38 anos após a Guerra dos 6 Dias
By EMalta
05 Jun 2005
Caro companheiro Boina Azul, Fernando Vargas e demais heróis do nosso ultimo contingente da paz:
Acabo de receber o cenário pintado por vocês, de como foram os nossos últimos minutos, naquela que foi a mais longa missão brasileira pela paz.
É assustador divisar que algo muito mais forte pudesse sobrepor a tudo aquilo que anteriormente já enfrentarmos sobre aquelas areias.
Não bastaram os riscos de doenças severas, o calor e frio, a solidão e a falta até de água fresca para matar a sede mas, haveria de vir ainda o pior. Um ataque militar de surpresa é estratégia antiga e fácil de entender.
Israel já havia feito uso desta técnica anteriormente contra o próprio Egito. Mas, o que escapa a compreensão é a falta de cuidado para com os representantes da ONU, sua missão e acordo oficial para com as outras nações do mundo ali presentes.
A área em nossa posse e controle estava ocupada por sete paises diferentes do Egito e Israel e mesmo Inglaterra e Franca!
Não se passa por cima de paises, fronteiras, contratos e acordos oficiais assim da noite para o dia, sem cair no vexame do ato covarde ainda que a vitória lhe favoreça.
Infelizmente a invasão de Israel sobre a Península do Sinai, que lhes deu a vitória militar sobre o Egito, numa fabulosa manobra militar de apenas uma semana, desrespeitou todos os demais valores existentes não só em papeis e palavras gravadas mas, fisicamente digamos, em "carne e osso" in loco.
Então qual é o valor de tal vitória ? A prova da força e do poder tecnológico ? Se para desmascarar o inimigo for preciso desconsiderar a comunidade mundial na qual todos estamos, afinal de contas, inserido...então, a mascara pertence a quem reclama a "falsa" vitória.
E verdade que o Egito ( Nasser ) pediu a retirada das tropas da ONU ( a nossa gloriosa UNEF ) e pois a retirada estava em demanda quando o ataque surpresa à UNEF da parte de Israel ocorreu. Não foi isto mesmo Cb Vargas?
É por isto que o seu, então, tenente partiu corajosamente para a autodefesa. Nossas armas, de pouco porte, nos foram servidas para justamente nos defendermos, quase a nível individual, dos bandidos, dos oportunistas, daqueles possíveis grupos independentes que, ainda armados, viessem a tirar vantagem de uma obra fundada oficialmente no objetivo da paz mundial.
O nosso trabalho, não se pode esquecer, estava sob a vista global dos paises. Sete deles com o pé fincado lá naquelas areias.
Portanto, todo e qualquer ataque as nossas repartições é, conseguinte, um ataque ilegal. A ONU/UNEF ( ainda que não o Egito ) teria que, por obrigação, respeito e dignidade, ter sido avisada do ataque e todo o isolamento para o seu pessoal deveria estar contido no pacote estratégico do ataque de surpresa planejado e executado por Israel.
Tudo então teria sido diferente de um ataque inesperado, morte e o saque até de bens pessoais. Era sabido que a função da UNEF estava reduzida no "SITREP" ( Situation Report ) e nada mais.
O âmago da nossa missão era observar e registrar qualquer tipo de violação do acordo de paz vinda de qualquer dos lados em conflito anterior. Pois bem, aí está o meu "SITREP" de hoje ainda que há 38 anos passados:
"A comunidade mundial merece saber que os heróis do Batalhão Suez Brasileiro se orgulham dos companheiros do 20°.Contingente pois, marcaram sua presença até o ultimo minuto da missão que lhes fora confiada. Covardes são os que aproveitam da confiança que lhes foi depositada, não os que confiam".
Remetente: Emalta93@aol.com
Data: Sun, 05 Jun 2005 18:39:28 GMT