Quinta-feira,
5 de junho de 2003, há exatamente 36 anos, 2ª feira 05 de junho de 1967, às
07:15 e 08:15, horário de Israel e do Egito respectivamente, irrompeu a mais
curta e arrasadora guerra dos tempos modernos. O Estado de Israel, cercado por
exércitos muito mais numerosos e, melhor aparelhados, num clima de guerra
eminente , estabelecido após a extinção da UNEF 1 antecipou-se a ação e
arrasou a formidável Força Aérea do Egito ainda em terra. A partir
desta ação audaz dominou os céus do Oriente Médio e, derrotou os Exércitos
oponentes em três frentes: o próprio
Egito, numa feroz batalha de tanques, no Deserto do Sinai e em Gaza, a
Jordânia em Jerusalém e na Cisjordânia –West Bank- e, por fim a Síria na
Galiléia e no Platô de Golã. Outros países árabes também
participaram da guerra , em maior ou
menor escala, através do envio de tropas, tanques e aviões, tais como o ELP
- Exercito de Libertação da Palestina na Faixa de Gaza , o Iraque e a Arábia
Saudita na Cijordania, alem da Argélia, Kuwait e, o Líbano, com sua aviação
na fronteira norte. Esta guerra relâmpago ficou conhecida como a “Guerra
dos Seis Dias” -’Six Day War”.
A
Força de Paz da ONU–UNEF1, da qual fazia parte o Batalhão Brasileiro,
efetivamente separava as nações beligerantes, servindo como ‘algodão
entre cristais’, foi extinta em 19 de maio de 1967, por exigência
do então Presidente do Egito Gamal Abdel Nasser.
Apartir
desta data , foi acionado o sinal verde para a guerra e, o Exercito Egípcio,
aproveitou para deslocar para o Sinai, 100.000 homens e aproximadamente 1000
tanques e, peças de artilharia.
Com
a súbita partida do primeiro Contingente, o Batalhão Canadense, principais
responsáveis pela logística da UNEF , vistos pelos árabes como aliados de
Israel., os brasileiros tiveram que assumir a responsabilidade da guarda de
todo o material estratégico da ONU no
imenso ‘Rafah Camp’. Nossa 7ª Cia com um pequeno efetivo teve de
desdobrar-se em mil para evitar os saques promovidos por ‘Fedayyns’.-
guerrilheiros palestinos – e, pela população civil. Em outras palavras,
deixamos de ser uma Força de Paz
para tornarmos guardiões do
imobilizado da ONU , inclusive de suas viaturas! A partir deste momento,
vivemos uma situação ‘kafkiana’, em conseqüência de nosso envolvimento
involuntário com a guerra: sem ter
inimigo declarado, em nenhum dos lados , fomos usados como escudo, pela 7ª
Divisão do Exercito Egípcio, acantonada, atrás e, nos flancos
do Batalhão Brasileiro e, atacados e feito prisioneiros pela
infantaria israelense!
Antes
de mais nada, há duas questões,
que a mais de três décadas, fazem cócegas em nossa cabeça:
1-Porque
razão, o sempre tão eficiente ‘Mossad’–Serviço Secreto de Israel-
desconheceu por completo a presença de nosso Batalhão em Rafah e, de outras
tropas remanescentes da ONU na Faixa de Gaza?
2-Porque
razão, o Governo Militar Brasileiro, de posse de informes diários, enviados
pelo Comando do Batalhão, não promoveu em tempo hábil, nosso repatriamento,
da zona de conflito, como fizeram outros países, uma vez que após a extinção
da UNEF1, em 19 de maio, qualquer pessoa com um mínimo de bom senso, saberia
que a guerra irromperia numa questão de dias ou talvez até
de horas?
Voltando
a guerra, no primeiro dia,- 05.06-, após sofrer violentos bombardeios, o dia
inteiro, a brava 7ª Cia., junto com um destacamento da 8ª e, um punhado de
praças da CCS foi invadida e aprisionada
pela infantaria israelense, por volta de 18 hrs, obrigados a permanecer, ao
relento, sentados na areia e em cima de pedras, tremendo de frio noturno de
zero grau, muitos só de calção e camiseta., sem beber um só gole d’água.
Esta situação perdurou por mais de 24hrs, quando os militares
israelenses, após saquearem suas barracas- alojamentos - informaram que nossa
tropa estava apenas sob sua custodia, como se fosse a coisa mais natural do
mundo!
O
Brasil Camp, sede do Batalhão Brasileiro também foi duramente castigado pelo
bombardeio e fogo cruzado, durante todo o desenrolar da guerra. Numa destas
trocas de fogo, o Cabo Enfermeiro Carlos Adalberto ILHA de Macedo foi
mortalmente atingido, vindo a falecer em poucos minutos. Além da perda do
saudoso companheiro ILHA , outros Pracinhas brasileiros também receberam
ferimentos, de variada intensidade, durante os combates.
Psicologicamente,
a maioria guarda até hoje seqüelas daquela
terrível guerra. Os 427
componentes do 20º Contingente, formado na maioria por jovens Cabos e
Soldados gaúchos , com idades entre 20 a 21 anos, partiram para a Missão de
Paz, no Oriente Médio , cheios de sonhos e voltaram precocemente, frustrados
e chocados com a brutalidade da guerra. Logo
após o desembarque , no porto de Porto Alegre fomos sumariamente dispensados
pelo Exercito Brasileiro, nas dependências do 18ºRI, sem qualquer assistência
ou acompanhamento psicológico posterior. A verdade, é que ficamos
psicologicamente marcados pelo resto de nossas vidas. Até os dias atuais, ou
seja, 36 anos após a fatídica Guerra dos Seis Dias, continuamos ignorados e
nossos direitos, ainda não reconhecidos pelas autoridades brasileiras.
Residindo no Rio de Janeiro há mais de trinta anos ,
tocando a vida, até a pouco, totalmente afastado dos assuntos relacionados ao
20º Contingente, porém lendo tudo
que me cai às mãos a respeito das guerras e escaramuças, entre Israel e os
países árabes, desde a Guerra da Independência em 1948, dos Seis Dias, da
guerra do Yon Kippur em 1973, até o atual conflito com os palestinos, isto e´;
mais de 15 livros, dezenas de Artigos, relatórios e entrevistas, notei que
somente o jornalista e escritor gaúcho Flavio A Gomes, talvez o único
jornalista brasileiro, realmente no front, da Guerra dos 6 Dias, menciona
efetivamente ‘Pracinhas’ brasileiros, em seu livro ‘Morrer por
Israel’. Outros escritores e, publicações estrangeiras, sem exceção,
quando falam a respeito da tropas da ONU, durante a Guerra dos Seis Dias
mencionam somente o envolvimento involuntário e, as baixas das tropas
indianas e iugoslavas.
Considero esta atitude, no mínimo o cumulo da
desinformação ou má vontade, com relação a nós do 20º Contingente e,
aos militares brasileiros em
particular.
Entretanto, em janeiro de 2002 , ao folhar, por
acaso, o catalogo telefônico de Niterói me deparei com o nome ‘Regianini’:
Jandir Regianini, o velho “Regy’, companheiro de guerra! Enfrentamos
quatro dos seis dias da guerra juntos , com o Jorge Karan e outros
companheiros. A bem da verdade, ficamos entregues a própria sorte.
Passei os dois primeiros dias sob intenso fogo da
artilharia Israelense, no QG da UNEF e, os outros quatros , já reunido com
meus companheiros, dentro de trincheiras, no quartel da ‘Military Police’,
no Swedish Camp e, posteriormente, na praia de Gaza, debaixo dos barcos de
pesca, cavando areia molhada, com as mãos , tentando nos proteger das terríveis
trocas fogos entre infantaria israelense, e as tropas do ELP e dos
guerrilheiros Fedayyns da Al-Fatah. Estes corriam junto ao mar, atirando com
seus fuzis automáticos AK47, contra as temíveis metralhadoras 50 e bazucas,
cuspindo fogo contra eles, a partir dos barrancos, em frente a praia ;
escapamos vivos por um verdadeiro milagre !
Estas escaramuças resultavam numa grande mescla de tiros, gritos ,
explosões e forte odor de acre e carne humana queimada, afetando,
sobremaneira nossos sentidos.
Nos intervalos das batalhas, os
mortos e feridos, eram recolhidos por equipes da Cruz Vermelha
Internacional, cujo trabalho sempre foi respeitado por ambos os lados. Mais
adiante descreverei com detalhes,
nossa aventura no meio do fogo cruzado, da batalha pela tomada de
Gaza, pelo Exercito de Israel.
Durante a guerra, estávamos a cerca de 50 kms longe
do Batalhão Brasileiro, em Rafah. No trajeto de volta, fomos obrigados a
cobrir com um lenço nosso nariz e boca para evitar possível contaminação,
devido a grande quantidade de cadáveres em alto estado de decomposição, ao
longo da estrada Gaza –Rafah.. Quando finalmente lá chegamos , fomos
recebidos com alivio , pois éramos dados como mortos! Em meio a abraços
emocionados, de nossos companheiros, recebemos a triste noticia de que a
guerra havia ceifado a vida de nosso querido Cabo ILHA, irmão e amigo de
todos nós. Custamos a nos recuperar, do choque da perda do querido
companheiro Beto. Entretanto, poucas horas após nosso retorno, o soldado
estafeta Paulo Ibes Marchoiri, até então desaparecido,foi entregue
milagrosamente intacto, por uma patrulha israelense, sendo recebido com
jubilo, por seus superiores e companheiros, contrapondo a tristeza
avassaladora, provocada pela morte terrível
do saudoso Cabo ILHA. Na
parte da tarde , nosso Capelão, Cp. João Pheeney, rezou uma missa campal, de
corpo presente em honra do herói do 20º Contingente Cabo Carlos Adalberto
Ilha de Macedo.
Na verdade o Cabo ILHA, foi o único mártir
brasileiro, morto em combate, ao longo dos 10 anos de Missão de nosso
Exercito como força de paz das Nações Unidas, na Faixa de Gaza.
Terminada a missa,
olhamos pele ultima vez nossos eucaliptos, com o coração apertado e,
abandonamos de forma definitiva, o Brazil Camp, rumando em comboio em
direção a Gaza, para aguardar nosso posterior retorno a Pátria distante. No
dia seguinte, atravessamos a fronteira com Israel , sendo que a maioria
embarcou em a bordo do N/T Soares Dutra, de nossa Marinha de Guerra, 12 . o6,
com destino ao Brasil, pelo porto israelense de Ashdot, via alguns portos do
Mediterrâneo ; outros como foi o caso do Regianini e do Karan seguiram mais
tarde, para Chipre, também via
marítima, levando as viaturas e, o material estratégico
da ONU, a ser usados naquela Ilha. Em Chipre, reencontraram outros
colegas do 20º, que foram resgatados após a guerra , por um navio sueco, em
Port Said.
Meu reencontro com o Regy, 35 anos após aquele fatídico
episódio, foi memorável: ambos com rostos gastos pelo tempo, cabelos
grisalhos, usando óculos de grau, carecas
em progressão, porem a mesma expressão jovial e, o mesmo senso critico
apurado, de nosso tempo de Pracinhas do 20º Contingente.. Após um longo e
emocionado abraço, apresentamos nossas famílias, relembramos nossa saga e,
quase em transe, examinamos uns álbuns de fotografias, amarelecidas pelo
tempo,de uns jovens e sorridentes soldados, estranhamente parecidos conosco e,
com nossos companheiros de então! Levei
um vinho “Dom Cândido’ da Casa Valduga, da melhor cepa, para brindarmos,
aquela grande ocasião. Relembramos
nossa saga, com os olhos úmidos, enquanto confraternizávamos, em redor do
suculento ‘assado’, no rincão dos Regianini, em Piratininga, Niterói. Até
que em fim, encontramos alguém para confirmar nossas ‘lorotas’, a
respeito da Guerra de 67 !!
Algumas semanas mais tarde o Regy vai a Porto Alegre
e, de lá me telefona muito sério: “Iabel, tem uns caras querendo falar
contigo;’ para minha surpresa ouvi a voz de locutor do Antônio Carlos Gomes
e do Socrates Frantzeski, o famoso ‘Sokrátes’, dois ‘habibs’
queridos, gozadores de primeira, companheiros de vôo, para a Faixa de Gaza
juntos com o Nasi, Sgts
Tiburi e Patrício, Regy,
alem de outros Oficiais. Passados tantos anos , foi incrível ouvir
novamente, a voz dos eternos amigos, me chamando de ‘yahudy tagarela e
outras ‘gentilezas.’ Um nó se
formou em minha garganta e minha vista se embaçou e, assim que me recuperei,
os saudei na mesma moeda..
Fui logo cobrado pelo livro, prometido naquela época,
relatando a ”nossa versão dos fatos” . Após muito pensar , aceitei a
missão e, dentro de minhas limitações, espero estar a altura deste doce
desafio, de escrever sobre nossas
aventuras e desventuras, com a preciosa oferta de ajuda de todos meus eternos
companheiros, até por que, ‘Verba Volant, Scripta Manent’, As Palavras
Voam, A Escrita Fica.
"Faço pelos meus irmãos do Glorioso e Heróico, 20º
Contingente orgulho de todos nós e, de
nossas famílias e, quem sabe um dia de nossas autoridades......Edison
Iabel
De: "Theodoro da Silva Junior" <theojr@terra.com.br>
Data: Sat, 24 Jan 2009 11:24:39 -0300
Assunto: Prólogo do livro do Edson Iabel
....podes mandar uma cópia para o ALCEU. Um abraço, Edison.