FATOS QUE MARCARAM
Com certeza, todos que serviram nas Forças da ONU, no Canal de Suez, guardam alguma coisa marcante, daquelas pra nunca mais esquecer.
Duas delas me marcaram profundamente. A primeira e a mais importante de todas, uma amizade. A segunda, uma "travessura".
UMA AMIZADE
Saudade. Saudade e lágrimas. Isso fazia parte do nosso cotidiano. Eram saudades da família, da namorada, dos amigos, do arroz e do feijão, de sair à rua e ouvir todo mundo falar português. Eram saudades do BRASIL.
Nossa comunicação com o Brasil, naquela época era muito precária. Não tínhamos o conforto do telefone, do fax, do e-mail.
A solução eram as cartas, que escrevíamos em grande quantidade e para muitas pessoas, para que as respostas também fossem na mesma proporção numérica.
Um avião da Força Aérea Brasileira trazia semanalmente a correspondência do Brasil e retornava com as que remetíamos aos nossos amigos e familiares. A ansiedade tomava conta de todo mundo, torcendo para que o malote viesse cheio de cartas.
Mas, infelizmente, nem sempre acontecia assim. Então....
É aí que entra a grande amizade entre eu o Francisco Cazuo Shirabe. Um emprestava as cartas do outro, para suprir as poucas que muitas vezes chegavam. Naquela época me correspondia com uma menina nissei do interior de São Paulo. Era, digamos, uma paixão à distância. Mas, por problemas de diferenças raciais, os pais da moça a proibiram de manter qualquer tipo de relacionamento comigo. É aí que entra novamente meu amigo em cena, tentando me consolar:" Se quiser, eu te arrumo uma irmã minha. Ela não é muito bonita, mas também não é feia demais".
-
-Mas, e teus pais, não vai ter problemas?, perguntei.
"Com meus pais eu dou um jeito, falo com eles e vão concordar. O problema vai ser com minha avó, que não aceitará, mas, como ela já está bastante velha, não deverá viver por muitos anos".
-
Obrigado, meu amigo Cazuo. Você jamais será esquecido.
UMA TRAVESSURA
Quem tirou guarda à noite, sabe como as horas demoravam a passar. Apesar daquele céu tão estrelado, tudo era muito nostálgico. Tínhamos algumas horas, na solidão da noite, para transportar nosso pensamento a mais de dez mil quilômetros de distância. Por sorte nossa, tirávamos guarda em duplas. Nada mal. Tínhamos com quem conversar e, assim, o tempo passava mais rápido.
Numa daquelas noites de verão, estava de guarda com um companheiro, cujo nome não me lembro. Estávamos no 3º Pelotão da 9ª Cia. De repente, nos perguntamos sobre o efeito daquelas granadas iluminativas que carregávamos obrigatoriamente durante as nossas guardas. Nunca soubemos que alguém tivesse feito uso daqueles artefatos curiosos. Decidimos testá-las.
Mas, que tipo de desculpa daríamos para fazer uso de uma granada? Diríamos que ouvimos um barulho estranho na beira da cerca de
cactos e pronto. Tudo combinado, tiramos o pino de segurança e a arremessamos contra a cerca. Confesso que fiquei com muito medo, pois não imaginava que aquilo pudesse produzir tanta luminosidade. Ficamos completamente às claras, com todo o pelotão correndo para fora das barracas, para saber o que havia acontecido. Não houve cerca nem buraco que não fosse vistoriado.
Como nada de anormal foi encontrado, todos voltaram para a cama. No dia seguinte, o Sargento veio falar comigo: "Cipriani, me fale a verdade, não ouviram barulho nenhum ontem à noite. Foi brincadeira de vocês?". E eu não podia dizer outra outra coisa, senão contar a verdade. Felizmente não houve punição para ninguém. Éramos uma grande família, onde as patentes tinham, muitas vezes, menos importância que uma boa amizade.
Obrigado, Sargento! Desculpa o susto que damos em todo o pelotão.