MEMÓRIAS E REMINISCÊNCIAS DO 10º CONTINGENTE BTL.SUEZ
NO DIA 5 DE JANEIRO 1962 CHEGÁVAMOS EM “PORT SAÍD”
DEPOIS À NOITE PEGAMOS AQUELE TREM E NA MANHÃ SEGUINTE DESEMBARCÁVAMOS AOS FUNDOS DO “CAMPO BRASIL”
Nossa eterna procura em busca do resgate histórico faz lembrar que os primeiros movimentos dos reservistas voluntários, que se apresentaram e pretendiam ingressar no 10º Contingente, tiveram que passar por uma pré-Seleção nas Unidades em que serviram. Logo depois, muitos deles foram agrupados no Quartel , do então 20º RI (Hoje 20º BIB) , Bacacheri, em Curitiba, para os primeiros passos da organização e formação do efetivo para o 10º Contingente Btl.Suez.
Eram jovens um pouco afoitos, alguns ansiosos, mas todos eufóricos, oriundos de todos os recantos do PR e SC que foram sendo encaminhados para Curitiba, e assim tiveram início as primeiras ações.
Os candidatos a integrar mais um Contingente do Btl.Suez, que haviam passados por uma pré seleção em suas unidades de origem, foram sendo encaminhados ao Quartel do 20º BIB. Enquanto aguardavam a tramitação de alguns procedimentos para a verdadeira seleção inicial, alguns desses candidatos foram aglutinados e alojados, por alguns dias, no ginásio de Esportes do Quartel 20º BIB. Esses primeiros passos para formação do 10º Contingente, teve início em meados do mês de setembro de 1961. Aqueles jovens ficaram aguardando e cumprindo ordens que, afinal, culminaria no embarque para uma exaustiva viagem de trem, que nos levou de Curitiba ao Rio de Janeiro. E não foi um trem especial, não. Era sempre uma turma por semana que lotava um Vagão Especial, que fazia parte do comboio do trem ferroviário. Foram várias turmas a cada semana a embarcar num trem e viajar sacolejando num vagão de 2ª classe, saindo de Curitiba pela manhã, por volta das sete horas, após duas noites em trânsito, passando pela capital de São Paulo, chegávamos na Estação Central do Rio de Janeiro na manhã do terceiro Dia. Na velha capital da República foi onde tiveram início as instruções gerais e os exercícios preparativos, bem como complementação de todo pessoal que iria fazer parte do Efetivo . A partir de final de Setembro, e todos os dias outubro e Novembro de 1961, estivemos à disposição do Comando Militar - no Rio de Janeiro, cumprindo os rituais para a formação, adestramento, treinamento. E mais ou menos assim deu início a grande Família do 10º Contingente, os voluntários foram se aglutinando, fazendo amizades e colaborando um com o outro e, dessa forma se transcorreram nossos primeiros momentos de tensão, quanto ao desempenho, ansiedade e muita dedicação até a confirmação dos nomes como integrantes do Btl.Suez, em seu 10º Contingente. Lembrando sempre que, com exceção dos Oficiais, Sub-Tenentes e Sargentos, todos os demais, Cabos e Soldados já tínhamos dado baixa recentemente do Exército e nestas alturas estávamos re-incorporando como novo grupamento, agora considerado como tropa de elite, para servir na Missão UNEF, fora do Brasil.
Num primeiro momento, nesse início das atividades, ou período de formação e
treinamento para a reintegração às fileiras do Exército, os primeiros elementos
jovens reservistas, oriundos da 5ª Região do Exército Brasileiro, Paraná e
Santa Catarina, estiveram reunidos, por um curto espaço de tempo, no Quartel do
Batalhão de Guardas, em São Cristóvão- Rio de Janeiro. Dias depois. e finalmente
transferidos para o então, 2º RI- Vila Militar, em Deodoro-RJ, onde aconteceram
as instruções e exercícios, bem como remanejamentos de voluntários, dispensa de
alguns que foram reprovados na última seção de Exames Médicos e
aptidões. Por algum motivo de ordem superior, todo o pessoal foi submetido a
novos Exames de saúde e procedimentos, e assim alguns dos que não lograram êxito
para a aprovação final, foram substituídos por outros jovens de outros estados.
Esses jovens que foram substituir os reprovados já faziam parte do grupamento,
que participavam das mesmas instruções e Exercícios,na condição de candidatos
reservas. Acredito que a intenção do Comando Maior visava selecionar e
aprovar os candidatos com as melhores condições e aptidões possíveis. Até que,
no final do mês de novembro 1961, completávamos o treinamento.
A grande expectativa, rumo ao desconhecido, para a Missão de Paz, estava marcada para ter inicio no Dia 6 de dezembro 1961, quando todos os selecionados para o 10º Contingente embarcavam no Navio Transporte de Tropas “Ary Parreiras”, da Marinha de Guerra do Brasil, para dar início a viagem rumo a Port Saíd no Egito.
Aqueles foram momentos especiais e marcantes na história de vida de cada elemento do 10º Contingente. A viagem em si foi nosso primeiro grande aprendizado, nunca tínhamos viajado de navio, e apesar dos balanços e muitos enjôos, estávamos sempre atentos a tudo que acontecia. E seguimos mantendo a disciplina militar conhecendo paisagens e lugares nunca antes imaginados. Chegamos em Port Said na madruga para amanhecer o dia 5 janeiro 1961. Na noite daquele mesmo dia 5, embarcávamos num trem que atravessou o Canal de Suez e cortando o deserto do Sinai, margeando o Mediterrâneo, chegávamos em Rafah, na Faixa de Gaza, bem cedinho do dia 6 de Janeiro. Demos inicio aos afazeres e, decorridos 12 meses completávamos nossa Missão e fomos substituídos pelo 12º contingente. Deixamos a Faixa de Gaza exatamente doze meses após nossa chegada.
Fizemos o reverso, isto é, a viagem de volta ao Brasil. Primeiro embarcando num trem noturno, chegamos a Port Said na manhã seguinte e de imediato embarcamos no Navio, agora era o navio BARROSO PEREIRA, também da Marinha de Guerra do Brasil, que nos transportou para o regresso ao Brasil. Nesse interregno de tempo aconteceram tantas ocorrências, muitas das quais já foram reveladas e fazem parte do acervo histórico, disponíveis em nosso Site. Outras tantas ainda estão guardadas na memória dos remanescentes. Depois do desembarque de retorno ao Brasil, fomos obrigados a dar baixa da vida militar e cada um, por conta própria e riscos dirigiram-se para suas casas. Nesse aspecto o Exército falhou em não dar atendimento aos soldados oriundos do Sul do Brasil, tivemos que procurar meios de transporte e translados por conta própria, sem nenhuma orientação ou apoio extra. Porém esse episódio não abalou ninguém e cada elemento procurou seu próprio caminho, mais tarde ingressando no mercado de trabalho e atividades profissionais as mais variadas. Depois de consolidado nosso retorno para casa, caímos na dura realidade, sem nunca esquecer da grande aventura que foi o Btl.Suez
A partir de então e em todos os dias de nossa vida, sempre estivemos cultivando e plagiando aquela velha frase...
"Saímos do Batalhão Suez. Mas o Batalhão Suez nunca saiu de dentro da nossa cabeça".
Agora, passados tantos anos, quase todos os elementos remanescentes do 10º contingente Btl.Suez, já são velhos senhores, na faixa de setenta anos, vovôs, aposentados e integrantes da “melhor idade”, que se reúnem esporadicamente, participando de encontros de veteranos, quer nos cafezinhos da Rua Quinze ou pelo Brasil afora. O maior momento dessas reminiscências vem desde final de 2011, e assim será em todos os dias de 2012, momento em que fazemos questão de relembrar dos tantos acontecimentos daquela grande experiência de vida. Uma vez que passamos a comemorar 50 anos daquele memorável episódio, entendendo que é hora de olharmos para traz, matar as saudades e rever conceitos e atitudes, por tudo o que já passamos. A velha amizade continua mais firme do que nunca e a cada encontro passamos a rememorar o passado glorioso quando tivemos aquela grande oportunidade de ir conhecendo terras, povos, histórias e costumes diferentes dos nossos. A nostalgia revive com emoção, quase todos os episódios e dias da Missão à medida que íamos vencendo cada um dos 365 dias do cumprimento das missões e obrigações militares, não esquecendo dos breves momentos de laser e passeios por que passamos. Na Faixa de Gaza fomos adquirindo conhecimentos e aprendizados que se prolongaram por toda vida e com certeza chegarão até a eternidade. Nunca vamos esquecer aquele período de vida e de tempo na Missão de Paz da ONU. É importante ressaltar e relembrar uma frase do Cap Juventino Rita (4º Contingente), cuja frase também ficou marcada em nossa história, quando disse... "Glória a Voz Senhor por nos ter permitido dedicar um ano e alguns meses de nossas vidas em prol da paz mundial".
Sem dúvida, nostalgias, algumas tristezas e, quem sabe até, conflitos íntimos porque passamos, fizeram parte de nossa convivência. Mas, graças à Deus e ao Exército Brasileiro, felizmente passamos por cima de tudo e agora, nos dias de hoje, estamos alegres e orgulhos a re-lembrar e a regozijarmos pelos inúmeros e bons momentos de alegria, de vitórias, de amizades, de engrandecimento pessoal, de superação e aprendizado de vida, adquiridos desde nossa participação na Missão de Paz e Btl.Suez, passando pelas escaldantes areias do deserto e pelos vários lugares que conhecemos. É muito importante enaltecer a parceria e a cumplicidade positiva dos nossos superiores hierárquicos e principalmente e especialmente aos velhos camaradas amigos de Pelotões e de Barracas. Amigos e irmãos de outras vidas que juntos e ao mesmo tempo foram fiéis companheiros na seriedade dos serviços, missões ao longo das Patrulhas, nas muitas noites pelo “Front” e até nas algazarras e irreverências das horas de folga, nas praias de Gaza, Beirute, nos passeios e leaves, etc. Essas lembranças ressurgem com as nostalgias e das alegrias daqueles raros momentos de laser, algumas dessas algazarras e irreverências das horas de folga, que surgiam, foram oportunas e importantes para dar moral e melhorar nossa astral. Assim pudemos espantar as ansiedades de cada solidão do deserto, deixar de lado as saudades e tristezas porque estávamos longe da Pátria, das nossas famílias, amigos e namoradas.
Não podíamos imaginar, nem de longe das coisas que acabaram acontecendo e que marcaram nossas vidas. Valeu pelo espírito de valentia e muita garra que tivemos de superar todos os obstáculos que iam surgindo. O início da missão foi incerto, confuso e incomum, onde no início da missão, fatos estranhos e inusitados foram aparecendo, a começar por aquele choque psicológico ao desembarcar do Navio, e adentrar no trem, viajando e verificando algumas paisagem desérticas e gente estranha pelo caminho, até na chegada em Rafah Camp. Jamais poderíamos sonhar que aquelas ocorrências fariam parte de nossas vidas, onde por todos os “cantos” do acervo do Btl.Suez encontraríamos episódios e histórias escondidas aguardando nossa presença. Superamos a tudo e hoje, com a graça de Deus, podemos nos orgulhar do que vimos, do fizemos e conquistamos e também do que somos.
Recapitulando, a somatória desse orgulho, prazer e felicidade vem desde os preparativos para Suez, depois nos desempenho das funções na Missão, e, continuando na volta ao Brasil, quando re-ingressamos na vida normal de brasileiros atuando nas mais diversas atividades. Enfim... Enquanto éramos jovens sonhadores, tendo na cabeça a grande experiência da participação de uma Missão de Paz no Oriente Médio, passamos os melhores anos de nossas vidas. Nos dias atuais vale enaltecer que fizemos amigos, muitos dos quais, nos acompanham desde então e para sempre. Por isso temos que comemorar! Afinal são passados 50 anos da convivência com o Btl. Suez e nosso 10º Contingente.
Deixamos de lado e procurando esquecer das pessoas que, por ventura, nos impuseram obstáculos infundados e agradecer àqueles que nos impulsionaram adiante. É hora, mais do que nunca, de agradecermos a Deus, ao Exército Brasileiro pela feliz oportunidade e também valorizar as amizades e os conhecimentos adquiridos.
Façamos uma reflexão final em homenagem póstuma e especial aos companheiros, tanto do 10º Contingente, como de todos os companheiros de outros Contingentes, que já partiram para outra dimensão. Um dia estaremos todos reunidos.
Para concluir lhes digo... o Sargento MANZINI -13º Contingente, deixou gravado numa placa de concreto, cravada na entrada do Pelotão Paraná a seguinte frase:
“Somente os valentes venceram a solidão do deserto”
Escrito por: Theodoro da Silva Junior – Integrante do 10º Contingente Btl.Suez
Correspondências para: >> theojunior@batalhaosuez.com.br <<