18º - Contingente - Nosso Vizinho   


 

Os Iugoslavos

 Nosso vizinho do lado sul

Fort Robinson ( 7ª Cia – Batalhão Suez ) -16 de Setembro de 1966 - Encerrando mais uma semana com afazeres diversos (o expediente, para aqueles que não estavam de Serviço, era sempre pela manhã ). Eu estava ali há quase dois meses, após sete de Missão no Batalhão Suez e vindo do Fort Worthington ( PC da 7ª Cia ). Aliás, era um dos poucos “antigos” do Fort.

E naquela linda e pacata tarde de sexta-feira, véspera de quase outono, com o sol ainda alto e esperando pela “Pelada” diária: uns dormiam, outros conversavam, outros jogavam dart... enfim, quase todos, de certa forma,   “vagabundeavam“ quando de repente, o silêncio do deserto foi quebrado...

... ruídos de motores, vários motores ao mesmo tempo fazendo aquela barulheira!

Todos saíram correndo dos seus respectivos locais, assustados:

Não eram Jatos de Israel invadindo nosso espaço aéreo ( para variar ) pois, conhecíamos o ruído ensurdecedor dos mesmos, de acordo com a altura dos seus vôos rasantes por cima do Fort e já estávamos acostumados!

A forte e estranha barulheira vinha do chão, que vibrava, e da direção sul da IF ( Fronteira Internacional ) acompanhado de uma grande nuvem de poeira de areia!

De repente surgiram lá na curva antes do Portão vários Jeeps do tipo “Zagas“ talvez seis, talvez oito, entraram voando no Fort, e pararam lado a lado no estacionamento  na nossa frente.

OBS:

1 - Durante o dia, a cancela do Portão de Entrada ficava aberta com o Guarda de Serviço da Torre de “olho” e, como eram carros da ONU, não havia o que se preocupar pois, diariamente chegavam e saiam várias viaturas.

2 - “Zaga” virou nome popular mas, era apenas o prefixo das Motorolas dos Jeeps (105) que patrulhavam as áreas adjacentes aos Forts Robinson, Saunders e Álamo na Fronteira Internacional.

Eram Jeeps especiais de rodas finas, molas espirais e específicos para rodarem, principalmente, naqueles trechos onde haviam dunas muito altas.

Ao desligarem os motores, soldados fardados foram descendo dos Jeeps, e até aquele momento, não sabíamos quem eram.

Vestiam a “Farda Indiana“ diga-se de passagem, a Farda de Serviço mais bonita que eu já tinha visto. Todos os integrantes da UNEF ( United Nations Emergency Force ) inclusive o Brasil ( que a usava até para passeio ) além das fardas do próprio país, eram obrigados a usar também a Farda Indiana.

Pois bem, a Farda, o Summer Cap, os Butis e a Braçadeira no ombro direito com o distintivo da UNEF, parecia quase um Soldado Brasileiro, embora sem aquela “ginga“ típica nossa!

A diferença estava justamente na Braçadeira do ombro esquerdo:

O Distintivo ( vermelho, azul e branco, com uma Estrela vermelha no meio, e na parte superior o nome escrito, também em vermelho:  JUGOSLAVIJA.

OBS: Ver na janela "Rafah Camp – MP" o distintivo da Iugoslávia junto aos outros, dos paises  integrantes da UNEF.

Eram os nossos ( ainda ) vizinhos do Fort  Saunders - os Iugoslavos!

Disse “ainda” porque em dezembro daquele ano, o dito Fort seria anexado ao Batalhão Brasileiro e, eu participaria do primeiro grupo de Brasileiros a tomar posse. Ver na próxima história: A grande tempestade de areia  

Até aquele dia, pouco sabíamos dos Iugoslavos:

Que o seu Governo Socialista, os proibia de se confraternizar com os outros integrantes da UNEF e que sentiam grande simpatia pelos brasileiros.

Correu um “burburinho” nos últimos dias sobre uma possível visita deles mas, não sabíamos  quando e também não tínhamos certeza de que viriam devido a tal proibição, de certa forma, encerrada naquela tarde. 

Os nossos “queridos” soldados novatos na Faixa ( paulistas do 19º Contingente que somavam 90% dos integrantes do Fort Robinson ) denominados, com todo o respeito, de “capetas” ficaram eufóricos com os Jeeps Zagas, pois naquele mês e meio de Faixa, ouviram falar muito neles...

... na sua capacidade de fazer coisas incríveis na areia, como: subir dunas ponta de faca e voar...

... sua força em sair de qualquer buraco mesmo com as rodas enterradas, seu motor totalmente blindado, sua maciez ao correr por qualquer tipo de estrada, sua enorme antena que se não ficasse presa dava boas chicotadas em quem estava no banco da frente e da substituição deles ( no Fort Robinson ) dois meses antes, pelos  Jeeps convencionais e...

... ali estavam os “ditos cujos“ materializados diante dos seus olhos! Naquela ocasião somente os Forts Saunders e Álamo ( pertencentes ao Iugoslavos ) ainda possuíam os “Zagas” e...

...por pouco tempo pois diziam que os jeeps convencionais davam conta do recado. Digamos que: “quase” davam conta.

 

Eu tive sorte de andar diversas vezes neles pela Faixa meses antes, inclusive, de participar de uma Patrulha Diurna durante algumas  horas naquela região perto de Okvil ( foto ).

E voltando...

... aquele pessoal todo ali!

Realmente... o que estava acontecendo?

A resposta veio logo - no meio daqueles Soldados estranhos, surgiu um bigodudo simpático com uma Bola de Futebol em uma das mãos levantadas. Era o Capitão Comandante daquele Pelotão de Iugoslavo.

Depois apareceu outra bola, na mão de outro Soldado,  sendo esta de Vôlei, e seguidamente um outro Soldado, exibiu um Acordeom. E todos sorriam!

-         Vamos entrar, disse o nosso Sargento Adjunto fazendo sinal!

-         Vocês vieram jogar, perguntou outro!

-         JF#$$UEI&:(&OFDK J@*&DM KL J HKDCJHL LF!#... responderam!

-         Ah! Vocês   N Ã O     E S T Ã O      E  N  T  E  N  D  EEEEEE  N  D  O, disse o mesmo Sargento com a mão no ombro do Capitão deles, levando-o para o interior do Fort, e os outros acompanharam.

Tentamos conversar, misturando aquele Inglês bem “ralé” com Árabe pior ainda ( que a gente falava, para se virar, em Beirute, Cairo, Jerusalém e Gaza ) e confeitando o bolo de Inglês-árabe com  o Português  P A U S A D O mas, nada adiantou, ninguém entendia e nem entendeu “ bulufas! “

Dali pra frente não se falou mais nada, nem precisava: Eram gestos e sorrisos, produtos da LINGUAGEM UNIVERSAL.

Levamos nossos visitantes para as Barracas afim de se trocarem e todos se prepararam para o Futebol e Vôlei.

Já prontos com seus devidos uniformes: Brasil com camisetas amarelas e Iugos  com camisas verdes.

As torcidas ficaram misturadas eles eram de 25 a 30 torcedores e nós em número maior: todos gritando e gozando uns aos outros como se já fossem velhos companheiros...

 ... na verdade, toda aquela algazarra começou pelos brasileiros ( que era conhecido, não só na Faixa de Gaza, mas também em todas as cidades vizinhas, por sua grande simpatia e descontração – às vezes, até exagerada que resultava em histórias engraçadas... ) deixando os nossos vizinhos Iugoslavos tão a vontade que, como já disse acima, pareciam velhos companheiros.  

Começamos pelo Futebol; logo de cara, já vencíamos por 2 X 0, fiz um gol bonito que até os Jugos aplaudiram!

Dali uns 20 minutos de correria na areia ( caímos na besteira de “entrar” no futebol deles, começamos a  ficar pregados )  eles empataram e nos encheram de 7 X 3.

Na verdade, o nosso futebol era o próprio Futebol Brasileiro da época - mais pausado, mais bonito...

... enquanto que o deles era tipicamente o Futebol Europeu – Acelerado.

Descansamos um pouco, e partimos para o Vôlei, onde vencemos apertados,  por 2 X 1, sendo ( 15 X 12 ), ( 13 X 15 ) e ( 15 X 13 ).

 Já estava escurecendo, quando todos fomos para o banho: primeiro eles depois a gente.

Meia hora depois, estávamos todos limpos e arrumados, eles pegaram o Acordeom e começaram a cantar, e nós por “palhaçada“ já com bastante intimidade começamos a imitá-los, transformamos as suas músicas em Carnaval.

Eles adoraram, e entraram também no nosso Carnaval!

Foi aquela bagunça de músicas! Depois pegamos o violão e tentamos umas serestas, e eles tentaram nos acompanhar sem conseguir. Foi super engraçado, aquela salada de músicas e de idiomas.

O mais interessante foi que não se precisava conversar, entendia-se tudo!

Até que alguém se “mancou” e avisou que toda aquela turma precisava comer.

Como estávamos desprevenidos com relação a comida para aquele montão de pessoas que a gente não esperava, improvisamos sanduíches, regados a: Beers, Oranges e Pepsi e todos se encheram.

Depois de umas latinhas de cerveja, a Festa que já estava animada, ficou mais ainda! O pessoal cantava, dançava e brincava como se fossem garotos!

 

Passava das 21:00 horas, quando eles fizeram sinal de que precisavam partir e pegaram um Calendário que estava pendurado na parede, apontando no Calendário aquele dia e, através de sinais, nos pediram para marcar ali também a nossa visita a eles no Fort Saunders. Escolhemos o dia 19, ou seja, três dias depois.

Se despediram da gente falando palavras que, as nossas mentes não entendiam mas, os nossos corações sentiam e se dirigiram para seus respectivos carros.

“Até aquele momento, pareceu uma história comum de confraternização entre dois povos, embora estranha no ponto de vista da aproximação deles conosco, proibida por seu país! Mas estava próximo um dos momentos mais emocionantes que pude presenciar na Faixa!”

Todos entraram e se sentaram nos respectivos Jeeps, e ao invés de darem partida nos mesmos, ficaram em silêncio e imóveis, de frente para nós,  também em silêncio  e  sem entender aquela atitude deles.

Pouco depois, o Capitão bigodudo simpático, interrompendo aquela inércia, fez um sinal com a mesma mão, que na chegada segurava a bola de futebol, e todos os Iugos, num  coral forte e  vibrante começaram  a cantar uma linda Melodia Folclórica do seu país.

Foi um grande presente que eles nos reservaram, por nossa calorosa acolhida naquela inesquecível tarde.

O som era tão afinado que parecia ter uma orquestra regendo a música e...

... mesmo sendo noite, as lâmpadas externas do Fort iluminaram suas faces, e pudemos notar que, enquanto os iugoslavos cantavam,  lágrimas rolavam nos seus rostos sofridos e, a emoção foi tamanha que, dos nossos olhos também começaram a rolar lágrimas.

Aquilo durou alguns poucos minutos, que mais pareceu uma eternidade, um encontro de essências, que foi quebrado...

... mediante outro sinal do capitão bigodudo, seguido pelos roncos dos motores.

E os nossos “ novos amigos “ partiram, deixando a certeza de  que, naquele dia nasceu uma grande amizade entre dois povos, simbolizados por dois Pelotões de Soldados solitários e  esquecidos num deserto tão distante de seus paises.

Nem é preciso contar a grande recepção, com um grande banquete, que tivemos três dias depois quando fomos ao Fort Saunders e...  

... depois daquele mês de setembro, seguindo até dezembro trocamos diversas visitas, sempre no mesmo clima: jogando, ganhando, perdendo e festejando.

Em dezembro quando mudamos para o Fort Saunders, as visitas não acabaram, pelo contrário - como se dizia...

- Se o Fort Saunders ficava lá nos confins do deserto do Sinai, a quilômetros do Fort Robinson, onde se via o Monte Sinai mais de perto, embora ainda bem longe!

... onde ficava Fort Álamo? Muito e muito mais longe!...

E foi para lá que seguimos esporadicamente, a partir de dezembro, para continuarmos com os nossos jogos e principalmente com a nossa amizade com os companheiros Iugoslavos.

Puxa vida, como aquele povo gostava da gente!

Até hoje, passados quase 40 anos, tenho um carinho todo especial com o povo Iugoslavo!


VOLTAR