10º Contingente -Theodoro Silva Jr. - Coisas de Suez


UNEF 1962 - LEMBRANÇAS & COISAS DE SUEZ

Crônica de Theodoro Silva Junior - 10º Contingente do Btl. Suez.

 Da Água - Da Higiene - & - Instalações Sanitárias no Batalhão Suez

 

O 10º Contingente, que foi inicialmente formado no Sul do Brasil tendo em vista que a maioria dos elementos, que integraram esse contingente do Batalhão Suez foi arregimentados e agrupados no então 20ºRI (hoje 200 BIB) no bairro Bacacheri, em Curitiba-PR, procedentes do Estados: Paraná e Santa Catarina.

De trem, os cabos e soldados selecionados e recrutados, viajaram até o Ro de Janeiro, em meados de setembro de 1961.

Já no início do mês de outubro 1961 a composição e complementação do pessoal efetivo, estavam definidas, e todos passaram aos treinamentos e instruções intensivas, visando melhor representar o exército brasileiro lá no Oriente Médio.

Um detalhe marcou a concretização do 10ºContingente, em relação à cidade ou Estado de origem de cada um de seus elementos. Fizeram parte do efetivo, companheiros de Minas Gerais; Rio de Janeiro; Goiás, Espírito Santo; Maranhão; além é claro de sua maioria que eram Paranaenses e Catarinenses e poucos Gaúchos.

Essa mescla de brasileiros de vários estados e das mais diferentes cidades num total aproximado de 260 elementos, foi um acontecimento positivo, pois todos se tornaram verdadeiros amigos, como se fossem de uma mesma família consangüínea. Espiritualmente passaram a considerar-se como irmãos.

E todos fomos incorporados ao III/2º RI-(Terceiro Batalhão do Segundo Regimento de Infantaria) - o Batalhão Suez - (como ficou sendo conhecido) - com vistas a integrar-se a UNEF - Força de Emergência das Nações Unidas, para cumprimento de missão de paz, na Faixa de Gaza - Oriente Médio.

O 10º Contingente viajando no Navio Transporte de Tropas “ARY PARREIRAS - G 21” da Marinha de Guerra do Brasil chegou a Port Said – Egito, nos primeiros dias de janeiro de 1962.

A complementação da viagem até o destino final foi feita de trem ( Port Said até Rafah), onde enfim, ficava o Acantonamento e QG do Batalhão Suez. Logo após a recepção fomos deslocados para suas áreas de atuações, inicialmente fui designado para a 7ºCia. Porém no dia seguinte passei definitivamente, a compor o quadro efetivo de cabos da 9º Cia (tanto a 7º como a 9º Cia, eram as encarregadas da guarnição e policiamento na linha de frente “LDA -Linha de Demarcação do Armistício”, e ficavam distantes do QG do Batalhão).

Nos primeiros contatos com o ambiente da região onde iríamos cumprir a missão, encontramos como alojamentos e demais instalações, lá na fronteira, barracas de lonas e outras de madeira pré-moldada.

Foi um pouco estranho sentir aquele impacto inicial, num clima de deserto, que ainda não tinha visto. Pressenti que iria necessitar de muito esforço e dedicação, na difícil adaptação daquelas condições.

Por ter chegado um dia depois na 9º Cia, fui acomodado em uma barraca de lona, encravada nas areias, ladeadas internamente por sacos com areia.

Aquele vaivém do pulsar da lona na barraca em conseqüência do vento que constantemente soprava, e aquela areia fina a roçar meu rosto, não me deixavam relaxar, pensei que não iria suportar, até que finalmente, dias após fui transferido para outra melhor barraca, agora de alvenaria.

Cada barraca, que servia como alojamento para 12 elementos, estavam dispostas dentro da área da Companhia, quando chegamos estavam em fase final de acabamento, a construção de várias barracas de alvenaria, as quais substituíam as instalações antigas, foi uma boa melhora.

Destaco a grande importância da construção daquilo que viria a ser destinada, exclusivamente, como instalações sanitárias, bem superior ao que existia, com chuveiros e lavatórios de um lado e privadas “WC” do outro lado separadamente e bem distribuídas.

Porém enquanto habitávamos e usávamos as instalações antigas, lonas madeira, etc, e que durou até meados de fevereiro 1962, é que tive momentos e certos acontecimentos, que não consigo esquecer. Eram as instalações sanitárias antigas e rústicas ou primitivas, que chegou a ser marcante. Como disse acima, esses primeiros dias que duraram até meados de fevereiro, foram inusitados para uns e indiferentes para outros:

 

v     A ÁGUA PARA USO E/OU CONSUMO

            A verdadeira procedência da água que abastecia a Cia., nunca soube ao certo, diziam os motoristas que transportavam o líquido precioso, que era de poço-artezano (ou artesiano, sei lá) existente lá em Rafah Camp, onde se aglutinavam toda logística da UNEF. Essa água chegava na fronteira em caminhões “pipa”, e tinham que ser despejadas nas caixa-d’água ou recipientes para armazena-la.

O consumo era restrito e racionado. Havia caixa d’água para uso do “rancho”, banheiros dos oficiais e sargentos e banheiro dos cabos e soldados.

A vinda dos caminhões pipa era escalonada, isto é, duas ou três vezes por semana, não era diário.

Havia um dispositivo especial que era a água para beber que ficava acondicionada em um saco de lona, pendurado, possuindo 4 torneirinhas, e de capacidade para cerca de 50 litros. (a esse dispositivo chamávamos de “sacolista”)  

Essa água para beber era diferenciada, porque recebia um tratamento especial (digamos nem tanto especial), onde era misturadas gotas ou dosagens de cloro e iodo, com o intuito de funcionar como água tratada, para defesa tanto psicológica, como para defesa sanitária. Acontece que o enfermeiro que cuidava dessa tarefa, às vezes exagerava na dosagem. Ao final essa água tinha um sabor ruim, mas era aquilo que de melhor poderíamos ter. Água mineral ou em garrafa, nem pensar.

Portanto, para beber e matar a sede, ou para escovar os dentes era dessa água que nos servíamos.

Tudo bem, só que era a água salobra, e, com aquele saco pendurado, protegido parcialmente com uma precária cobertura de zinco, não impedia os raios solares, que aqueciam o líquido, tornando-o ainda mais ruim e de gosto duvidoso.

Lá naquele deserto, nada melhor se poderia esperar. Essa água era de gosto ruim e racionada, mas muito importante para nossa sobrevivência.

 

v     OS BANHOS

 

A higiene pessoal, também tinha lá seus percalços. Os banhos não poderiam ser muito freqüentes, às vezes era raro mesmo, porque nem sempre havia água na caixa-d’água. A capacidade para armazenamento, bem como o abastecimento, eram insuficientes, obrigando-nos ao uso racionado até para o banho diário.

O abastecimento d’água às vezes não vinha, alguns atrasos gerados lá na ponta inicial, a necessidade de manutenção das viaturas, problemas inesperados como pneu furado, etc., perturbavam a normalidade que já era deficiente. Alguém brincava dizendo que banho era supérfluo naquela região, outros não gostavam muito de tomar seu banho diário, eram chamados de “cascão” ou de “sebinho”, então lá vinham outras brincadeiras, empurra-empurra, (Algazarra) que faziam parte do ambiente.

Devido ao racionamento, normal para as circunstâncias, e nas crises mais agudas, aprendi a tomar banho de “canequinho”.

Um litro d’água tinha que dar condições para lavar-me, ou aliviava pelo menos. Essa realidade aborrecia, mas ninguém reclamava, era prudente superar tudo. Aprendemos a conviver com todo tipo de racionamento, aliás, muito natural para aquela região.

 

v     OS SANITÁRIOS  - WC

            Nos primeiros dias da missão, encontrei-me diante de enorme dificuldade e constrangimentos quando surgiram as necessidades de ter que usar o WC, que na verdade era um latrinão rústico e atípico.

A privada lá na 9º Cia, ou as instalações para esse fim, era a do tipo de “casinha”- latrínão ,de uso coletivo, que ficava mais afastado das barracas, construído em madeira, sob uma fossa negra e rasa, sem divisórias internas, a única porta era a da entrada que era ventilada e com telinha, para não dizer que não tinha porta.

Assentos também em madeira, tipo caixão, contendo 6 furos redondos (cerca de 35 cm de diâmetro),de aproximadamente 60 cm eqüidistantes e lado a lado, cada furo para uso de um elemento, com a turma toda usando de cócoras por nunca estar em condições de assentar-se. Esse privadão nunca foi um lugar solitário.

Havia de ter sempre um ou mais companheiros usando um daqueles buracos, com o bumbum de fora e quem chegasse no pedaço igualava-se ao lado. Aquele risinho sempre vinha. Era normal a lotação e sempre tinha alguém do lado de fora pedindo uma vaga, incrivelmente observando o ambiente em pé na entrada “fofocando” e espremendo-se de vontade para conseguir descarregar o excesso de suas vísceras e aliviar-se.

Nas primeiras vezes foi realmente constrangedor fazer o” serviço” à vista de outrem, afinal acabou ficando hilariante, na seqüência. Brincava o pessoal: guerra é guerra e tome pum daqui - pum de lá, fedor, gemidinhos, sem constrangimentos.

Outros fazendo força com rosto vermelho, plóf´s, rasgar de papel, e tudo se transformou em ambiente de descontração, sem frescura e respeito ao outro, por incrível que possa parecer.

- Ainda me lembro de como, nós os recrutas de deserto, ficávamos envergonhados e ruborizados no início, quando tínhamos que ir aliviar-se ao lado de um ou de outros companheiros.

Quando, finalmente, a vergonha passou aprendemos então a dominar, mais do que tudo, este pequeno sentimento de pudor.

Havia porque superar tudo isso, pois sugiram as conversas de privada, e nessas conversas de privada, todo tipo de mexerico e “pecuinhas” ou de brincadeiras, algum boato, enfim, era a tribuna para comentários sobre tudo que acontecia com a tropa, e até sátiras e dedicações para cada “trovoadas e gemidos”.

Devido a esse espírito brincalhão que acontecia no privadão, deixamos de lado a vergonha. Conseguimos descobrir que lá era o melhor lugar para aliviar-se, melhor que qualquer reservado de luxo ladrilhado, ou com pias de mármores, onde poderia ser muito higiênico e solitário, mas no latrinão, sem sombras de dúvidas, a partir do momento que perdi a vergonha, passou a ser agradável aliviar-se em companhia de outros, por se constituir num momento de devaneio maravilhoso, todos eram bem aceitos por todos.

            Até aquele zangão que passava zumbindo por nossas cabeças, ou aquelas “varejeiras” que não davam chance nem vez aos mosquitos, que se esvoaçam aos montões, todos faziam parte do “habitat” e eram bem aceitos por fazer parte da algazarra diária e constante, naquele que deveria ser o “lugar solitário onde, verdadeiramente, toda vaidade se apaga”. Apenas que não era solitário e sim coletivo.

Tudo ficou muito natural, como o é em todo o ser humano, ou então tão naturais como comer e beber, apenas o ritual é diferenciado e completamente oposto, um do outro, porém o aspecto de normalidade é que ficou evidenciado, e que deve ser enfocado.

Ainda tem o outro enfoque de alívio dos excessos das vísceras, o PIPI, o mictório ficava ao lado do latrinão e em separado.

Consistia num funil de zinco, tamanho grande, cuja boca, ficava cerca de meio metro de altura do chão, encravado na areia, possuindo duas paredes laterais em forma de “V”, para proteger o visual e o pudor de educação, contra olhares de quem, por ventura, estivesse passando por fora da cerca de arame. Era ali que o soldado “mijava”, e se alguém fosse pego urinando fora do funil, ou outro lugar, era punido.

Nesse ambiente de privadão e mictório, era comum a proliferação de moscas, varejeiras, e também de ratos, alguns de tamanho assustador, os quais também se assustavam com a presença do soldado. Reciprocidade no susto.

Havia ações de combate sanitário, com aplicações de venenos, que atuavam como paliativos, uma vez que era muito difícil exterminar com os insetos e roedores.

Todo esse relato julguei que deveria ser enfocado e enaltecido, pelo simples fato, o qual devemos sempre lembrar do estado e grau de importância que é para todo o soldado, a alimentação, a comida (“a mangaria”).

Para o soldado, o seu estômago e a sua digestão são muito mais importantes e familiares do que para qualquer outro cidadão.

Tudo porque foram marcantes aquelas conversas de privada.

Mais tarde foram terminadas as construções das novas instalações, então com privadas separadas e individuais, dotadas de vasos sanitários, caixa de descarga, tampa e tudo mais, mas então foi difícil acostumar com a “modernidade” em detrimento do latrinão.

Agora a 9º Cia. passava a contar com uma sumária rede de esgoto que se direcionava para uma fossa grande e fechada, a qual quando necessário era efetuado o serviço de esgotamento e limpeza da fossa, por pessoal e equipamentos especializados. Todo detrito dos chuveiros, WC, lavatórios, pia da cozinha do rancho, eram direcionados para a tal fossa céptica fechada. Mudou o comportamento de cada um.

 

“O soldado brasileiro mostrou seu valor e gigantismo, pela sua coragem
ante os desafios; pelo seu estoicismo perante as dificuldades ; pelo seu
exemplar devotamento “as instruções; pelo cumprimento a todas as ordens;
e pela sua elevada responsabilidade profissional no cumprimento da missão
e amor a Pátria “. 
 
Texto descritivo, a título de Lembranças & coisas de Suez
Theodoro da (Integrante do 10º Contingente do Batalhão Suez)

 

Saudades da turma toda, em especial da barraca nº 4  

 

Num discurso em Curitiba, no desenrolar das festividades do Dia da ONU, 24 outubro de 1990, o Cap.Res. Juventino Rita, disse: 

“Glória

 a Vós Senhor, 

por nos ter permitido

 dedicar um ano e meio

 de nossas vidas

 a serviço da 

Paz 

mundial”.


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