18º - Contingente - Nosso Vizinho
Nosso
vizinho do lado sul
E naquela linda e pacata tarde de sexta-feira, véspera
de quase outono, com o sol ainda alto e esperando pela “Pelada” diária: uns dormiam, outros conversavam, outros
jogavam dart... enfim, quase todos, de certa forma, “vagabundeavam“
quando de repente, o silêncio do deserto foi quebrado...
... ruídos de motores, vários
motores ao mesmo tempo fazendo aquela barulheira!
Todos
saíram correndo dos seus respectivos locais, assustados:
Não eram Jatos de Israel
invadindo nosso espaço aéreo ( para variar ) pois, conhecíamos o ruído
ensurdecedor dos mesmos, de acordo com a altura dos seus vôos rasantes por cima
do Fort e já estávamos acostumados!
A forte e estranha barulheira
vinha do chão, que vibrava, e da direção sul da IF ( Fronteira Internacional
) acompanhado de uma grande nuvem de poeira de areia!
De repente surgiram lá na
curva antes do Portão vários Jeeps do tipo “Zagas“ talvez seis, talvez
oito, entraram voando no Fort, e pararam lado a lado no estacionamento
na nossa frente.
OBS:
1 - Durante
o dia, a cancela do Portão de Entrada ficava aberta com o Guarda de Serviço
da Torre de “olho” e, como eram carros da ONU, não havia o que se
preocupar pois, diariamente chegavam e saiam várias viaturas.
2
- “Zaga” virou nome popular mas, era
apenas o prefixo das Motorolas dos Jeeps (105) que patrulhavam as áreas
adjacentes aos Forts Robinson, Saunders e Álamo na Fronteira Internacional.
Eram Jeeps especiais de rodas finas, molas
espirais e específicos para rodarem, principalmente, naqueles trechos onde
haviam dunas muito altas.
Ao desligarem os motores,
soldados fardados foram descendo dos Jeeps, e até aquele momento, não sabíamos
quem eram.
Vestiam a “Farda Indiana“
diga-se de passagem, a Farda de Serviço mais bonita que eu já tinha visto.
Todos os integrantes da UNEF ( United Nations Emergency Force ) inclusive o
Brasil ( que a usava até para passeio ) além das fardas do próprio país,
eram obrigados a usar também a Farda Indiana.
Pois bem, a Farda, o Summer
Cap, os Butis e a Braçadeira no ombro direito com o distintivo da UNEF, parecia
quase um Soldado Brasileiro, embora sem aquela “ginga“ típica nossa!
A
diferença estava justamente na Braçadeira do ombro esquerdo:
O Distintivo ( vermelho, azul e
branco, com uma Estrela vermelha no meio, e na parte superior o nome escrito,
também em vermelho: JUGOSLAVIJA.
OBS: Ver na janela
"Rafah
Camp – MP"
o distintivo da Iugoslávia junto aos outros, dos paises
integrantes da UNEF.
Eram
os nossos ( ainda ) vizinhos do Fort Saunders
- os Iugoslavos!
Disse “ainda” porque em dezembro daquele
ano, o dito Fort seria anexado ao Batalhão Brasileiro e, eu participaria do
primeiro grupo de Brasileiros a tomar posse. Ver na próxima história: A grande tempestade de areia
Até
aquele dia, pouco sabíamos dos Iugoslavos:
Que o seu Governo Socialista,
os proibia de se confraternizar com os outros integrantes da UNEF e que sentiam
grande simpatia pelos brasileiros.
Correu um “burburinho” nos
últimos dias sobre uma possível visita deles mas, não sabíamos
quando e também não tínhamos certeza de que viriam devido a tal proibição,
de certa forma, encerrada naquela tarde.
Os nossos “queridos” soldados novatos na Faixa (
paulistas do 19º Contingente que somavam 90% dos integrantes do Fort Robinson )
denominados, com todo o respeito, de “capetas” ficaram eufóricos com os Jeeps Zagas, pois naquele mês e meio de
Faixa, ouviram falar muito neles...
... na sua capacidade de fazer coisas incríveis na
areia, como: subir dunas ponta de faca e voar...
... sua força em sair de
qualquer buraco mesmo com as rodas enterradas, seu motor totalmente blindado,
sua maciez ao correr por qualquer tipo de estrada, sua enorme antena que se não
ficasse presa dava boas chicotadas em quem estava no banco da frente e da
substituição deles ( no Fort Robinson ) dois meses antes, pelos
Jeeps convencionais e...
... ali estavam os “ditos
cujos“ materializados diante dos seus olhos! Naquela ocasião somente os Forts
Saunders e Álamo ( pertencentes ao Iugoslavos ) ainda possuíam os “Zagas”
e...
...por pouco tempo pois diziam
que os jeeps convencionais davam conta do recado. Digamos que: “quase” davam
conta.
Eu tive sorte de andar diversas vezes neles pela
Faixa meses antes, inclusive, de participar de uma Patrulha Diurna durante
algumas horas naquela região perto
de Okvil (
foto ).
E voltando...
... aquele pessoal todo ali!
Realmente...
o que estava acontecendo?
A resposta veio logo - no meio
daqueles Soldados estranhos, surgiu um bigodudo simpático com uma Bola de
Futebol em uma das mãos levantadas. Era o Capitão Comandante daquele Pelotão
de Iugoslavo.
Depois apareceu outra bola, na
mão de outro Soldado, sendo esta
de Vôlei, e seguidamente um outro Soldado, exibiu um Acordeom. E todos sorriam!
-
Vamos
entrar, disse o nosso Sargento Adjunto
fazendo sinal!
-
Vocês
vieram jogar, perguntou outro!
-
JF#$$UEI&:(&OFDK
J@*&DM KL J HKDCJHL LF!#... responderam!
-
Ah!
Vocês N Ã O
E S T Ã O E
N T
E N D
EEEEEE N
D O, disse o mesmo
Sargento com a mão no ombro do Capitão deles, levando-o para o interior do
Fort, e os outros acompanharam.
Tentamos conversar, misturando
aquele Inglês bem “ralé” com Árabe pior ainda ( que a gente falava, para
se virar, em Beirute, Cairo, Jerusalém e Gaza ) e confeitando o bolo de Inglês-árabe
com o Português
P A U S A D O mas, nada adiantou, ninguém entendia e nem entendeu “
bulufas! “
Dali pra frente não se falou mais nada, nem
precisava: Eram gestos e sorrisos, produtos da LINGUAGEM UNIVERSAL.
Levamos nossos visitantes
para as Barracas afim de se trocarem e todos se prepararam para o Futebol e Vôlei.
Já prontos com seus devidos
uniformes: Brasil com camisetas amarelas e Iugos
com camisas verdes.
As torcidas ficaram misturadas
eles eram de 25 a 30 torcedores e nós em número maior: todos gritando e
gozando uns aos outros como se já fossem velhos companheiros...
... na verdade, toda aquela algazarra começou
pelos brasileiros ( que era conhecido, não só na Faixa de Gaza, mas também em
todas as cidades vizinhas, por sua grande simpatia e descontração – às
vezes, até exagerada que resultava em histórias engraçadas... ) deixando os
nossos vizinhos Iugoslavos tão a vontade que, como já disse acima, pareciam velhos
companheiros.
Começamos pelo Futebol; logo
de cara, já vencíamos por 2 X 0, fiz um gol bonito que até os Jugos
aplaudiram!
Dali uns 20 minutos de correria
na areia ( caímos na besteira de “entrar” no futebol deles, começamos a ficar pregados )
eles empataram e nos encheram de 7 X 3.
Na verdade, o nosso futebol era o próprio Futebol
Brasileiro da época - mais pausado, mais bonito...
... enquanto que o deles era
tipicamente o Futebol Europeu – Acelerado.
Descansamos um pouco, e
partimos para o Vôlei, onde vencemos apertados,
por 2 X 1, sendo ( 15 X 12 ), ( 13 X 15 ) e ( 15 X 13 ).
Já estava escurecendo,
quando todos fomos para o banho: primeiro eles depois a gente.
Meia hora depois, estávamos
todos limpos e arrumados, eles pegaram o Acordeom e começaram a cantar, e nós
por “palhaçada“ já com bastante intimidade começamos a imitá-los,
transformamos as suas músicas em Carnaval.
Eles adoraram, e entraram também
no nosso Carnaval!
Foi aquela bagunça de músicas!
Depois pegamos o violão e tentamos umas serestas, e eles tentaram nos
acompanhar sem conseguir. Foi super engraçado, aquela salada de músicas e de
idiomas.
O
mais interessante foi que não se precisava conversar, entendia-se tudo!
Até
que alguém se “mancou” e avisou que toda aquela turma precisava comer.
Como estávamos desprevenidos
com relação a comida para aquele montão de pessoas que a gente não esperava,
improvisamos sanduíches, regados a: Beers, Oranges e Pepsi e todos se encheram.
Depois de umas latinhas de cerveja, a Festa que já
estava animada, ficou mais ainda! O pessoal cantava, dançava e brincava como se
fossem garotos!
Passava das 21:00 horas, quando
eles fizeram sinal de que precisavam partir e pegaram um Calendário que estava
pendurado na parede, apontando no Calendário aquele dia e, através de sinais,
nos pediram para marcar ali também a nossa visita a eles no Fort Saunders.
Escolhemos o dia 19, ou seja, três dias depois.
Se
despediram da gente falando palavras que, as nossas mentes não entendiam mas,
os nossos corações sentiam e se dirigiram para seus respectivos carros.
“Até aquele momento, pareceu uma história
comum de confraternização entre dois povos, embora estranha no ponto de vista
da aproximação deles conosco, proibida por seu país! Mas estava próximo um
dos momentos mais emocionantes que pude presenciar na Faixa!”
Todos entraram e se sentaram
nos respectivos Jeeps, e ao invés de darem partida nos mesmos, ficaram em silêncio
e imóveis, de frente para nós, também
em silêncio e sem entender aquela atitude deles.
Pouco depois, o Capitão
bigodudo simpático, interrompendo aquela inércia, fez um sinal com a mesma mão,
que na chegada segurava a bola de futebol, e todos os Iugos, num coral forte e vibrante
começaram a cantar uma linda
Melodia Folclórica do seu país.
Foi um grande presente que eles
nos reservaram, por nossa calorosa acolhida naquela inesquecível tarde.
O som era tão afinado que
parecia ter uma orquestra regendo a música e...
... mesmo sendo noite, as lâmpadas externas do
Fort iluminaram suas faces, e pudemos notar que, enquanto os iugoslavos cantavam,
lágrimas rolavam nos seus rostos sofridos e, a emoção foi tamanha que,
dos nossos olhos também começaram a rolar lágrimas.
Aquilo durou alguns poucos minutos, que mais pareceu uma eternidade, um
encontro de essências, que foi quebrado...
... mediante outro sinal do
capitão bigodudo, seguido pelos roncos dos motores.
E os nossos “ novos amigos “
partiram, deixando a certeza de que,
naquele dia nasceu uma grande amizade entre dois povos, simbolizados por dois
Pelotões de Soldados solitários e esquecidos
num deserto tão distante de seus paises.
Nem é preciso contar a grande
recepção, com um grande banquete, que tivemos três dias depois quando fomos
ao Fort Saunders e...
... depois daquele mês de
setembro, seguindo até dezembro trocamos diversas visitas, sempre no mesmo
clima: jogando, ganhando, perdendo e festejando.
Em dezembro quando mudamos para
o Fort Saunders, as visitas não acabaram, pelo contrário - como se dizia...
- Se o Fort Saunders ficava lá nos confins do deserto do Sinai, a quilômetros
do Fort Robinson, onde se via o Monte Sinai mais de perto, embora ainda bem
longe!
... onde ficava Fort Álamo?
Muito e muito mais longe!...
E foi para lá que seguimos esporadicamente, a partir de dezembro, para
continuarmos com os nossos jogos e principalmente com a
nossa amizade com os companheiros Iugoslavos.
Puxa vida, como aquele povo gostava da gente!
Até hoje, passados quase 40 anos, tenho um carinho todo especial com o povo Iugoslavo!