10º Contingente - Sd.Arnaldo Reinert

Recordações de Suez


Caros amigos

Repasso em anexo, uma mensagem, contendo um texto, referente as recordações vividas no 1º Semestre de 1962 - 

Narrada pelo Soldado do 10º Contingente ARNALDO REINERT - atualmente residindo em JOINVILLE - SC. Eis a mensagem daquele "FARAÓ"...

LEMBRANÇA DO PIASTRA - 1


Todos que estiveram servindo no Batalhão Suez, no Oriente Médio, certamente ainda se lembram que a sub-divisão do dinheiro egípcio - A LIBRA EGÍPCIA - era a "PIASTRA" cuja pronuncia é da mesma forma como está escrita. *piastra*.

Essa lembrança da sub-divisão daquela moeda, por força das circunstâncias, era como costumávamos chamar, numa tentativa de apelidar, muitos companheiros que lá estavam servindo na Força de Paz da ONU, os quais, tinham o hábito de exagerar, ao economizar ao máximo seu dinheiro.

Recordo de um certo companheiro, "Antigão" do 9º Contingente - Infelizmente não lembro do nome desse Soldado, lembro apenas sua fisionomia e seu comportamento. Esse companheiro tinha o hábito de economizar, ou melhor de não querer gastar seu mísero dinheirinho.

Como também recordamos,... nosso salário(soldo) mensal, como soldado, era de aproximadamente 100 Dólares por mês, os quais ficavam depositados numa Conta de um Banco em Beirute, e era controlada pelo Oficial e equipe da Tesouraria do Btl.Suez,.

A par desse soldo, todos os componentes da ONU, incluindo superiores e  subordinados, recebíamos uma "gratificação extra" a qual chamávamos de Bacxis -(baquexis)- Pronuncia em árabe que queria dizer, mais ou menos:- Gorjeia, gratificação ou coisas assim.

Pois bem, era com esse Baquexis ( a tal gratificação extra ) que sobrevivíamos nas nossas despesas pessoais, aprendemos a sobreviver e a controlar nossos gastos em nossas necessidades do dia-a-dia, e era com esse mísero dinheirinho, que correspondia a uma soma em dinheiro árabe, equivalente a UM DÓLAR POR DIA aproximadamente, que todos se viravam e se mantinham. (Se estiver errado que alguém me corrija, por favor).

E todos os componentes do Btl.Suez, recebiam o valor em espécie, quinzenalmente, então no dia 15 e no dia 30 de cada mês, todos os soldados embolsavam esse dinheirinho, e cada qual administrava da maneira que mais lhe convinha.

Uns compravam bebidas ( cervejas - refrigerantes e até Wiski ). Outros compravam souvinirs como tapetes, e bagulhos vendidos nas cantinas e também na cidade de Gaza. Outros gastavam em alimentação extra - fora da caserna, ou nos passeios dominicais à gaza. algumas fotos, postais etc. Outros guardavam é claro.

Mas voltando ao nosso personagem da história de hoje, o soldado do 9º Contingente, do qual me propunha a comentar, era um soldado muito calado, um pouco tímido e que ficava um pouco afastado das nossas algazarras e brincadeiras dentro das barras, ou mesmo noutras instalações do Nosso 3º Pelotão da 9ª Cia. O Pelotão Pernambuco, que ficava muito próximo da cidade de Khan Yunes, e também não muito distante da Sede da 9ª Cia, do Capitão Pedrosa(Eugênio Luna Pedrosa) e do Cabo Theodoro.O pelotão Pernambuco era o 3ª Pel. da 9ª Cia.. Essa era a sub-unidade onde estávamos servindo, naquele 1º Semestre de 1962. 

O Soldado Piastra, do 9º Contingente, era tão econômico e tão seguro que não costumava gastar dinheiro algum, nem nos passeios (leaves) que a ONU nos dava a Beirute, ao Cairo ou a Jerusalém, o nosso personagem não gastava em nada seu dinheirinho, era muito provável até que ele, em determinados momentos, passava necessidades e tinha muita vontade de gastar em guloseimas, como faziam a maioria, mas continha-se e ficava quieto em seu canto.

E por esse motivo começaram a chamá-lo de Piastra, ao invés de seu nome, e esse apelido era dado a todos os que exageravam e não consumiam nada que tivessem que pagar do seu próprio bolso. Brincavam os companheiros, que o Piastra não gastava nada do seu dinheiro, e que um dia puseram areia em uma de suas mãos, e o empurraram para dentro do Mar Morto, e quando ele saiu da água a areia estava seca e intacta, nem molhou a palma da mão, de tão seguro e fechado que era sua mão, não abria nem para fazer continência... 

Esse soldado Piastra, era um carioca, diferente dos demais, e por ser do jeito como era acabou sendo protagonista de alguns acontecimentos que não me saem das lembranças. 

E o Piastra, morava na mesma barraca(alojamento) onde eu estava. Num dia...ele demonstrou muito medo e se negou a participar de uma ocorrência de emergência . Foi o seguinte... havia as normas da Fronteira( lá na ADL - Linha física de Divisa entre Israel e os Árabes), quando nossas Patrulhas noturnas se deparavam com algum problema, eram lançados sinalizadores ao ar, então uma luz vermelha em forma de mini-pára-quedas descia lentamente até o chão, nesse momento era o ALERTA, na qual os soldados que estavam no Pelotão deveriam embarcar numa viatura e se dirigiam até o local para prestar qualquer tipo de ajuda aos elementos da Patrulha a pé, eram as alterações e as ocorrências da Missão de Paz, numa fronteira conflituosa, mas sempre eram ocorrências de fácil solução, e com a colaboração do reforço dos outros soldados, tudo se contornava. 

Nesse dia aconteceu alguma ocorrência, e o nosso personagem o Soldado Piastra - Carioca diferente, ficou com medo de ser morto, dizia ele, e não quis ir auxiliar a Patrulha. Logo após o Plantão tocar o Alarme, o comandante faz uma chamada de todos do Pelotão, então notou-se que o Piastra não estava no grupamento que poderia ser deslocado até a Fronteira, na averiguação do que estava acontecendo e porque o Piastra ali não estava, encontram-no embaixo da cama amedrontado e se negando a participar da operação. 

Para não haver perda de tempo, o Tenente puniu o Piastra e ordenou que uma Patrulha de emergência, composta por dois sargentos e quatro soldados fossem ao local para verificar os fatos, a pós o retorno da viatura ao Pelotão, os sargentos disseram apenas que uma Patrulha Israelense estava perturbando a nossa Patrulha e desconfiados ficaram de longe espreitando os movimentos dos nossos soldados, e que com a chegada do reforço os Israelitas se retiraram, a viatura voltou ao Pelotão e prendeu-se o Piastra por desacato (por medo) à autoridade do Tenente.

Depois dessa ocorrência o Piastra costumava "aloprar" no Pelotão pois se declarava, nitidamente, ter medo de ficar sozinho nos Plantões a noite.

Ainda bem que já estava chegando o final de período dele na Faixa de Gaza, e em breve ele voltaria com seu 9º Contingente para o Brasil.

A todos os companheiros daquela Missão de Paz,que economizavam, todos os consideravam como um "amarrador de mixaria" e logo lá vinha o apelido de "PIASTRA" justamente porque era o sonho de todo amarrador de mixaria, estar sempre acumulando Piastras e Libras Egípcias, e literalmente, escondendo-os em baixo do colchão, para depois ser transformados em dólares e empregar toda economia no Brasil.

O título desta mensagem, portanto, é uma apologia ao "amarrador de mixaria" e para não esquecer da primeira alternativa, em Suez, da idéia de Economizar.

 

LEMBRANÇA DO PIASTRA - 2

Então no nosso 10º Contingente havia um ilustre "Piastra", era um Cabo (que carregou para sempre o apelido) o qual ninguém, ou apenas poucos lembram do seu verdadeiro nome e sim tão somente do seu eterno "apelido" CABO PIASTRA".

Eu sei e lembro apenas que era o Cabo Ribeiro, morava em Curitiba e com toda certeza, foi o maior "amarrador de mixaria" que o Btl.Suez conheceu, mas o Cabo Piastra estava absolutamente certo na atitude que tomou, não obstante as nossas gozações pra cima dele. 

Foi realmente o cabo que mais economizou, e nos dias de hoje é o único que desfruta de todo dinheiro ganhou no Oriente Médio, pois com aquela economia que ele fez e acumulou no Btl.Suez, e com sua iniciativa e perseverança, conseguiu se transformar num dos maiores empresários Paranaense, dedicado ao ramo de Atacadista e também ao Transporte, chegou a possuir uma enorme frota de caminhões, e inclusive considerado um dos homens mais ricos do Estado PR. 

Caso todos os que lhe apelidaram e lhe chamavam de Cabo Piastra, tivessem seguido seu exemplo, com certeza estariam em melhores condições de vida, pois afinal... tudo em Suez foi uma grande e eterna Lição de Vida.

Quero aqui, aproveitar a oportunidade e encaminhar ao Theodoro, bem como a todos os amigos e companheiros do Btl.Suez, os Boinas Azuis de todos os Contingentes, o meu fraterno abraço.

ARNALDO REINERT (10º Contingente)
Rua Joaquim Couto, 540 - Bairro Fátima
J O I N V I L L E - S C - C E P 890229-110
Telefone (47)3462-7625
tchau ! tchau...bambinos!!!!

TODOS QUE ESTIVERAM NO ORIENTE MÉDIO, PELO BATALHÃO SUEZ, PODEM ... - ARNALDO REINERT 



From: <arsuez@ig.com.br>
To: <theojunior@uol.com.br>
Sent: Sunday, August 31, 2003 7:22 PM


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