18º - Contingente - Stans Zouain Filho - Grande Tempestade   


Fort Saunders 

Grande Tempestade de Areia

Vista da torre de observação: Entrada do Fort, 
 as trilhas de pneus a perder de vista no deserto do Sinai.

 

Todos os Pelotões de Fronteiras do Batalhão Brasileiro ( Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Fort Robinson -nos desertos de Negev e Sinai ) distavam, na ordem acima, apenas alguns quilômetros, uns dos outros, mas...

... o Fort Saunders, anexado ao Brasil naquele mês de dezembro de 1966, era muito longe de tudo. E para lá fomos ( 1º grupo brasileiro ) tomar posse, após 5 meses de Fort Robinson. ( Ver no Site a janela " Mapas": mapa da Faixa de Gaza – os Pelotões Brasileiros de Fronteiras acima citados ).

Os dois Forts, eram muito parecidos internamente. A parte externa do Saunders, dava realmente a impressão de estarmos ilhados no deserto, pois o Fort ficava numa elevação maior do que no Robinson.

O campo de pelada, por exemplo: ficava num local plano e privilegiado ( topo de uma grande duna - espécie de tronco de cone )  tinha vistas do deserto do Sinai para 3 dos seus lados. Quando uma bola mal chutada ia pra fora, atravessava a cerca e ia longe descendo a duna em que o campo se situava.

O interior do Fort era semelhante ao Robinson:    Pequeno pátio, duas barracas  (alvenaria ) para cabos e soldados, outra para sargentos e oficiais, escritório do comandante, cozinha, rancho, depósito, torre, paiol, abrigo para os jeeps, depósito de combustíveis e gerador de luz, banheiro coletivo, etc.

Os serviços de patrulhas motorizadas eram totalmente diferentes do Robinson. Não existia aquela escala rígida de 24 x 24 horas com dois turnos noturnos - às 10 horas da noite e às 3 ou 4 horas da manhã, durante 1 hora e meia.

No Saunders, as patrulhas eram alternadas, às vezes durante o dia e outras durante à noite, com apenas um turno, só que, de duas a três horas. Rodávamos aquela parte do deserto totalmente nova para nós brasileiros!

Esperávamos, no Saunders, ainda pegar os Jeeps “Zagas” mas,  foram todos substituídos... sumiram da Faixa, que pena!

Os dias foram se seguindo, o campo de pelada, que já conhecíamos desde os jogos contra os Yugos, vivia repleto todas as tardes, eram vários times que iam se revezando. Fazíamos também competições de corridas.

 

O Fort Álamo:

Pertencia aos Iugoslavos e ficava uns 20 km do Fort Saunders, deserto a dentro, aquilo é que era longe!

No Domingo dia 11 de dezembro de 1966, pela manhã fomos conhecê-lo, e jogar futebol com os nossos ( desta vez ) velhos amigos.

Haviam muitos conhecidos dos meses anteriores. Ganhamos de 5 x 3, num dos jogos mais duros que fizemos contra eles, aliás, o campo não era de areia mole como os  do Robinson e Saunders, parecia terra batida embora fosse areia mesmo.

Voltamos depois do meio dia, desta vez, por outro caminho bem mais curto  do que o da ida porém,  mais complicado... cada duna mais alta duque a outra!  

A  GRANDE TEMPESTADE DE AREIA

As noites estavam cada vez mais frias, já usávamos a farda de lã nas patrulhas pois, já estávamos praticamente no inverno, mas uma surpresa estava por acontecer ,  A grande tempestade de areia!!!

Já tinha presenciado algumas tempestades, mas... leves!

Os primeiros vestígios apareceram no dia que fomos ao Fort Álamo jogar futebol. Na volta, o frio que estava médio, aumentou, e uma poeirada de areia nos pegou no caminho de volta. Nos dias que se seguiram o frio foi aumentando e volta e meia vinha uma tempestadezinha.

17 de dezembro de 1966 – Sábado.

Ouvimos no  noticiário em espanhol numa rádio de Tel Aviv ( Israel ) a previsão do tempo para aquela região: Chuvas muito fortes e tempestades de areias. Não deu outra coisa e naquela  madrugada tudo começou.

Durante dia não foi moleza, a tempestade foi aumentando e a areia penetrava em qualquer lugar, parecia nevoeiro, onde não se enxergava dois metros a frente, mas era areia e areia em volta de tudo.

Na hora do almoço, nossos pratos ficavam recheados de pó de areia por cima da comida, como se fosse farinha -  não estou exagerando!

No jantar tudo se repetia, desta vez com luzes de lanternas pois, o gerador estava impossibilitado de ser ligado.

A estrada desapareceu e nenhuma viatura chegava lá, a motorola não funcionava, na verdades estávamos incomunicáveis.

Na hora de dormir, todos se enterravam em seus cobertores, sem deixar nada de fora, apesar de que o frio era de lascar, em torno de  uns 5 graus.

A tempestade durou uns três dias, com alguns intervalos de ligeira calmaria, onde aproveitávamos para:

Bater umas fotos, jogar uma peladinha, acertar os enfeites de natal ( que se aproximava ) que vínhamos  fazendo e que a grande ventania desfazia e...

... dar uns giros de jeep por perto para patrulhar, mas sem se afastar muito pois, as trilhas nas estradas sumiram com a tempestade, e toda  atenção era pouco!

Se levava até bússola!

                     ( Tarde  de “pelada” no Fort  Saunders,  sem tempestade)  


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