde
Soldado!-- “Ouça os tiros... parece que estão atirando diretamente
no Headquarter... Será que estamos sendo atacados? Rápido, rápido,
vamos verificar o que está ocorrendo!” Respondo ao ‘inconveniente’
“Take it easy, Sarg.!” Sossega sargento... deixa os caras
atirarem... Não é a primeira vez que atiram na gente...!”Tento me
virar para o outro lado, e continuar roncando”... ante a insistência
do outro, acabo desistindo; com raiva, destampo o garrafão d’água
morna, e molho o rosto para espantar o maldito sono... Ainda tonto
salto da trincheira e corro meio agachado para dentro do prédio, a
tempo de me juntar a um grupo de civis, espiando para fora, por uma
persiana entreaberta. Neste instante testemunhamos incrédulos, um
punhado de soldados indianos (provavelmente muçulmanos;
aparentemente, não havia nenhum sikh entre eles..) agachados ao
abrigo de uma frágil mureta, descarregando seus fuzis
semi-automáticos em cima dos carros meia-lagarta israelenses,
passando em frente ao HQ! Os coitados recebem uma resposta
definitiva: uma longa saraivada de balas de metralhadora. 30,
aquelas, montada encima dos jipes...! Não deu para saber quantos
foram atingidos.
Passada a cena brutal, restou o gemido surdo dos feridos e o
silencio dos tombados... além do choro compulsivo das funcionárias
que testemunharam o embate. Dou um doce para quem adivinhar como
ficou a frente do HQ, bem como os carros e as kombis no
estacionamento, com o impacto das balas de diversos calibres: alguns
em chamas e a maioria tal qual queijo suíço! Do elegante ‘Karman
Ghia’ vermelho novinho em folha duma funcionaria holandesa (?) recém
chegada de Jerusalém, sobrou um monte de ferros retorcidos.
Teria sido devido a este tipo de atitude, pra lá de estúpida,
talvez, uma das razões do elevado numero de baixas, no lado dos
nossos amigos do Batalhão Indiano?? Será que aqueles ‘mentecaptos’
de turbante azul conseguiram esquecer que faziam parte de uma Força
de Paz da ONU, e como tal nunca poderiam pender para nenhum lado...
E que o inimigo comum não era o ‘yahudy’ nem o árabe: o inimigo de
todos os Boina-Azuis era a guerra em si??
No breu da noite, além da companhia amiga do radio, do trago duma
bebida forte, o fulgor dos potentes holofotes israelenses; o
relâmpago dos morteiros assustadores, junto com o matraquear de
metralhadoras, o uivarem de ambulâncias e gritos de dor e desespero,
vindos dos quatros pontos cardeais... por mais cruel que possa
parecer, ajudavam à embalar a monotonia da longa vigia noturna...
3º Dia de Guerra, 4ª Feira 07.06.
LOGO AO (triste) amanhecer, recebi a dura tarefa de auxiliar a
equipe medica a colocar etiquetas metálicas de identificação, no
dedão do pé direito dos corpos cobertos com lençóis dos militares
mortos, durante o bombardeio e, no fogo cruzado. Um dos primeiros a
falecer foi o Sargeant Singh Pritan, meu amigo hindu, chefe do
“Reproduction Section”. Meu tributo ao O Singh Pritan: Fostes um
valoroso soldado, guardião da paz, cidadão da Província de Uthar
Pradesh, como dizias orgulhosamente, e um grande jogador de Pólo
Sobre a Grama, e outros esportes, orgulho do Sikh Regiment. Corajoso
como poucos, com certeza morrera carregando algum companheiro ferido
ou ajudando apagar algum incêndio.
Fiquei chocado ao ler seu nome na plaqueta de metal. Sem acreditar,
no que estava escrito, meio tremulo, levantei o lençol para
confirmar seu rosto, já meio amarelecido, sem cor de gente viva, e
cheirando fortemente a formol... Sua cabeça estava envolta por uma
atadura branca, em vez do turbante azul...
Aliás, com relação ao número de vitimas fatais, principalmente do
Batalhão Indiano, estas me pareceram bem mais do que 14 ou 15, como
são oficialmente admitido pela UNEF... Para mim o numero de hindus
mortos foi no mínimo o dobro! Com quem estará a verdade??
[NA VERDADE, nunca mais me livrei deste trauma: passadas quatro
décadas da Guerra dos Seis Dias, quando entro em lojas de roupas,
tipo Renner, sinto um baita desconforto ao andar por entre fileiras
de roupas, com as etiquetas de preço penduradas na manga.... É como
se eu segurasse o dedão do pé gelado do cadáver de algum soldado
hindu para ler sua etiqueta de identificação.... Quem nunca passou
uma guerra jamais poderá avaliar estes sentimentos; isto é, o
‘privilegio’ de conviver com estes fantasmas é reservado somente
para os que estiveram numa frente real de batalha... seja qual for a
guerra... Confesso que é um verdadeiro desafio escrever sobre
isto...até os dias atuais estas lembranças as vezes me causam
náuseas e arrepio, na verdade, um tremendo desconforto... e uma
vontade danada de acabar com a outra metade daquela garrafa de
whisky abandonada junto a tal arvore, do pátio do Headquarter da
UNEF ...)
Sob um Sol incandescente, suspenso solitário no céu, os caças da IAF,
nesta altura já livre das obrigações de atacar as bases aéreas
egípcias, continuavam o trabalho que haviam iniciado no dia
anterior: os pesados bombardeios aos alvos militares e depósitos de
munições, na Faixa Gaza e no restante da Península do Sinai, em
apoio às tropas terrestres. Assistimos incrédulos, alguns soldados
árabes, saindo das trincheiras, revólver em punho, apertando o
gatilho e tentando inutilmente atingir, as Estrelas de Davi,
pintadas em cada asa dos bombardeiros Vatour da IAF, zunindo rasante
sobre os telhados.
Bombardeio Vautour ‘balança as asas’, ao passar rasante sobre uma
coluna de tanques Centurion...
Os combates continuavam com intensidade variada, em varias partes da
cidade e da Faixa. De quando em quando ouvíamos o uivo das sirenes
de ambulâncias da Cruz Vermelha Internacional. Bravos médicos (as) e
enfermeiras (os) aproveitavam o breve intervalo das batalhas, para
recolher os mortos ou tratar dos feridos. Ao levar água para o
pessoal da trincheira junto à mureta frontal do HQ, assisto o triste
cortejo de dois enormes caminhões, abarrotados de corpos de soldados
árabes; o olor exalado por dezenas de cadáveres empilhados é pra lá
de nauseante... Onde serão enterrados?
Imagem nua e crua dum esqueleto de um Soldado Anônimo cujas
entranhas foram devoradas pelas implacáveis hienas do deserto...
Passamos mais uma noite terrível às escuras, nas bordas da
sobrevivência humana; o suprimento água fresca, material de
primeiros socorros e víveres, está próximo do fim. Nesse meio tempo
captamos uma emissora árabe, cujo locutor mais perece um animador de
auditório, nos informa em inglês, com acento britânico meio forçado,
a seguinte noticia que seria cômica se não fosse trágica: “Atenção
amigos ouvintes: soubemos de fonte segura que a brava Força Aérea do
Egito está heroicamente reagindo aos ataques covardes dos ‘macacos
sionistas’, e já abateu mais de 175 aviões inimigos; informam-nos
que o Negev foi cortado em dois. Alguns oficias da ‘Arab Legion’ da
Jordânia, foram fotografados, por um enviado do jornal egípcio “Al
Ahram”, passeando e tomando sorvete numa avenida perto da praia
principal de Tel-Aviv; o porto de Haifa foi tomado pela Marinha
egípcia e o Terminal de Petróleo e as Refinarias explodidos por
comandos anfíbios, com o apoio de forças terrestres sírias; soubemos
também que os irmãos iraquianos colhem laranjas nos “Moshavs” da
Galileia e tâmaras e bananas no Monte Carmel. No Negev, nossos
heróis Fedayyns bebem água e se refrescam no famoso poço de Jacó de
Beersheva! Nossos heróis escolhem novas esposas judias e preparam-se
para uma nova lua de mel...! Os ‘yahudy’ foram expulsos de Nazaré;
Jafa foi libertada; O Marechal Amer inspeciona os destroços da
Principal base aérea do inimigo sionista. Fotos do Ra’is Nasser
estão sendo coladas em todos prédios públicos de Tel-Aviv!”(Sic) E
assim por diante... Porém, de acordo com informações da verdadeira
BBC de Londres, e da Voz da América, somente o Egito já havia
perdido no primeiro dia de guerra, perto de 350 aviões de ataque de
todo tipo, a maioria ainda em terra. Este era o começo de outra
batalha, presente em todas as guerras: A FAMOSA GUERRA DE
INFORMAÇÕES!
Flagrantes da guerra real: soldados egípcios jazem ao lado dum
lançador de móvel mísseis...
A energia elétrica e comunicações com as sedes da ONU, e os demais
Contingentes, são parcialmente restabelecidas. Os tiroteios voltam a
intensificar-se, a carga de morteiros volta a cair, sobre o telhado
do HQ, incendiar veículos e esburacar tudo em redor. Aparentemente o
Exercito Egípcio/ELP, se reagrupa e contra-ataca furiosamente as
tropas israelenses, numa desesperada tentativa de retomar a colina
Ali Muntar e daí o controle de Gaza. Evidentemente, a inútil, porém
valida, tentativa de reação árabe causou, ainda mais, pesadas perdas
de ambos os lados.
Pioram as condições de segurança; informam-nos que não tem outro
jeito: teremos que abandonar definitivamente o HQ. Cada um carrega o
que pode para os Bedford. Aproveitamos à quietude momentânea, nos
amontoamos nos veículos ainda em condições de funcionamento, a
maioria com os pneus estourados. Mesmo assim, seguimos em frente,
com os aros raspando o asfalto... Desta forma, sob uma discreta
escolta da Infantaria Israelense, nos deslocamos em comboio até o
Tre Kronor. NB: Há quem afirme que, na realidade, fomos expulsos do
HQ pelos israelenses; de outra forma porque eles iriam nos escoltar
até as imediações do Tre Kronnor??!
Bem, seja como for, a caminho do ‘Tre’, testemunhamos ‘ao vivo e a
cores’ o estrago que uma guerra provoca: vimos com espanto uma Gaza
totalmente devastada; tivemos que ziguezaguear por entre as
barreiras de pedras e sacos de areia, erigidos no meio das ruas, a
cada 50 m. Alguns automóveis com os faróis e lanternas pintadas de
verde passavam a toda velocidade.
Havia ainda mais sacos de areia, empilhados em cada bico de esquina
e nas lajes das casas, para proteger as posições dos ninhos de
metralhadoras. Desviamos também de muitos veículos e carros de
combate destruídos com suas lagartas a metros de distancia; alguns
deles ainda fumegantes, quantos prédios e casas com suas entranhas
abertas; restos de moveis e tijolos para todos os lados!
Observamos, mais uma vez, sem ter condições de prestar ajuda, a uma
grande quantidade de feridos gemendo de dor e sendo atendidos, pela
Cruz Velha; outros atônitos, correndo e gritando desesperados; em
algumas esquinas, cadáveres de civis e de soldados, alguns em
adiantado estado de decomposição. Abstenho-me de falar sobre velhos
e crianças, mortos pelo fogo cruzado: a lembrança é muito
traumatizante... Continuamos no desespero de nossa jornada; no
horizonte, se erguem grandes colunas de fumaça negra, resultante de
grandes incêndios, provavelmente provocados pelos bombardeios sobre
depósitos de combustíveis.
O QG, junto com o Estado-Maior da UNEF foi transferido para o Tre
Kronor pelo Comandante, Gen. Indar Rikhye. Lá havia um radio
Motorola a espera do Comando, recuperado pelo pessoal do Setor de
Comunicações, em perfeitas condições de funcionamento. Desta forma
foram restabelecidas as comunicações com a Nova York, via Chipre,
Jerusalém, Brazil Camp, Camp Rafah, Delhi Camp e demais Fortes
indianos ao longo da ADL, bem como os colegas do Contingente
Yugoslavo em El-Arish.
O ‘velho Gaza Camp’, estava irreconhecível; uma típica praça de
guerra, cheia de trincheiras protegidas por sacos de areia, e
crateras por todo lado. Parecia o solo lunar. Na entrada e no
estacionamento vários veículos queimados e furados de bala. Nem bem
descarregamos os caminhões, uma salva de tiros de canhão vindo do
mar: aparentemente a Marinha Egípcia havia aberto fogo contra
Gaza... Será...?? Ao mesmo tempo foi reiniciado o martelar dos
morteiros; largamos tudo no chão e corremos para o abrigo das
trincheiras, abarrotadas de gente assustada.
Porém, logo após esta merda toda, tive uma das maiores e mais
agradáveis surpresas de toda minha vida, falo do...
INESPERADO REENCONTRO COM MEUS IRMÃOS BRASILEIROS
AINDA aturdido com os últimos acontecimentos, mal acreditei em meus
olhos, ao ver a imagem de quatro rostos pra lá de familiares: os
companheiros, Karam, Cb. Garcia Regianini e o ‘gordinho’ Amarante,
sujos e cobertos de poeira dos pés a cabeça, e, a não ser por alguns
arranhões... sãos e salvos! Segunda de manhã, os quatro tentavam
retornar ao Batalhão Brasileiro, em Rafah quando foram surpreendidos
pelo inicio das hostilidades e tiveram que voltar no meio do
caminho; vaguearam por dois dias e se abrigaram do fogo cruzado
dentro de vários abrigos improvisados. Nossos bravos amigos passaram
o maior sufoco, até serem acolhidos por nossos colegas indianos, em
Deir-El Balah. Nossos rapazes chegaram ao HQ, graças aos bons
ofícios do saudoso amigo de todos, Cel. Bill Carvalho, do Batalhão
Indiano, cujo carro oficial da ONU, passou por cima duma mina, sendo
cortado ao meio pelo impacto, perto de Khan Yunes As mulheres do
Headquarter verteram muita lagrima com a noticia da morte do amigo
‘boa pinta’, Cel. Bill Carvalho....
de
Theodoro da Silva Junior <theojr@terra.com.br>
cc EDSION IABEL <edisoniabel@msn.com>
data 30/06/2008 14:02
assunto DIVULGAÇÃO DE MAIS UM TRECHO DO LIVRO DO EDISON IABEL