20º Contingente - Reportagens
Prólogo do livro do Edson Iabel

PROLOGO

A Saga do 20º Contingente do Batalhão Suez. Os ‘Boinas Azuis brasileiros, participantes da Força de Paz da ONU UNEF1-, na Faixa de Gaza, patrulhando a fronteira Israel-Egito, na a mais longa missão, do Exercito Brasileiro no Exterior de 1957 a 1967.  "

Quinta-feira, 5 de junho de 2003, há exatamente 36 anos, 2ª feira 05 de junho de 1967, às 07:15 e 08:15, horário de Israel e do Egito respectivamente, irrompeu a mais curta e arrasadora guerra dos tempos modernos. O Estado de Israel, cercado por exércitos muito mais numerosos e, melhor aparelhados, num clima de guerra eminente , estabelecido após a extinção da UNEF 1 antecipou-se a ação e arrasou a formidável Força Aérea do Egito ainda em terra. A partir  desta ação audaz dominou os céus do Oriente Médio e, derrotou os Exércitos oponentes em três  frentes: o próprio  Egito, numa feroz batalha de tanques, no Deserto do Sinai e em Gaza, a Jordânia em Jerusalém e na Cisjordânia –West Bank- e, por fim a Síria na Galiléia e no Platô de Golã. Outros países árabes também  participaram da guerra , em maior  ou menor escala, através do envio de tropas, tanques e aviões, tais como o ELP - Exercito de Libertação da Palestina na Faixa de Gaza , o Iraque e a Arábia Saudita na Cijordania, alem da Argélia, Kuwait e, o Líbano, com sua aviação na fronteira norte. Esta guerra relâmpago ficou conhecida como a “Guerra dos Seis Dias” -’Six  Day War”.

A Força de Paz da ONU–UNEF1, da qual fazia parte o Batalhão Brasileiro, efetivamente separava as nações beligerantes, servindo como ‘algodão entre cristais’, foi extinta em 19 de maio de 1967, por exigência  do então Presidente do Egito Gamal Abdel Nasser.

Apartir desta data , foi acionado o sinal verde para a guerra e, o Exercito Egípcio, aproveitou para deslocar para o Sinai, 100.000 homens e aproximadamente 1000 tanques e, peças de artilharia.  

Com a súbita partida do primeiro Contingente, o Batalhão Canadense, principais responsáveis pela logística da UNEF , vistos pelos árabes como aliados de Israel., os brasileiros tiveram que assumir a responsabilidade da guarda de todo o material estratégico da ONU  no imenso ‘Rafah Camp’. Nossa 7ª Cia com um pequeno efetivo teve de desdobrar-se em mil para evitar os saques promovidos por ‘Fedayyns’.- guerrilheiros palestinos – e, pela população civil. Em outras palavras, deixamos de ser  uma Força de Paz para  tornarmos guardiões do imobilizado da ONU , inclusive de suas viaturas! A partir deste momento, vivemos uma situação ‘kafkiana’, em conseqüência de nosso envolvimento involuntário com a guerra: sem  ter inimigo declarado, em nenhum dos lados , fomos usados como escudo, pela 7ª Divisão do Exercito Egípcio, acantonada, atrás e, nos flancos  do Batalhão Brasileiro e, atacados e feito prisioneiros pela infantaria israelense!  

Antes de mais nada, há  duas questões, que a mais de três décadas, fazem cócegas em nossa cabeça:

1-Porque razão, o sempre tão eficiente ‘Mossad’–Serviço Secreto de Israel- desconheceu por completo a presença de nosso Batalhão em Rafah e, de outras tropas remanescentes da ONU na Faixa de Gaza?  

2-Porque razão, o Governo Militar Brasileiro, de posse de informes diários, enviados pelo Comando do Batalhão, não promoveu em tempo hábil, nosso repatriamento, da zona de conflito, como fizeram outros países, uma vez que após a extinção da UNEF1, em 19 de maio, qualquer pessoa com um mínimo de bom senso, saberia que a guerra irromperia numa questão de dias ou talvez até  de horas?

Voltando a guerra, no primeiro dia,- 05.06-, após sofrer violentos bombardeios, o dia inteiro, a brava 7ª Cia., junto com um destacamento da 8ª e, um punhado de praças da CCS foi invadida e  aprisionada pela infantaria israelense, por volta de 18 hrs, obrigados a permanecer, ao relento, sentados na areia e em cima de pedras, tremendo de frio noturno de zero grau, muitos só de calção e camiseta., sem beber um só gole d’água.  Esta situação perdurou por mais de 24hrs, quando os militares israelenses, após saquearem suas barracas- alojamentos - informaram que nossa tropa estava apenas sob sua custodia, como se fosse a coisa mais natural do mundo! 

O Brasil Camp, sede do Batalhão Brasileiro também foi duramente castigado pelo bombardeio e fogo cruzado, durante todo o desenrolar da guerra. Numa destas trocas de fogo, o Cabo Enfermeiro Carlos Adalberto ILHA de Macedo foi mortalmente atingido, vindo a falecer em poucos minutos. Além da perda do saudoso companheiro ILHA , outros Pracinhas brasileiros também receberam ferimentos, de variada intensidade, durante os combates.

Psicologicamente, a maioria guarda até hoje seqüelas daquela  terrível guerra.  Os 427 componentes do 20º Contingente, formado na maioria por jovens Cabos e Soldados gaúchos , com idades entre 20 a 21 anos, partiram para a Missão de Paz, no Oriente Médio , cheios de sonhos e voltaram precocemente, frustrados e chocados com a brutalidade da guerra.  Logo após o desembarque , no porto de Porto Alegre fomos sumariamente dispensados pelo Exercito Brasileiro, nas dependências do 18ºRI, sem qualquer assistência ou acompanhamento psicológico posterior. A verdade, é que ficamos psicologicamente marcados pelo resto de nossas vidas. Até os dias atuais, ou seja, 36 anos após a fatídica Guerra dos Seis Dias, continuamos ignorados e nossos direitos, ainda não reconhecidos pelas autoridades brasileiras.  

Residindo no Rio de Janeiro há mais de trinta anos , tocando a vida, até a pouco, totalmente afastado dos assuntos relacionados ao 20º Contingente, porém lendo  tudo que me cai às mãos a respeito das guerras e escaramuças, entre Israel e os países árabes, desde a Guerra da Independência em 1948, dos Seis Dias, da guerra do Yon Kippur em 1973, até o atual conflito com os palestinos, isto e´; mais de 15 livros, dezenas de Artigos, relatórios e entrevistas, notei que somente o jornalista e escritor gaúcho Flavio A Gomes, talvez o único jornalista brasileiro, realmente no front, da Guerra dos 6 Dias, menciona efetivamente ‘Pracinhas’ brasileiros, em seu livro ‘Morrer por Israel’. Outros escritores e, publicações estrangeiras, sem exceção, quando falam a respeito da tropas da ONU, durante a Guerra dos Seis Dias mencionam somente o envolvimento involuntário e, as baixas das tropas indianas e iugoslavas.

Considero esta atitude, no mínimo o cumulo da desinformação ou má vontade, com relação a nós do 20º Contingente e, aos militares brasileiros  em particular.  

Entretanto, em janeiro de 2002 , ao folhar, por acaso, o catalogo telefônico de Niterói me deparei com o nome ‘Regianini’: Jandir Regianini, o velho “Regy’, companheiro de guerra! Enfrentamos quatro dos seis dias da guerra juntos , com o Jorge Karan e outros  companheiros. A bem da verdade, ficamos entregues a própria sorte. 

Passei os dois primeiros dias sob intenso fogo da artilharia Israelense, no QG da UNEF e, os outros quatros , já reunido com meus companheiros, dentro de trincheiras, no quartel da ‘Military Police’, no Swedish Camp e, posteriormente, na praia de Gaza, debaixo dos barcos de pesca, cavando areia molhada, com as mãos , tentando nos proteger das terríveis trocas fogos entre infantaria israelense, e as tropas do ELP e dos guerrilheiros Fedayyns da Al-Fatah. Estes corriam junto ao mar, atirando com seus fuzis automáticos AK47, contra as temíveis metralhadoras 50 e bazucas, cuspindo fogo contra eles, a partir dos barrancos, em frente a praia ; escapamos vivos por um verdadeiro milagre !  Estas escaramuças resultavam numa grande mescla de tiros, gritos , explosões e forte odor de acre e carne humana queimada, afetando, sobremaneira nossos sentidos.

Nos intervalos das batalhas, os  mortos e feridos, eram recolhidos por equipes da Cruz Vermelha Internacional, cujo trabalho sempre foi respeitado por ambos os lados. Mais adiante descreverei com  detalhes, nossa aventura no meio do fogo cruzado, da batalha pela tomada de  Gaza, pelo Exercito de Israel.

Durante a guerra, estávamos a cerca de 50 kms longe do Batalhão Brasileiro, em Rafah. No trajeto de volta, fomos obrigados a cobrir com um lenço nosso nariz e boca para evitar possível contaminação, devido a grande quantidade de cadáveres em alto estado de decomposição, ao longo da estrada Gaza –Rafah.. Quando finalmente lá chegamos , fomos recebidos com alivio , pois éramos dados como mortos! Em meio a abraços emocionados, de nossos companheiros, recebemos a triste noticia de que a guerra havia ceifado a vida de nosso querido Cabo ILHA, irmão e amigo de todos nós. Custamos a nos recuperar, do choque da perda do querido companheiro Beto. Entretanto, poucas horas após nosso retorno, o soldado estafeta Paulo Ibes Marchoiri, até então desaparecido,foi entregue milagrosamente intacto, por uma patrulha israelense, sendo recebido com jubilo, por seus superiores e companheiros, contrapondo a tristeza avassaladora, provocada pela morte terrível  do saudoso Cabo ILHA.  Na parte da tarde , nosso Capelão, Cp. João Pheeney, rezou uma missa campal, de corpo presente em honra do herói do 20º Contingente Cabo Carlos Adalberto Ilha de Macedo.

Na verdade o Cabo ILHA, foi o único mártir brasileiro, morto em combate, ao longo dos 10 anos de Missão de nosso Exercito como força de paz das Nações Unidas, na Faixa de Gaza.

Terminada a missa,  olhamos pele ultima vez nossos eucaliptos, com o coração apertado e,  abandonamos de forma definitiva, o Brazil Camp, rumando em comboio em direção a Gaza, para aguardar nosso posterior retorno a Pátria distante. No dia seguinte, atravessamos a fronteira com Israel , sendo que a maioria embarcou em a bordo do N/T Soares Dutra, de nossa Marinha de Guerra, 12 . o6, com destino ao Brasil, pelo porto israelense de Ashdot, via alguns portos do Mediterrâneo ; outros como foi o caso do Regianini e do Karan seguiram mais tarde, para Chipre, também  via marítima, levando as viaturas e, o material estratégico  da ONU, a ser usados naquela Ilha. Em Chipre, reencontraram outros colegas do 20º, que foram resgatados após a guerra , por um navio sueco, em Port Said.  

Meu reencontro com o Regy, 35 anos após aquele fatídico episódio, foi memorável: ambos com rostos gastos pelo tempo, cabelos grisalhos, usando óculos de grau,  carecas em progressão, porem a mesma expressão jovial e, o mesmo senso critico apurado, de nosso tempo de Pracinhas do 20º Contingente.. Após um longo e emocionado abraço, apresentamos nossas famílias, relembramos nossa saga e, quase em transe, examinamos uns álbuns de fotografias, amarelecidas pelo tempo,de uns jovens e sorridentes soldados, estranhamente parecidos conosco e, com nossos companheiros de então!  Levei um vinho “Dom Cândido’ da Casa Valduga, da melhor cepa, para brindarmos, aquela grande ocasião.  Relembramos nossa saga, com os olhos úmidos, enquanto confraternizávamos, em redor do suculento ‘assado’, no rincão dos Regianini, em Piratininga, Niterói. Até que em fim, encontramos alguém para confirmar nossas ‘lorotas’, a respeito da Guerra de 67 !!

Algumas semanas mais tarde o Regy vai a Porto Alegre e, de lá me telefona muito sério: “Iabel, tem uns caras querendo falar contigo;’ para minha surpresa ouvi a voz de locutor do Antônio Carlos Gomes e do Socrates Frantzeski, o famoso ‘Sokrátes’, dois ‘habibs’ queridos, gozadores de primeira, companheiros de vôo, para a Faixa de Gaza  juntos com o  Nasi, Sgts Tiburi e  Patrício, Regy,  alem de outros Oficiais. Passados tantos anos , foi incrível ouvir novamente, a voz dos eternos amigos, me chamando de ‘yahudy tagarela e outras ‘gentilezas.’  Um nó se formou em minha garganta e minha vista se embaçou e, assim que me recuperei, os saudei na mesma moeda..

Fui logo cobrado pelo livro, prometido naquela época, relatando a ”nossa versão dos fatos” . Após muito pensar , aceitei a missão e, dentro de minhas limitações, espero estar a altura deste doce desafio, de escrever  sobre nossas aventuras e desventuras, com a preciosa oferta de ajuda de todos meus eternos companheiros, até por que, ‘Verba Volant, Scripta Manent’, As Palavras Voam, A Escrita Fica.

 "Faço pelos meus irmãos do Glorioso e Heróico, 20º Contingente orgulho de todos nós e,  de nossas famílias e, quem sabe um dia de nossas autoridades......Edison  Iabel ."

De: "Theodoro da Silva Junior" <theojr@terra.com.br> 
Data: Sat, 24 Jan 2009 11:24:39 -0300 
Assunto: Prólogo do livro do Edson Iabel

....podes mandar uma cópia para o ALCEU. Um abraço, Edison. 

 


 
VOLTAR