-
Nascido em GAZA/PALESTINA, no dia 05 de julho de 1948.
Formação: TÉCNICO EM AGRONOMIA, que com muita luta e obstinação conseguiu merecidamente sair daquela forte pressão da Faixa de Gaza, ganhar um mundo novo, cheio de esperanças e novas conquistas, ele nunca esqueceu das suas humildes origens e fala o árabe, inglês e o português.
Aprendeu a falar a nossa língua na convivência com os soldados brasileiros do Btl.Suez da UNEF e que serviam na Faixa de Gaza.
O Habibe Yusif, nosso ilustre e estimado personagem desta narrativa, teve uma árdua e intensa luta pela vida desde menino ainda. Por méritos pessoais e dotado de boa índole, conseguiu adentrar, como trabalhador civil, nas funções de Serviços Gerais da UNEF, e ser contratado pelo Comando do Batalhão Brasileiro, como um trabalhador civil, e que culminou se transformando em um fato inédito devido a sua então tenra idade.
Iniciou, enfim, suas atividades, com especial ênfase à disposição das necessidades dos Serviços da S-4 do Batalhão.
As principais atividades da 4ª seção estavam relacionadas com tudo o que estivesse ligado com Suprimentos, desde alimentos,
combustível, controle do dinheiro do Pessoal (em Conta Corrente no Banco em Beirute), aquisição de qualquer material no comércio local, em Beirute e no Cairo, manutenção de viaturas e outros serviços mais de menor referência.
E como o ainda adolescente Yusif, aprendera desde logo a falar também em português, muitas vezes funcionava como assessor de relações públicas, entre o Major S-4 (e outras autoridades brasileiras da Missão) com a comunidade Árabe, servindo como tradutor /intérprete.
Talvez tenha sido esse fator determinante para que surgisse uma grande amizade entre os Brasileiros e o Habibe
Yusif , que denotava uma enorme força de vontade em bem servir.
Iniciou suas atividades de Funcionário Civil da UNEF, no Batalhão Brasileiro, em Janeiro de 1962, quando ainda tinha 13 anos de idade, e desde os primeiros dias conquistou o respeito, confiança e admiração dos Brasileiros, pelo seu empenho, dedicação, educação familiar, atitudes corretas e privilegiada inteligência.
Desde então já se sentiu um pouquinho brasileiro e, aos poucos, foi galgando conhecimentos sobre nosso país, ao ponto de despertar nele uma vontade imensa de, um dia, vir a conhecer o Brasil.
Quando o então Major Da Veiga assumiu a S-4, o relacionamento entre o habibe
Yusif e
ele foi de tratamento de pai para filho, o nosso Oficial passou a ensinar mais coisas sobre o Brasil, e ainda lhe deu o maior incentivo e todo auxílio, apoio e cobertura.
O jovem Yusif denotava muito interesse em aprender e aperfeiçoar conhecimentos de toda ordem, era muito prestativo e honesto aos brasileiros e sempre se apresentava de bom humor, com uma fina educação, em especial ao Major S-4, o que lhe assegurava a cada dia maior simpatia e confiança dos brasileiros.
Teve seus méritos reconhecidos ao aproveitar com brilhantismo a oportunidade que lhe foi oferecida, para fazer um curso intensivo de aprendizado em MECÂNICO ELETRICISTA DE VEÍCULOS- AUTO MOTOR. Enfrentou aquela oportunidade com exemplar dedicação e conseguiu aprovação com louvor.
Esse curso foi efetuado no Pelotão de Manutenção do Batalhão Brasileiro. Foi então lhe conferido o seu primeiro DIPLOMA, que foi assinado pelo comandante do Pelotão de Manutenção e pelo S/4, documento que o habilitava, junto à Embaixada do Brasil no Cairo, a migrar para o Brasil no futuro.
Foi uma grande conquista para aquele ainda menino, dado à circunstancia de vida difícil que toda população árabe da região vinha enfrentando e do alto grau de importância para a formação daquele jovem. O fato em si veio a premiar e a fazer justiça ao jovem e esforçado funcionário civil da UNEF, no Btl.Brasileiro.
Então esses contatos com brasileiros, essas primeiras e grandiosas conquistas, despertavam cada vez mais interesse naquele jovem, em conhecer tudo sobre o Brasil ao mesmo tempo em que ele já sonhava em um dia deixar a Faixa de Gaza e vir morar no nosso país; o objetivo proposto, além de ser um sonho de vida, era também uma grande oportunidade em sair daquela pobreza e dificuldades da Faixa de Gaza.
Todos sabiam das barreiras e da impossibilidade de uma pessoa nascida naquela região e tidos como refugiados de guerra, em sair e emigrar para outros países. Não teriam a permissão do governo egípcio para isso.
Era proibido àqueles cidadãos saírem do seu território na Palestina a pretexto de qualquer desculpa. Na verdade eles sobreviviam em regime de semi-escravidão e rejeitados e até discriminados por muitos outros países.
Mas os Serviços de Paz e de ajuda da ONU, procuravam amenizar o desespero daquelas pessoas. Então a ONU, através de um brilhante serviço Social, prestava todo tipo de ajuda e formação, dando especial atenção ao atendimento básico daquela população, tanto na formação escolar básica, como assistência social de toda ordem.
É oportuno reprisar, que o nosso estimado personagem, o Yusif, vivia na Região da Faixa de Gaza, com seus familiares (pais e Irmãos) na condição de refugiados de guerra e sofriam toda dureza que o sistema impunha à toda população da Palestina. Desesperos e desesperanças, muito sofrimento e ainda as restrições de uma extrema pobreza, frutos e heranças de uma guerra.
O trabalho e a presença das tropas da ONU, na região, eram exercidas por suas tarefas com toda neutralidade possível, não obstante estarem acantonada. no lado árabe.
Aquela região da Faixa de Gaza estava sob a administração do Egito. Devido às circunstâncias bem como às necessidades de prestação de ajuda humanitária para aquela população desvalida, pobre e com poucas perspectivas de progresso social, era comum que a UNEF viesse a colaborar de alguma forma para amenizar aquele sofrimento da população local, Oferecia então alguns atendimentos de emergência, como distribuição de alimentos, água potável extraída dos seus poços
artesianos, algum tipo de assistência médica, e escolas.
Em especial admitiam alguns civis, oriundos daquela população, para prestar serviços, os mais variados e dentro de cada Unidade da Força de Paz da UNEF.
Nasceu daí , dessa convivência entre soldados da ONU e Civis contratados para serviços gerais, um estreito relacionamento e, na convivência diária, o intercâmbio de alguns conhecimentos da cultura entre povos, surgindo então algumas grandes amizades.
Esse intercâmbio cultural foi de extrema importância para os dois lados (civis da região e soldados da ONU), e passou a ser o grande aprendizado e grande experiência de vida para todos os envolvidos.
Era natural que algumas grande amizades surgissem desse relacionamento, não obstante a desconfiança que alguns outros habibes despertavam. Pois nem todos os elementos árabes eram de confiança uma vez que existiam muitos roubos e sumiço de objetos de dentro das Unidades da UNEF, desde alimentos à objetos de uso pessoal da tropa, no entanto os árabes que se comportaram com lisura e honestidade conseguiram a simpatia e a amizade dos soldados da ONU.
Do lado brasileiro foi maior e mais respeitoso esse relacionamento. Tanto foi assim que, com a colaboração e a promessa do Oficial Brasileiro - o então Major S-4 - Aroldo José Machado da Veiga, de total apoio ao
Yusif, caso ele conseguisse um dia chegar ao Brasil, ficou evidenciado.
Ele teria que se virar e conseguir sair da Faixa de Gaza, por suas próprias custas, mas que se conseguisse chegar ao Brasil, poderia contar com todo tipo de ajuda. E foi realmente o que aconteceu.
Num dia, para verdadeira surpresa e também grande alegria do Coronel da Veiga, eis que o jovem habibe
YUSIF, aparece e se apresenta ao Coronel Da Veiga já no Brasil, poucos dias depois da despedida deles lá no Oriente Médio.
Para espanto geral, o Yusif nos contou que permaneceu trabalhando no Campo Brasil - QG do Btl. Suez - até Janeiro de 1967 (o então Major Da Veiga tinha retornado ao Brasil no final de 1966).
O "habibe" Yusif conseguindo sair da Faixa de Gaza de maneira clandestina e correndo o risco próprio, tendo recebido a ajuda dos seus familiares e amigos palestinos, entre eles vários comerciantes da cidade de Gaza que os soldados brasileiros bem conheciam . Ficou trabalhando no Batalhão Brasileiro, na Faixa de Gaza, até Janeiro de 1967 e chegou finalmente ao Brasil em Fevereiro de 1967 graças a colaboração da KLM que lhe forneceu a passagem aérea Cairo -
Amsterdã - São Paulo e a hospedagem indispensável naquela cidade da Holanda, como retribuição aos serviços por ele prestados ao escritório da Empresa em Gaza.
De inicio o Cel. Da Veiga lhe deu total cobertura e assistência prometidas. Indicou-lhe alguns caminhos para conseguir emprego e dignidade em nosso País e tratou-o como filho.
O Yusif virou-se como pode e conseguiu atividade, firmando-se no Brasil e adaptou-se rapidamente.
Desembarcou em São Paulo e logo buscou contato com o agora Tenente Coronel Da Veiga no QG. da 2ª Divisão de Infantaria, na Rua Manoel da Nóbrega - no Ibirapuera. Foi por ele encaminhado para Curitiba, onde residia a família do seu padrinho onde deu seus primeiros passos na busca de trabalho,
só conversando com ele nos fins de semana quando se encontravam naquela cidade.
Freqüentemente almoçava com a família do Ten.Cel Da Veiga, tornando-se amigo de suas duas filhas e do filho.
Alguns meses se passaram e, em meados de 1967 o Yusif sumiu, causando alguma apreensão e suspeita de que algo pudesse ter acontecido. Nada se sabia a seu respeito, nem de bom, nem de ruim.
No inicio do ano de 1968 o Ten.Cel Da Veiga foi transferido para o Q.G. da ID-5, na cidade de Ponta
Grossa PR., onde permaneceu durante todo o ano de 1969.
Em janeiro de 1970 foi para os EUA realizar curso na Escola de Inteligência do Exército Americano e, ao regressar, em agosto assumiu o Comando do 13º Batalhão de Infantaria Blindado (13º BIB), sediado em Ponta Grossa.
No final daquele ano de 1970 a Revista PLACAR, de grande circulação nacional, publicava uma reportagem sobre o apoio que o Ten.Cel.Da Veiga estava dando ao Futebol da cidade, destacando na reportagem uma foto sua, que enfim, acabou se tornando o elo de ligação dessa amizade interrompida por tanto tempo.
O Yusif ao ler a reportagem na cidade de Tarauacá-AC, onde estava trabalhando com ligações em Rio Branco - AC, escreveu uma carta ao seu velho amigo em Ponta Grossa.
A partir daí os contatos foram retomados e mantidos regularmente. Mais tarde o Yussif iniciou-se com atividade agropecuárias, completadas com o alargamento de seus contatos e relacionamentos pessoais na Capital - AC, atingindo até mesmo relacionamentos com o ex-Ministro Jarbas Passarinho e Senador Jorge Kalume.
Ultimamente o Yusif é empresário da construção civil, com muitas obras em pleno desenvolvimento no estado do Acre.
É casado com a Senhora Raimunda Soares El-Shawwa, mulher inteligente, educada e intelectualmente preparada, que já foi Secretária de Educação do Estado do Acre e hoje é Secretária de Educação da Capital Rio Branco.
O casal Yusif e Raimunda, possui três filhas, a saber:-
HANA (nome da mãe do habibe): MARDHIA e RAFAELA. Todas realizaram seus estudos em DIREITO, na cidade de Florianópolis-SC, onde ficaram sob os cuidados e olhares dos "avós" Dona Lenira e Cel. Da Veiga.
HANA hoje é Juíza de Direito no Acre e em Maio 2004, foi a primeira das filhas a contrair matrimônio.
MARDHIA é Delegada de Polícia em Rio Branco, Chefiando a Delegacia de Proteção à Mulher.
RAFAELA permanece em Florianópolis até o final deste ano 2004, quando concluirá seu Bacharelado em Direito.
A mãe, irmãos, irmãs e sobrinhos do Yusif ainda continuam residindo em GAZA, apesar dos apelos do mesmo para que se mudem para o Brasil.
Nos dias que correm ele se tornou um CIDADÃO BRASILEIRO de fato e de direito, com o reconhecimento da sociedade e das autoridades acreanas.
Amizade iniciada há 38 anos, continua mais forte do que nunca o que é um motivo de júbilo e alegria para todos os Boinas Azuis.
Muitos dos "habibes" que conviveram com nossos soldados durante a Missão na Faixa de Gaza, granjearam a confiança e a simpatia dos brasileiros, conforme já dissemos acima, no entanto e sem dúvida alguma o nosso habibe
YUSIF AWNI EL SHAWWA foi o maior e o melhor de todos.
Muitos daqueles habibes, como o Salim (morto na Guerra dos Seis Dias) o Mohamed, o Careca, o Ibrahim, etc. são seguidamente referenciados pelos veteranos do Btl. Suez, até os dias de hoje e sempre lembramos deles com muita saudade e respeito.
Desde a Guerra dos Seis Dias comentamos e lamentamos a triste sorte que muitos daqueles árabes tiveram e vivemos nos perguntando:- será que alguns deles sobreviveram o pós Guerra com Israel? Que destino será que tiveram? -
O nosso personagem Yusif, num verdadeiro golpe de sorte e destreza, conseguiu sair daquele verdadeiro inferno de vida, pouco antes da eclosão da Guerra dos Seis Dias e foi acolhido aqui em nosso Brasil como um filho desta terra. Aqui lutou e conseguiu vencer na vida, aqui casou e constituiu família, aliás uma linda e querida família.
Sua história, sua luta, transforma-se num magnífico exemplo de vida a ser seguido.
Nossos efusivos cumprimentos e nossos votos de que ele tenha muitos anos de vida com saúde e muita paz. SALAMALEICOM
YUSIF- você também é nosso
herói.